Por que tenho horror a religiões?

Posto aqui, com uma ou outra modifição, a resposta a uma pergunta que fizeram no meu profile do Formspring. Depois de uma pequena conversa com meu amigo Pedro, resolvi trocar o título do post, visto que discorro mais sobre religiões do que a descrença em si. A pergunta original no site era: por que sou ateu?

Vamos lá. Curiosa, essa pergunta, por que foi a mesma que uma testemunha de Jeová fez ao me parar na rua esses dias. Respondi a ele: porque parei pra pensar um pouco. Sou batizado no catolicismo e, durante boa parte da minha vida, acreditei num deus. Mas o que eu tinha não era fé: era medo. Medo, culpa. Dois dos pilares do cristianismo. Aos poucos fui me desligando; não sei bem como aconteceu, mas lá pelos meados de 2004 eu já não me considerava católico, e me assumi ateu em 2005.

Sou, antes de tudo, antirreligioso. Me posiciono contra qualquer tipo de religião, mas principalmente contra o cristianismo, islamismo e judaísmo, que são as mais influentes, e, claro, os maiores poços de fundamentalismo, hipocrisia e retrocesso que se poderia ter. Sou de natureza (auto)questionadora, e para algumas coisas simplesmente não tenho resposta – nesse caso, aliás, ninguém tem. Mas me recuso a acreditar que uma criatura divina esteja a olhar por nós, regendo nossas vidas, pronta a nos punir e mandar para o inferno ao menor pecadilho; refuto até mesmo aquelas teorias de que uma energia, algo superior, não necessariamente um deus, nos criou. De onde viemos? Boa pergunta. Provavelmente nunca será respondida. Só não acredito ter sido do barro ou pela simples vontade de um deus.

Acho que as religiões já tiveram seu papel no mundo, como sempre digo, pro bem ou pro mal. Não vejo mais sentido em buscar amparo numa fé mística quando se pode buscar forças dentro de si mesmo. Algumas pessoas têm fé, mas não ficam paradas, esperando a graça divina: vão lá e fazem, vivem, fracassam, vencem. Não creio que seja a grande maioria, infelizmente.

Outro ponto a se colocar é a indústria da fé. A quantidade de pastores evangélicos, só pra dar um exemplo, que se aproveitam da inocência de seus seguidores é abismal, grotesca e revoltante. Não consta num daqueles evangelhos apócrifos que o reino de deus está em nós, e não dentro de construções? Não consigo conjeturar um modo de acabar com essa exploração, visto que o fundamentalismo nesse pessoal é tão arraigado, que fica difícil, muitas vezes, manter uma simples conversa mais racional. Ouse tentar um diálogo com um cristão fanático, pra ver o que acontece.

Antes, eu procurava respeitar as religiões, dentro dos meus limites. Até que comecei a fazer algumas leituras – e sempre estou procurando saber mais, ter mais base – e percebi que religião não é algo biológico, que vem conosco desde o berço, mas sim uma ideia, e ideias foram feitas para se colocar em debate, criticar, discutir, e não para simplesmente “serem respeitadas”. Desculpe, mas não consigo respeitar instituições que pregam a proibição do aborto, a demonização da homossexualidade, a proibição das pesquisas com células-tronco, assuntos que, aliás, não são da esfera religiosa. Como disse um senador da Argentina, direitos fundamentais não se plebiscitam, como gostaria a execrável Marina Silva, mas se garantem. Não deveríamos deixar o Direito se pautar por dogmas, como lamentavelmente acontece no Brasil e na maior parte do mundo.

O lobby religioso – de cunho majoritariamente cristão – é forte por aqui , mas também se manifesta de forma brutal, por exemplo, nos EUA, com os judeus sionistas e cristãos protestantes interferindo a torto e a direito na política e moldando o país ao seu bel-prazer. Triste que se misture política com religião. São áreas que deveriam ser imiscíveis, mas que muitas pessoas já não conseguem mais ver isoladamente. Sou absolutamente contra partidos políticos ligados a alguma religião, e o que se viu nessas últimas eleições – um candidato disfarçadamente ateu sendo falso e utilizando a máquina religiosa para tentar, de modo golpista, ganhar o pleito, espalhando boatos, mentiras e calúnias – me faz defender ainda mais o reforço do Estado laico, cujo princípio não está presente na Constituição Federal como deveria, de modo explícito.

Enfim, escrevi uma bíblia, mas não disse tudo que gostaria. Nem sei se teria como me expressar melhor. Alguns podem me ter como tão fundamentalista quanto os religiosos que critico, mas acontece que não saio por aí fuzilando-os, e manifesto minhas opiniões quando solicitado ou quando é oportuno, procurando não atingir os indivíduos pessoalmente, mas sim atacando suas ideias. Os ateus passaram séculos oprimidos, sem o direito de declarar sua descrença, e acho que agora é a hora de se questionar o papel das religiões na sociedade e, se não for possível extingui-las (o que seria sonhar demais, creio), ao menos colocá-las em seus devidos lugares: no campo teórico, bem longe da prática.

10 respostas para Por que tenho horror a religiões?

  1. carolina disse:

    Os religiosos deveriam manter a religião mais para si mesmo, ao invés de se meter na vida dos outros, como vejo acontecer muito. ótimo texto, Ramiro.
    ^^

  2. Robson disse:

    —” Mas o que eu tinha não era fé: era medo. Medo, culpa. Dois dos pilares do cristianismo. ”

    Com toda certeza não são esses os pilares do cristianismo.Temor a Deus significa obediência.Essa obediência deve vir de bom gosto,deve ser verdadeira e pura.

    —” Não vejo mais sentido em buscar amparo numa fé mística quando se pode buscar forças dentro de si mesmo. ”

    Filhos matando os pais,mães jogando seus filhos em lixeiras,o desrespeito aos mais velhos.Não.Acho que a religião nunca fora tão necessária como está precisando ser hoje.A religião põe limites no ser humano.Freia o comportamento agressivo e individual,fazendo com que ele se torne mais flexível e coletivo.
    Imagine,se todas essas pessoas religiosas não acreditassem em Deus?

    Eu sou bem indeciso quando o assunto é religião-embora,ache impressidivel-tenho pensamentos dos quais me recusam dizer que sou católico.

    Só para deixar claro,quando falo que a religião é importantíssima nos dias de hoje,não refiro-me ao fanatismo de alguns grupos “religiosos”.

    Não tenho fé suficiente para ser ateu
    Norman Geisler & Frank Turek

    • Ramiro Catelan disse:

      Com toda certeza não são esses os pilares do cristianismo.Temor a Deus significa obediência.Essa obediência deve vir de bom gosto,deve ser verdadeira e pura.

      Com certeza não só esses. Tem também vergonha, dor…

      Filhos matando os pais,mães jogando seus filhos em lixeiras,o desrespeito aos mais velhos.Não.Acho que a religião nunca fora tão necessária como está precisando ser hoje.A religião põe limites no ser humano.Freia o comportamento agressivo e individual,fazendo com que ele se torne mais flexível e coletivo.
      Imagine,se todas essas pessoas religiosas não acreditassem em Deus?

      De novo esse preconceito estúpido de que ateus tem mau coração, praticam crimes, etc. Me prove estatisticamente isso. Aliás, falando em estatísticas, sugiro que dê uma olhada nelas: não é bem verdade que a maioria dos criminosos são ateus, como tu insinua, muito pelo contrário. E discordo que a religião ponha limites no ser humano e que “freia comportamento agressivo”; em geral – principalmente o eixo judaico-cristão – torna as pessoas inertes, incapazes de pensar por si próprias, sempre esperando o aval de deus, do padre, do raio que o parta, sem contar os pensamentos discriminatórios, a submissão feminina, a homofobia, a bitolação em geral.

      Eu sou bem indeciso quando o assunto é religião-embora,ache impressidivel-tenho pensamentos dos quais me recusam dizer que sou católico.

      Só para deixar claro,quando falo que a religião é importantíssima nos dias de hoje,não refiro-me ao fanatismo de alguns grupos “religiosos”.

      Não tenho fé suficiente para ser ateu
      Norman Geisler & Frank Turek

      Ehr, não parece que tu seja indeciso nesse aspecto; ao contrário, parece ter uma visão bem delineada sobre o assunto. Quanto à última frase, que todo religioso/agnóstico acaba por disparar, digo: não tenho fé para ser religioso. As pessoas acham que a dicotomia é entre fé e razão, quando na verdade é entre razão e EMOÇÃO, instinto. Todos temos um lado instintivo, que muitas vezes acaba preponderando. Mas o certo seria que a razão procurasse regular esse lado, e é o que tento fazer.

      Segundo o Aurélio, Fé:
      1. Crença religiosa
      2. Conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto
      3. Rel. A primeira virtude teologal: adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações.
      4. Firmeza na execução de uma promessa ou de um compromisso.
      5. Crença, confiança.
      6. Asseveração de algum fato.
      7. Testemunho autêntico que determinados funcionários dão por escrito acerca de certos atos, e que tem força em juízo.
      Ou seja, eu não tenho uma crença, eu tenho uma descrença, e a diferença é grande. Bem grande, eu diria.

  3. Assunto espinhoso… :P
    Não sou tão radical a ponto de afirmar que não precisamos de religião. Aliás, não é nem a religião que defendo, mas a espiritualidade. Acredito que todos nós, mesmo ateus, temos a nossa espiritualidade: um conjunto de éticas e morais, valores que se respeitam, valores que se desejam alcançar. As religiões vem mostrar ‘caminhos’ para isso (no plural, pq acredito que toda religião que busca melhorar o crente é um caminho e uma das verdades), e tentam direcionar as pessoas na busca desses valores.

    Aí é que muitas religiões/seitas/igrejas falham.

    Ou pq se preocupam mais em afirmar que o seu caminho é o único/melhor, ou pq esquecem que suas propostas devem tbm trabalhar no mundo.

    O problema não é ser ateu ou religioso. É como bem disse o Ramiro, é ser fanático.

  4. Aliás, acredito que a briga é muito maior contra o centrismo religioso em se afirmar a única verdade e com a falta de diálogo que perpetua preconceitos e problemas públicos, do que com a religião em si.

    o papel das religiões na sociedade e, […] ao menos colocá-las em seus devidos lugares: no campo teórico, bem longe da prática.

    Discordo. Como um conjunto de valores, deve ser sim aplicado na prática. Melhorar o indivíduo é o seu objetivo final. Negar às religiões o direito de falar é ser fundamentalmente anti-religioso. Chega de fundamentalismos. O que sempre deve ocorrer é o debate, e não a afirmação. Tanto da igreja (e eu sei que isso não acontece), quanto nosso.

    • Ramiro Catelan disse:

      Salve, Daniel!

      Então. O meu grande problema, como se pode ver no texto, não é (tanto) a fé (mística), mas sim as religiões. E tu há de convir comigo que a maioria delas presta desserviços à sociedade, por mais que haja esse discurso de caridade e “correção moral” das pessoas.

      Concordo que todos temos uma espiritualidade. Cada um tem seu “estado de espírito”, mas não no sentido amplamente empregado, com aquela conotação mística, religiosa, mas sim aquele que é idiossincrasia de cada indivíduo, o modo como nos encaramos a nós mesmos e que acaba se refletindo no nosso comportamento exterior.

      Acho que se as pessoas adotassem aquela “filosofia” do “mais deus, menos religião”, estaríamos melhor, muito melhor. Claro, na minha visão, o ideal seria que as pessoas percebessem que o “deus” está dentro de cada um, não passa de uma ideia, mas é sonhar demais, não? Eu me contentaria simplesmente com a perda de força do fundamentalismo religioso, num mundo onde as pessoas não expusessem seus preconceitos – buscando, aliás, diminuí-los – e aprendessem a conviver em harmonia com os demais.

      Abraços

      • Bem, elas prestam serviços e desserviços. Tá, tenho que admitir que mais do segundo que do primeiro. Mas eu, por exemplo, pautei muitos dos meus valores e ideais na moral cristã, e tento passar isso na vida pessoal e política. Isso foi um serviço.

        Mas, claro, nada comparado às décadas de alienação, preconceitos arraigados (homofóbicos, etnofóbicos e ginofóbicos), dilemas de saúde pública (aborto, camisinha) e dilemas de culpa e de moral (demonização do sexo).

        Quanto a isso, é realmente triste a posição e ação da igreja, tanto dos sacerdotes, quanto dos fiéis.

  5. Pedro Ribeiro disse:

    Ramiro, como você bem sabe, creio que você passou longe de justificar seu ateísmo. Lá em Filosofia, na faculdade, conheço gente que justifica o ateísmo, que diz porque considera frágeis todas as provas racionais da existência de Deus. Você não, apenas falou mal de religião. E aí é capricho, fetiche. Falo abertamente com aquele que já é meu amigo há 3 anos. Nós dois sabemos que não há NENHUMA conexão lógica entre pretensos erros das religiões e a existência de Deus. Na melhor das hipóteses (pro seu lado) todas as religiões estão erradas. E? De onde se implica que Deus não exista? Você não é ateu, é antireligioso. E apesar dessas coisas andarem geralmente juntas, não são iguais.

    Ademais, as religiões promoveram uma série de graças que você ignora. O cristianismo, particularmente, é pai de uma série das concepções hoje tidas tão laicas. Noções como autonomia individual e igualdade entre os povos só foram sedimentados no Ocidente graças à fé cristã, com seus conceitos de livre-arbitrio individual e salvação universal dos povos. O própria marxismo, que te apetece um pouco, está lotado de cacoetes trazidos do cristianismo. Tenho cada vez mais a impressão de que o mundo moderno é um filho malcriado que insiste em negar seu pai.

    • Ramiro Catelan disse:

      Realmente, notei que fugi um pouco da questão de justificar o ateísmo e mais fiz por atacar as religiões; talvez devesse mudar o nome do texto, porque meu objetivo maior é atacar as religiões, e não justificar a falta de fé. Sim, sou totalmente antirreligioso, mas não deixo de não acreditar em deus. Ou virei teísta e não me avisaram?

      Agora, esses teus argumentos do segundo parágrafo são fajutos, pra dizer o mínimo. De onde tu tirou que a autonomia individual e a noção de igualdade foi semeada pela fé cristã? Quando tu me linkar quem disse isso, dou crédito e repenso.

  6. Pedro Ribeiro disse:

    Me expressei mal ao dizer que você não é ateu. Na verdade você dá motivos para ser anti-religioso e não ateu.

    Quanto ao segundo parágrafo, sugiro a leitura de “Humanismo Integral” do filósofo Jacques Maritain. Livro que, infelizmente, só pude ler até agora a parte em que o autor trata dessas origens cristãs do humanismo ocidental, fazendo especialmente uma análise desta influência no caso do marxismo. De qualquer modo, me parecem muito claras essas origens. O Cristianismo formou o Ocidente. E é noção cristã básica a de que somos seres livres e que nossa salvação é individual. Igualmente noção básica cristã a de que todos os povos são iguais em dignidade, sujeitos todos da salvação.

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