Sobre religiões, sectarismo, fundamentalismo e conservadorismo

Confesso que, nos últimos tempos, poucas coisas têm me feito rir. Costumava ter crises de riso longas e incontroláveis na adolescência; mas esse tempo já se foi. O mundo real, via de regra, é bem sério. E quem gosta de levar a vida totalmente “na brincadeira” é ingênuo, para dizer o mínimo. Não me entendam mal; não sou uma pessoa “amarga”, como alguém que absolutamente não me conhece disse esses dias. Dar risada é fundamental. Faz bem. Mas tudo tem limite, não? Tem hora pra brincar, e hora de ser sério. E acho que os problemas do mundo não são motivo de piada, mas sim assuntos sérios e preocupantes.

Ontem, estava navegando por esse site curioso que é o Orkut. Tem muita coisa boa lá, acredite. Mas também coisas assustadoras. O advento do mundo virtual parece ter criado a ilusão de que a internet é uma terra sem leis, onde se diz o que melhor lhe aprouver, sem que se arque com as consequências disso. Uma inverdade que às vezes pode custar caro, mas nem sempre, infelizmente. Minhas buscas me levaram a uma comunidade intitulada “Católicos”. Como o leitor do blog já deve ter percebido, religião é um assunto que muito me interessa. Afinal, para se criticar algo, é preciso um mínimo de conhecimento de causa, não é? Pois bem. Me deparei ontem com a dita comunidade e comecei a percorrer os tópicos. Então, tive uma crise de riso, daquelas dignas da minha adolescência. Cheguei a me atacar da asma. Eu ri para não chorar, literalmente.

Acho que poucas vezes vi tanto ódio, ignorância, conservadorismo e fanatismo reunidos num mesmo lugar. Quem me pergunta o porquê do meu horror a religiões em geral pode encontrar uma resposta nessa comunidade. O que aquelas pessoas seguem não é religião, é SEITA. E estou cada vez mais convencido de que o cristianismo não é um conjunto de religiões, mas um amálgama de seitas que se julgam muito distintas umas das outras, mas que, no fundo, tem o mesmo cerne.

Eu pensava que o mundo – mais especificamente, o Brasil – estava caminhando para uma catarse ideológico-social; afinal, elegemos um operário de centro-esquerda após 500 anos de monarquia, falsa democracia e ditaduras. Mas aí vieram as últimas eleições, e, com elas, José Serra, TFP, neonazistas, viúvas da ditadura militar e… o fundamentalismo religioso. Sim, ele ficou lá, escondido em seu recôndito obscuro, esperando o momento oportuno para dar o bote sobre a sociedade. A campanha política de ódio promovida por um sujeito ardiloso e hipócrita – porque José Serra é ATEU, meus amigos, não se enganem – deu ensejo aos nossos velhos (ou nem tanto) fundamentalistas religiosos, que perderam o medo, saíram de seus escaninhos e começaram a espalhar um rastro repugnante de imundície e perfídia.

Aliás, falar em “fundamentalismo religioso” é um contrassenso paradoxal. Fundamentalismo é, por definição, religioso – sugiro a quem duvida disso uma consulta a um bom dicionário. Não existe “fundamentalismo ateu”. O que pode existir é intolerância ateia às religiões, e dependendo do caso, é justificável. Não me venham dizer que é a intolerância ateia é equiparável ao fundamentalismo. Não é, e eu poderia dar vários motivos, o que, inclusive, talvez seja assunto para outro post. Desafio você que está lendo esse texto a enumerar os grandes males que o ateísmo causou/causa ao mundo. Alguém talvez cite o stalinismo, mas isso seria reduzir a questão a uma ótica simplista, porque Stalin foi um lunático que perseguiu indiscriminadamente tudo que era contrário à sua loucura, e não apenas religiosos; em sua sanha por sangue, ele chegou, inclusive, a matar amigos pessoais. Outros podem cair naquele velho senso comum de que os ateus são “maus”; já ouvi dizerem que a grande maioria dos criminosos é descrente. Bem, quando me trouxerem algum estudo sério, com estatísticas e tudo mais, que fundamente essa afirmação, talvez possamos discutir.

Há quem defenda os benefícios das religiões, em especial as cristãs – e meu foco é sempre o cristianismo, por ser o tipo de sectarismo mais influente no mundo ocidental. Dizem que uma pessoa não é completa sem crer; que as igrejas promovem a “solidariedade”; que as religiões limitam o indivíduo, dão a ele um norte, o põe sob controle. Que controle é esse? Pois o que tenho visto por aí é tudo, menos controle. Não vamos generalizar, também. Há religiosos e religiosos; sectários e sectários. E sei que uma parte considerável dos que seguem uma fé doutrinária é gente muito boa, que procura, por vezes, um amparo que não consegue encontrar em qualquer outra coisa. Achar que estou criticando esse pessoal é demonstrar má-fé. Mas, vejam só: alguém pensa mesmo que os formadores de opinião, as pessoas influentes do meio religioso são as ponderadas, as razoáveis? Se fossem, religiosos como Leonardo Boff e Frei Betto não seriam execrados, perseguidos e oprimidos; teriam muito mais espaço. A realidade é bem mais crua.

Quem tem grande poder de influência são os fundamentalistas. Quem transforma religião em seita são indivíduos como Silas Malafaia, Edir Macedo e, claro, o papa hitlerista Bento 16. Não, o Sumo Sacerdote da Igreja Católica não escapa dessa. E aí, voltamos à comunidade “Católicos”. Convido o leitor a dar uma passada por lá. Procure pesquisar sobre assuntos como uso de preservativos, aborto, união homossexual, castidade, submissão feminina. Não vai encontrar nada muito sensato – porque as pessoas sensatas, quando OUSAM expor as falhas do sistema e fazer questionamentos, são sumariamente expulsas. Não é permitido discordar da “doutrina da única Igreja de Cristo”; experimente, por exemplo, fazer qualquer comentário sobre o papa que fuja da veneração cega e doentia e verá o que acontece.

Acho que, caso Cristo realmente existisse, não acharia nem um pouco bonita a “cafetinagem de Jesus” e ficaria triste em ver certos indivíduos dizendo e fazendo atrocidades tendo como fulcro seu santo nome. É fácil pregar a paz e o bem, mas ainda mais fácil fazer o contrário. A paz de deus aos sectários de deus; ao resto, o inferno, dor e toda sorte de horrores. Entendi errado? Acho que não. É o que vários dos membros dessa comunidade pensam. E esses membros não fazem apenas campanhas virtuais; eles existem de verdade – boa parte deles, aliás, atuou efusivamente nas eleições de 2010. Assustador? Sim. Muito. Eu, particularmente, me assusto ao ver um sujeito não muito mais velho que eu pedindo orações para que os jovens “renunciem ao prazer carnal e possam estar voltados a cuidarem da saúde espiritual” durante o carnaval. Me indigno com gente defendendo a demonização da homossexualidade, lutando contra os direitos LGBT, praguejando contra a legalização do aborto, defendendo o uso de véus pelas mulheres durante os cultos; tem uns que chegam a defender a Inquisição, coisa pela qual até a Igreja já se retratou. Esses são apenas alguns exemplos. Há muitos, muitos mais. Perca cinco minutos do seu tempo no fórum; garanto que será esclarecedor.

Sempre costumo dizer que o correto é atacar ideias, e não pessoas. Confesso, porém, que é um trabalho árduo distinguir uma coisa da outra. Porque quase sempre acabam se misturando. Alguns daqueles sectários simplesmente são o que pregam, vivem para aquilo, e todos os seus gestos e ações são voltados para a doutrina. Eu sou ateu, esquerdista e vegetariano, mas também muitas outras coisas; não me parece ser o caso de vários deles, mas tudo bem. Eles lutam pelo que acreditam; eu igualmente o faço. E no que acredito? Acredito num mundo mais justo. Num mundo melhor, sem tanta violência, sem preconceitos explícitos e exacerbados; em suma, um mundo em que impere a empatia e o respeito. Não é utopia. É possível. Mas não é nada fácil de ser implantado.

Enquanto houver seitas, não teremos paz: teremos conflitos religiosos, xenofobia, homofobia, racismo e outros males. Esperar pelo fim das religiões, é, bem, uma quimera. Agora, lutar para que o conservadorismo seja amainado, para que as pessoas desenvolvam maior (auto)crítica e passem a (se) questionar… bem, essa é uma causa que considero fundamental, e acho que vale cada gota de suor empregado. Minha luta não é contra os religiosos, mas contra o sectarismo que tomou conta das religiões. O evangelho apócrifo de Tomé diz que o reino de deus está dentro das pessoas, e não em construções. Me daria por satisfeito se esse pensamento tivesse maior aceitação. Não vou descansar enquanto não levar um pouco de questionamento ao maior número de pessoas possível. Não é apenas um desejo pessoal, mas um dever de alguém com consciência social e que se importa com a coletividade, sem olhar apenas para o próprio umbigo. Pense nisso.

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13 respostas para Sobre religiões, sectarismo, fundamentalismo e conservadorismo

  1. Lina Carolina disse:

    Mais uma vez, excelente texto, Ramiro.
    Pude acompanhar alguns tópicos na comunidade citada, e realmente o que mais se vê lá é o fanatismo cego e a pregação de ódio a todos que não seguem seus preceitos. Onde fica o amor ao próximo e o “quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra”? É muita incoerência desse pessoal querer julgar o comportamento dos outros como se fossem livres de qualquer erro, só por seguirem uma religião. Tem muita gente que acredita que, só por pagar o dízimo, garante lugar no paraíso, estando livre para praticar atrocidades de cara lavada.
    Mais uma vez, parabéns pelo post bem elaborado.

  2. Aline disse:

    Posso fazer uma correção? Ok, se não podia, vou fazer mesmo assim. No evangelho de Tomé, assim como em Lucas (17:21), temos um problema de tradução. “Dentro” pode ser traduzido como “entre” vós. Além disso, existem estudos que dizem que esse jogo de preposições significa na verdade a mesma coisa: Jesus se referia ao mundo espiritual, e não ao mundo físico, que é o que vemos.

    • Ramiro Catelan disse:

      Teus comentários são sempre benvindos, Perse. Olha, esses dias eu estava lendo uma matéria que mostra 10 traduções ABSOLUTAMENTE diferentes umas das outras de uma passagem da Bíblia que fala sobre homossexualidade. Então, sim, há problemas de tradução, e esse evangelho de Tomé pode estar viciado também. Então vamos jogar as traduções modernas da Bíblia no lixo? (Sonha, Ramiro, sonha…) O que interessa é a mensagem desse trechinho que citei, e poderia muito bem não estar em evangelho algum, apócrifo ou não, que eu “concordaria”. Digo, com restrições. Claro que seria ideal que todo mundo deixasse as crenças místicas de lado, mas, como isso não é possível, me dou por satisfeito afastando as pessoas do sectarismo e propondo um distanciamento das religiões. Se elas perderem a crença, melhor. :)

  3. Olá.
    Sou cristão. Descobri teu blog por acaso.
    Cara, depois de ler o post e refletir bem, acho que tudo que posso dizer em relação ao que você levantou ao final é: Amém.

    Mas a coisa é ainda mais complicada. Para nós cristãos, claro. A doutrina do Reino de Deus dizia que ele já havia chegado, mesmo há dois mil anos atrás, e está nos quatro evangelhos canônicos, além de em Tomé, não canônico. Então é ainda mais vergonhoso que essa mensagem, como você mesmo colocou, independente de traduções, não tenha maior aceitação.

    Enfim. Teu texto é bem contundente.

    Paz.

    P.S.: Mas a fé fica. (=

    • Ramiro Catelan disse:

      Espero que o texto tenha servido pra alguma reflexão. Esse é meu objetivo. Os ateus mais ingênuos tentam convencer os outros a aderir à descrença, sem se dar conta que o FUNDAMENTAL é primeiro afastá-las das RELIGIÕES; depois a gente pensa no ateísmo. :)

      Abraço

      • Wendell Amaro disse:

        Sou cristão católico, mas já fui ateu, à toa, budista e o caralho a quatro . Mas voltei a crer no catolicismo, mas, assim como você desejaria que todos fossem, eu me questiono, e muito, sobre a bíblia, sobre o que a Igreja prega e enfim, tem muita coisa nas escrituras que tem sentido, lindas histórias que se aplicam até hj, conselhos que eu sigo, maas, tbm há muita incoerência, e o que mais me irrita é que os ateus analisam a biblia, enquanto os crentes apenas a aceitam, tudo o que há nela deve ser seguido . Mas tipo, como Deus diz para não matar e há tanta carnificina na biblia ? Essas e outras questões são levantadas por mim, e não vejo resposta .
        Vejo cristãos, não só católicos, falarem:
        ‘Tem é que morrer mesmo ir pro inferno.’
        Jesus a todo momento tentava salvar almas, e agora seus seguidores não fazem o mínimo esforço para ser igual a Ele .
        E por último, no livro ‘O pacto’ de Joe Hill, há uma questão interessante:
        Se Deus não aceita os pecadores no paraíso e a função do demônio é a de punir tais pecadores, então os dois devem estar jogando no mesmo time.
        Essas coisas me deixam encabulado, mas continuo tendo fe de que tudo vai melhorar .
        abrçs !

  4. Claudius disse:

    O problema é que tem deuses para todos os gostos..Eu acho que deveria haver um maior controle de qualidade….!!!!!

  5. Pedro Ribeiro disse:

    Ramiro, como você já sabe há dois ou três anos, sou católico convicto, ortodoxo e praticante até onde meus pecados me permitem. Meu objetivo maior de vida é manifestar e pregar em vida a doutrina daquela que considero a verdadeira Igreja de Cristo. No entanto, como você também sabe, curso a faculdade de Filosofia numa universidade totalmente laica, aliás, com um ambiente intelectual em geral hostil à religião. E, veja só, por mais firme que sempre fui contigo na defesa da tradição católica, você sempre me deu a graça de ser chamado “guri crítico”. Portanto, não há qualquer incompatibilidade entre ortodoxia religiosa e senso crítico. Quanto às comunidades de Orkut, há fanatismo e exagero por vezes? Há. Como também há em quaisquer comunidades “ideológicas”, só dar uma olhada nas esquerdistas. Eu entendo que você não compreenda boa parte daquilo que se diz no debate entre católicos. Você não entende e não comunga de nossos pressupostos. Só gostaria de lembrá-lo e pedi-lo que não faz qualquer sentido debater catolicismo à luz de uma comunidade de Orkut. Pra debater a Igreja de uma forma madura e inteligente tem que ler os seus Pais, os seus grandes teóricos, os seus pensadores, os seus filósofos. Não é ler Boff não. É ler Santo Agostinho. É ter consciência que a doutrina católica não foi sistematizada por tolos e ignorantes, mas por retóricos, por professores universitários, por pensadores. Não vale nivelar por baixo, Ramiro. E aí, você bem sabe, não é honesto intelectualmente. Ninguém pode debater marxismo baseado em texto de blog de militante do PT, mas em Marx.

  6. Pedro Ribeiro disse:

    O mesmo digo para o irmão Wendell, que tem dúvidas de fé. Foi a crise religiosa que me levou à filosofia. E foi o questionar minha fé que me tornou ainda mais católica. Ou se estuda e aprofunda o conhecimento da história e da doutrina ou nada feito. Ou se sai de Padre Marcelo e se caminha para Santo Agostinho, Jacques Maritain ou vamos permanecer nivelando por baixo.

    Quanto à Inquisição, é evidente que tortura e os exageros foram abomináveis, mas a premissa de um órgão que excomungue e puna disciplinarmente aqueles que se dizem católicos mas contrariam a doutrina é absolutamente legítima, tanto que a Congregação para a Doutrina da Fé lá continua.

  7. Pedro Ribeiro disse:

    Aliás não digo isso como quem seja muito profundo. Meu conhecimento de doutrina católica é acima da média, seguramente, mas também é certo que é muito abaixo de uma discussão em nível realmente bom.

  8. Ronald Loma disse:

    O literalista e fundamentalista vive no engano por que coloca todo o seu entendimento no rigor da letra morta, sem discernir as intenções e ocultismo presente nas escrituras.

    Infelizmente, o fundamentalismo, seja de qualquer tipo ou religião que se trate, (e aqui eu amplio estas minhas considerações às outras religiões fundamentadas em escrituras, visões e profecias) é alimentado por um mesmo espírito. Um espírito de ódio, pelo qual o cisco no olho do próximo é tratado com severa inclemência, mas a trave no olho do fundamentalista é ignorada ou tratada com complacência e condescendência.

    Por esse raciocínio, se igualam nessa odiosa irmandade, todos os defensores de “deus”, todos os acusadores de pecados, todos os defensores das morais vigentes, os coadores de mosquitos e engolidores de camelos, os inquisidores antigos e modernos que não temem condenar às fogueiras santas da exclusão e do desamor todo aquele que não é igual a si mesmo.

    O Evangelho ou Boa Nova de um “Jesus” que perdoa, acabaria com o fundamentalismo, por que aquele que recebeu de graça, de graça dá, o que foi perdoado, perdoa e aquele que não foi julgado, mas salvo, não se constitui mais juiz do seu próximo.

    Isso seria algum tipo conversão, mas tal é impossível diante da letra que pressupõe pagamentos e sacrifícios com sangue.
    Ou nos convertemos ao Evangelho do amor e do perdão do verdadeiro DEUS ou nos convertemos aos fundamentalismos escriturísticos travestidos de evangelho ou de religião, mas que são sempre, a velha má.

    A saída é discernir entre a voz de DEUS e a voz dos pastores e impostores. A voz de DEUS, simplesmente perdoa. A voz do Impostor, exige sangue.
    Uma, é voz mansa e suave, a outra é de trovão, mas quem discernirá, se pela escritura, o mesmo que veio com voz mansa e suave, acaba por se manifestar com ira e maldição?

    • Concordo. Convicções pessoais à parte, acho que existe diferença entre uma fé que agrega, que prega o amor – e aqui falo do amor total, sem hipocrisia e distinções generalizadas – é bem diferente da fé mercenária, que prega ódio, discriminação, violência e segregação. Abraços

  9. Sergio Fernandes disse:

    Por anos e anos da minha vida tive uma visão de organização social bem parecida com a sua. Não sou e nunca fui ateu, mas repudio até hoje qualquer forma de fundamentalismo, exploração econômica da fé, hipocrisia moral, e a insaciável sede de poder presentes em todas as religiões que conheço. O Deus que acredito não tem nada a ver com conceitos humanos de justiça, certo ou errado, bem ou mal, enfim, todas estas produções filosóficas que credito em 100% na conta dos homens. Acredito no Deus de Einstein, uma consciência cósmica que rege as leis do universo, apenas. Certamente, aos olhos dos religiosos, isso é ateísmo puro, mas eu não vejo assim.
    Quanto ao velho sonho de uma sociedade mais justa e humanitária, a história (tanto antiga quanto recente) nos dá conta de um ideal que se distancia mais e mais a cada era. Simplesmente desisti deste sonho. Os fatos nos mostram que o domínio do homem pelo homem é uma realidade da qual não temos como fugir. Parece estar em algum lugar do DNA humano a orientação de líder ou liderado. O poder não é tão somente um desejo, é uma necessidade para alguns, que o perseguem com tanta avidez que, mais dia menos dia, o alcançam. E quando isso acontece, o homem revela a sua face mais cruel. O poder corrompe, inebria… hipnotiza. Poucos na história da humanidade conseguiram resistir a este canto da sereia. O perigo não está no alcance do poder, está na febre da sua perpetuação. Nesta hora entra o “vale tudo” o “salve-se quem puder”. O poder político abre as portas para outras formas mais temerosas ainda, o poder econômico. Dinheiro é como o crack, vicia ao primeiro contato. Aí, todas os ideais de justiça que ainda poderiam ter sobrevivido, sucumbem ao prazer e ao conforto que o vil metal pode trazer. Pronto… ciclo fechado. O indivíduo estará irremediavelmente “perdido”… nunca mais será o mesmo!!!
    O pior de tudo – e é exatamente aí que qualquer mudança neste cenário se torna inviável – é que a grande massa mostra-se alheia, e – pior ainda – prefere se manter alheia. Finge acreditar nesta instituição cínica que as elites chamam de democracia. Engole a seco toda sorte de insultos processando-os para admiração, tornando-se cúmplice… sócia da fábrica de veneno que a mata a cada dia. Toda forma de elite político-econômica é podre, e a sua podridão é alimentada pelas camadas inferiores, que o fazem por pura acomodação.
    Não tem como evitar. Não tem como fugir. Ou a gente aprende a conviver nesta lama, e, como a flor de lótus, tenta extrair algo de bom deste pântano, ou morre lutando numa batalha eterna e inglória, como tantos sucumbiram sem chegar a lugar algum.

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