Incongruências, ou sobre a promessa da solidão

We are all alone, and I will tell you of loneliness.

Otep – House of Secrets

Estamos sozinhos, e eu vou te falar sobre a solidão. Comecemos devagar, de modo suave, que é pra melhor apreciar a dor. A dor a gente curte assim, nunca te falaram? Pois é. Curtir a dor. Tem que ser desse jeito, senão perde a graça. Primeiro você se liberta das amarras, depois se atrela novamente a elas e, pá, cá estamos. Eu, você. Estamos sozinhos. Totalmente sozinhos. E eu vou te falar sobre a solidão. E a solidão não é algo, assim, fácil de compreender. Mas é fácil senti-la; nada de esforços hercúleos: eu estou aqui, você está aí, ou aqui – não sei bem.

Muito do que falo pra você, na verdade, é pra mim. Mas isso não significa que não seja também para você. Se não fosse para você, eu não falaria, não é lógico? Ah, esqueci, você não é dada a tais sutilezas. Gosta mesmo é dos impulsos, do se-deixar-levar-pela-emoção. Quando a gente inventa de cair nesse fluxo visceral do sentir e sentir-muito e sentir-muito-o-que-não-deve, a coisa complica. E aí vem aquela aguilhoada, e a sensação de vazio – sabe quando a gente se sente um lixo? Somos, eu e você, lixo, um belo lixo; e lixo é pra ser jogado fora. Não?

Eu vou te sufocar com culpa, esse ardil poderoso, esse instrumento de controle, ah, como eu amo o controle – e como eu te amo. Quero te controlar, então passo o peso do mundo pra suas costas, que nas minhas não dá mais. Boa sorte. Aliás, você sabe o que é sorte? Sorte é estar vivo, depois de tanto, depois de tudo; esse tudo acaba virando nada, não é triste? É e não é. Sabe? Não? Nem eu. Não sei muitas coisas. E o pouco que sei acabo esquecendo, logo, não sei. Isso sim é triste, imensamente triste, essa tristeza imensurável, eu…

Não importa. Não importamos, na verdade. Eu e você. Nós. A sós. Estamos sozinhos, lembra? E eu prometi que ia te falar sobre a solidão. Aqui está ela. Não está vendo? Perdão. Você está cega, como pude esquecer? Sou um insensível, você já me disse muitas vezes. A minha insensibilidade me choca, às vezes. Quase não consigo mais te ver. Quem está cego, mesmo? Você? Eu? Nós.

Certa vez você disse que me amava. Mas eu achava, veja bem, que ações falam mais alto que palavras. Então não venha dizer que me ama. As palavras entram nos meus ouvidos como um ruído distante, numa língua incompreensível: a língua do vazio. É, aquele vazio que bem conhecemos. Nos tornamos alquebrados, mirrados, privados de tudo que um dia poderia ser, mas não foi, não será e, bem, eu não quero que seja, não queria que fosse e isso tudo não importa mais; importou algum dia? Nós não importamos, lembra?

Sinto um cheiro de morte por aí. É um perfume, na verdade; doux arôme de mort. Começa devagar, de modo suave, que é pra melhor apreciar a dor. Esse perfume é doloroso, mas eu gosto; a suavidade me encanta – a dele, a sua, a minha, a nossa; mas nós não somos, que falta de tato, a minha. Eu queria te deixar uma marca. Já te falei sobre isso, acho. Uma profunda, impactante e indelével, daquelas que a gente não esquece jamais, nem que queira. Tudo impiedosamente cruel; tudo marcado com dor.

Agora vamos falar da marca que você deixou. Já te falei sobre a solidão: a solidão é isso, esse amálgama de horror, prazer, esplendor e irreverência. Eu te reverenciei e assim me perdi. Se bem que eu já estava perdido; é só uma questão de ponto de vista. Voltemos à marca. Sim. Infelizmente, não saí incólume. Você sabe disso. A marca que você deixou é profunda e intensa e dói, e eu quero sumir. Você me faz querer isso. Posso te pedir algo? Me devolva. Sim, devolva o meu eu a mim mesmo. E eu prometo que devolvo toda a amargura e desgosto que incorporei de ti. A tua marca. Tuas marcas. Essas pequenas mortes, pecadilhos pueris, que vão ficar pra sempre gravadas na minha pele.

Me chama de volta, com aquela mesma voz que eu tanto apreciei. E ainda aprecio. Porque você é a minha maior tortura, minha dose de prazerosa agonia; te bebo toda e não fico saciado – posso ter mais? Ambos sabemos que não. Solidão, lembra? Eu aqui, você aí, ou aqui, ou assim eu queria. Mas querer não é poder. Estamos sozinhos. Totalmente sozinhos. E eu vou te falar sobre remorso, sofrimento e uma saudade que não cabe em mim. Mas disso você bem sabe. Você é a rainha da inocuidade. Me trucida por dentro, mas no fundo eu anseio por isso. No fundo ainda existe um nós. Eu aqui, você aí. Nós, separados. Nós, distantes. Nós, rios que se cruzam, mas que desembocam em mares diferentes. Cumpro minhas promessas. Eis-me; eis o vazio; eis a solidão.

5 respostas para Incongruências, ou sobre a promessa da solidão

  1. Carolina disse:

    Mais uma vez, Ramiro se superando na escrita.
    Parabéns pelo ótimo trabalho!

  2. André Luiz disse:

    Como em tudo o que escreve o texto é bem marcado, vai se auto-refletindo e tem um traço característico que é o de ser forte, vultoso e de peso. Os sentimentos são minuciosamente colocados e é interessante a maneira como os que você parece sentir mais, ganham relevo.

    Parabéns! :)

  3. Alex disse:

    O que é isso meu filho, cheguei a chorar. Vai se catar garoto, pegou toda a dor e transformou em palavras :( e eu em sentimentos.

  4. Camila disse:

    Incrível, invejável – e esses são apenas os i’s. Adorei o texto, Ramiro.

  5. Eros disse:

    Parabens pelo lindo texto!

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