A fabulosa hecatombe existencial

“In that final look, does the deer forgive the wolf?”

Otep – Head of Medusa

A corda se rompeu. O laço que nos unia era frágil e previsivelmente esmoreceu; o tempo desgasta tudo, não? Tudo, exceto o ódio que nos avilta, essa centelha fraternal que ainda nos une. Nós, os pretensos intocáveis. Nós, os protótipos frustrados de um martírio sem fundamento; almejávamos ser a palmatória do mundo e colhemos um fruto amargo chamado decepção. Decepção mata, mas a morte nos é íntima; seu perfume podemos distinguir à distância e seu sabor mora em nossas línguas. Línguas bífidas, venenosas – a cobra em mim pronta para te abater e então ser devorada pelos resquícios do que sobrou de ti.

A bem da verdade, não sobrou muita coisa. Talvez um vazio inconstante, incôngruo e amotinador: preenche-me! dá-me um alento, nem que seja um fiapo de luz! Preciso de luz para mascarar a verdade, ocultar a sombra e a incerteza; ou seria para expor? Me expor. Nos expusemos demais. E a corda acabou se rompendo. Ou seria mais oportuno dizer “foi rompida”? Tua lâmina é cega, mas meu âmago é porcelana negra, fácil de romper. Rompemos a corda, o laço e as sensações que de tão ah, meu amor, te quero pra sempre, acabaram se encaixando na definição do nosso caminho: efêmero. Porque tudo é efêmero, só depende do ponto de vista. E meus olhos estão nublados de cegueira.

A dissonância nos afastou. E me afastou. De ti, de mim mesmo, do mundo. A total dissonância entre ser, sentir e (fingir) viver lançou manchas negras no lindo quadro da existência. Conta-me sobre tua existência, teus sonhos e delírios, que aqui, do alto do meu trono de éter, tenho condições de julgar, troçar e destroçar teus relatos de um nível muito superior ao qual estávamos atrelados anteriormente. Níveis desiguais, desejos desiguais, seres desiguais. Somos desiguais. Todos caminhando numa direção. O penhasco ao fim da fabulosa trilha existencial leva até aqui. Cá estou, com meu cetro e coroa invisíveis, pronto a bramir ordens que só serão ouvidas por mim e meu exército de fantasmas rancorosos. Te ordeno: ajoelha, sacia meu desejo. Qual o teu desejo, meu senhor? Tu. Mas senhor, estás falando contigo mesmo. Teu desejo é…

Redesenhar o quadro. Livrá-lo de toda e qualquer mácula. Mas caminhos imaculados são ilusões. As manchas insistem em nos perseguir, cada passo deixando um rastro maior que o outro. Um rastro denso, cheio de raiva, ira e ambição. Diz-me o que tu almejas e te darei. Mas, por favor, não pede que eu me entregue. Já fui consumido pelas agruras desse percalço agre. De mim, só posso doar uma flama tênue e singela. A ti. A mim mesmo. Que o fogo das portas que incendiarei ilumine meu caminho.

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Uma resposta para A fabulosa hecatombe existencial

  1. Lina Carolina disse:

    Ramiro sempre se superando. Mais um ótimo texto, bem escrito e planejado. o/

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