Setembro Amarelo, suicídio e a saúde mental da população LGBT

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Na esteira do Setembro Amarelo, campanha que busca a prevenção do suicídio e valorização da vida, gostaria de fazer algumas considerações sobre a saúde mental da população LGBT. A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por terem a ousadia de serem quem são em um contexto social invalidante e hostil. Essas pessoas estão sujeitas a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos.

Há uma relação cruel entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas. Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos. São materiais. São concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares.

Existem achados que apontam que jovens LGBT que experienciam preconceito e rejeição no ambiente familiar estão oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio. Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares. Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero mostram-se simplesmente assustadores, e têm sido apontados por várias investigações.

As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho.

De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande. No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar. As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta.

Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

Cabe refletir: qual o papel de cada um de nós na perpetuação da violência e na possibilidade de mudar esse cenário? Qual o papel do Estado, das comunidades, das famílias e das instituições diante dessas demandas? Defender a construção de vidas mais dignas, vidas mais “vivíveis”, é um imperativo ético. Precisamos abandonar o paradigma da morte e da vulnerabilização, não em direção à tolerância, mas à aceitação, cuidado e respeito.

É um dever da sociedade lutar por outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão; é um dever cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar ou anular, mas engrandecer, qualificar.

É possível produzir potência na diferença. Não somos todos iguais e não precisamos ser, porque a vida é mais leve e permeável quando é diferente. Precisamos de políticas públicas que garantam os direitos básicos da população LGBT, que garantam o direito à diferença. A categoria de profissionais da psicologia precisa receber treinamento e formação em gênero e sexualidade; há evidências de que profissionais sem preparo podem não só não ajudar, como provocar danos a pessoas já bastante vulnerabilizadas.

Para além disso, precisamos ter mais curiosidade e sensibilidade, buscando aguçar o olhar para as singularidades das experiências de gênero e sexualidade. A psicologia vem construindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia.

É preciso promover processos de resiliência, de fortalecimento de vínculos, de construção de redes afetivas, de reforço do apoio familiar. A população LGBT precisa ter condições de se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente, a ter outras visões de si, do mundo e do futuro. E todos nós precisamos nos implicar nisso: na aceitação radical da diferença e na solidificação de um futuro com menos discriminação e mais possibilidades.

A vida pode ser mais valiosa. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você, que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de amigos; procure apoio profissional. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. A vida faz mais sentido quando pintada com diversas cores.

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* Para pessoas que moram em Porto Alegre e Região Metropolitana, eu sou psicólogo, psicoterapeuta e realizo em consultório particular atendimento psicoterápico afirmativo para a população LGBT, bem como acompanhamento psicológico para o processo transexualizador. Caso precise de ajuda, entre em contato comigo: Ramiro Figueiredo Catelan | CRP 07/26017 | ramirocatelan@gmail.com | (51) 9155-5327

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* Algumas referências usadas para compor este texto:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Dickey, L. M., Reisner, S. L., & Juntunen, C. L. (2015). Nonsuicidal self-injury in a large online sample of transgender adults. Professional Psychology: Research and Practice, 46, 3-11.

Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. “Perspectives on Psychological Science, 8”, 521-548.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.


Direitos humanos, violência e política da morte

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Como algumas pessoas sabem, em setembro de 2013 eu levei uma facada na costela durante um assalto. A faca passou a milímetros da pleura. Não atravessou meu pulmão por detalhe. Me provocou uma dor horrível e me deixou uma cicatriz. Eu poderia ser o primeiro a puxar o coro das vozes que invocam a vingança e a política da morte para solucionar a violência urbana. Mas eu JAMAIS farei isso. Sabem por quê?

Porque o Estado penal, o encarceramento em massa, a guerra às drogas, o massacre da população negra jovem – tudo isso é contra o projeto de mundo que eu busco construir. Ter vivido uma experiência traumática, ter sido violentado e gravemente ferido não me faz um defensor de chavões inócuos e extremamente equivocados como “direitos humanos para humanos direitos” ou “bandido bom é bandido morto”.

Os direitos humanos precisam ser o nosso norte, o pilar dessa sociedade; precisamos rumar em direção a mais, não a menos direitos. Direitos humanos são um conjunto abstrato de valores que buscam materializar elementos básicos para a vida humana, e não um escritório de advocacia em livre defesa da “bandidagem”. Quão arrogante é criar distinções dicotômicas, moralistas e simplórias como “cidadãos de bem” versus “vagabundos”? Nossa realidade é tão mais dura e complexa do que as soluções simplistas apresentadas para corrigir as lacunas, lapsos e fraturas que produzimos enquanto sociedade.

Precisamos nos implicar nas coisas que acontecem no cotidiano; ninguém é alheio à realidade. Não quero viver num mundo banhado em sangue. Pena de morte não se encaixa no meu horizonte ético, político e ontológico. Olho por olho e dente por dente é uma estratégia primitiva de resolução de conflitos. Precisamos analisar de forma mais profunda e cuidadosa as problemáticas que nos assolam.

Praticar matanças com chancela do Estado é um perigo; a história tem vários registros disso. Sabem o que aconteceu quando o Estado se apropriou da necropolítica como operador na Argentina? A ditadura matou de forma covarde mais de trinta mil pessoas. Trinta mil pessoas! Esse é apenas um exemplo entre tantos. A polícia brasileira assassina em proporções abissais mesmo à margem da lei; imaginem com endosso oficial. É isso que almejamos?

Além desse dispositivo, alguns apontam como estratégia de política pública de segurança a simples construção de presídios. Mais locais para encarcerar e depositar pessoas não farão nem cócegas no cerne da questão; é uma concepção que já nasce falida, pois parte dos pressupostos errados – como se isolar a “essência” do perigo fosse de fato resolver algo.

Aderir ao apelo punitivista e ao discurso da vendeta pode ter consequências fatais. Vamos permitir que a sanha por sangue atravesse nossos corpos e mentes? O buraco é muito mais embaixo; no caso, muito mais em cima. A guerra às drogas e as táticas bélicas fortalecem o tráfico, eliminam laranjas e não chegam nem perto de atingir os grandes responsáveis por lucrar com o comércio de substâncias ilícitas; sem admitir isso fica difícil estabelecer alguma mudança realmente efetiva.

A violência é um fenômeno que está colocado nas relações humanas; desumanizá-la é uma atitude, no mínimo, ingênua, arrisco a dizer perniciosa, pois fazendo isso corremos o risco de nos autorizar a repetir com as outras pessoas a barbárie que condenamos. Precisamos endereçar a violência, construir diques e estratégias para que ela não se torne um imperativo, para que ela não se torne nosso rumo, objetivo e pretensão.

Como superar a constante erupção de brutalidade dentro de um sistema profundamente desigual que provoca uma série de iniquidades e fraturas? Eu não tenho resposta, mas consigo sinalizar caminhos que levam a direções perigosas. O caminho da morte não me parece uma opção de segurança.

Eu sou a favor da vida. Enquanto psicólogo eu busco valorizar e afirmar o direito à vida – a uma vida melhor, mais digna, mais justa. E eu não acho justo que se use uma tragédia como a da última quinta-feira, ou alguma das centenas que diariamente vitimam pessoas nas periferias e nos grandes centros urbanos, para reforçar a política da truculência e do assassinato. Deve haver outros cenários, outras possibilidades. Se não houver, precisamos INVENTÁ-LOS. Caso contrário, estaremos falidos enquanto conjunto societário; estaremos perdidos. E eu tenho esperança de que a vida, essa grande tragédia nietzschiana, possa pavimentar caminhos mais potentes e significativos.


20 de setembro e a farsa do Movimento Tradicionalista Gaúcho 

sábado, 19 setembro, 2015

20 de setembro tá aí, e a gente, mais uma vez, precisa sentar e conversar. Costumo patinar no Gasômetro, em Porto Alegre, todo fim de semana. Tenho evitado ir durante este mês, pois quando o fiz, recebi olhares fulminantes e ameaçadores com os quais não estou acostumado naquele espaço, porque sou gay e não sou obrigado a andar dentro dos padrões que me impõe. Devo essa sensação de medo e insegurança em volta do acampamento farroupilha ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. 

Essa organização é um grande engodo sustentado num mito fundacionista frágil conceitual, histórica e epistemologicamente, calcado em figuras de autoridade mais frágeis ainda, o chamado Grupo dos 8. A maioria dos seguidores sequer tem noções básicas sobre a cultura fantasiosa, inventada e distorcida que defendem com unhas e dentes, e se recusam terminantemente a discutir sobre, como se fossem parte de uma seita religiosa, e isso é responsabilidade de uma política pública de educação que se recusa a pautar o estudo científico da história, baseado não no mito, mas nas evidências e na crítica. 

Cultuam uma revolta perdida, capitaneada por estancieiros senhores de escravos cujos únicos interesses eram a manutenção dos próprios privilégios. Essa “revolução”, cujo objetivo, curiosamente, era preservar o status quo, derramou sangue de gente pobre e negra, mas muitos seguem reproduzindo histórias fragmentadas e distorcidas como se fossem verdades incontestáveis. 

Perpetuam um discurso machista, sexista, homofóbico, intolerante, bairrista, belicista. Muitos – não todos os – apoiadores do movimento são embaixadores do moralismo, do conservadorismo, do racismo, do patriarcado, da submissão feminina, do desrespeito à diferença, do ódio a gays, lésbicas, a quem ousa divergir da heteronormatividade. Sequer conseguem lidar com divergências dentro do próprio movimento: expulsam, segregam, caluniam, perseguem e incendeiam. 

Fazem cosplay de Paixão Côrtes durante todo mês de setembro, sem pensar sobre a violência simbólica que carregam essas vestimentas. Vamos parar e repensar as coisas como elas estão – não como elas são – ou seguir festejando distorções históricas e mentiras nas quais nos fizeram acreditar?


Política, psicologia e relações de poder

sexta-feira, 17 outubro, 2014

Às pessoas que insistem em despolitizar a psicologia e que não querem discutir o impacto das eleições na psicologia: psicologia e política são campos distintos, mas absolutamente interligados e interdependentes. A quem duvida da influência da política e da economia sobre a psicologia, sugiro esperar até que, em uma próxima crise econômica, seus consultórios estejam absolutamente esvaziados, e a procura pelos postos de trabalho na saúde pública, assistência social e sistema prisional, já em alta, se acirre ainda mais devido à suposta segurança do concurso público.

Aécio Neves é claramente a favor do Ato Médico, bom defensor dos corporativismos que é. Dilma Rousseff, com todas as críticas que tenho a ela, optou, pelas mais diversas razões, por se contrapor ao Ato Médico. Isso são fatos. O Ato Médico não é uma simples regulamentação do que seriam ou não exercícios exclusivos da medicina, mas um fundamento legal para soterrar o trabalho interdisciplinar e elevar a categoria médica àquilo que ela historicamente advoga ser: superior ao “resto”.

Não é algo pessoal ou privado contra um ou outro profissional “bom” ou “mau”, mas sim uma relacional institucional e um embate entre forças políticas distintas dentro da esfera da saúde. A classe médica é doutrinada a agir como a senhora absoluta da saúde. Urge fazer contraposição a esta lógica, sob pena de aniquilar o funcionamento dos equipamentos estatais de garantia do direito à saúde. E não se enganem: foi vetada uma tentativa, mas novos atos médicos começam a grassar no Congresso, muito mais violentos que o primeiro, e se não permanecermos atentos, sofreremos novos golpes que impedirão a autonomia da nossa profissão e desqualificarão ainda mais nossas condições de trabalho no SUS, só pra citar um exemplo.

Quanto ao que alguns dizem, sobre “se preocupar com a baixa remuneração das psicólogas e psicólogos em vez de criticar os médicos”, sinto dizer que esta realidade está intrinsecamente atrelada à hegemonia da classe médica sobre as demais. Enquanto, em algumas cidades, um médico ganha 4 mil para 10 horas, o psicólogo ganha 1200 para 40 horas, e isso não é à toa. Afinal, gestores e políticos que acham que não devemos nos preocupar com política, grupos hegemônicos, disputas de poder e relações institucionais são justo aqueles que penduram sobre nós a Espada de Dâmocles e têm nas mãos a discricionariedade de supervalorizar uns e soterrar outros. Pense nisso antes de se posicionar.


Direitos humanos e violência estatal, ou quando o oprimido enaltece o opressor

sábado, 10 agosto, 2013

Durante a onda de protestos que vem invadindo o Brasil nos últimos meses, me vi deslocado da minha zona de conforto. Não apenas por ter sido vítima do abuso da força policial; não somente por ter presenciado torturas dentro de um posto de delegacia, cenas que volta e meia me inundam como um pesadelo inacabável; e nem só por ver amigos e conhecidos feridos, molestados e violados pelo poder repressivo do Estado. O que me puxa, me arranca e me arrasta em furacões de raiva e indignação é constatar, de uma forma nunca antes imaginada por mim, que não só o conceito de direitos humanos é deturpado, corrompido e jogado na lama, como estes mesmos direitos são brutalizados todos os dias, de formas sutis ou explícitas.

Os direitos humanos são pisoteados diariamente pelo Estado.

E esse Estado é uma instituição fascista.

Acha exagero a utilização do termo “fascismo”? Eu, não. O fascismo, ou melhor, os fascismos, são vários, infindáveis. Políticos. Psicológicos. Simbólicos. O fascismo é uma patologia social gravíssima, que qualquer nosologia psiquiátrica passa longe de explicar. Porque o fascismo está aí. Esse fascismo, assim como o poder, se exerce. E a forma mais carniceira do Estado fascista se revela na violação, desrespeito e escárnio dos direitos humanos.

Que direitos são esses? “Direitos dos manos”, diriam alguns incautos, que infelizmente não sabem que a única razão para que a polícia não invada suas casas, espolie seus bens, estupre seus familiares e os submeta a sevícias perversas são os direitos humanos. E mesmo com esses tão falados direitos, as ações descritas na linha anterior acontecem todos os dias. Só que nas periferias, nos guetos, nas sombras, longe dos olhos opacos das classes médias, que preferem acreditar que a polícia é uma instituição nobre que está a serviço do cidadão de bem.

A polícia está a serviço do Estado. O Estado está a serviço de poucos. Não ousem quebrar o patrimônio público, mas violem à vontade o patrimônio humano. A propriedade privada vale mais do que a vida de uma pessoa. Dadas as condições, como não esperar um arroubo de fluxos fascistas?

Esses mesmos fluxos, advindos do poder, capturam centenas, milhares de cidadãos, que escolhem servir a um Estado que absolutamente não os valoriza, sob nenhum aspecto, e os veste com fardas, bombas e armas para criminalizar a pobreza alimentada pelo próprio Estado. Você acha que a polícia está aqui para nos proteger? Onde está a polícia quando pessoas que trabalham o mês inteiro para ganhar um salário mínimo são assaltadas? Onde está a polícia à noite, quando as ruas se tornam mais perigosas e as pessoas se encolhem de medo? Onde está a polícia quando mulheres são estupradas, gays, espancados e negros, chacinados?

A polícia está à espreita. Não para acudir quem dela em teoria necessitaria, mas para vandalizar, coibir e massacrar os movimentos populares, a população jovem negra das favelas, os mendigos, os inválidos. Os marginalizados.

Você acha um absurdo que se generalize? Acha que existem “policiais bons” e “policiais maus”? Pois eu digo: existe uma instituição fascista, que é a polícia; essa polícia está encharcada de poder, pois detém o monopólio da violência; e essa violência é empregada não contra o homem hétero, branco, cristão e rico, mas contra todo o oposto. Conhece policiais que são “gente boa”? Pergunte a eles qual a ação tomada em rondas nas periferias, na abordagem a jovens negros na rua, parados sem nada terem feito a não ser existir. O policial é um trabalhador? Oprimir é um trabalho, pois. O policial que é bonzinho com a senhora rica e bem vestida “obedece ordens” e é um cretino com o menino de rua, sujo, mal visto, invisível, quase uma nulidade. Ser policial é uma opção política consciente. É uma chance de exercer o poder. Nada aqui se encaixa melhor do que a síndrome do pequeno poder: dê poder a um oprimido, e ele o exercerá para violentar outros oprimidos.

Na Esquina Democrática de Porto Alegre, milhares de pessoas foram democraticamente devassadas pelo aparato repressor do Estado.

Nas ruas da capital gaúcha, viu-se, em junho, medo, pavor, indignação e ódio contra um modelo policial falido, cuja única função é perpetuar o status quo. A polícia não é comunitária; a polícia não é preventiva; a polícia não é solidária. Ela é o instrumento pelo qual a mão do Estado oprime as subjetividades, circunscreve os corpos e tenta disciplinar as populações. Essas mesmas populações, oprimidas, pobres, marginalizadas, quando apoiam a ação violenta injustificável da polícia, perpetuam sua própria sina: padecer no vazio, no esquecimento. Na não existência.

Porque o Estado desconstitui o ser humano quando o priva de seus direitos mais essenciais.

O direito de ir e vir. O de se arrastar em busca de sobrevivência num sistema capitalista selvagem, que alça aos céus meia dúzia de privilegiados, enquanto condena ao inferno o resto. Assim mesmo. Resto. Tratando a população como resto, o Estado priva o ser humano do direito de existir.

Me desacomodo a cada minuto em que enfrento minhas contradições. A cada pessoa passando fome que vejo ao cruzar a rua, com o peito inflamado e uma sensação horrenda de impotência. Como não se desacomodar diante de tanta perversidade? Privar as populações dos direitos humanos é a maior perversidade que poderia ser concebida.

É madrugada e meu coração doi. Minha alma verte sangue ao confrontar tantas manifestações fanáticas em defesa da violência da polícia e dos abusos praticados por esta. Como defender o indefensável? Como não criar linhas de fuga e tentar, a todo custo, escapar desse discurso absurdo que tenta me capturar para que eu enalteça a tortura, humilhação e morte do pobre, da mulher, do negro, do gay, do indiferenciado? Meu corpo e minha mente não serão instrumentos de legitimação e perpetuação de iniquidades. Impossível não se desterritorializar ao presenciar, diariamente, o flagelo dos direitos humanos.

Eu sou a favor dos direitos humanos. De todos os humanos. Mesmo os que, do alto de uma ignorância vil, são contra seus próprios direitos. Uma parte de mim morre cada vez que alguém desqualifica, distorce e viola os direitos humanos, mas outra renasce quando vejo um fulgor de esperança no horizonte. Um salve a quem luta contra os horrores impetrados pelo Estado e não se curva ao fatalismo que conduz à desilusão, ao elogio do opressor, à culpabilização do oprimido e à morte. A quem me chamar idealista por criticar, desejar e lutar por uma realidade diferente, meu muito obrigado. O idealismo é o maior valor daqueles que ousam sonhar com o impossível, impossível este que, dentro de si, carrega mil possibilidades de transformação.


O preço é tua alma

segunda-feira, 22 julho, 2013

Ferindo as linhas das mãos da sorte

Tecendo a roupa da vida e morte

Lambendo os dedos do teu corpo

Jogando dados

Jogando dados.

Madame Saatan – Moira

1

– Alguém aqui duvida que vivemos na era do direito ao gozo?

Os alunos, encantados, assistiam Teresa Sanguinetti ministrar mais uma aula de Introdução à Psicanálise. Força emanava de sua voz enquanto discorria sobre a contemporaneidade da disciplina criada por Freud. Suas palavras eram um convite ao mergulho num campo de saber que motivara muitos dos ali presentes a ingressar no curso de Psicologia.

Teresa, se não tinha direito ao gozo, deste desfrutava, de qualquer maneira. Uma das analistas mais famosas do Brasil, fizera sua formação na França, cercada de discípulos de Lacan, um dos grandes expoentes da psicanálise. Ostentava títulos a perder de vista: conferencista internacional; mestrado, doutorado e pós-doc na Alemanha, com um sem-número de publicações em periódicos científicos; membro titular de várias sociedades psicanalíticas ao redor do globo. Tinha prestígio clínico e acadêmico. Deitar por cinquenta minutos em seu divã, bastante disputado, custava 400 reais. Nas horas vagas, lecionava numa universidade privada de Porto Alegre, “para não perder o contato com o viço da vida, que é a nossa juventude”, como sempre dizia aos colegas que torciam o nariz pela sua escolha em continuar dedicando-se à graduação em vez de se voltar exclusivamente à pesquisa ou à clínica. Era uma profissional respeitada e admirada. Tinha direito a gozar disso, ou não?

Em seu âmago, sabia que a maioria dos que lhe escutavam sem tecer uma só crítica ao que ouvia estagnaria no mercado de trabalho ao colar grau. A situação econômica do País ia de mal a pior, não abrindo lugar ao sol para futuros psicoterapeutas esperançosos de lograr êxito em seus idealizados consultórios privados – que muito provavelmente não sairiam do plano da idealização. O que estou fazendo aqui?, perguntava-se vez ou outra. Então se lembrava do extrato bancário de cinco dígitos no fim do mês, e a dúvida se esvaía. Ser professora universitária fazia com que tivesse exposição constante à mídia e o boca-a-boca, que mantinha o consultório sempre pendendo positivamente na balança. Era a consequência iminente, afinal, daqueles que conquistaram o sucesso, a realização, a plenitude: o direito ao gozo.

– Aprender psicanálise é um exercício de constância, pessoal. Não se atenham ao que digo aqui. Busquem sempre estudar por si mesmos – dizia como um mantra no qual não depositava fé alguma. Sabia que a maioria ali não passaria dos slides na plataforma virtual da universidade.

Seu próprio ritmo de leituras vinha fraquejando nos últimos tempos. Mal conseguira terminar o último romance do Dan Brown, entre cigarros, cafés e bocejos. Um colega mais chegado notara o recente abatimento de Teresa e lhe sugeriu retomar a análise pessoal, ou, pior, consultar um psiquiatra. Deus me livre, respondera-lhe, usando em vão o nome de um ser no qual nunca teve crença. A ideia de procurar os préstimos de um profissional que provavelmente lhe receitaria 100 mg de sertralina só não era pior do que os longos e cansativos debates, propostos pelos colegas professores, sobre diferentes visões da psicologia. Perdera o tato para argumentar com maníacos por neuroimagens funcionais e marcadores somáticos questionando a credibilidade científica da psicanálise. Malditos positivistas. Teresa Sanguinetti, aos 58 anos, pensava seriamente em reivindicar seu direito ao descanso. Ou à simples inércia.

2

A época de provas na universidade sempre foi um bálsamo para sua rotina pesada. Tinha mais tempo para refletir sobre os casos do consultório. Redigir e corrigir provas? Uma moleza. Todas as questões eram objetivas, provindas de um banco de dados virtual que uma colega lhe apresentara anos atrás. Era só utilizar o software, aleatorizar as questões e, pronto, prova quentinha saída do forno. Adoro estatística.

Em meio ao exame final de Psicoterapia Psicanalítica II, uma voz interrompeu suas divagações acerca do que jantar naquela noite:

– Professora, acho que tem um erro na questão 15.

Teresa fitou sua interlocutora, uma menina baixa, ruiva e gordinha – cujo nome lhe fugiu à memória -, sentada ao fundo da classe.

– Ué. Um erro? Em que parte, querida?

Os demais alunos permaneceram, sem exceção, com a cabeça baixa, a despeito da abrupta quebra do silêncio. Uma brisa atravessou a porta aberta da sala de aula.

– Aqui diz, na letra B, que o inconsciente do analista deve ser utilizado como ferramenta no setting terapêutico em prol do paciente.

– Sim – frisou Teresa, com uma sobrancelha erguida. A menina encarava-a, sorrindo. – Qual a dúvida?

– Eu achei que o inconsciente do analista fosse utilizado pra foder com o que resta da vida de uma vadiazinha desgraçada, miserável, idiota e filha da puta.

Um calafrio percorreu a espinha da professora. Um vazio no estômago, que ela não sentia há anos, inundou-a. Olhou ao redor. Os demais alunos continuavam na mesma posição. Cabeças baixas. Inertes. Parecia que o tempo parara de repente. A menina escancarou um sorriso grosseiro, os dentes grandes à mostra. Com um lápis, começou a fazer um barulho estridente na classe, riscando-a freneticamente.

– A que… a que tu vieste? – titubeou Teresa, pressentindo um grande perigo.

– Vais te refugiar na pompa, criatura repugnante? – urrou a garota, erguendo-se e jogando o lápis contra Teresa, que escapou por pouco. – Guarda a pompa pros teus pacientezinhos, que pagam caro pra alimentar o vazio dentro de ti.

– Te mantém afastada de mim – ameaçou Teresa, trepidante.

– E se eu não me afastar, vais fazer o quê? Recitar um trecho da Interpretação dos Sonhos? Chamar os seguranças? A polícia?

A analista suava frio. Isso não pode estar acontecendo.

– Mas está, Teresa – falou a menina, como que lendo sua mente, enquanto se aproximava lentamente do quadro, na frente do qual a professora tremia. – Tu achaste que ia descansar em paz. Que nada ia te acontecer. Que ficaria por isso mesmo. Vim cobrar o preço. Vim pegar o que é meu. Aquilo que tu roubaste de mim.

A garota estava a poucos passos de Teresa, cujo corpo lutava para não desfalecer.

– Quero tua alma, Teresa. Esse é o preço. Esse é o meu preço.

Enchendo o pulmão de ar, a analista confrontou os olhos negros brilhantes que a observavam como uma expressão de ódio.

– Por que não vieste até mim? – questionou Teresa, vacilante. – Por que usar terceiros? Essa menina não tem nada a ver com…

– A tua traição? – gritou a outra, aproximando-se de modo brusco e erguendo a analista pela gola da camisa. Sua voz era gutural, profunda. – Não seja patética. Eu estou viva, Teresa. Viva. E louca de vontade de te arrancar até a última gota de sanidade.

 – E pra isso precisa de marionetes?

A menina apertou a gola da camisa, sufocando Teresa.

– Não brinca comigo. Tu brincaste comigo antes e quase deu certo. Quase. Eu voltei. Me reergui. Tu vais pagar muito caro por tudo. Repito: o preço é tua alma!

A garota aproximou-se até ficar face a face com Teresa e, num único jato, gorfou sangue em seu rosto. A camisa cinza e a saia preta que a analista usava ficaram ensopados; seu rosto, irreconhecível. O cheiro do líquido era nauseabundo. O aperto na gola deixava-a, aos poucos, com falta de ar. Cada suspiro demandava uma força hercúlea. Eu vou morrer.

– Como tu adivinhaste? – caçoou a agressora. – Tu vais morrer, Teresa. Vou reivindicar toda a farsa que é a tua vida. Vou arrancar de ti tua alma.

Teresa sentia a força deixando seu corpo. Cheiros, imagens e sons transpassavam seus sentidos num turbilhão enlouquecedor. Num derradeiro momento de desespero, uma ideia lhe veio à mente. Dentro de si, viu emergir algo há muito oculto.

– Essa eu pago pra ver – disse, com a voz embargada.

E tudo explodiu num clarão esverdeado.

3

– Já vai amanhecer, Olívia. Se a polícia nos pega, a gente tá fodida.

– Não grila, Teresa. Meu pai é milico. Se nos pegarem, não vai dar nada.

As ruas da cidade de Guaíba estavam desertas naquela noite de novembro de 1972; ventava muito. As duas jovens se adiantaram e uma delas bateu à porta de uma casinha próxima à orla do lago que dava nome à cidade. Uma fresta se abriu, revelando a sombra de um homem.

– Demoraram mais que eu imaginei. Tavam de sacanagem, as duas?

– Não enche, Otávio – disse Olívia, irritada. – Vai nos deixar entrar ou não?

– Trouxeram os bagulhos?

– Sim. Anda logo, abre essa merda.

O pedido foi atendido. À frente delas, encontrava-se um jovem negro, que não aparentava mais que 30 anos. Otávio era alto e encorpado, olhos castanhos marcantes, os cabelos encaracolados arredios ao vento. Vestia uma camisa azul e uma calça preta surrada. Foi logo empurrando as duas para dentro, passando de relance as mãos nas coxas de Olívia.

– Para com isso, preto abusado.

– Isso é linguajar pra se usar com as amizades?

– Vai à merda.

Olívia tinha 21 anos, cabelos loiros, olhos azuis, uma silhueta jovem e esbelta e a tez branca, pálida. Usava uma camisa branca, um paletó preto e uma saia cinza até os joelhos; no pescoço, reluzia um colar com um pingente em forma de coração. Teresa era um pouco mais velha que a amiga, dona de uma pele morena, os cabelos castanhos desgrenhados atados atrás da cabeça, parecendo grande demais em comparação ao resto do corpo, que acumulava alguns quilos a mais; suas vestes eram mais simples: uma camisa azul gasta pelo tempo e calça de brim preta. O olhar de Otávio perscrutava as duas com interesse, mas a atenção era mais focada em Olívia.

O ambiente era pequeno, mal arejado e escuro. A parca iluminação vinha de um abajur junto a um sofá vermelho puído, perto de três portas que levavam a outros cômodos. Duas cadeiras de madeira se dispunham noutro canto, ao lado de uma prateleira de metal abarrotada de livros e papeis soltos.

– Onde tu roubou essa papelada toda? – riu Olívia, atirando-se no sofá e pondo a mochila que trazia consigo no chão.

– Não roubei, coisa nenhuma, ô sinhá – disse Otávio, sentando-se numa das cadeiras. – Tudo coisa antiga. Muito antiga. Coisa do meu tio João.

– Tu tá morando sozinho aqui? – perguntou Olívia.

– Aham. Meu velho tá pra Amazônia. Chamaram ele faz umas duas semanas.

– Ele tá se metendo com esse negócio de guerrilheiros?

– Não sei de nada.

– Lá em São Paulo tem uns caras avaliando o perfil psíquico dos terroristas. Com instrumentos de verificação e tudo.

– Te disseram isso no teu cursinho?

– Tu deveria levar a psicologia mais a sério – interferiu Teresa.

– Ah, vá – caçoou o rapaz. – Vem cá que eu vou te mostrar a minha psicologia, ela é bem grande.

– Tu tá com o resto das coisas, Otávio? – cortou Olívia.

– Sim. Cês trouxeram o que eu pedi?

– Tá tudo dentro da mochila – falou Teresa, bocejando. – Tô com sono. A gente vai fazer o treco ou não?

– Vamos, sim – afirmou o rapaz. – Tem maconha aí?

– Toma – Olívia agarrou a mochila, abriu-a e estendeu um cigarro a ele, que o acendeu com um isqueiro.

– Enroladinho, já, hã? A burguesinha tá mestre nas artimanhas.

– Não enche, Otávio – exclamou Olívia, arrancando o cigarro das mãos deles e tragando o fumo.

– A gente ficou a noite inteira zanzando, que nem tu tinha dito pra fazer – queixou-se Teresa. – Se nos pegam na rua com uma mochila com maconha e álcool, dá merda, tu sabe. Não aguento mais essa função, quero que tu nos mostre isso duma vez.

– Cês tinham que estar arejadas. Hoje é noite de lua cheia. Energia forte. Propícia.

O rapaz foi até a mochila aberta e retirou um pote mediano de vidro contendo um líquido escarlate. Sangue.

– De qual de vocês é? – perguntou.

– Meu – frisou Teresa.

– Desceu há quantos dias?

– Ontem. Bem recente.

– Ótimo. Quanto mais fresquinho, melhor.

– Precisa mesmo disso? – perguntou Olívia. – Não dá pra, sei lá, fazer duma outra forma?

– Dar, dá. Mas mulher tem mais energia. Fluido de mulher tem mais energia. Facilita tudo. Deixa o kathos mais à solta.

Kathos? – quis saber Teresa, repousando o cigarro num cinzeiro na ponta do sofá.

– É. Aquilo que habita dentro da gente. Que faz as coisas acontecerem.

– O inconsciente? – questionou Olívia.

– É mais do que isso. É maior. É o outro lado da moeda. Kathos é a palavra que tá escrita nos papeis. Faz parte das tradições.

– De que língua vem essa palavra?

– Aí tu já quer demais, Olívia.

De repente, Otávio retesou o corpo. Olhando para as duas com o canto dos olhos, disse:

– Tô sentindo alguns deles chegando perto. É melhor a gente começar.

Olívia tremulou, olhando para Teresa. Revirou a mochila, retirando um embrulho que protegia uma garrafa de rum. Passou-a ao rapaz, que tragou e em seguida ofereceu a Teresa. Ela, depois de beber, entregou a Olívia, que tossiu com o gosto forte da bebida.

Otávio retirou da prateleira um punhal empoeirado.

– Fiquem na posição.

Os três se sentaram ao chão, de modo a formar um triângulo com seus corpos. Otávio colocou o rum e o pote com sangue no centro. Em seguida, raspou o punhal em seu pulso, fazendo um risco vermelho se formar na pele e arrancando gritinhos de susto das moças. Abriu o pote e despejou ali as gotas de sangue saídas do objeto. Então, ergueu-o e começou a gesticular no ar, para cima e para baixo.

O punhal ganhou contornos de uma luz esverdeada, assim como o corte em seu braço, o que arrancou das duas mais gritos, desta vez fortes.

– Shhh – sibilou Otávio, enquanto movimentava o objeto, desenhando contornos no ar.

A porta de entrada tremeu, assim como as janelas. Depois, a prateleira. E então, as cadeiras e o sofá. O ar se tornou mais frio no ambiente. Arrepios percorriam os corpos das garotas. Os tremores só aumentaram. O rapaz fechou os olhos, e quando os abriu, estavam sem pupilas, completamente verdes, no mesmo tom da luz da adaga.

Naquela noite, Teresa e Olívia foram iniciadas por Otávio nas artes da magia.

4

Sufoco. Sensação de perda de controle. Ar frio invadindo as narinas. Energia efervescente circulando pelas veias. Um arroubo de tensão. Músculos rígidos. Dor, muita dor. Medo. Pavor, na verdade. O kathos tocando cada partícula ao redor. Fluindo, se expandindo, ampliando o campo de alcance. Penetrando os kathos dos demais. Alcançando o kathos da garota. Que não era a garota. Um novo arroubo de tensão. A dor aumentando. E, então, mais uma explosão de luz esverdeada.

Completamente suja e exausta, Teresa agachou-se, escorando-se no quadro da sala de aula e sentando no chão. A garota jazia desmaiada metros adiante, entre duas classes. A turma parecia não ter despertado da letargia coletiva. A professora olhou para o relógio em seu pulso. 21h30. Dali a vinte minutos o período se encerraria. Sua cabeça latejava com uma intensidade brutal. Tentou se levantar. Fraquejou. Respirou fundo e repetiu a tentativa. Conseguiu sustentar os pés no chão e olhou novamente ao redor. Precisava sair dali. Agora.

A água da torneira do banheiro estava gélida. A dor lacerava cada centímetro de seu corpo. Insuportável. Limpou-se como pode o rosto, retirando o sangue dos cabelos castanhos alisados. Em seguida, tentou secar a roupa com pedaços de papel. Tinha de dar o fora da universidade o quanto antes, sem ser vista. Depois pensaria. Não havia muito tempo para pensar agora. Aproveitar os corredores quase vazios. Escapar. Ilesa, de preferência.

Queria preservar seu direito à incolumidade. O gozo agora era permanecer viva.

Conseguiu chegar ao estacionamento, praticamente vazio, sem esbarrar em ninguém além de uma faxineira, o que dava no mesmo, afinal. Abriu a porta do Sportage prateado, sentando-se no banco, exaurida. Abaixou a cabeça, encostando-se ao volante. Era hora de por as engrenagens para funcionar. Sua vida dependia disso.

O caos na sala de aula podia ser explicado, de alguma forma, mais tarde. Uma turma adormecida e uma aluna desfalecida poderiam ser contornados; a menina não se ferira muito, ela sentira. Alguma desculpa poderia ser dada. Na verdade, o que menos importava agora era a faculdade, as provas ou seu emprego. Afastou da mente os pacientes que teria na manhã seguinte. Nos últimos minutos, passou a reconsiderar tudo que até então era essencial em sua vida.

Porque ela tinha voltado.

De alguma forma, ela sobrevivera. Depois de tanto tempo. Teresa estava em perigo. Sequer ficar num carro – repleto de gasolina – era seguro. Teria de se deslocar de alguma outra forma. Mas para onde?

Sua cabeça latejava. Suspirou e refletiu por alguns segundos. Sem ter prática há anos, tendo lutado para recalcar memórias antigas, ela conseguira, afinal, invocar e manipular energia mágica. Fluido de mulher tem mais energia. Nunca esquecera isso. Quem diria que um gesto de agressão de outrem se transformaria numa tábua de salvação. Na qual Teresa não escorregou. Conseguira usar como fonte de energia o vômito despejado contra si. Quase cômico, não fosse tão terrível.

Precisava parar de tremer. E sair dali. Mas aonde ir? Com quem contar naquele momento sombrio? O que fazer?

Um pensamento irrompeu em sua mente. Não. Não posso fazer isso.

Mas o que mais, então? A quem poderia recorrer?

Não tinha certeza sobre a possível ajuda. Muito pelo contrário. E quem garantia a ela que encontraria o que buscava? Para de enrolar, Teresa. Precisava seguir adiante. Tentar. Não tinha mais tempo. Estava em perigo, e não restavam opções.

Via-se, agora, obrigada a procurar Otávio, a quem dera as costas há mais de 30 anos.

5

Numa terra de capitalismo selvagem, Teresa Damian Sanguinetti, filha de um casal de agricultores emigrados da Itália, jamais travaria contato íntimo com Olívia Baum Fontoura, filha de um tenente-coronel cuja figura era carimbada nos porões da ditadura civil-militar-empresarial. Mas o acaso fez com que fosse agraciada, na época da morte de seus pais, com uma bolsa de estudos pelas bondosas freiras franciscanas, que cobravam a caridade com constantes humilhações e abusos. Estudar naquela escola era, antes de tudo, um favor. Conhecimento não era para qualquer um, diziam.

Ambas, que se tornaram amigas ainda no ginásio, nunca teriam entrado em contato com Otávio dos Santos da Silva, pobre, negro e “de poucas luzes”, como afirmava a irmã Joaquina, caso não fossem obstinadas, desviantes e dispostas a seduzir um segurança da escola. Era preto, mas tinha um pau grande e um jeito malicioso que era inexplicável, argumentava Olívia, ao incentivar a amiga a experimentar o recém-conquistado objeto sexual. Objeto que usaram conjuntamente durante muito tempo, formando um triângulo amoroso, ou melhor, sexual, digno de curiosidade.

Olívia era linda, desejável, atraente. E também branca, rica, “bem nascida”. Teresa também era linda. Mas pobre, e não bastasse esse absurdo, morena com ascendência na Calábria italiana, levemente gordinha e “com cabelo ruim”, ou seja, nem tão desejável e atraente. Otávio era o preto da portaria. Poucos lhe dirigiam o olhar. Um bom-dia recebido era quase motivo de festa. Ter a atenção de duas jovens estudantes foi mais do que impactante.

Olívia saiu da escola rumo à universidade pública. Queria ser psicóloga, “doutora”. Desejava “entender a mente humana”. Teresa cometeu a loucura de querer ser “doutora”, também. Não conseguiu ingressar na universidade pública. As notas foram boas, mas tinha um tal de “psicotécnico”, que atrapalhou um pouco as coisas. Foi aprovada numa universidade particular, cujos problemas com o tal “psicotécnico” se resolveram com um maço de verdinhas. Caíra nas graças do tenente-coronel Fontoura, pai de sua amiga e homem de muitas posses, que se prontificou a bancar seus estudos. Caíra na cama dele algumas vezes, também, mas disso Olívia jamais ficou sabendo, a princípio. E Otávio? Bem, ele era o preto da portaria. E continuaria a ser. Ainda tinha o pau grande e o jeito malicioso, mas estes de nada o ajudaram a “subir na vida”. Quem não tem grana, não tem vida, repetia Olívia.

Mas o preto da portaria tinha segredos. Coisa de família, pouco comentada. Uns arquivos e papeis escondidos a sete chaves na mercearia de seu tio João. Suara muito para por as mãos naquilo. E traíra a confiança do tio. Quando notou o sumiço de suas posses, jamais voltou a falar com o sobrinho.

O segurança passou dias tentando entender o que estava escrito naqueles papeis fedendo a mofo. Cheiro de antiguidade, de coisa secreta. E perigosa. Nas viagens de ônibus, retornando à Guaíba, ruminava sobre a grandiosidade daquilo que vinha, aos poucos, descobrindo. Quem mais, além do tio, teria acesso àquilo? Segundo os papeis, algumas poucas pessoas, seletas. A lei da seletividade era fundamental. E a seleção não era por dinheiro. Era por tradição. Por estudo. Vocação.

Otávio descobriu a magia.

Não havia magia boa ou ruim, segundo o que aprendeu. Magia era energia. Energia acessível por meio do kathos, a essência do ser humano, escondida dentro de todos, porém desenvolvida por poucos. Uma pessoa poderia invocar e manipular energia por si, mas apenas se fosse muito poderosa. O processo era facilitado por fluidos humanos. Sangue, saliva, fezes, urina, vômito, esperma. Sexo também era um grande potencializador do kathos.

Como tudo na vida, a magia tinha regras. Matar não era proibido, mas trazia consequências. Lograr vantagens de maneira duvidosa também tinha seu preço. A magia não tinha julgamentos morais; o ser humano, sim, e cada um, segundo as tradições, deveria ter autonomia para arcar com suas escolhas, juízos e decisões.

Num dos trechos dos manuscritos, ele leu: Não invocarás em vão os falecidos.

Otávio descobriu as entidades.

Vieram-lhe à mente palavras antigas proferidas pelo tio sobre respeito, dívidas e coisas que nunca serão entendidas. Otávio descobriu que as entidades estavam além da nossa compreensão. Não sabia de onde vinham, para onde vinham. Mas vinham. Com ou sem convite. A vinda, em si, nunca era boa ou ruim; o que dela se fazia podia ser bom, ruim… ou péssimo.

Ele foi mergulhando naquele mundo estranho, novo, sentindo-se diferente. Especial. Ele, o preto da portaria, tinha acesso a conhecimentos que freiras, doutores e patrões desconheciam. Só podia ser um arroubo de sorte que o destino lhe trouxera. Otávio poderia ter utilizado a magia para sair da pobreza. Para oprimir quem sempre lhe oprimiu e continuaria oprimindo. Mas tinha suas limitações. Vingança não era um sentimento que provocasse boas reverberações no kathos. Queria usar o que vinha aprendendo para algo bom. Desejava, mais do que isso, compartilhar o conhecimento.

Então, Otávio dos Santos da Silva quebrou a lei velada da seletividade e apresentou a magia às suas amantes, Olívia e Teresa.

E isso causou sua ruína.

6

– Como tu me achou?

Otávio estava irreconhecível. Magro, a tez negra levemente empalidecida, os ossos dos braços protuberantes, dando-lhe um aspecto cadavérico. A sombra do que um dia já fora.

Teresa expandira seu kathos – uma habilidade adquirida por poucos praticantes, rapidamente aprendida, e reaprendida, agora – para tocar o kathos de Otávio. O inconsciente dele estava diferente. Kathos e inconsciente, diferentes lados da mesma moeda, encontravam-se em dissonância. Ela não soube por que, mas de repente teve a impressão de que Otávio estava regredindo, lentamente, em direção a um padrão de personalidade neurótica bastante grave. Algo limítrofe. Flertando com o vazio. Ele já não era mais o mesmo.

Estavam num barraco em uma favela próxima ao Centro Histórico de Porto Alegre. Teresa fora a pé até ali. Queria evitar ao máximo exposição a elementos que pudessem ser perniciosos, como gasolina e álcool. E aquele barraco estava repleto de garrafas de cachaça.

Não era o que esperava encontrar. Sentiu asco do sujeito à sua frente.

– Como tu me achou, sua vadiazinha escrota? Eu avisei os guardas que não deixassem ninguém chegar perto. Veio roubar meu tesouro?

Ele estava tendo delírios? Em vez de neurótico, tornara-se um psicótico, daqueles que tanto a analista usava como exemplo em aula? Rompimento com o mundo externo.

– Tu que rompeu com o mundo externo, Sanguinetti.

A analista assustou-se. Ele tinha preservado a habilidade de invadir mentes? Ou seria efeito da exposição do kathos de Teresa?

– Ela voltou, Otávio. Ressurgiu das cinzas.

– Como uma fênix – sussurrou ele, jogando no chão de madeira a bituca do cigarro que fumava.

Silêncio. Inquietação.

– Tudo que vai, volta – rosnou ele, afinal. – Tu esperava algo diferente?

– Preciso de ajuda – ignorou ela.

– Ninguém vai roubar meu tesouro.

Perdi meu tempo vindo aqui.

De repente, notou algo acima da gola do blusão esgarçado que Otávio vestia. Ao redor de seu pescoço, um colar. Aproximou-se, estendeu a mão e, então, notou um brilho familiar. Um pingente. Em forma de coração.

Sem perder tempo, Teresa arrancou-lhe bruscamente, com uma puxada, o pingente. O movimento o fez resvalar e cair ao chão. O impacto não pareceu surtir efeito algum em Otávio.

– Filho da puta. Preto infeliz, nojento, desgraçado. Ela te deu isso? Quando?

Chutou as canelas do velho, que gritou de dor, mas em seguida riu.

– Não, senhora sabedoria. Os guardas jamais permitiriam uma atrocidade dessas. Nero me aconselhou a não dar ouvido a bruxas. Devemos queimá-las.

Teresa olhou para Otávio com nojo, o mesmo nojo que fez com que recusasse pacientes que sofriam com delírios. Depois de tanto tempo, ele ainda guardava o colar.

Estirado, o homem ria.

– Sua bobinha. A menina-possuída me entregou isso faz pouco. Bem pouco.

– Menina-possuída? – repetiu Teresa, num rosnado.

– A mesma que te deixou fedendo.

Otávio gargalhou. A analista arregalou os olhos.

– Ela tá te querendo, Teresinha. E não é pra ficar de sacanagem contigo, enfiando o dedo na tua boceta. Ela tá te querendo de corpo… e alma.

O chute desferido pela mulher fê-lo arquejar e, então, desfalecer no chão.

Teresa havia sido atraída até ali. Ela previra seus passos. Ela usara a mesma marionete possuída para entregar o colar a Otávio. Ela lhe ofertara, de mãos dadas, a chave para encontrá-la.

Estava na hora de acertar as contas com Olívia.

7

Teresa detestava o modo como era tratada pela amiga. Sempre aquele ar de superioridade, de liderança, aquela prepotência repugnante que sentia em quase todos os que tinham posses, bens ou qualquer outro lixo considerado de valor. Entretanto, ela, no fundo, gostaria de se encharcar com aquele lixo; desejava ostentar, ter dinheiro e humilhar da mesma maneira que faziam com ela. O alvo direto desse desejo tornou-se, aos poucos, Olívia. O que essa vagabunda diria se soubesse que eu fico de quatro pro pai dela?

Quando foram iniciadas por Otávio na prática da magia, Olívia sobressaiu. Ela era magnífica, o preto não cansava de lhe dizer. Os mesmos elogios não eram atribuídos a Teresa, que encontrou dificuldades desde o início. Ela conseguia projetar magistralmente sua energia e fazer conexão com o kathos alheio. Mas não passava muito disso. Olívia progredia dia após dia, enquanto Teresa parecia ter estagnado em determinado nível.

A raiva crescia cada vez mais.

A colação de grau das duas se aproximava. Com ela, os gracejos e atenção de todos se voltaram ainda mais para Olívia. A filha do tenente-coronel. A estudante-prodígio. A praticante habilidosa. A boa de cama. Otávio sequer vinha procurando Teresa para sexo. A disparidade entre ambas sempre existiu, mas agora se tornava evidente, escrachada.

Teresa Damian Sanguinetti nunca se sentiu tão humilhada. E isso ativou seu interesse nas entidades.

Não invocarás em vão os falecidos, frisou Otávio na primeira vez em que lhes apresentara ao poder das entidades. Elas vêm e vão como querem. Cês podem invocar elas, assim como podem ser convocadas a prestar favores pra elas. Evitem o contato direto. Sejam educadinhas, não percam a cabeça, não façam merda. Sendo sincero, evitem qualquer contato, a não ser que sejam convocadas. Não é bom negócio brincar com entidades.

– Não invocarás em vão os falecidos – sussurrou Teresa, entre um cigarro de maconha e um gole de uísque.

Era abril de 1976. Faltavam alguns dias para a formatura de Olívia; logo a seguir viria a sua. Olívia tinha planos de fazer uma formação analítica na França, com os discípulos de Lacan. Teresa duvidava que fosse ter o mesmo privilégio, já que, de uns tempos para cá, o tenente-coronel Fontoura vinha lhe procurando cada vez menos. Largava indiretas: a pombinha vai sair dos braços do papai já, já; tu vais ser uma excelente psicóloga industrial, tens todo o jeito.

Sempre em segundo plano. Sempre preterida. Sempre.

Não há nada que dure para sempre.

À frente de Teresa, que encontrava-se nua, um espelho de corpo inteiro e uma bacia que exalava um cheiro forte. Na mesma noite, se prostituíra numa das principais zonas do meretrício na cidade. Um cliente atrás do outro. Três, um número mágico, poderoso, como ensinara Otávio. A exigência: deveriam gozar dentro dela. Não iria engravidar; já se precavera com pequenos feitiços. Misturou o esperma dos três estranhos aleatórios com sua urina. Não estava nos seus dias. Sangue menstrual era poderoso, mas poderia ser substituído com a combinação certa.

Pegou uma faca que repousava sobre inscrições e símbolos rabiscados a giz no chão de madeira. No antebraço direito, escreveu, com a ponta da faca, a palavra Xonturá. Sobre a bacia, verteu o sangue da ferida aberta, misturando-se aos demais fluídos.

Não invocarás em vão os falecidos, reverberou a voz de Otávio em sua cabeça.

Não estou invocando em vão um falecido, retrucou para si mesma.

– Xonturá – clamou em voz alta.

O líquido na bacia tremulou.

– Xonturá – repetiu.

A entidade que invocava era instável. O espírito de um antigo assassino de índios.

– Xonturá – disse pela terceira vez.

O conteúdo da bacia começou a fervilhar, emanando um vapor amarelo fedorento.

Em frente ao espelho, dois olhos azuis escuros como a noite cintilaram.

– Que queres? – perguntou a entidade sem rosto. Sua voz era aguda, límpida.

– Vingança.

– Que queres? – repetiu a entidade.

– Poder, magia, dinheiro, respeito e admiração.

– Que queres? – repetiu Xonturá, mais uma vez.

– Quero o poder, a magia, o dinheiro, o respeito e a admiração que pertencem a Olívia Baum Fontoura. Quero tudo de precioso que a ela pertence.

– Que me ofereces em troca?

Silêncio.

– Te ofereço resquícios do corpo de Olívia – Teresa tateou no chão e, então, despejou na bacia pedaços de unhas cortadas dos quais Olívia se desfizera no dia anterior.

– Que me ofereces em troca?

– Te ofereço meu corpo para que nele tenhas uma mensageira quando necessitares.

– Que me ofereces em troca?

Um vazio retumbou em seu estômago.

– Te ofereço a alma de Olívia Baum Fontoura.

Os olhos da entidade brilharam.

– Tu sabes o preço disso.

– Sei.

– Tu sabes o preço disso.

– Estou ciente.

– Tu sabes o preço disso.

– Sim… e vou arcar com todas as consequências disso.

*

Na mesma noite, Olívia teve um surto psicótico, rompendo bruscamente com a realidade ao seu redor, o que forçou seu pai, desesperado, a interná-la. Na mesma noite, sete entidades violaram o kathos de Otávio, achando por direito cobrar-lhe a lei tácita da seletividade, por ter permitido que uma humana pactuasse algo tão grotesco com uma entidade como Xonturá. Na mesma noite, morreu a Teresa rebaixada, humilhada e inferiorizada… e ascendeu a Teresa estrela. A Teresa desejada, invejada, poderosa. A Teresa que Teresa sempre desejara ser.

8

O Parque Farroupilha, popularmente conhecido como Redenção, estava vazio àquela hora da madrugada, exceto por uma ou outra figura desesperada procurando sexo. Fazia muito frio e o vento surrava as árvores, mas o céu estava limpo, sem estrelas. Em frente ao chafariz no centro do parque, Teresa aguardava. Usara o colar, um bem íntimo de Olívia, para invocar um feitiço que pudesse localizá-la.

A analista tremia, por dentro e por fora. Não de frio, mas de medo. Como Olívia reapareceu do nada? O feitiço da entidade Xonturá havia acabado com a sanidade dela, transferindo a Teresa tudo que lhe pertencia: poder, dinheiro, prestígio, beleza. Até a viagem e a formação na França. Como, então, aquilo poderia estar acontecendo? Como Teresa poderia se proteger daquilo que desconhecia?

De repente, o chafariz explodiu numa torrente de água mirada para cima, provocando um susto gigante em Teresa, que recuou para trás. As luzes do parque começaram a oscilar, piscando até desaparecerem. O frio na barriga da analista se intensificou até se transformar em dor. Há anos não sentia essa sensação de desespero, de inferioridade, de… humilhação.

Um toque repentino em seu ombro fez com que desse um grito que ensurdeceria quem estivesse por perto. Virou-se de modo brusco e encarou a silhueta de uma velha esquálida, praticamente puro osso, vestida com um avental branco. O rosto encovado, os lábios murchos, a boca sem dentes num sorriso de escárnio. Os olhos azuis, outrora brilhantes, agora vazios.

Olívia gargalhou enquanto Teresa caía para trás, quase tropeçando em direção à água do chafariz. A analista fez menção de conjurar um feitiço para fazer o vento repelir aquela criatura, mas Olívia foi mais rápida e bloqueou a energia com as mãos ossudas.

Teresa se ergueu, vacilante, e encarou a inimiga.

– Surpresa? – indagou Olívia, a voz rouca e chiada.

Não houve resposta.

– Sabe, Teresa… depois de conhecer a loucura de perto, fora dos livros, para além dos manuais, muito mais profundamente do que o contato com tuberculosos esquizofrênicos no Sanatório Partenon, posso dizer que me sinto… profunda.

A analista bamboleava com as pernas, tentando, sem sucesso, pensar no que fazer.

– Profundamente esvaziada de sentido. Profundamente cheia de vida. Profundamente conhecedora do horror, da esquisitice, do desvio, da norma, do poder, da beleza, da paixão, da raiva, da intensidade de todas as delícias e torturas que tu puderes imaginar. Eu seria capaz de desafiar Deus a um duelo de truco, se ele existisse. Sabe, quando tu, delicadamente, ofereceste minha alma em troca de tudo que me era mais caro, me apunhalando por trás como a ratazana covarde, suja e mesquinha que tu sempre foste, eu viajei bastante. Entre um surto interminável e outro, conheci bastante a respeito da vida, da morte, da natureza. Sofri torturas bárbaras. Tu provocaste um cataclismo no plano das entidades. Fui violada de todas as formas que tu puderes imaginar: no que restou do meu corpo, no inconsciente, na alma… no kathos. Fui desintegrada do meu ser, só para ser recosturada e arrebentada, estuprada e brutalizada novamente. E também fui amada, desejada, acarinhada, fodida, penetrada vulgarmente, do jeito que tu gostavas antigamente, quando aquele preto miserável comia nós duas como se fossemos um pedaço de carne. Fui plena. Fui tudo. E nada. E ambos. E nenhum… Tu não tens ideia de tudo o que passei nesses anos que pareceram uma eternidade. E, vê só, cá estou, decrépita, mas pronta a te esfolar viva. Não é lindo?

– Como tu voltaste? – perguntou Teresa. – Como te reergueste?

Olívia gargalhou alto, incontrolavelmente, por alguns segundos, até tossir uma gosma amarela purulenta. Então, falou, de modo quase inaudível:

Tu sabes o preço disso.

Foi como se as entranhas da analista tivessem sido arrancadas num só golpe.

– Tu achaste mesmo, na tua burrice obscena, pornográfica, que irias violar os preceitos das entidades? Que irias controlar, dobrar uma entidade? Que mexerias com uma entidade perigosa e poderosa como Xonturá e ficaria tudo sob controle, tudo sob teu controle? Que violarias leis tácitas da magia pra provocar o teu deleite, pra realizar os teus desejos? Cadela ignorante. Burra. Acéfala. Imbecil. Xonturá me libertou da loucura, Teresa. Depois de tanto tempo, me vi livre das grades da insanidade. Vi meu poder ser recobrado pouco a pouco. Sabe por que, Teresa? Porque tu sabes o preço disso. Tu conheces as leis. Tu conheces os pactos. E tu os violaste conscientemente. Tu fizeste uma entidade realizar uma atrocidade, violando e tomando a alma de uma mortal, provocando uma guerra no plano espiritual que desolou entidades e desestabilizou praticantes humanos. Mas Xonturá soube esperar pela oportunidade de te pegar. Alguma hora tu pagarias pelo teu abuso, insubordinação e ousadia. Te perguntaste o motivo do teu desânimo nas últimas semanas? Da angústia irrefreável que sofrias sem conseguir buscar no teu inconsciente a resposta? Eram as correntes sendo quebradas, Teresa. Era a vingança chegando. Tu querias vingança, não? E me escolheste como objeto. Palhaça. O mundo é de quem tem dinheiro. De quem suborna. De quem controla a polícia, de quem monopoliza a violência, de quem faz girar as engrenagens, de quem exerce o poder. De quem não se deixa capturar pelos fluxos. De quem aprisiona os fluxos, para então libertá-los. De quem os comanda. O mundo é dos fortes. Dos grandes. O mundo nunca será teu, Teresa. Nunca foi. Te prepara pra conhecer o que no imaginário popular se chama inferno. Vais descobrir que é muito pior. Vais descobrir que…

Então, tudo aconteceu muito rápido. O vento soprou com força, as águas do chafariz esguicharam vapor, sacudindo-se em ondas enormes. Teresa aproveitou-se do longo discurso: reuniu o máximo de ódio, raiva e violência em seu kathos e concentrou na palma de sua mão esquerda. Olívia foi arrastada pela corrente de ar, e então duas coisas explodiram: a mão que Teresa estendia, esguichando sangue e fazendo-a urrar de dor, e a cabeça da velha, espalhando sangue e miolos para todos os lados.

O vento, de repente, cessou; as águas amainaram. O corpo de Olívia caiu aos pés de uma árvore, inerte, morto e decapitado. A dor da amputação de Teresa era tão intensa que ela sentia vontade de rasgar a pele. A custo de muito esforço, concentrou-se e sussurrou um feitiço para atenuar a dor. O sangue ainda pingava, mas foi aos poucos cedendo. Teresa encostou-se ao chafariz, exaurida, esgotada, sentindo-se morta por dentro. Respirou profundamente.

Perdeu a noção do tempo. Era como se tudo em volta tivesse congelado. Como na noite passada, quando Olívia se manifestara em sala de aula possuindo o corpo de uma aluna. Qual era mesmo o nome dela? Tão bonitinha, tão aplicada. Havia gabaritado todas as provas de Introdução à Psicanálise; era monitora de Psicoterapia Psicanalítica I e candidata a uma vaga num programa de fomento à pesquisa no exterior. Talvez não viesse a ter direito ao gozo, esse imperativo da contemporaneidade, mas deste fosse desfrutar de qualquer maneira. Quem sabe seria, dali a uns anos, uma das analistas mais famosas do Brasil. Faria sua formação na França, cercada de discípulos de Lacan, um dos grandes expoentes da psicanálise. Provavelmente ostentaria títulos a perder de vista: conferencista internacional; mestrado, doutorado e pós-doc na Alemanha, com um sem-número de publicações em periódicos científicos; membro titular de várias sociedades psicanalíticas ao redor do globo. Certamente teria prestígio clínico e acadêmico. Deitar por cinquenta minutos em seu divã, que seria bastante disputado, custaria 400 reais. Como era mesmo o nome dela? Olívia? Não, não. Será que não era… Teresa?

Abriu os olhos, ao perceber que estava quase caindo no sono. Então, uma sombra enorme, com uma foice na mão, surgiu à sua frente, arrancando num só golpe seu pescoço.

9

Teresa acordou de sobressalto, berrando. Foi só um pesadelo. Ela estava viva, e Olívia, morta. Caiu num choro compulsivo, secando as lágrimas com o coto da mão esquerda, logo em seguida murmurando:

– Se o imperador Nero não tivesse devorado a serpente, talvez a República Checa não tivesse entrado em guerra contra os chinchilas voadores. Besteira. A culpa é comunistas. Baderneiros, malditos, transgressores. Quando o Comando de Caça aos Comunistas acabar com o terrorismo, talvez o Brasil volte a ser uma monarquia patriarcal, sexista e escravocrata, cuja religião será o deus Capital. Salve o Capital.

A técnica de enfermagem entrou no quarto e balançou a cabeça. Exclamou:

– Doutora. Vem aqui ver a Teresinha, ela tá dando trabalho de novo.

A “doutora” logo apareceu à porta, trajando jaleco branco, uma prancheta na mão. Tinha cabelos loiros, olhos azuis, uma silhueta jovem e esbelta e a tez branca, pálida.

– Mete uma sertralina 100 mg na veia da vovó, Kátia. Se ela não calar a boca, toca-lhe dois comprimidos de haldol na goela, que ela para com o fiasco na hora.

Teresa olhou para o rosto da “doutora”, e então para o nome no jaleco dela. Não. Não. NÃO! Olívia Baum Fontoura, Psiquiatra. Eu matei ela! Eu explodi a cabeça dela! Berrou em desespero, quebrando a cama onde até então estava deitada.

– Que feio, Teresinha – exclamou Olívia, num risinho sádico. – Quebrando o patrimônio público que as pessoas de bem pagam pra sustentar a vagabundagem aqui, nessa espelunca cheia de doentes mentais. Assim é vandalismo. Não pode. Na próxima, tu vais pro eletrochoque. Se agir desse modo mal criado, as engrenagens não podem girar. Tu sabes o preço disso.

E se retirou, deixando para trás os gritos de desespero de Teresa.


Formação em Psicologia e estruturas curriculares: problematizando lacunas e visibilidades

sábado, 20 abril, 2013

Como a formação dos cursos de Psicologia prioriza certas áreas e negligencia outras e quais as consequências disso.

 

A representação social da figura do psicólogo como profissional autônomo e liberal, exercendo a atividade clínica privada em consultório particular, foi o que me fez – e, acredito, à maioria dos meus colegas – optar pela Psicologia logo após abandonar o Direito. Chegando à sala de aula, pude ver que a Psicologia, até então restrita conceitualmente para mim, é uma ciência tão abrangente e complexa, com teorias, modelos, conceitos, práticas e ideologias diversas e divergentes, que seria mais apropriado falar em Psicologias, no plural. Com o espectro do que é ser psicólogo já ampliado em mim, pude perscrutar – e continuo perscrutando – novos horizontes na minha trajetória de estudante. E isso me levou, depois de algumas leituras sobre a história da profissão, especificamente no contexto brasileiro, a querer problematizar uma questão que, ao meu ver, é fundamental: a da formação dos psicólogos nas universidades brasileiras.

Procurando não me restringir ao ambiente e à realidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da qual sou aluno, tenho feito, a título de curiosidade, buscas pelas diretrizes, ementas disciplinares e estruturas curriculares dos cursos de Psicologia em âmbito nacional. Cada faculdade tem suas peculiaridades e especificidades, dando ênfase a uma ou outra área dentro das inúmeras existentes, a partir de óticas e paradigmas distintos. Uma coisa, porém, me chamou mais a atenção: uma certa tendência, principalmente de faculdades “menores” – ou seja, com uma estrutura menos complexa, como faculdades “unidisciplinares” e alguns centros universitários – de dar menos importância, em seus currículos, à Psicologia Social, Psicologia Comunitária, Saúde Coletiva e Políticas Públicas, caracterizando uma lacuna marcante.

No meio da busca, me deparei com faculdades em cujos currículos havia, no máximo, uma cadeira de Psicologia Social – pelo visto colocada ali apenas a título de disciplina básica inicial. Cheguei a ver algumas que não tinham absolutamente nada de Psicologia Social ou Comunitária em seus programas; outras abrangiam, nas ementas, vários conteúdos numa disciplina só; houve também as que sequer mencionassem questões de Saúde Coletiva e especificidades do contexto latino-americano e brasileiro, dedicando o texto da ementa a conteúdos ligados à Psicologia Social Européia.

É preciso citar também a lacuna muito expressiva, durante essa investigação amadora, de questões ligadas a gênero e direitos humanos. Em algumas faculdades menores, conteúdos ligados à Psicologia Organizacional tomavam conta dos currículos, não só nas chamadas ênfases curriculares, mas reservando disciplinas inteiras a conteúdos que, mais adiante fui pesquisar, são oferecidos em nível de pós-graduação. Já outras eram direcionadas à Psicologia Clínica, priorizando as abordagens de orientação psicanalítica; em alguns cursos, abordagens psicoterapêuticas como as cognitivo-comportamentais e humanistas-existenciais-fenomenológicas sequer são mencionadas. Aí me veio o questionamento: que tipo de profissionais estamos formando, em qual contexto e com qual direcionamento de atuação?

Saliento a questão do contexto porque, ao acessar algumas diretrizes curriculares mais antigas, pude notar que, hoje em dia, a formação continua, com pequenas alterações, voltadas para dar visibilidade às mesmas vertentes: Psicologia Clínica, Avaliação Psicológica e Psicologia Organizacional, todas áreas muito importantes e pelas quais tenho interesse. Mas a pergunta que ficou é: porque estas Psicologias são mais valorizadas em detrimento de questões mais relacionadas ao contexto social e à coletividade? O que faz com que disciplinas como Psicologia Social sejam jogadas para o início do curso e muitas vezes não estudadas ao longo do resto da formação? Porque, quando não ocorre isso, os conteúdos são condensados em duas ou três disciplinas “basiconas”, em geral vistas, também, no começo do curso? Porque muitos cursos, cuja proposta é ser “generalista”, enviesam tanto seus currículos ao ponto de omitir vários outros conteúdos?

Creio que é impossível tratar desses temas sem refletir sobre o histórico da Psicologia no Brasil. A lei 4119 de 1962, que regulamenta a profissão de psicólogo no País, foi promulgada num período conturbado, às vésperas de uma ditadura civil-militar-empresarial que nos flagelou durante quase três décadas e que deixou diversas marcas em variados âmbitos da sociedade. Inclusive na formação dos psicólogos, que é a proposta de discussão que venho tentando fazer. O “boom” desenvolvimentista ocorrido na década de 60 propiciou, segundo as professoras Neuza Guareschi e Helena Scarparo*, que a classe média usufruísse dos serviços psicológicos colocados à sua disposição, eminentemente de natureza clínica e privada, ou, ainda, voltada para a seleção de pessoal em empresas. Isso se deu numa época em que o acesso à saúde, pela maioria da população, era precário – as lutas que dariam origem ao Sistema Único de Saúde estavam engatinhando. Especificamente tratando-se de práticas de saúde mental, pode-se deduzir que tinha acesso a estas quem podia pagar, ou seja, poucos. As práticas psicológicas pareciam convergir com as necessidades de uma certa elite, privilegiada economicamente, excluindo os demais de ter suas demandas atendidas.

Nos encontramos, hoje, em outro contexto, outra época. Por que, então, as práticas mudaram, mas nem tanto? O serviço público, voltado às áreas da saúde e assistência social, é um dos maiores empregadores de psicólogos**. Deduzir-se-ia que a formação profissional teria que, no mínimo, dar mais atenção a isso, preparando os estudantes para trabalhar nestas áreas e permitindo a sensibilização quanto à importância das questões relacionadas à Psicologia Social Comunitária e Saúde Coletiva. Mas não é isso que parece acontecer, como já exposto no começo do texto. Pergunto de novo: por quê? Qual a relação de nossas práticas atuais com as práticas do passado? Por que temos tantos jovens recém formados frustrados por não conseguirem colocação direta no âmbito clínico, sendo que passaram a faculdade inteira estudando a respeito do setting terapêutico e das teorias psicanalíticas voltadas exclusivamente para o indivíduo, muitas vezes descontextualizado da sociedade, da economia e da realidade nas quais está inserido? Por que pouco se debatem questões de gênero e quase nada se fala sobre direitos humanos? Nossa história enquanto categoria, de fato, atravessa nossas posições atuais? Creio que sim, pois acredito na história como produção do presente. Aliás, a própria disciplina de história parece, infelizmente, ser ignorada e desprezada por muitos alunos. Nunca vou me esquecer de uma colega que um dia me disse que “não queria saber de história” (sic), já que estava ali para “aprender como que as pessoas ficam loucas e como se trata os loucos” (sic). Será que a fala dessa colega é isolada, descontextualizada, ou reflete uma ideologia construída não só por meio do imaginário popular – na qual o psicólogo é um clínico particular, de orientação psicanalítica, sentado à beira de um divã, dotado do poder de cura e detentor, junto à Psiquiatria, do monopólio sobre a loucura – mas também pelas práticas consolidadas na academia?

Atentemos ao fato de que não almejo menosprezar quaisquer áreas. Eu próprio tenho muito interesse em Psicologia Clínica e estou, inclusive, fazendo um aperfeiçoamento na área. Aqui falo do lugar de curiosidade e questionamento, pois me incomoda que questões relacionadas à história, formação e currículos sejam, ao menos pela minha experiência em âmbito acadêmico, pouco debatidas, conversadas, problematizadas. Deixo este texto com a intenção de suscitar, em meus colegas estudantes e nos próprios profissionais já formados, pensamentos e reflexões em relação aos temas expostos, pois acredito que, quando certos aspectos da realidade são naturalizados, sem a possibilidade de diálogo, problematização e questionamento, corremos o risco de continuar perpetuando práticas muitas vezes equivocadas, acríticas, retrógradas e até perigosas.

* http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe2/a2519ns2.pdf

** http://www.crprs.org.br/noticias_internas.php?idNoticia=1706