Instruções para caçar fantasmas e a si mesmo

Começo perscrutando o ambiente em volta. A casa é velha e decrépita, o que é bom, pois geralmente as desse tipo estão repletas dos meus alvos. Devo ter em mente que fantasmas são inimigos perspicazes e difíceis de detectar. Preciso ampliar meus sentidos, aguçar minha percepção. É necessário querer eliminá-los, e não apenas varrê-los para longe com um exorcismo frugal.

Verifico meu armamento, algo essencial. Tudo à mão? Ótimo. Vigilância constante, não posso esquecer. Alguém pode me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Eu posso me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Tomo cuidado para não me tornar mais precioso que os fantasmas. Eles estão acima. Circulo pela casa; observo cada detalhe. Sinto o cheiro forte do mofo, o cheiro tão familiar de baús lacrados a sete chaves. Tomo cuidado com os fantasmas, pois eles me espreitam. Analiso os móveis, procuro pelos sinais certos nos lugares não tão certos. Por deus, não posso me tornar como os fantasmas. Eles são execráveis. A sala está vazia; não sinto nada. Bom, muito bom. Mas eles estão aqui. Continuo andando. E tomo cuidado para não me deixar consumir pelos fantasmas. Eles são maus. São perigosos. Eles me causam vergonha. Asco. Medo. Devo tomar cuidado com os fantasmas. Cuidado. Cuidado. Ah, deus, cuidado. Eles vão me machucar. Eu vou me machucar. Preciso me armar. Eu… não! Aí vem um!

[…]

Eu sinto o escuro. Aqui, agora. Lá dentro, lá fora. Não importa: tudo é vazio. Quero deixar a corrente vazar de fora para dentro, fora de mim, não importa: eu transgrido, mas a mim não foi conferido o direito de discernir. Contudo, compreendo esses golpes que dilaceram minha carne, essa torrente escarlate que flui para fora de mim. Fora, dentro, não importa: o mal que vem de fora macula o que há por dentro, e a recíproca é verdadeira. E eu não consegui afastar essas sombras de mim. Acho que elas acabarão me devorando. Se eu não me devorar primeiro.

A mim foi conferido o direito de me resignar e me curvar, ser levado pela matilha de falsas ovelhas em direção ao sacrifício final. Tudo nos eixos, tudo como deve ser. A coluna de Atlas alimentada pelo fluxo irrefreável do passado. As memórias desprezíveis e sufocantes. A horda dos fantasmas e a falange maldita. A conspiração armada por e contra mim chega ao ápice. Um último momento de glória antes da fogueira. Os prazeres da dor. Pronto. Deixe-me ser sua voz. Faça-me gritar até romper as cordas vocais. Até que não reste nenhuma gota de sangue nesse corpo fatigado pelo horror e pela miséria. Que só um resquício da essência se mantenha incólume. Para ser usado. Sim, a bengala, um descartável, mas útil objeto. Use-me como melhor desejar. A caçada acabou. Eu, de caçador, passo a ser caça. Há diferença entre eles?

Uma resposta para Instruções para caçar fantasmas e a si mesmo

  1. Lina Carolina disse:

    Texto instigante e bastante desconfortável. Caçar a si mesmo em um labirinto sem fim de angústia e culpa.
    Continue nessa evolução, Ramiro, os textos estão ficando mais interessantes, mais incômodos.

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