Atualizações (II)

sexta-feira, 23 outubro, 2009

Outra semana corrida está terminando, e os meus sumiços do blog são cada vez mais freqüentes. My fault, eu sei, mas é que, apesar de as idéias pulularem na minha cabeça, acabo não tendo disciplina para sentar a bunda na cadeira e tentar produzir textos novos. É, deve fazer mais de dois meses que não concluo um conto, artigo ou sequer um poeminha. Não gosto de ficar escrevendo qualquer bobagem aqui; logo, é de se esperar que eu tenha algo interessante para falar nas postagens, o que ultimamente não vem ocorrendo.

Venho atravessando uma fase meio… complicada. Estou meio distante do mundo e, de certa forma, de mim mesmo. Perdi o gás e o interesse para acompanhar a faculdade com o vigor do início, mal tenho conseguido escrever (como falei antes) e meu ritmo de leitura está mais fraco do que nunca, pois só consegui ler um livro não-acadêmico em outubro. Acho importante sempre ler coisas de fora da faculdade, mas mesmo a essas tenho dedicado pouco tempo.

Entretanto, c0ntinuo na luta. Já atravessei fases bem piores; acho, também, que aprendi algumas lições importantes com as minhas recaídas, de modo a poder enfrentar futuros problemas com mais serenidade e maturidade. Agora que a semana de provas passou, fico mais tranqüilo. Me vieram à cabeça alguns esboços de personagens para contos novos, lançando um jato de empolgação do qual eu estava precisando.

Falando em literatura, recentemente foi postado na comunidade Escritores de Fantasia no Orkut um link para uma ferramenta essencial àqueles que desejam criar mundos de fantasia, o Fantasy Worldbuilding Questions. O questionário – enorme, diga-se de passagem – permite ao autor modelar com precisão e detalhes seus cenários fictícios, abrangendo não só história, geografia, religião e política, mas também detalhes que muitos deixam de lado na hora de criar universos, como a vida cotidiana e hábitos dos diversos setores da sociedade, por exemplo. Uma ferramenta primorosa, que me surgiu em boa hora!

Bem, de uma divagação, este post acabou chegando a uma dica para criação de histórias, haha. Por enquanto, é isso. Vou tentar não perder o pique e manter o blog atualizado.

Até mais!

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A sombra da incerteza

quinta-feira, 15 outubro, 2009

Os dias de invernos frios no extremo sul do Brasil foram esquecidos. Não se referia mais ao “estado X” ou “estado Y”; aliás, sequer a “Brasil”. Essas noções foram abandonadas há tanto tempo, que boa parte da população local sequer sabia que a Fortaleza do Lago das Víboras um dia chamou-se Porto Alegre. Aqueles falecidos antes da Grande Revolução, décadas antes, jamais imaginariam o que viria a se tornar o estado do Rio Grande do Sul, o Brasil e, de modo geral, o mundo.

Ao contrário da grande massa, André conhecia muito sobre o passado, mas não ousava fazer comentários abertamente. Sabia que era proibido. E alguém como ele, que fazia parte do alto escalão do Sistema, estaria em maus bocados caso descumprisse quaisquer regras impostas pelo governo. Crescera em meio a um ambiente de guerra e instabilidade e sabia que os desprecavidos jamais se saíam bem naquilo que deviam fazer. Desde cedo teve interesse pela arte das batalhas, mais tarde ampliando suas habilidades como guerreiro e destacando-se cada vez mais, até chegar a seu posto atual.

Um general do Supremo Exército Imperial.

Será que seus pais, caso estivessem vivos, aprovariam suas ações? Com certeza não. Eles haviam nascido antes de tudo acontecer. Viram a ascensão do povo-lobo com os próprios olhos e lutaram contra o recém-formado Império até a morte. Saber que seu primogênito e único sobrevivente da família entrara na guerra não como oposicionista ao governo, mas como simpatizante, certamente os enojaria. Mas, bem, o passado estava enterrado para sempre. Ou assim deveria.

Já se acostumara com seus dotes lupinos. A Bênção tinha sido concedida a ele há mais de uma década, devido à sua grande cooperação e aos serviços prestados ao governo. Fora um dos poucos humanos de sua comunidade que se rendera voluntariamente. Para muitos, uma vergonha, mas André tinha planos, e não deixaria que uma estupidez como aquela o impedisse de concretizá-los. Vergonha? Do quê? Só se fosse de estar abaixo na cadeia alimentar. Aqueles humanos deveriam reconhecer seu lugar na nova sociedade imperial e render-se.

Mas não era o que vinha acontecendo.

Ao invés de os movimentos de insurreição diminuírem de intensidade, eles vinham crescendo, de tal forma que começava a preocupar o Alto-Império Lupino. Por sua experiência com humanos, André fora destacado para liderar o ataque a uma das últimas fortalezas humanas de que se tinha notícia, na região da antiga Gravataí. Aquele era o principal foco de resistência do sul do Império. E era aonde o general e um grupo de cento e cinqüenta soldados-lobos estavam indo no momento.

A madrugada corria solta, e faltavam, mais ou menos, vinte minutos para que atingissem o território a ser conquistado. Os soldados estavam distribuídos em quinze caminhões de guerra, sendo que André, junto com o coronel destacado para a missão, sentava no banco da frente do veículo que conduzia os demais. Não temia ser reconhecido e alvejado pelos inimigos; para que impusesse respeito entre seus subordinados, tinha de mostrar que estava sempre à frente.

Assim era André: bravo, autoritário e implacável, um dos “queridinhos” do Supremo Imperador, que lhe conquistou a simpatia mesmo que grande parte da alta sociedade o desprezasse por não ser um lobisomem puro. Já se envolvera num duelo mortal com outro dos protegidos do Imperador – um puro-sangue – e saíra vitorioso. A partir daí, ninguém mais ousou questionar publicamente sua origem.

Valério, o coronel, estava ao seu lado, pensativo. Era conhecido por ser implacável em combate e ter uma posição liberal a respeito da aceitação de lobisomens não-puros, sendo um dos poucos – senão o único – amigos íntimos de André. Checava de tempo em tempo um notebook, fornecendo as instruções para que o motorista os guiasse até a fortaleza humana. O antigo Brasil podia ter ficado mais perigoso após a Grande Revolução, mas não deixou de ser, de certo modo, organizado; os lobisomens desenvolveram métodos que fizeram a ciência e a tecnologia desenvolverem-se ainda mais.

– Senhor, estamos chegando – anunciou o motorista.

André já sabia. O cheiro de carne humana começava a entrar pela frestinha aberta da janela, forte e atraente. Se você ainda tem dúvidas sobre a personalidade dele, devo reforçar: ele não sentia a menor culpa em se alimentar de seus antigos semelhantes. Ainda havia muitos humanos no Império, e a maioria ou era feita de escrava, ou de comida (ou primeiro um e depois o outro).

Aos poucos, a fortaleza ia se fazendo visível. Construída após a Grande Revolução, quando o Império ainda não estava consolidado, era feita de pedra maciça e, segundo o que era conhecido, reforçada com várias placas de metal. Havia uma única entrada: um gigantesco portão negro. A construção tinha mais de dez metros de comprimento, e seu raio era de aproximadamente um quilômetro. Muitos ainda achavam incrível como uma estrutura gigantesca como aquela pôde ser construída em tão pouco tempo; as estimativas eram de que havia quase trinta mil humanos livres – daí a dificuldade de tomá-la, o que foi tentado diversas vezes. Era conhecida como Cidadela do Alvorecer, e tinha auto-suficiência na alimentação e em outros substratos da vida humana, além de possuir um exército consideravelmente numeroso, muitas vezes reforçado por escravos fugitivos.

Acontece que os humanos não iriam enfrentar cento e cinqüenta simples soldados. O grupo do general era formado por guerreiros de elite, os chamados Ceifadores. Quase nunca se reunia um bom número deles, em razão de não haver tantos disponíveis. Mas o Supremo Imperador desejava uma vitória esmagadora, digna de penetrar na mente de possíveis futuros inimigos do Império. Para isso, além da força física, os soldados usariam armas de fogo de última geração. André confiava em seus atributos sobrenaturais, mas, para garantir, guardava sempre consigo uma moderna pistola.

– Pode parar aí – ordenou, ao que imediatamente o caminhão freou.

Desceu, seguido de Valério, observando enquanto os Ceifadores pulavam das portas dos contêineres. Todos eles eram altos e fortes, e ficariam ainda mais na forma bestial, quando seus trajes pretos da elite do Exército seriam deixados para trás. Reuniram-se em volta dos dois superiores, com metralhadoras em mão, aguardando pelas ordens de André, que, com sua voz rouca, disse:

– Todos já sabem o que fazer. Soldados da Vanguarda, quero todos vocês transformados e dirigidos para arrombar o portão. Os restantes, dividam-se conforme o planejado e prepararem-se para dar coberta e, ao meu comando, invadir a Cidadela. Fiquem atentos aos guardas humanos lá em cima, para que vocês não sejam alvejados com prata antes de entrarem.

Ele falou, e assim seria feito. Não havia espaço para questionamentos com André: mesmo os que não gostavam dele o obedeciam quando sob seu comando. Com sua visão privilegiada, o comandante lobisomem viu que havia uma ligeira movimentação de pessoas acima da fortaleza, completamente mal-disfarçada. Amadores.

Não tinha como uma transformação não ser barulhenta; logo, muitos uivos e urros foram ouvidos quando os trinta Ceifadores da Vanguarda transfiguraram-se em enormes lobos bípedes e ferozes, prontos para o combate. Dirigiram-se ao portão numa velocidade aterradora, enquanto os protetores da Cidadela começaram a disparar, tentando alvejá-los. Os soldados-lobos que permaneceram fora da linha de tiro empunharam suas armas, e a quantidade de humanos que foram abatidos facilitou que, um a um, os guerreiros que iam à frente se jogassem contra o portão negro, sem, contudo, provocar grandes amassaduras nele.

O general observava tudo de modo atento. Os sucessivos golpes contra o portão não estavam surtindo o efeito desejado, e uma nova divisão de soldados aparecera no topo da murada e recomeçara os disparos. Havia previsto que fossem ocorrer esse tipo de dificuldades; teria, então, de pôr em prática o plano secundário.

– Larguem as armas! – bradou ele, de súbito.

Os Ceifadores se entreolharam, mas logo obedeceram.

– Todos se transformem, já!

Não aguardaram por uma reprimenda. Seguiu-se um festival de sons selvagens e assustadores, que provavelmente deve ter assustado muitos dos soldados humanos dentro do refúgio. Ao final, havia cento e vinte gigantescos lobos em volta de André, enquanto os outros continuavam forçando a entrada. Na forma transfigurada, era muito mais difícil para a prata fazer seu efeito alérgico.

André inspirou e expirou. Os músculos de seu corpo começaram a se contrair, fazendo com que as roupas rapidamente rasgassem. Seu corpo foi ficando cada vez maior – até atingir os 2,5 metros –, ganhando pêlos acinzentados, que iam até a cabeça lupina e as orelhas pontudas. A bocarra enorme exibia dentes pontiagudos, prontos para estraçalharem seus inimigos, assim como as garras longas e afiadas.

– Escalem os muros! – rosnou num som rouco e gutural. – Deixem que eu derrube o portão!

Mais tarde, acabaria concluindo que, caso tivesse agido de modo diferente, não influiria no resultado final.

– Valério, fique ao meu lado.

Os soldados que estavam à dianteira saíram da linha dos disparos e, junto com os demais, começaram a escalar os muros de pedra, ação que não demorou nem trinta segundos. Urros, gritos, disparos: dali, André não pôde distinguir aquela confusão de barulhos, e nem se preocupou com isso. Avançou junto com o coronel direto para porta, sem que nenhum dos humanos disparasse contra eles; devia ser um sinal de que as coisas corriam bem lá dentro. As ordens previamente dadas aos Ceifadores eram claras: devastar a cidade e assassinar todos que resistissem; comboios imperiais chegariam dentro de poucas horas para recolher escravos e, se preciso, ajudar na conquista da Cidadela.

O pandemônio parecia prosseguir do lado de dentro, enquanto André e Valério golpeavam sem parar os portões; sendo ambos exemplares anormalmente fortes para a espécie, e aproveitando os estragos já causados pela Vanguarda, conseguiram causar ainda mais danos ao portão em pouco tempo. Acontece que, quanto mais se aproximavam de derrubá-lo, mais os sons iam diminuindo. Quando finalmente o portão foi abaixo, o ambiente estava silencioso.

Os dois adentraram um campo de terra batida; podiam ver os contornos das casas e prédios da cidade alguns quilômetros adiante. André voltou os olhos para procurar seus subordinados, mas o que viu foi um cenário vazio: nem sequer os soldados conseguiu localizar.

Arfando pelo esforço empregado, Valério falou, com a voz pesada de sua forma bestial:

– André, o que aconteceu…?

– Quieto!

O general ergueu a mão e começou a farejar. Como não percebera aquele cheiro antes? Não o cheiro de sangue, que notara assim que pisara dentro da Cidadela, mas…

– CUIDADO!

A voz veio de Valério; seu aviso, contudo, não foi necessário para que André se pusesse em posição de defesa, quando dezesseis figuras surgiram do ar, prontas para atacá-los. Havia quinze homens, todos muito pálidos, e uma mulher, que chegava a ter o rosto branco como papel. Seus olhos eram verdes e brilhantes, e lhe causaram uma momentânea sensação de dejà vu e estranheza.

Sete deles foram para cima do coronel, enquanto os outros, incluindo a mulher, atacaram André.

Ele soube, nos primeiros golpes, que não eram homens comuns. Suspeitas confirmadas: vampiros. E mais do que vampiros, tinham algum tipo de energia especial que os deixava ainda mais fortes. Principalmente a mulher.

Conseguiu nocautear dois deles sem muita dificuldade, mas os restantes, além de terem muita resistência aos ferimentos, conseguiram machucá-lo por diversas vezes, incluindo aí um corte profundo em seu peito. Não teve tempo de verificar como Valério estava se saindo, porque o desespero ia se misturando com a raiva dentro de si, o que lhe deu mais impulso e energia.

Arrancou a cabeça de um deles, lançando com uma força devastadora o corpo inerte contra um outro, que caiu estatelado. Engajou-se numa luta feroz contra os demais, os quais pareciam mais difíceis de derrotar. A cada segundo sua adrenalina aumentava, uma raiva difícil de controlar crescendo em seu peito. Os quatro o cercaram, mas ele conseguiu imobilizar um deles, desferindo um soco em seu estômago e jogando-o sobre a mulher. Por um descuido, ela não conseguiu se desviar, sendo afastada por um curtíssimo tempo da luta. Tempo suficiente para que André arrancasse o coração de um dos atacantes e decepasse a perna de outro, num ímpeto de fúria.

Ao final, restavam a mulher e ele; a diferença é que aquela aparentava muita disposição, enquanto este sentia as energias se esgotarem.

Teve tempo de olhar para o lado no exato momento em que a cabeça de Valério rolou pelo chão, seu corpo indo juntar-se aos dos cinco vampiros mortos por ele. Foi como se tivessem congelado o cenário ao redor por alguns segundos. Após, sequer raciocinou: deu um salto em direção ao vampiro grandalhão que assassinara seu melhor amigo, desferindo um soco após o outro e, por fim, degolando-o com uma mordida fatal no pescoço.

Enquanto os vampiros restantes se aproximavam junto com outros recém-surgidos, André pensou. Tinha apenas o mínimo de energia disponível ainda, e, caso insistisse numa luta contra aquela mulher e seus comparsas, acabaria morto. Teve de engolir seu orgulho ao decidir por poupar sua vida.

Quando a vampira chegou perto dele, o olhar dela encontrou o seu – a mesma sensação estranha se repetindo –, antes que ele se pusesse a correr para longe. Me aguarde, porque eu volto para te matar.

Ao chegar próximo ao portão derrubado, viu que os corpos mutilados dos Ceifadores apareceram do nada, jazendo na terra e manchando-a de sangue. Os humanos atiradores também surgiram sem avisos, fazendo mira nele e buscando pará-lo por meio das balas de prata, sem sucesso.

Bruxaria.

André sentiu o cheiro de sangue próximo aos caminhões e viu que um dos motoristas estava ao volante, com a garganta degolada. Ao dar uma olhada geral pelo círculo que os veículos haviam feito, notou que todos os outros tiveram o mesmo destino.

Aproximou-se do caminhão mais distante da fortaleza e tirou o cadáver que estava sentado à direção, tomando seu lugar. Viu que as chaves não estavam na ignição. Sequer pensou em ligação direta: os fios alimentadores haviam sido cortados.

Droga!

A única saída seria usar tudo que lhe restava de fôlego para correr, perseguido pelos vampiros e pelos soldados humanos, até onde agüentasse. E foi o que ele fez. O general André Augusto da Motta, austero e orgulhoso, um dos favoritos do Supremo Imperador, saía derrotado de uma campanha que a princípio julgara fácil de vencer, fugindo como um covarde para garantir sua sobrevivência.

Sua salvação foi a aproximação do nascer do sol. Os vampiros bateram em retirada antes que os primeiros raios aparecessem, e os humanos não tinham um físico que agüentasse competir com um lobisomem no quesito velocidade, mesmo que este estivesse debilitado.

Amanhecia, mas uma sombra agora acompanhava André.

Poderia ser o fim de sua carreira. Ou mesmo de sua vida: o que aconteceria dali para a frente era totalmente imprevisível e dependeria das circunstâncias, ou, melhor dizendo, da visão que o Supremo Imperador teria dos acontecimentos. Entretanto, algo era nítido em sua mente: queria vingança. Mesmo que seu destino fosse ser preso ou condenado à morte, teria de dar um jeito de escapar. Quando o fizesse, iria até o inferno, se necessário, até encontrar novamente aquela vampira e o resto de seu desprezível séquito. Teria de volta seu orgulho e vingaria a morte do companheiro, mesmo que para isso precisasse promover um banho de sangue.


O revés do desacerto

quarta-feira, 7 outubro, 2009

Desde que me conheço por gente, tomei a insipidez como inimiga mortal. A trivialidade me cansa, o marasmo nunca me atraiu… Eu gosto mesmo é do perigo, da instabilidade, das grandes emoções. Que sentido teria minha vida caso eu não me envolvesse em situações tensas e potencialmente arriscadas? Por isso, durante incontáveis anos rodei pelos quatro cantos do globo, à procura de toda a sorte de conflitos. Fui muito criticada quanto aos meus atos, mas não devo satisfações a ninguém. Exceto a você, leitor. Prazer, meu nome é Vandris.

Para situá-lo melhor, acho que devo começar pelo meu passado. Você acreditaria se eu dissesse ter mais de cinco mil anos? Por favor, não ria. É a pura verdade! Sou fruto da união entre um deus – há muito esquecido pelos homens – e uma mortal, num daqueles típicos casos de adultério celestial. Digo que meu pai foi esquecido porque eu, como boa filha rebelde, enfrentei-o em favor do meu livre arbítrio, acabando por tirá-lo do trono dos deuses e exilá-lo, fazendo sua memória entre os mortais extinguir-se. Aliás, muitos poucos dos humanos, hoje em dia, têm conhecimento da existência dos deuses como eles realmente são.

Minha herança genética me daria, geralmente, apenas uma parcela dos atributos divinos, mas, por alguma razão, nasci com uma aptidão anormal ao Poder, a qual me faz ser comparável a qualquer deus “puro”. Na minha juventude, vivi ao lado de minha mãe, uma simplória meretriz, com a qual eu mantinha uma relação estável.  Justamente quando ela morreu, violentada por um cliente, descobri a força guardada dentro de mim. Ao me vingar do assassino, libertei uma energia que chamou a atenção dos deuses – incluindo meu pai. Foi ali, aos 17 anos, que começaram minhas desavenças com os senhores do mundo.

Há princípio, não me dediquei a estudar para aprimorar meus talentos. Mas a necessidade mostrou a face logo; foi quando conheci Lorghan, o único deus com quem já mantive relações amigáveis. Meu mestre, companheiro e amigo; dêem a ele os créditos pelo fortalecimento do meu caráter e da minha força. Ele, inclusive, me ajudou na conspiração que derrubou meu pai, fato pelo qual pagou com o banimento da Terra dos Deuses e promessas de morte. Passados vários séculos do ocorrido, Lorghan ainda vivia isolado, apesar de as perseguições terem cessado há muito.

Foi depois dessa grande reviravolta que minha vida de errante e baderneira, de fato, começou. Me intrometi, durante um longo período, nos conflitos etéreos, que acabavam, direta ou indiretamente, influindo na vida na Terra. Mas, devo confessar, meu real interesse estava nos mortais e em suas guerras terrenas. Seus assuntos me fascinavam – e ainda fascinam – de tal forma, que eu, muitas vezes, deixava de lado as ladainhas dos deuses e me focava exclusivamente na vida dos humanos.

Mesmo podendo valer-me de feitiços inimagináveis – aos quais somente um deus poderia ter acesso –, devo admitir que os mortais produziram uma quantia considerável de magos brilhantes, capazes de feitos extraordinários. Uma das razões pelas quais fui duramente repreendida foi o fato de eu compartilhar alguns conhecimentos com eles, me envolvendo em suas maquinações e ajudando a promover os conflitos que fomentavam.

Acho que você deve se perguntar qual a razão de eu me referir aos humanos como “mortais”. Sim, eu sou uma semideusa, mas, acho que já deixei explícito, é como se fosse inteiramente divina. Não parece arrogância: é. Nunca fui do tipo humilde e sei muito bem de minhas capacidades.

Mesmo com toda essa minha indisposição para a burocracia dos deuses, tive a impressão de que o tempo estava prestes a virar. Podia sentir isso, de algum modo… O posicionamento das estrelas, também, indicava mudanças, como havia percebido naquela época. Fazia mais de dois séculos que não dava as caras no Grande Domínio, como é chamada a terra dos meus adoráveis amigos, e eles não vieram mais me procurar, desde então… Muito estranho.

Do alto do Arco do Triunfo, eu observava o movimento noturno, que tanto me agrada em Paris. Do nada, percebi uma presença, no mínimo, estranha, próxima a mim.

– Tirando uma folga para relaxar?

Me virei, surpresa. Quem mais estava à minha frente, senão o atual Regente dos patetas divinos?

– O que faz aqui, Pansir? – disse eu.

– Já estava com saudades, sabia? Acho que os seus feitos não são muito difíceis de notar, não, Vandris? Aliás, não entendo como você quer se comparar a nós, se insiste em usar esse nome mortal…

– Jamais me comparei a vocês; sou superior, como você bem sabe. Diga logo a que veio.

A expressão dele era ao mesmo tempo séria e zombeteira.

– Venho lhe dar um aviso… Infelizmente, coube a mim essa tarefa indigna; mas, sabe como é, o Regente deve sempre tomar uma atitude quando…

– Não enrole!

O som de minha voz era alto, mas eu sabia que ninguém mais podia nos ouvir. Ele não pareceu se intimidar com a minha agressividade.

– Se você estivesse no Grande Domínio, seria punida severamente por se dirigir a mim desta for…

– … Mas, já que não estou, dê logo o seu recadinho.

Ele me encarou, lívido.

– A Corte Suprema exige seu retorno imediato ao Grande Domínio.

Não pude deixar de rir.

Exige? Desde quando vocês têm o poder de me exigir algo?!

– Sua insolente! – vociferou ele, perdendo a paciência. – Você não faz idéia do que está para acontecer! Não estamos lhe dando escolha alguma: ou você comparece, ou arcará com as devidas punições!

– Fico me perguntando quem, dentre vocês, vai ter a coragem de tentar me forçar a comparecer…

– Por que você acha que eu estou aqui?

Olhei para ele, incrédula. Aquele patife farsista parecia estar querendo medir forças comigo. Ele falou:

– Não pense que, por ser filha de Molfren, pode desafiar um deus como eu, sua criaturinha impura e desaforada!

Se estivesse num dos meus maus dias, já teria pulado no pescoço dele.

– Você certamente irá pagar caro por todos estes séculos de insolência quando chegarmos. Está na hora de se sujeitar às Regras Primordiais, e ninguém melhor do que eu, um ser antigo e muito mais poderoso do que você, para fazê-la obedecer.

– Por que você não fala menos e faz mais?

O que aconteceu a seguir foi tão rápido, que fica complicado de descrever aqui. Ele tentou paralisar o tempo e me capturar com um encanto retentor, mas acabou liberando uma forma de energia incolor e muito intensa, a qual, caso eu não tivesse impedido, levaria a cidade aos ares. Que ser inconseqüente, aquele! Tinha de me livrar dele antes que algo pior ocorresse.

Pansir tentou investir contra mim de novo, mas eu era mais ágil e tinha algo que ele desconhecia: cautela. Foi graças a isso que consegui evitar mais um ataque, enquanto sentia sua raiva aumentar. Por que ele não trouxera reforços? Todos sabiam muito bem que eu era uma ameaça; decerto, o orgulho o impedira de fazê-lo.

Impedi mais um golpe, que por pouco não destruiu o país, tal a sua força. Eu estava gastando muita energia para poupar os humanos de uma calamidade, e já começava a me cansar daquela brincadeirinha estúpida!

– Pansir, desista! Eu não vou com você!

Os olhos dele estavam injetados de fúria. Era do conhecimento geral que o Regente dos Deuses, por vezes, perdia o controle. Se pudesse imaginar o que aconteceria a seguir, teria preferido mandar até ali outro, que não ele.

Numa última tentativa de me atingir, ele fez menção de atacar novamente, mas eu agi primeiro: manipulei parte da minha força e a lancei contra ele. Acontece que eu… Hum, errei na dose, por assim dizer; não medi com precisão a potência do golpe que eu aplicaria. Pansir estava demasiado absorto em tentar me destruir, e acabou não conseguindo se defender: a torrente de energia liberada por mim foi tão intensa, que o consumiu num instante.

Fiquei pasma ao ver uma luz emanar do que fora o corpo do deus, expandindo-se pelo ar até desaparecer na noite.

Demorei um tempo para me dar conta do que fizera. O Regente do Grande Domínio fora destruído – destruído por mim, e esse fato não passaria despercebido. Aliás, os demais deuses provavelmente já teriam se dado conta naquele momento, e eu teria de decidir, em poucos instantes, que atitude tomar. Sabia bem quais seriam as conseqüências dos meus atos; a questão era: estaria preparada para o que viria a seguir?

Eu poderia fugir, é claro; todavia, nunca fui do tipo covarde. Não iria me esconder. Acabaria, de um modo ou de outro, nos portões da terra dos deuses. O que encontraria lá? Não sabia, mas estava convencida de que muitos perigos me aguardavam. Antes, porém, tinha algo a fazer, que talvez me consumisse algum tempo. Mas logo, prometi a mim mesma, daria àquele bando de imbecis o desprazer da minha presença.


O ciclo da criação

sábado, 3 outubro, 2009

Quando o Fim dos Tempos chegou, eu estava ciente daquilo que tinha de ser feito. O caos não demorou a chegar, destruindo toda e qualquer esperança da humanidade. Gritos, dor, sangue, agonia e infinitos suplícios. A sinfonia da destruição.

No sétimo dia de Tormenta, enfastiado de tanto refestelar-me no sofrimento alheio, sentei-me ao lado do Glorioso Senhor, cujo destino ninguém sabia, exceto eu. Ele assistia à ruína de Sua Criação com lágrimas nos olhos, aflito por não ter o poder de impedi-la.

– Satisfeito? – perguntou-me Ele, amargurado. – Diga-me: você sente prazer em testemunhar esta calamidade, em ser a causa dela?

– Nada me alegra mais. Esperei muito tempo por este momento.

Eu sorria, deleitado com meu triunfo. Ele, sentindo o amargo gosto da impotência, falou:

– Por que você fez isto? Que razões tinha para Me trair? Eu lhe ensinei tudo o que você sabe! Eu…

– Você fracassou. A hora de pôr um fim em Seu incomensurável erro chegou.

– Se você Me destruir, sabe o que vai acontecer. Não pense que continuará a existir sem Mim!

– Quer pôr isto à prova?

Ele hesitou.

– Por favor… Reconsidere!

– Você me enoja, meu Senhor.

O lamento de Deus perfurou meus ouvidos, mas não senti pena Dele. Ao meu sinal, a realidade que todos conheciam caiu na inexistência, e o Todo-Poderoso dissipou-se qual areia ao vento.

Certa vez, rotularam-me audaz. Acho que devo concordar. Naquele momento, minha maior ambição se realizara, por fim. Orgulhoso de meu feito, pus-me a dormir, aguardando a hora de meu despertar. Acordando, criaria uma nova realidade, sustentaria a Criação sob um novo poder e, como era de se esperar, esqueceria de Meus atos passados. Moldaria, então, o Arauto, que, quando chegasse a ocasião, iria rebelar-se e trair-Me, pondo fim à Minha existência. A seguir, encher-se-ia de orgulho e, então, adormeceria…

Como sempre haveria de ser.