Sobre a influência religiosa na sociedade e suas consequências

quarta-feira, 6 outubro, 2010

Até então, evitei trazer à pauta do blog assuntos muito espinhosos, cujas exceções se podem ler aqui e aqui. Manifesto, aliás, minha vontade de aprofundar os dois textos linkados anteriormente, já que muito se passou desde que foram escritos e minha visão sobre certos pontos mudou bastante. Enfim. Quero agora aproveitar este espaço para fazer uma breve reflexão sobre um assunto que muito me tem incomodado: a interferência religiosa na sociedade e suas consequências.

Em primeiro lugar, queria lembrar a todos de que vivemos em um Estado laico, com fundamento no art. 19, inciso I da Constituição Federal, que veda o vínculo da União, Estados, Distrito Federal e Municípios com cultos religiosos – salvo quando há interesse público. Não cito o inciso III porque o considero vago, indistinto. Aliás, este artigo, por si só, é de uma fraqueza absoluta: deveria haver espaço claro na Carta Constitucional para tratar de solidificar a laicidade do nosso Estado, já que a desfaçatez de certos setores da sociedade é tal, que este princípio básico acaba por ser relegado a mera teoria.

É absurdo que as religiões possam ter tamanha influência não só no Brasil, mas no mundo como um todo. Vamos nos ater, contudo, à realidade mais próxima: a do nosso país. A força das religiões – e aqui faço um grifo no eixo judaico-cristão, que é o mais poderoso – se faz presente quando vemos entidades religiosas e igrejas dominarem grandes veículos de comunicação; quando percebemos o poder que líderes religiosos exercem sobre o comportamento e pensamento de seus rebanhos; e, principalmente, ao nos darmos conta de que um quinhão considerável do Congresso Nacional é ocupado por representantes de determinadas religiões.

Já começamos errado. Misturar religião com política é algo grotesco e deveria ser proibido. É claro que os religiosos têm direito a se posicionar politicamente, mas não enquanto religiosos, e sim como cidadãos. É de provocar engulhos a manifestação de entidades religiosas a favor ou contra certos candidatos, entrando no jogo das mentiras, calúnias e distorções que preenchem o cenário eleitoral. Onde está o art. 19, I? Ah, sim, esqueci que só funciona no campo teórico. Esqueci, também, de que carecemos de uma posição mais específica da legislação quanto a isso.

A influência religiosa na sociedade é evidente quando analisamos a questão do aborto. Segundo o art. 5º da CF, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. OK, vamos pensar um pouco: o que é “vida humana”? Quando começa? Quando termina? A definição mais aceita é, infelizmente, a religiosa, que diz que a vida começa na concepção, e isso encontra um respaldo absurdo no art. 2º do Código Civil de 2002. Friso, mais uma vez, que essa definição é de influência exclusivamente religiosa. Há morte quando não se tem mais atividade cerebral, sim? Então, por que a vida humana começaria no momento da concepção? A visão mais ponderada, afastando-se do dogma, é de que a vida humana se inicia com a atividade cerebral, a qual surge apenas depois da décima semana de gestação.

Quem levanta bandeira contra o aborto está ignorando – propositalmente ou não – que esta não é uma questão moral, não é uma questão de princípio, muito menos religiosa: aborto é questão de saúde pública. Porque, enquanto não for tomada uma atitude, milhares de mulheres continuarão morrendo ao se submeterem a cirurgias arriscadas, em ambientes insalubres e sem condições de recuperação adequada. E quando digo “mulheres”, estou me referindo, obviamente, àquelas que não têm condição alguma de pagar por tratamento adequado com médicos caros em clínicas de luxo ilegais. Quem levanta a bandeira contra o aborto está sendo cúmplice dessas mortes, ignorando uma questão gravíssima que só será resolvida com conscientização e, principalmente, com a regularização do aborto. As exceções – em caso de estupro, gravidez de risco, etc. – não são suficientes. Não é justo tolhermos das mulheres o direito ao controle de seu corpo; é preciso regularizar amplamente.

Outra coisa necessária é deixar a hipocrisia e o egoísmo de lado. Vamos parar com essa história de que os meus interesses privados, os interesses da minha classe devem se sobrepor ao interesse sociocoletivo. Não. Questões de interesse da sociedade como um todo não devem ser deixadas de lado só porque os dogmas religiosos ensinam que o aborto é uma afronta a deus, que a união homossexual é um pecado, uma aberração. Muitos religiosos vêm com um papo de “liberdade religiosa”. Ok, e a minha liberdade de querer respeito e maior igualdade? Religiões, de um modo geral, pregam o preconceito exposto, a discriminação racial, religiosa e sexual, a submissão feminina, a matança de animais e um leque vasto de outros disparates. Quer dizer que, neste Estado laico, os direitos de aborto e união homossexual vão ser estorvados por causa de dogmas religiosos? Por questões morais? As pessoas precisam aprender que suas crenças religiosas não podem interferir naquilo que diz respeito à coletividade. Ou, então, rasguemos a CF, com toda a conversa de igualdade e liberdade.

Não há igualdade. Não há liberdade. Digo, não há igualdade e liberdade no sentindo amplo, ou seja, para todos. Tais direitos são luxos dos quais apenas um segmento da sociedade pode desfrutar. Pergunto: até quando? Até quando vamos deixar que as crenças religiosas de alguns interfiram na vida da sociedade em geral? É pedir demais que se amplie esse conceito de igualdade e liberdade para todos, de fato? Que se deixe de lado o “consenso geral”, o “senso comum” e os moralismos arcaicos para, enfim, termos uma sociedade mais justa e igualitária?

Só me resta fazer um apelo a todos: votem com consciência. Escolham bem os candidatos que vão nos representar no Legislativo e, agora, com o segundo turno, no Executivo. Não se deixem levar por manipulações, politicagens e boatos. Colocando crápulas no poder, só iremos perpetuar a estagnação das lutas por justiça e igualdade, afastando ainda mais a possibilidade de se construir um país e um mundo melhor.

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[Resenha] Eclipse ao pôr do sol

segunda-feira, 4 outubro, 2010

Mais um ótimo lançamento da Draco

Em meio ao mar de obras rasas, mal escritas, sem revisão e de critérios editoriais duvidosos que inunda a praia do fandom brasileiro de literatura fantástica, é difícil encontrar uma digna de nota, que esteja realmente acima da média. Difícil, mas não impossível, como prova este Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos, do jornalista e editor da CartaCapital Antonio Luiz M. C. Costa, lançado em meados de agosto pela editora Draco.

O que se vê aqui são seis contos escritos com esmero; a linguagem utilizada é um tanto requintada, muitas vezes exigindo uma consulta ao dicionário, já que procura se encaixar ao contexto da época em que cada história se passa, seja o Brasil do final do século XIX, seja a Grécia Antiga. Apesar do rigor formal, os contos se mostram mais do que cativantes. Exemplos claros disso são o primeiro conto, A Nascente da Serra, e sua continuação, O Cio da Terra. Ambos se passam em Portugal – o primeiro, na época das navegações, e o segundo, no século XXI – e apresentam a carismática ninfa Pirene, cuja formosura radiante faz com que os homens que a vejam se apaixonem perdidamente.

É nítida a rica pesquisa feita para a composição dos enredos, o que os torna bastante verossímeis. Há também certa quantidade de referências, que vão de Machado de Assis a Luís de Camões, passando por Florbela Espanca e Homero. Outro ponto de destaque é o tom irônico, quiçá ácido de alguns dos textos, vide o que dá título à coletânea, onde é narrado o roubo da Efígie de Zeus e as consequências de tal ato. Talvez seja o conto com a linguagem mais empolada, mas isso não quebra o ritmo da leitura, que se torna extremamente envolvente após o início.

O conto mais fraco é Louco por um Feitiço, que não chega a cativar, apesar de bem escrito. Talvez tenha faltado espaço para desenvolver melhor os personagens, que soam insípidos. Para compensar, temos o curto, mas eficiente Papai Noel Volta para Casa, que tem um desfecho interessante, e O Anhanga, que, a meu ver, é o grande destaque do livro. Trata de um advogado que, ao fincar laços mais profundos com uma prostituta, vê-a ser perseguida por uma entidade misteriosa. Emulando a linguagem da época – que, aliás, lembra muito Machado de Assis -, é um conto tenso, que prende a atenção até o final.

Há alguns pequenos deslizes na revisão, mas nada que comprometa a qualidade geral da obra, que está anos-luz à frente da maioria das publicações do gênero no Brasil.

Ao término da leitura, tem-se a sensação de que o dinheiro gasto valeu a pena: Eclipse ao pôr do sol é uma ótima coletânea, coesa e muito bem escrita. Fica a dica para os fãs de literatura fantástica – não aquela repleta de lugares-comuns, mas sim uma que transcende, que procura apresentar uma perspectiva nova e mais ousada.