Inexorável

domingo, 22 janeiro, 2012

Tal vez consumirá la luz de enero,

su rayo cruel, mi corazón entero,

robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero

y moriré de amor porque te quiero,

porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda, Cien Sonetos de Amor.

Para o meu amor, que me completa e me enche de felicidade.

Fagulha lançada ao acaso: assim se acendeu meu fogo por ti. A chama principiou tênue, discreta, suave, para logo se fazer intensa, lacerante, pulsátil. Tua chama incendiou meu ser numa hora funesta, preenchendo o vazio com plenitude, afastando as trevas com uma luz cálida e devolvendo esperança a um corpo que desconhecia o significado do viver. Viver de modo contumaz, arriscado e limítrofe, mas satisfeito, honesto, verdadeiro e livre.

Tua alma inspira liberdade. Sinto e absorvo teu amor livremente, teu perfume me inebriando com doçura e tranquilidade. Teu toque me libertou. Liberdade é poder se entregar sem receio, compartilhar com o coração aberto, amar e deixar-se amar com júbilo e agrado. Me entrego aos teus braços, sereno e confiante. Confio nos teus olhos belos, brilhantes, que me observam com ternura e suavidade; me deleito com tuas carícias, que me fazem ir às alturas para então pousar no teu colo, onde sei que estarei seguro. Porque és meu porto seguro; teu amor impregna minha vida com sentimentos inefáveis, que não ouso nomear, eu que sempre nomeio tudo para sentir que a tudo domino. E de dominador, passei a dominado: meu coração é teu, a ti pertence e a ti o entreguei para que nele deposites teus mais verdadeiros sentimentos.

As páginas da minha vida, antes vazias, tu preencheste com palavras ternas de confiança, formando frases que contam uma história incipiente, mas com um valor imensurável: tu vales o mundo, e por ti eu suportaria as mais terríveis aflições, carregaria os fardos mais pesados e travaria as guerras mais sangrentas. Prezo teu bem e tua paz: como deitar-me tranquilo sem ter certeza do teu conforto?

Tu mitigas meus tormentos, aplaca minhas fúrias e doma minhas tristezas com um jeito simples e natural, com uma graça própria de anjo, o arcanjo que zela pela minha felicidade. Tens o dom de dizer o certo no momento certo, sem me irritar ou ferir, e fazes isso como se tivesses recebido instruções sobre como ser a pessoa perfeita para completar minha vida. Porque me completas e fazes meu peito explodir de alegria, pois te ter ao meu lado é o maior de todos os presentes que me poderiam ser ofertados. A ti, oferto meu amor e meus mais sinceros e afáveis desejos.

Quero ser para ti tudo que representas para mim: o ombro amigo, o ouvido atento e a boca que profere palavras de sabedoria; a vela no escuro, a água no oásis e o sol após a tempestade. Tu és alento para os momentos mais intricados, bálsamo para as feridas mais dolorosas, o vento que alivia o calor das adversidades, o mapa para a cidade desconhecida que é a vida. Minha vida faz sentido contigo. És o sentido dela.

És o poema mais lindo de todos: está escrito nos teus olhos, cada linha repleta de afeição e brandura, formando lindos versos sobre a história mais extraordinária já contada. Não há versos para expressar o que sinto por ti. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar. E eu repito e me repito, mas não deixo de te amar. Te amar é um ciclo inacabável, cada dia uma reaproximação, uma nova descoberta, uma surpresa agradável, uma vertente de quentura que me conforta, me protege e me resguarda de qualquer mal. Não há mal na tua presença, pois tua luz repele o que de sombrio houver por perto. Mesmo a distância cruel não afasta teus raios de sol do meu rosto: basta respirar e te sinto, teu perfume alastrando alegria e alívio em meu coração. Aquilo que me toca em meu mais profundo recôndito é o que significas para mim, em mim, por mim: tudo.

E tento expressar tudo que sinto por ti, embora seja um trabalho ao mesmo tempo fácil e árduo, pois tuas qualidades esmeram teu ser e te enchem com um brilho especial; contudo, jamais chegaria aos pés de tanta beleza e encanto reunidas num só ser. Falar bem de ti é redundância, pois só o que passas é o bem, só o que fazes é o bem, e como é bom te ter na minha vida. És a pessoa mais linda que já conheci, teu corpo é minha fonte mais aprazível de êxtase e teu sorriso me desmonta e me encaixa novamente, me desarma e me contagia com uma energia indescritível. És bem mais do que acreditas ser. És um fluxo de harmonia se espalhando ao redor de mim, um âmago de infinitos prazeres, um altar perene de veneração ao mais puro e verdadeiro amor. Meu amor por ti é o mais puro e verdadeiro possível. És bem mais do que acreditas ser. És tudo e mais um pouco.

A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama; a chama se alastrou e causou um incêndio. Teu amor incendiou minha alma e colocou meu mundo em chamas. Mas, te garanto, são as chamas mais agradáveis em que já me lancei. Porque não me queimam, mas curam, abrandam e iluminam. Tu iluminas meu ser. A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama. Que essa chama resplandeça até o infinito. Meu amor por ti é infinito. Infinito como o brilho que vaza dos meus olhos ao te ver. Infinito como o universo de possibilidades que se abriram ao entrares na minha vida. Essa palavra, vida, tem, para mim, um novo significado. Vida, agora, significa um anjo ao meu lado. Vida, agora, significa um rumo a percorrer, um caminho certo a seguir, uma pessoa especial para andar ao meu lado. Vida, agora, não existe sem ti, pois tu és parte intrínseca dela, já que não existo sem ti, e teu amor, para mim, é mais do que tudo. Teu amor, para mim, é simplesmente isso. Vida.


Balada do coração agonizante

quinta-feira, 8 dezembro, 2011

The apple never asks the beech how he shall grow,

nor the lion, the horse, how he shall take his prey.

The thankful receiver bears a plentiful harvest.

If others had not been foolish, we should be so.

The soul of sweet delight can never be defil’d.

William Blake, Proverbs of Hell.

Me rasgo em pedaços de pano puído, despejando uma angústia de mil faces que teimam em se desencontrar. Fechei o círculo, mas outro se abriu: para quê? As infindas voltas que damos nos levam sempre ao mesmo ponto. Por que partimos, então? A estrada que leva a lugar nenhum é cingida por fios de arrogância, aquela que vomitamos sem ao menos nos darmos conta. Mas estava falando de mim. Dos meus pedaços rasgados em pano puído; a angústia a que me referi é minha, mas os desencontros são nossos. Como falar de mim sem ti? Como me encontrar em meio ao turbilhão de intempestivos rompimentos? Vaticinado está nosso destino no momento em que costuramos nossas mãos em uma aliança débil, fragilizada por uma esperança que seria vã caso fosse verdadeira, e acaba apenas vazia. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.

O sopro da manhã tenta afastar a dor da inanidade. Porque tudo o que eu almejava era um toque do tudo – o teu toque. E por desejar isso, acabei tendo apenas nada. O nada é pleno em sua essência, porque nos move e tange e permeia o fracasso da nossa esperança: não esquece que nem vã ela chega a ser. Vão é o esforço para achar o norte nessa vereda lúgubre. A luz que uma vez cegou nossos olhos é água no oásis: ilusão. Nossa estrada é uma sacola de ilusões, brilhantes como a estrela que mora em teus olhos. Doce gigante vermelha fadada ao amargo do apagar.

Me rasgo em pedaços de pano puído, esfregando, com os retalhos da minha alma partida, o sangue que derramamos ao digladiar por um pouco de ar fresco nessa terra de desolação. Um cenário de desespero pontilhado de luzinhas quase desvanecidas – ocas; toque-toque, aqui dentro mora o vazio. Sobre isso entendemos: o vazio é o berço do inconsolável. Minha agonia é inconsolável, pois parti para não voltar: sem ti, a seara é íngreme, o vinho, azedo, e o mel, amargo. Amargo como uma alma solitária. Doce esperança afogada em desilusão.

Em delírios de prazer e dor, escrevi o livro da minha mágoa: mil páginas de um vácuo sempiterno, letra apagada, poesia esmorecida na fria vertente do nosso descompasso. Um passo pra cá, três pra lá. Assim é a nossa valsa: vou ficando cada vez mais próximo e tu, distante. Disseram que a distância nos salvaria, mas ela desatou o frágil laço que contornava nossos corações: respira! liberdade! A distância liberta. A distância nos libertou. A distância te libertou duma gaiola expiatória. A distância me aprisionou numa fortaleza de aflição.

Me rasgo em pedaços de pano puído, tentando, em seguida, remendar o que restou de mim, ou de nós, já que não existe “mim” sem “ti”. Meu tecido gasto ao travar contato com o teu, ainda que sejam o mesmo. Meu corpo seviciado ao entrar em choque com o teu, cada toque um suspiro, cada suspiro, uma sinfonia de insensatez: te quero! Embora me machuques, te quero. Embora tua voz me roube o equilíbrio, te quero. Embora teu beijo me consuma, te quero. E te querer é um passo em direção ao abismo, o prenúncio da perdição.

Me perco na calada da noite, ruminando tuas palavras insípidas, relembrando teu cheiro sufocante, sentindo tua presença em cada esquina: onde estás? Onde poderias estar senão aqui dentro? Aonde poderias ir senão em minha direção? Espera: já não estavas aqui, dentro desse coração que palpita na esperança de te ver mais uma vez? Ouro dos tolos: contempla o buraco em teu peito, sonhador. Nele, cabe uma plenitude de sonhos. Sonhos em que fulguras, livre, mas intangível, distante. Sonhos são tão distantes da realidade. Eis o real: eu, aqui, vacilante, e tu, por aí, a vagar. Por onde? Não sei. Só sei saber de ti, e tu ressonas no tudo que há dentro do vazio. O vazio que habita meu coração sem tua presença. Quão tolo é aquele que ousa sonhar com o inalcançável. O fio que liga tua boca à minha se rompeu; o abismo que paira entre minha mão e teu corpo se amplifica a cada devaneio abandonado. É devaneio querer te encontrar, pois perdido estou. Ao meu redor, o pleno: vazio. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.


Ad infernum ducit

domingo, 4 dezembro, 2011

Fecho o círculo e ponho cada incongruência no devido lugar. Desvelo a farsa do nosso amor, que, de concreto, só deixou três marcas: no corpo, na alma e no coração. Não no teu, evidentemente. Sobre o teu, não me atrevo a proferir uma palavra sequer. Por não me conhecer, te desconheço por completo, sendo tu parte intrínseca de mim; ao extirpar-te de mim, me extirpas de mim mesmo, sendo eu verso incompleto sem o poema que tu és, gravado em minha pele. Nela, à fogo reluz o emblema da tua vitória, como uma reminiscência que reluta em partir: pedaços dilacerados de um coração arruinado, nada mais que um brasão da alma incendiada pelo fogo pungente da dor.


Sobre sonhos, promessas quebradas e cacos de vidro

quinta-feira, 20 outubro, 2011

Vivíamos um sonho irrealizável. Um delírio borbulhando em cascatas de uma afabilidade terna e quase estridente. Você partiu, eu me fui. Você se foi, eu me parti. Um jeito aprazível de sangrar. Vertentes escarlates de você. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma ferida pungente, mas suave. Sua lembrança é suave. Apesar da dor. Apesar do sonho fragmentado. Ilusões frágeis como vidro.

O vidro que reflete o interior. Vazio? Um imenso vazio preenchido por si mesmo. Memória inefável, sombra do que não foi, poderia ter sido, mas logo se esqueceu. Você se esqueceu. Esquecemos. Esqueçamos. Já não importa muito. Apesar do relativismo do importar. Apesar do sonho arrasado, mas almejado. Vidro partido, coração ferido. Cacos de uma alma dilacerada.

Coração em frangalhos por crer em promessas feitas com uma mão na água e um pé no fogo. A chama que não tardou a nos consumir. Incendiar às vezes é melhor do que confrontar. Ilusões não são assim tão fáceis de desfazer. Melhor esquecer? Eu me esqueci. Esquecemos. Esqueçamos. Me esqueça. Me faça esquecer e juntar os cacos para recompor o fantoche vítreo.

Vivíamos um sonho denso, cintilante, feérico. Efêmero, débil, demasiado. Ilusório. Esplêndido, mas cruel. Crueldade sem beleza. Aquela beleza das flores coloridas e perfumadas. Um sonho mais como um jardim cinzento e frio. Como a vida. Como o mundo. O nosso mundo criado pela minha esperança. Promessa feita com uma mão na mente e os dois pés no coração.

Falar de corações é como um dia de chuva. A indiferença caindo em gotas parcas para logo tornar-se uma tempestade de mágoas. Enxurrada de emoções distorcidas, um céu coberto por angústia; a angústia luta para dissipar as nuvens apáticas e trazer a luz. Mas a luz vem apenas para ofuscar o sonho. Sonho perdido na névoa que se afasta para trazer o conforto dos iludidos. Insolação de empáfia.

Falar de corações é como vagar. Cruzar os vales sombrios com a indissolúvel esperança do fulgurar de um horizonte. Um horizonte que agora parece tão distante. Distante como a sua memória. Aos poucos ela se esvai. Não quero perdê-la, mas o fluxo é irrefreável: cascatas de um amor desesperado que vaza dos meus pulsos para seu coração. Falar de corações é como planger pelo inevitável: o amor rejeitado espalhando-se pelo chão, sem vasilhas para recolhê-lo ou bálsamos para amenizar a ferida inestancável.

Vivíamos um sonho. Um sonho que, de reluzente e caloroso, transformou-se em obnubilado e gélido. Um sonho que, de equânime e fraterno, passou a unilateral e aversivo. Um sonho feito de cacos de uma confiança destroçada. Os destroços aqui, digladiando por ar. Ar cada vez mais escasso. Essa é a essência dos sonhos: a escassez do sentir. E agora só o que sinto é aquela cascata de uma deslealdade perversa e quase sufocante. Nós nos fomos, eu me parti. Em mil pedaços. Um jeito sublime de sangrar. Vertentes escarlates de mim. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma dor impassível, mas necessária. Sua lembrança é necessária para viver. Apesar do flagelo que é lembrar seu toque. Apesar do sonho cálido, que em breve será enterrado. Ilusões frágeis do desejo.


De nihilo nihilum

sexta-feira, 14 outubro, 2011

Não passou de um traço, um vestígio tênue, quase imperceptível; mas eu percebi. As coisas ocultas me atraem. Desde o momento em que fui lançado às cinzas, ao mundo plúmbeo, foi-me ocultado tudo; e o tudo foi moldado à imagem do inexplicável, uma estátua picaresca do inexistir – fiz do tudo um nada. Nada ofuscará o que já nasceu apagado.  E eu tentei apagar a reminiscência daquele sinal. Mas não houve jeito. Não era para ser. Fatalista? Catalítico, melhor dizendo. Fundi-me a essências escusas, aviltando o que sobrara de límpido nas águas da consciência. Entreguei-me às prazerosas sevícias do incompreender. Apostasia de mim.

Fragmentei o ser; trouxe à mente um desejo perverso, uma sanha insopitável por aniquilação; fragmentando o ser, concretizo o desejo perverso – aniquilação, amálgama da ira e do eu-afastado-de-mim. Compareço ao festival da abiose: um brinde à desconstituição da luz, aquela luz de fim em si própria: não tente ofuscá-la, ou será consumido por sua chama cintilante. Pode parecer inócua, a princípio, mas ela o devorará. Eis meus resquícios como prova. Resignação de mim.

Com os olhos abertos diante do desfiladeiro, me despojo de quaisquer armaduras e sigo adiante. Não passou de um brevíssimo instante, mas eu percebi. Em vez de cair, ascendi. Às maravilhas do olvidar. Esquecer para lembrar. Lembrar para então ocultar o brilho. Aquele que ofusca o tudo. E tudo parece tão distante. Memórias difusas vagando pelos trilhos do tempo. Aqui o tempo para. Aqui as ondas quebram. Profanação de mim.

Mas uma verdadeira ascensão tem sempre uma queda no seu encalço. Desfaleço no abismo do inexplicável. Ao voltar a mim – ou aquilo que eu deveria ser –, estou cercado por um exército daquelas estátuas picarescas do inexistir, os dedos em riste apontando para meu coração, ou para o buraco no lugar em que ele deveria bater. Contemplo-as com pasmo e admiração: alguém se dirige a mim, eu sou o alvo, o objeto. Nem que seja para prenunciar o fim. A morte é como um lar. Omissão de mim.

Antes do grande ocaso, mergulho nas profundezas de mim – ou aquilo que jamais serei. Uma luz brota lá dentro, pronta para jorrar e afogar o mundo nas mais desmedidas quimeras. Mas seria tolice lhe dar vazão: por trás da cortina ilusória, o semblante do vazio, arauto do brilho que há de me ofuscar. Redundância: não se ofusca o que já nasceu apagado. E eu cruzei oceanos de sangue para apagar a reminiscência daquele sinal. O sinal que por tanto tempo eu quis negar. As armas do espírito renegado. Quebradas, inúteis e ofuscadas. O tudo, em si, ofuscado. O tudo é perene, e assim é o nada. Nada para lembrar, sentir ou almejar. O brilho se extingue. Abnegação de mim.


Afótico

sábado, 3 setembro, 2011

“He venido encendida al desierto pa’ quemar

Porque el alma prende fuego cuando deja de amar”

Lhasa de Sela – El Desierto

Era como pairar. Uma suavidade enganosa que, de tão intensa, se fez dolorosa. As delícias e perigos da abnegação. Abdico às correntes e cruzo o limiar, mas permaneço sobre ele. Isso é pairar: estagnação. É a falácia do movimento suave, que leva a uma viagem sem rumo, sem fim. Eu parto, mas permaneço aqui. Distante de tudo, inclusive de mim.

Alguém certa vez me disse que a distância mata. Pois eu digo que a distância nos salvará. Salve-se quem puder, mas, por favor, não nos esqueçamos de despojar e, então, aniquilar as sobras. Até não restarem vestígios do indizível.

Anseio por dizer o indizível. Expressar a vibração primitiva sem que as marionetes de cristal se estilhacem em mil pedaços. Mil pedaços para mil anjos caídos, sedentos por mais. Mais jeitos de aprimorar o engano, de tentar juntar os cacos para reparar o que foi danificado. Quero reparar o irreparável. Isso é dizer o indizível: tornar impossível o possível – e não é possível partir.

Vem estagnar comigo. Percorrer as distâncias inalcançáveis, sonhar com o que não se pode ter, ousar lutar pelo que jamais seremos. Algo inominável nos impele ao impossível: mesmo conhecendo o fim da estrada, não deixamos de insistir, persistir em querer. Querer poder mais. As delícias e perigos da frustração.

Vem quebrar comigo, feito aquelas mil marionetes, frágeis e surrados brinquedos espalhados pelo playground da vida. Como duas crianças, vamos brincar. O passatempo pueril logo se transformará num jogo feroz de morte ou uma morte pior ainda. A vida não deveria ser um jogo – há jeito de torná-la mais do que um mero teatro da morte?

Vem pairar comigo. Nós dois, mergulhados no mar da solidão. Nada é mais doce do que a distância intangível. Solidão a dois é mais poética. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar.

Vem não apenas mergulhar: afoga-te, entrega-te, abjura-te. Afunda em mim e descobre a pérola que se esconde por trás da tua pálida carne. Eu sou a ostra: atira-te, concede-te o luxo de ser engolida e sufocada, e eu te moldarei ao meu, ao nosso prazer. Porque perder-se é aprazível. Perde-te em mim, num lento e aconchegante golpe de misericórdia. Larga a coroa de espinhos e dá-me tua mão: eu sou a verdade, o caminho, a mentira e a contradição.

Mas não me contradigo ao afirmar que, sim, a suavidade causa dor. A dor mais intensa que se pode provar. Indelével, inexorável, irrepreensível. A cortina do suave logo se rasga e revela a aspereza, pronta para nos retalhar em mil pedaços. Aqueles mil pedaços para mil anjos caídos, lembra? Mil anjos escondidos no espelho. O espelho reflete teu rosto, gravura lapidada na pedra do paraíso: selvagem, ofuscante e irredutível. Ao teu redor, imagens de uma vida que não existiu. Era doce. Era suave. Era plena. Era como pairar.


Instruções para caçar fantasmas e a si mesmo

sexta-feira, 2 setembro, 2011

“Life begins
Where time has stopped
I’m hiding myself
In places
You will not find
You’ll never find”

MaYan – Celibate Aphrodite

Começo perscrutando o ambiente em volta. A casa é velha e decrépita, o que é bom, pois geralmente as desse tipo estão repletas dos meus alvos. Devo ter em mente que fantasmas são inimigos perspicazes e difíceis de detectar. Preciso ampliar meus sentidos, aguçar minha percepção. É necessário querer eliminá-los, e não apenas varrê-los para longe com um exorcismo frugal.

Verifico meu armamento, algo essencial. Tudo à mão? Ótimo. Vigilância constante, não posso esquecer. Alguém pode me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Eu posso me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Tomo cuidado para não me tornar mais precioso que os fantasmas. Eles estão acima. Circulo pela casa; observo cada detalhe. Sinto o cheiro forte do mofo, o cheiro tão familiar de baús lacrados a sete chaves. Tomo cuidado com os fantasmas, pois eles me espreitam. Analiso os móveis, procuro pelos sinais certos nos lugares não tão certos. Por deus, não posso me tornar como os fantasmas. Eles são execráveis. A sala está vazia; não sinto nada. Bom, muito bom. Mas eles estão aqui. Continuo andando. E tomo cuidado para não me deixar consumir pelos fantasmas. Eles são maus. São perigosos. Eles me causam vergonha. Asco. Medo. Devo tomar cuidado com os fantasmas. Cuidado. Cuidado. Ah, deus, cuidado. Eles vão me machucar. Eu vou me machucar. Preciso me armar. Eu… não! Aí vem um!

[...]

Eu sinto o escuro. Aqui, agora. Lá dentro, lá fora. Não importa: tudo é vazio. Quero deixar a corrente vazar de fora para dentro, fora de mim, não importa: eu transgrido, mas a mim não foi conferido o direito de discernir. Contudo, compreendo esses golpes que dilaceram minha carne, essa torrente escarlate que flui para fora de mim. Fora, dentro, não importa: o mal que vem de fora macula o que há por dentro, e a recíproca é verdadeira. E eu não consegui afastar essas sombras de mim. Acho que elas acabarão me devorando. Se eu não me devorar primeiro.

A mim foi conferido o direito de me resignar e me curvar, ser levado pela matilha de falsas ovelhas em direção ao sacrifício final. Tudo nos eixos, tudo como deve ser. A coluna de Atlas alimentada pelo fluxo irrefreável do passado. As memórias desprezíveis e sufocantes. A horda dos fantasmas e a falange maldita. A conspiração armada por e contra mim chega ao ápice. Um último momento de glória antes da fogueira. Os prazeres da dor. Pronto. Deixe-me ser sua voz. Faça-me gritar até romper as cordas vocais. Até que não reste nenhuma gota de sangue nesse corpo fatigado pelo horror e pela miséria. Que só um resquício da essência se mantenha incólume. Para ser usado. Sim, a bengala, um descartável, mas útil objeto. Use-me como melhor desejar. A caçada acabou. Eu, de caçador, passo a ser caça. Há diferença entre eles?


Instruções para embalar fardos

quinta-feira, 1 setembro, 2011

Primeiro, deixe a semente germinar; ela foi plantada com um propósito, e é crucial que seu ciclo não seja interrompido. Lembre que aqui não entram suas vontades e idiossincrasias: o espaço está ocupado com a plenitude, e a plenitude é maior do que você. Zele pelo todo. Proteja-o com a vida, se preciso. A semente precisa germinar.

Então, as raízes tomarão forma. Observe a beleza sobrenatural, quase feérica que grassa ao seu redor. Uma caixa de Pandora para remediar o mundo, e não para danificá-lo. Seja um reparador, a panaceia que dá o toque terreno ao fantástico, àquela quase-ilusão-real-demais-pro-meu-gosto-mas-ah-meu-gosto-não-importa.

A semente tornou-se uma floresta em expansão. Veja como você não consegue acompanhar o ritmo voraz do crescimento, as árvores cobrindo as terras áridas com uma ânsia irrefutável de dominação, sem temor ou piedade, senhoras de si e de outrem. Não esqueça que paradigmas em ruptura machucam, mas impassividade, resiliência e submissão lhe são peculiares e indispensáveis. Você não pode controlar o incontrolável; ele é que controla você.

Você jamais mensuraria o quão ampla a floresta haveria de se tornar. Chore de emoção ao vislumbrar o horizonte perdido que se aproxima. Mas prepare-se, uma enchente vem aí. As águas torrenciais ajudarão a propagar a grande causa; a floresta atingirá seu zênite! Vibre! Rejubile-se! Deixe-se arrastar pela corrente irrefreável e deliciosa das lágrimas fluviais. Qual a sensação de se perder no turbilhão de sensações vorticosas, promessas quebradas e dúvidas?

Ah! não há tempo para isso! Não perca de vista o horizonte perdido. É o seu ponto de referência. Vejo que a água varreu você, ou o que sobrou de você, trazendo-o ao cerne da grande floresta, bunker e fortaleza do mundo, essência de poder e sanha pelo infinito. Mas este não cabe a você. Apenas contemple: sinta o horizonte tornando-se carmim, jatos preciosos do sangue derramado na construção desse magnífico ideal. Contemple, mas não ouse tocá-lo, pois ele não lhe pertence.

Suba a escada. Sim, seus degraus parecem infindáveis, mas você terá sua recompensa. Servir é sua recompensa. Exausto? Nem pense em fraquejar. Não lhe é permitido hesitar. Resista. Respire. Servir, servir. Isso. Abra a porta. Olhe ao redor. Absorva tudo, cada detalhe. O mundo é seu. Seu fardo. Pronto! A embalagem ficou perfeita, meus parabéns! Agora, dobre os joelhos, abra os braços. Receba o peso – sua recompensa. Atrele o fardo às suas costas. Vire-se; não olhe para trás. E tome seu rumo.


A fabulosa hecatombe existencial

quarta-feira, 31 agosto, 2011

“In that final look, does the deer forgive the wolf?”

Otep – Head of Medusa

A corda se rompeu. O laço que nos unia era frágil e previsivelmente esmoreceu; o tempo desgasta tudo, não? Tudo, exceto o ódio que nos avilta, essa centelha fraternal que ainda nos une. Nós, os pretensos intocáveis. Nós, os protótipos frustrados de um martírio sem fundamento; almejávamos ser a palmatória do mundo e colhemos um fruto amargo chamado decepção. Decepção mata, mas a morte nos é íntima; seu perfume podemos distinguir à distância e seu sabor mora em nossas línguas. Línguas bífidas, venenosas – a cobra em mim pronta para te abater e então ser devorada pelos resquícios do que sobrou de ti.

A bem da verdade, não sobrou muita coisa. Talvez um vazio inconstante, incôngruo e amotinador: preenche-me! dá-me um alento, nem que seja um fiapo de luz! Preciso de luz para mascarar a verdade, ocultar a sombra e a incerteza; ou seria para expor? Me expor. Nos expusemos demais. E a corda acabou se rompendo. Ou seria mais oportuno dizer “foi rompida”? Tua lâmina é cega, mas meu âmago é porcelana negra, fácil de romper. Rompemos a corda, o laço e as sensações que de tão ah, meu amor, te quero pra sempre, acabaram se encaixando na definição do nosso caminho: efêmero. Porque tudo é efêmero, só depende do ponto de vista. E meus olhos estão nublados de cegueira.

A dissonância nos afastou. E me afastou. De ti, de mim mesmo, do mundo. A total dissonância entre ser, sentir e (fingir) viver lançou manchas negras no lindo quadro da existência. Conta-me sobre tua existência, teus sonhos e delírios, que aqui, do alto do meu trono de éter, tenho condições de julgar, troçar e destroçar teus relatos de um nível muito superior ao qual estávamos atrelados anteriormente. Níveis desiguais, desejos desiguais, seres desiguais. Somos desiguais. Todos caminhando numa direção. O penhasco ao fim da fabulosa trilha existencial leva até aqui. Cá estou, com meu cetro e coroa invisíveis, pronto a bramir ordens que só serão ouvidas por mim e meu exército de fantasmas rancorosos. Te ordeno: ajoelha, sacia meu desejo. Qual o teu desejo, meu senhor? Tu. Mas senhor, estás falando contigo mesmo. Teu desejo é…

Redesenhar o quadro. Livrá-lo de toda e qualquer mácula. Mas caminhos imaculados são ilusões. As manchas insistem em nos perseguir, cada passo deixando um rastro maior que o outro. Um rastro denso, cheio de raiva, ira e ambição. Diz-me o que tu almejas e te darei. Mas, por favor, não pede que eu me entregue. Já fui consumido pelas agruras desse percalço agre. De mim, só posso doar uma flama tênue e singela. A ti. A mim mesmo. Que o fogo das portas que incendiarei ilumine meu caminho.


A ti

quarta-feira, 10 agosto, 2011

Que me atormenta visceralmente; que entrou em meu cerne e lá plantou seu vírus. Bom? Ruim? Ambos, talvez. Morrer de amor é prazeroso, mas eu queria não ter de retornar das cinzas, vez após vez. A fortaleza uma hora desmorona, não? A fênix perde suas asas, seu precioso condão de ressurgir a cada ocaso. Quero um ocaso definitivo, derradeiro, mordaz e dilacerante, que me preencha e cubra e arrebente, fazendo vazar aquela essência que eu julgava perdida. Eu me perdi. Mas não serei eu a me achar. E, não se engane, não será você. Não fui feito para você. Nem para mim. Não fui feito para amar ninguém, e ninguém para me amar. Sou inquisidor de mim mesmo, e uma das maiores torturas é uma luz; sim, aquela luz que vem dos teus olhos. Eles brilham, um brilho intenso, denso, palpável, saboroso. Quero devorar tua alma. Porque teus olhos refletem tua alma; são tua alma. Posso ser teu? Esse desejo me consome e corrói meu espírito. Então lembro que, bem, sou uma miragem, e tudo se esvai.


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