Ilusões, ou sobre pairar entre nada e coisa alguma

No temáis, no, de que os falte
compañía en las desdichas;
pues en duda semejante
de vivir o de morir,
no sé cuáles son más grandes.

Calderón de La Barca – La vida es sueño

A última vez em que nos encontramos foi na borda. Você a cruzou, mas eu permaneci aqui. Aqui estou e aqui ficarei. Não por comodidade, mas porque é preciso. Devoir. Se avanço mais um centímetro, eu a cruzo também. E aí estaremos juntos novamente, eu e você, meu frio e seu cheiro. Já te falei que seu cheiro me deixa louco. É suave, delicado, mas ao mesmo tempo intenso, quase obsceno. Vulgarmente corrosivo, uma incógnita que não é incógnita, porque já a decifrei; seu cheiro me lembra da perda – você sabe, estou perdido. Sabe?

Sabe. Sabe como me enlouquecer. Mas quem cruzou a borda foi você, e não eu. Eu estou aqui e aqui ficarei. Você conhece cada particularidade minha. Você e eu somos uma única idiossincrasia; ilusão, delírio, foi-e-não-volta-mais. Éramos. Você cruzou a borda. Repetir isso me deixa menos inseguro; mas crer que encontrarei segurança nos sonhos é ingenuidade. Você faz parte do meu sonho. E sonhos são apenas sonhos.

Meu ser é eivado de toda a sorte de vícios. Sou praticamente uma teia retalhada de emoções efêmeras, vis e egoístas. Mas o egoísmo lhe é peculiar, também, nessa vereda não estou sozinho. Porque você cruzou a borda, quantas vezes precisarei repetir? E repetir pra quê? Pra quem? Você não pode me ouvir. Você cruzou a borda.

Você é uma ilusão.

A mais preciosa, cálida e incrível ilusão.

Mas ilusões são só ilusões. Não?

Talvez. Não creio que haja maior ilusão do que a vida. A doce vida. Sinta a vida, respire a vida, almeje a vida, mantenha a vida, a doce vida. E tudo que vem com ela. E não é muito. Mas aí talvez seja idiossincrasia minha. Você sabe que sou dado a elas. Meu mundo particular, minha visão fragmentada, distorcida, mas bela, absurdamente bela. No seu mundo, só existe você. No meu mundo, só existe você. E aqui estou, aqui ficarei.

Nesse mundo, sou soberano e esplêndido, e meus súditos são feitos de ossos e pó e algo mais que não consigo captar. Quero entrar no seu mundo. E quando nele eu for rei, vou ostentar aquelas cicatrizes belíssimas que a vida inteira você desprezou. Você sempre gostou do desprezo, e eu gosto de ser desprezado: bate mais, por favor.

Não.

Você não pode. Você cruzou a borda. Maldita borda. Eu a quero, mas não posso tê-la. Quero você, quero a borda; são a mesma coisa? Quero, mas não posso. Aquele caminho a mim é proibido. Você sabe. Digo, sabia, porque agora tudo é irrelevante e incógnito. Perdi a capacidade de te decifrar. Você me devorou antes. Não que eu não goste, mas podia ao menos me dar a chance de respirar. Respirar a vida, a doce vida.

Quero a minha armadura de volta. Sim, eu sei, o peso estava me sobrepujando; você bem disse uma vez que sou apenas uma criança posando de guerreira. Dona da verdade, você. É. Foi. Será. Quando eu for rei, no seu vasto e feérico mundo, ninguém cairá em desgraça. Só haverá você e eu. E eu serei soberano, e você será eu, e então não haverá mais a borda. Não mais importará.

Você me estende a mão. Quer me arrastar. A tentação é enorme, e isso me destrói por dentro. Mas aí eu lembro que você é uma ilusão. E que ilusões são só ilusões, e sonhos são apenas sonhos, e que não há nada pior do que pairar entre a vida e a morte. Mas eu serei seu companheiro até pra isso. Vamos pairar juntos, flutuar em meio ao nada e a toda a insignificância que nos permeia. Quero ser você, me fundir a tudo que você representa, abdicar da consciência. Porque certas coisas é melhor esquecer. Abstraia. Me deixe abstrair a mim mesmo. É difícil, mas o percalço até aqui também foi. Quero lograr êxito. O seu êxito. Por você; o “eu” não importa.

No seu mundo, só existe você. Ponho meus pés fora da linha. Estou chegando. Estou indo em direção a você. Me espera? Ah. Esqueci. Somos ilusões. E… você sabe. O caminho das ilusões é abstrato. Não temos concreção. Não é possível ter. Fecho os olhos e me resigno a esquecer. Me esqueço. No meu mundo, só existe você. E essa é a maior e mais perversa das ilusões.

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3 respostas para Ilusões, ou sobre pairar entre nada e coisa alguma

  1. rafaelleandro disse:

    “Navegar é preciso, viver não é preciso.”
    Fernando Pessoa

  2. Olivia disse:

    Cara, você precisa se tratar. Apesar de eu concordar com você acerca das ilusões, a consciência delas não pode ser um pretexto para enfrentar os desafios e adversidades.

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