Fragmentos do diário de uma garota dissolvida – II

domingo, 31 dezembro, 2017

Sou tão maior do que a apatia do mundo. Dentro de mim cabem dimensões inteiras. Quando eu estiver em pedaços; quando não restarem nada mais que cacos existenciais; quando a desesperança se aninhar no meu peito e o vazio fizer morada, sei que há sol aqui dentro, ainda que tênue, ainda que seus raios se mostrem opacos. Mesmo que o temporal lá fora traga desolação, desamparo, desgosto, restam brilho e sentido, por mais imperceptíveis e inacessíveis que eventualmente se mostrem.

Sou tão maior do que a frieza das pessoas e a desconexão torpe, avarenta e insensível que por vezes se instala nas relações. Contraponho a falta de sinceridade corrosiva com uma entrega genuína; imperfeita, volátil, às vezes instável, mas autêntica. Toda vez que me dissolvo, deixo uma parte do que sou para trás, incorporando novos elementos, sensações, experiências. A vida é impermanente. Sou essa impermanência, e sou tão maior do que ela. A dor já me assassinou diversas vezes. E estou viva. Me afoguei no mar do sofrimento, e saí viva; molhada, ferida, aflita, mas viva, estranhamente viva.

Sinto que já não sou tão prisioneira de mim. Talvez algumas partes ainda estejam enclausuradas. Mas em meio às correntes, há liberdade, e ela arde, clama, anseia por movimento. Sou tão maior do que a estagnação que muitas vezes condiciona a existência. Sou tão maior do que os tormentos que me arrebatam e me fazem perder o rumo. Aceito que estou perdida. Perder-se é uma condição de estar viva. Eu sobrevivi: aos terremotos existenciais; abalos sísmicos inconscientes; picos de ansiedade; depressões profundas; declives e ascensões; trajetos itinerantes; erupções de raiva; furacões de euforia; ventanias apáticas; ressacas e repuxos; marés de angústia; congelamento de ânimos; incêndios afetivos; devastação florestal interna; tempestades de vazio; brisas transitórias; linhas fronteiriças oscilando; negociações muito mais do que bilaterais; terrorismo intersubjetivo; diplomacia esquizo-paranoide; fome generalizada de vida; guerras internas intermitentes. Sou tão maior do que a geografia da minha dor psicológica. Há tantos caminhos ainda a explorar. Existem túneis, bifurcações e espaços infindáveis no meu âmago, e cada sensação que eclode se amplifica e ecoa.

Eu sou tão maior; sou imensa, imensurável, interminável, incontínua. Sou frágil, abrasiva, intempestiva, generosa, complacente, irascível, empática, tirânica e afetuosa. Multidões me atravessam, afetam e habitam. A intensidade é minha bandeira; a dicotomia, meu conflito; a instabilidade, minha marca; o contato, minha âncora; o equilíbrio, meu propósito. Carrego a morte no ombro e a vida nas costas. Meu coração é uma arma de guerra e minha racionalidade, um dispositivo de produção de paz. Escorrego na gangorra afetiva e me permito: sentir, experimentar, expandir, cair… e levantar. Estou aberta, atenta, disponível. Sou tão maior do que a incerteza de estar viva. Assustada, exaurida, vulnerável… mas viva, estranhamente viva.

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Fragmentos do diário de uma garota dissolvida – I

domingo, 31 dezembro, 2017

Hoje mergulhei profundamente no meu mal-estar, e saí viva; molhada, ferida, aflita, mas viva, estranhamente viva. Tenho sido prisioneira de mim mesma por muito tempo. Mas hoje, a diferença se instalou em meio ao vazio. Abri uma fenda no meu peito, arranquei meu coração e tingi meu corpo de rubro, deixando o brilho vermelho-vivo iluminar parcialmente a escuridão ao meu redor. Permiti que o medo saísse de dentro de mim e ficasse ao meu lado, acompanhando meus passos graduais rumo ao desconhecido.

Convidei meu sofrimento intenso para tomar um ar; deixei com ele que respirasse, e isso permitiu com que eu respirasse também. Olhei no fundo dos olhos da minha angústia, e ela olhou de volta para mim de modo complacente. Essa gangorra afetiva me mortifica, desestabiliza e emociona de diversas maneiras.

Sinto que se abriu espaço para uma espécie de trégua nessa guerra interna longa, exaustiva e devastadora. Do âmago da escuridão que me habita, emergiu uma esperança tênue, boba, pueril de que a vida possa ser um pouco mais do que uma dor aguda, intermitente e dilacerante. Escolhi me conectar com o que há de pior em mim e pude ser bondosa com aquilo que vertia. Enxerguei alguma beleza no meio da pintura da tragédia. E isso fez sentido.

Não vim ao mundo para rastejar na normalidade medíocre e mediocrizante, “viver de fins de semana” ou esperar que as horas se arrastem de forma enfadonha. Se eu preciso sangrar para que a corrente flua, que então as minhas vísceras se espalhem ao longo do caminho. Posso recolhê-las, costurá-las, acariciá-las, e se por acaso eu me dissolver de novo (essa sensação já é tão familiar), ou se no meio da estrada a tormenta me pulverizar, posso emular uma fênix e renascer da cinza da dor para alçar voo novamente em direção à conexão, à atenção e às possibilidades


Setembro Amarelo, suicídio e a saúde mental da população LGBT

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Na esteira do Setembro Amarelo, campanha que busca a prevenção do suicídio e valorização da vida, gostaria de fazer algumas considerações sobre a saúde mental da população LGBT. A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por terem a ousadia de serem quem são em um contexto social invalidante e hostil. Essas pessoas estão sujeitas a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos.

Há uma relação cruel entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas. Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos. São materiais. São concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares.

Existem achados que apontam que jovens LGBT que experienciam preconceito e rejeição no ambiente familiar estão oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio. Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares. Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero mostram-se simplesmente assustadores, e têm sido apontados por várias investigações.

As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho.

De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande. No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar. As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta.

Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

Cabe refletir: qual o papel de cada um de nós na perpetuação da violência e na possibilidade de mudar esse cenário? Qual o papel do Estado, das comunidades, das famílias e das instituições diante dessas demandas? Defender a construção de vidas mais dignas, vidas mais “vivíveis”, é um imperativo ético. Precisamos abandonar o paradigma da morte e da vulnerabilização, não em direção à tolerância, mas à aceitação, cuidado e respeito.

É um dever da sociedade lutar por outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão; é um dever cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar ou anular, mas engrandecer, qualificar.

É possível produzir potência na diferença. Não somos todos iguais e não precisamos ser, porque a vida é mais leve e permeável quando é diferente. Precisamos de políticas públicas que garantam os direitos básicos da população LGBT, que garantam o direito à diferença. A categoria de profissionais da psicologia precisa receber treinamento e formação em gênero e sexualidade; há evidências de que profissionais sem preparo podem não só não ajudar, como provocar danos a pessoas já bastante vulnerabilizadas.

Para além disso, precisamos ter mais curiosidade e sensibilidade, buscando aguçar o olhar para as singularidades das experiências de gênero e sexualidade. A psicologia vem construindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia.

É preciso promover processos de resiliência, de fortalecimento de vínculos, de construção de redes afetivas, de reforço do apoio familiar. A população LGBT precisa ter condições de se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente, a ter outras visões de si, do mundo e do futuro. E todos nós precisamos nos implicar nisso: na aceitação radical da diferença e na solidificação de um futuro com menos discriminação e mais possibilidades.

A vida pode ser mais valiosa. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você, que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de amigos; procure apoio profissional. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. A vida faz mais sentido quando pintada com diversas cores.

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* Para pessoas que moram em Porto Alegre e Região Metropolitana, eu sou psicólogo, psicoterapeuta e realizo em consultório particular atendimento psicoterápico afirmativo para a população LGBT, bem como acompanhamento psicológico para o processo transexualizador. Caso precise de ajuda, entre em contato comigo: Ramiro Figueiredo Catelan | CRP 07/26017 | ramirocatelan@gmail.com | (51) 9155-5327

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* Algumas referências usadas para compor este texto:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Dickey, L. M., Reisner, S. L., & Juntunen, C. L. (2015). Nonsuicidal self-injury in a large online sample of transgender adults. Professional Psychology: Research and Practice, 46, 3-11.

Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. “Perspectives on Psychological Science, 8”, 521-548.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.


Direitos humanos, violência e política da morte

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Como algumas pessoas sabem, em setembro de 2013 eu levei uma facada na costela durante um assalto. A faca passou a milímetros da pleura. Não atravessou meu pulmão por detalhe. Me provocou uma dor horrível e me deixou uma cicatriz. Eu poderia ser o primeiro a puxar o coro das vozes que invocam a vingança e a política da morte para solucionar a violência urbana. Mas eu JAMAIS farei isso. Sabem por quê?

Porque o Estado penal, o encarceramento em massa, a guerra às drogas, o massacre da população negra jovem – tudo isso é contra o projeto de mundo que eu busco construir. Ter vivido uma experiência traumática, ter sido violentado e gravemente ferido não me faz um defensor de chavões inócuos e extremamente equivocados como “direitos humanos para humanos direitos” ou “bandido bom é bandido morto”.

Os direitos humanos precisam ser o nosso norte, o pilar dessa sociedade; precisamos rumar em direção a mais, não a menos direitos. Direitos humanos são um conjunto abstrato de valores que buscam materializar elementos básicos para a vida humana, e não um escritório de advocacia em livre defesa da “bandidagem”. Quão arrogante é criar distinções dicotômicas, moralistas e simplórias como “cidadãos de bem” versus “vagabundos”? Nossa realidade é tão mais dura e complexa do que as soluções simplistas apresentadas para corrigir as lacunas, lapsos e fraturas que produzimos enquanto sociedade.

Precisamos nos implicar nas coisas que acontecem no cotidiano; ninguém é alheio à realidade. Não quero viver num mundo banhado em sangue. Pena de morte não se encaixa no meu horizonte ético, político e ontológico. Olho por olho e dente por dente é uma estratégia primitiva de resolução de conflitos. Precisamos analisar de forma mais profunda e cuidadosa as problemáticas que nos assolam.

Praticar matanças com chancela do Estado é um perigo; a história tem vários registros disso. Sabem o que aconteceu quando o Estado se apropriou da necropolítica como operador na Argentina? A ditadura matou de forma covarde mais de trinta mil pessoas. Trinta mil pessoas! Esse é apenas um exemplo entre tantos. A polícia brasileira assassina em proporções abissais mesmo à margem da lei; imaginem com endosso oficial. É isso que almejamos?

Além desse dispositivo, alguns apontam como estratégia de política pública de segurança a simples construção de presídios. Mais locais para encarcerar e depositar pessoas não farão nem cócegas no cerne da questão; é uma concepção que já nasce falida, pois parte dos pressupostos errados – como se isolar a “essência” do perigo fosse de fato resolver algo.

Aderir ao apelo punitivista e ao discurso da vendeta pode ter consequências fatais. Vamos permitir que a sanha por sangue atravesse nossos corpos e mentes? O buraco é muito mais embaixo; no caso, muito mais em cima. A guerra às drogas e as táticas bélicas fortalecem o tráfico, eliminam laranjas e não chegam nem perto de atingir os grandes responsáveis por lucrar com o comércio de substâncias ilícitas; sem admitir isso fica difícil estabelecer alguma mudança realmente efetiva.

A violência é um fenômeno que está colocado nas relações humanas; desumanizá-la é uma atitude, no mínimo, ingênua, arrisco a dizer perniciosa, pois fazendo isso corremos o risco de nos autorizar a repetir com as outras pessoas a barbárie que condenamos. Precisamos endereçar a violência, construir diques e estratégias para que ela não se torne um imperativo, para que ela não se torne nosso rumo, objetivo e pretensão.

Como superar a constante erupção de brutalidade dentro de um sistema profundamente desigual que provoca uma série de iniquidades e fraturas? Eu não tenho resposta, mas consigo sinalizar caminhos que levam a direções perigosas. O caminho da morte não me parece uma opção de segurança.

Eu sou a favor da vida. Enquanto psicólogo eu busco valorizar e afirmar o direito à vida – a uma vida melhor, mais digna, mais justa. E eu não acho justo que se use uma tragédia como a da última quinta-feira, ou alguma das centenas que diariamente vitimam pessoas nas periferias e nos grandes centros urbanos, para reforçar a política da truculência e do assassinato. Deve haver outros cenários, outras possibilidades. Se não houver, precisamos INVENTÁ-LOS. Caso contrário, estaremos falidos enquanto conjunto societário; estaremos perdidos. E eu tenho esperança de que a vida, essa grande tragédia nietzschiana, possa pavimentar caminhos mais potentes e significativos.


20 de setembro e a farsa do Movimento Tradicionalista Gaúcho 

sábado, 19 setembro, 2015

20 de setembro tá aí, e a gente, mais uma vez, precisa sentar e conversar. Costumo patinar no Gasômetro, em Porto Alegre, todo fim de semana. Tenho evitado ir durante este mês, pois quando o fiz, recebi olhares fulminantes e ameaçadores com os quais não estou acostumado naquele espaço, porque sou gay e não sou obrigado a andar dentro dos padrões que me impõe. Devo essa sensação de medo e insegurança em volta do acampamento farroupilha ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. 

Essa organização é um grande engodo sustentado num mito fundacionista frágil conceitual, histórica e epistemologicamente, calcado em figuras de autoridade mais frágeis ainda, o chamado Grupo dos 8. A maioria dos seguidores sequer tem noções básicas sobre a cultura fantasiosa, inventada e distorcida que defendem com unhas e dentes, e se recusam terminantemente a discutir sobre, como se fossem parte de uma seita religiosa, e isso é responsabilidade de uma política pública de educação que se recusa a pautar o estudo científico da história, baseado não no mito, mas nas evidências e na crítica. 

Cultuam uma revolta perdida, capitaneada por estancieiros senhores de escravos cujos únicos interesses eram a manutenção dos próprios privilégios. Essa “revolução”, cujo objetivo, curiosamente, era preservar o status quo, derramou sangue de gente pobre e negra, mas muitos seguem reproduzindo histórias fragmentadas e distorcidas como se fossem verdades incontestáveis. 

Perpetuam um discurso machista, sexista, homofóbico, intolerante, bairrista, belicista. Muitos – não todos os – apoiadores do movimento são embaixadores do moralismo, do conservadorismo, do racismo, do patriarcado, da submissão feminina, do desrespeito à diferença, do ódio a gays, lésbicas, a quem ousa divergir da heteronormatividade. Sequer conseguem lidar com divergências dentro do próprio movimento: expulsam, segregam, caluniam, perseguem e incendeiam. 

Fazem cosplay de Paixão Côrtes durante todo mês de setembro, sem pensar sobre a violência simbólica que carregam essas vestimentas. Vamos parar e repensar as coisas como elas estão – não como elas são – ou seguir festejando distorções históricas e mentiras nas quais nos fizeram acreditar?


Política, psicologia e relações de poder

sexta-feira, 17 outubro, 2014

Às pessoas que insistem em despolitizar a psicologia e que não querem discutir o impacto das eleições na psicologia: psicologia e política são campos distintos, mas absolutamente interligados e interdependentes. A quem duvida da influência da política e da economia sobre a psicologia, sugiro esperar até que, em uma próxima crise econômica, seus consultórios estejam absolutamente esvaziados, e a procura pelos postos de trabalho na saúde pública, assistência social e sistema prisional, já em alta, se acirre ainda mais devido à suposta segurança do concurso público.

Aécio Neves é claramente a favor do Ato Médico, bom defensor dos corporativismos que é. Dilma Rousseff, com todas as críticas que tenho a ela, optou, pelas mais diversas razões, por se contrapor ao Ato Médico. Isso são fatos. O Ato Médico não é uma simples regulamentação do que seriam ou não exercícios exclusivos da medicina, mas um fundamento legal para soterrar o trabalho interdisciplinar e elevar a categoria médica àquilo que ela historicamente advoga ser: superior ao “resto”.

Não é algo pessoal ou privado contra um ou outro profissional “bom” ou “mau”, mas sim uma relacional institucional e um embate entre forças políticas distintas dentro da esfera da saúde. A classe médica é doutrinada a agir como a senhora absoluta da saúde. Urge fazer contraposição a esta lógica, sob pena de aniquilar o funcionamento dos equipamentos estatais de garantia do direito à saúde. E não se enganem: foi vetada uma tentativa, mas novos atos médicos começam a grassar no Congresso, muito mais violentos que o primeiro, e se não permanecermos atentos, sofreremos novos golpes que impedirão a autonomia da nossa profissão e desqualificarão ainda mais nossas condições de trabalho no SUS, só pra citar um exemplo.

Quanto ao que alguns dizem, sobre “se preocupar com a baixa remuneração das psicólogas e psicólogos em vez de criticar os médicos”, sinto dizer que esta realidade está intrinsecamente atrelada à hegemonia da classe médica sobre as demais. Enquanto, em algumas cidades, um médico ganha 4 mil para 10 horas, o psicólogo ganha 1200 para 40 horas, e isso não é à toa. Afinal, gestores e políticos que acham que não devemos nos preocupar com política, grupos hegemônicos, disputas de poder e relações institucionais são justo aqueles que penduram sobre nós a Espada de Dâmocles e têm nas mãos a discricionariedade de supervalorizar uns e soterrar outros. Pense nisso antes de se posicionar.


Direitos humanos e violência estatal, ou quando o oprimido enaltece o opressor

sábado, 10 agosto, 2013

Durante a onda de protestos que vem invadindo o Brasil nos últimos meses, me vi deslocado da minha zona de conforto. Não apenas por ter sido vítima do abuso da força policial; não somente por ter presenciado torturas dentro de um posto de delegacia, cenas que volta e meia me inundam como um pesadelo inacabável; e nem só por ver amigos e conhecidos feridos, molestados e violados pelo poder repressivo do Estado. O que me puxa, me arranca e me arrasta em furacões de raiva e indignação é constatar, de uma forma nunca antes imaginada por mim, que não só o conceito de direitos humanos é deturpado, corrompido e jogado na lama, como estes mesmos direitos são brutalizados todos os dias, de formas sutis ou explícitas.

Os direitos humanos são pisoteados diariamente pelo Estado.

E esse Estado é uma instituição fascista.

Acha exagero a utilização do termo “fascismo”? Eu, não. O fascismo, ou melhor, os fascismos, são vários, infindáveis. Políticos. Psicológicos. Simbólicos. O fascismo é uma patologia social gravíssima, que qualquer nosologia psiquiátrica passa longe de explicar. Porque o fascismo está aí. Esse fascismo, assim como o poder, se exerce. E a forma mais carniceira do Estado fascista se revela na violação, desrespeito e escárnio dos direitos humanos.

Que direitos são esses? “Direitos dos manos”, diriam alguns incautos, que infelizmente não sabem que a única razão para que a polícia não invada suas casas, espolie seus bens, estupre seus familiares e os submeta a sevícias perversas são os direitos humanos. E mesmo com esses tão falados direitos, as ações descritas na linha anterior acontecem todos os dias. Só que nas periferias, nos guetos, nas sombras, longe dos olhos opacos das classes médias, que preferem acreditar que a polícia é uma instituição nobre que está a serviço do cidadão de bem.

A polícia está a serviço do Estado. O Estado está a serviço de poucos. Não ousem quebrar o patrimônio público, mas violem à vontade o patrimônio humano. A propriedade privada vale mais do que a vida de uma pessoa. Dadas as condições, como não esperar um arroubo de fluxos fascistas?

Esses mesmos fluxos, advindos do poder, capturam centenas, milhares de cidadãos, que escolhem servir a um Estado que absolutamente não os valoriza, sob nenhum aspecto, e os veste com fardas, bombas e armas para criminalizar a pobreza alimentada pelo próprio Estado. Você acha que a polícia está aqui para nos proteger? Onde está a polícia quando pessoas que trabalham o mês inteiro para ganhar um salário mínimo são assaltadas? Onde está a polícia à noite, quando as ruas se tornam mais perigosas e as pessoas se encolhem de medo? Onde está a polícia quando mulheres são estupradas, gays, espancados e negros, chacinados?

A polícia está à espreita. Não para acudir quem dela em teoria necessitaria, mas para vandalizar, coibir e massacrar os movimentos populares, a população jovem negra das favelas, os mendigos, os inválidos. Os marginalizados.

Você acha um absurdo que se generalize? Acha que existem “policiais bons” e “policiais maus”? Pois eu digo: existe uma instituição fascista, que é a polícia; essa polícia está encharcada de poder, pois detém o monopólio da violência; e essa violência é empregada não contra o homem hétero, branco, cristão e rico, mas contra todo o oposto. Conhece policiais que são “gente boa”? Pergunte a eles qual a ação tomada em rondas nas periferias, na abordagem a jovens negros na rua, parados sem nada terem feito a não ser existir. O policial é um trabalhador? Oprimir é um trabalho, pois. O policial que é bonzinho com a senhora rica e bem vestida “obedece ordens” e é um cretino com o menino de rua, sujo, mal visto, invisível, quase uma nulidade. Ser policial é uma opção política consciente. É uma chance de exercer o poder. Nada aqui se encaixa melhor do que a síndrome do pequeno poder: dê poder a um oprimido, e ele o exercerá para violentar outros oprimidos.

Na Esquina Democrática de Porto Alegre, milhares de pessoas foram democraticamente devassadas pelo aparato repressor do Estado.

Nas ruas da capital gaúcha, viu-se, em junho, medo, pavor, indignação e ódio contra um modelo policial falido, cuja única função é perpetuar o status quo. A polícia não é comunitária; a polícia não é preventiva; a polícia não é solidária. Ela é o instrumento pelo qual a mão do Estado oprime as subjetividades, circunscreve os corpos e tenta disciplinar as populações. Essas mesmas populações, oprimidas, pobres, marginalizadas, quando apoiam a ação violenta injustificável da polícia, perpetuam sua própria sina: padecer no vazio, no esquecimento. Na não existência.

Porque o Estado desconstitui o ser humano quando o priva de seus direitos mais essenciais.

O direito de ir e vir. O de se arrastar em busca de sobrevivência num sistema capitalista selvagem, que alça aos céus meia dúzia de privilegiados, enquanto condena ao inferno o resto. Assim mesmo. Resto. Tratando a população como resto, o Estado priva o ser humano do direito de existir.

Me desacomodo a cada minuto em que enfrento minhas contradições. A cada pessoa passando fome que vejo ao cruzar a rua, com o peito inflamado e uma sensação horrenda de impotência. Como não se desacomodar diante de tanta perversidade? Privar as populações dos direitos humanos é a maior perversidade que poderia ser concebida.

É madrugada e meu coração doi. Minha alma verte sangue ao confrontar tantas manifestações fanáticas em defesa da violência da polícia e dos abusos praticados por esta. Como defender o indefensável? Como não criar linhas de fuga e tentar, a todo custo, escapar desse discurso absurdo que tenta me capturar para que eu enalteça a tortura, humilhação e morte do pobre, da mulher, do negro, do gay, do indiferenciado? Meu corpo e minha mente não serão instrumentos de legitimação e perpetuação de iniquidades. Impossível não se desterritorializar ao presenciar, diariamente, o flagelo dos direitos humanos.

Eu sou a favor dos direitos humanos. De todos os humanos. Mesmo os que, do alto de uma ignorância vil, são contra seus próprios direitos. Uma parte de mim morre cada vez que alguém desqualifica, distorce e viola os direitos humanos, mas outra renasce quando vejo um fulgor de esperança no horizonte. Um salve a quem luta contra os horrores impetrados pelo Estado e não se curva ao fatalismo que conduz à desilusão, ao elogio do opressor, à culpabilização do oprimido e à morte. A quem me chamar idealista por criticar, desejar e lutar por uma realidade diferente, meu muito obrigado. O idealismo é o maior valor daqueles que ousam sonhar com o impossível, impossível este que, dentro de si, carrega mil possibilidades de transformação.