Afótico

“He venido encendida al desierto pa’ quemar

Porque el alma prende fuego cuando deja de amar”

Lhasa de Sela – El Desierto

Era como pairar. Uma suavidade enganosa que, de tão intensa, se fez dolorosa. As delícias e perigos da abnegação. Abdico às correntes e cruzo o limiar, mas permaneço sobre ele. Isso é pairar: estagnação. É a falácia do movimento suave, que leva a uma viagem sem rumo, sem fim. Eu parto, mas permaneço aqui. Distante de tudo, inclusive de mim.

Alguém certa vez me disse que a distância mata. Pois eu digo que a distância nos salvará. Salve-se quem puder, mas, por favor, não nos esqueçamos de despojar e, então, aniquilar as sobras. Até não restarem vestígios do indizível.

Anseio por dizer o indizível. Expressar a vibração primitiva sem que as marionetes de cristal se estilhacem em mil pedaços. Mil pedaços para mil anjos caídos, sedentos por mais. Mais jeitos de aprimorar o engano, de tentar juntar os cacos para reparar o que foi danificado. Quero reparar o irreparável. Isso é dizer o indizível: tornar impossível o possível – e não é possível partir.

Vem estagnar comigo. Percorrer as distâncias inalcançáveis, sonhar com o que não se pode ter, ousar lutar pelo que jamais seremos. Algo inominável nos impele ao impossível: mesmo conhecendo o fim da estrada, não deixamos de insistir, persistir em querer. Querer poder mais. As delícias e perigos da frustração.

Vem quebrar comigo, feito aquelas mil marionetes, frágeis e surrados brinquedos espalhados pelo playground da vida. Como duas crianças, vamos brincar. O passatempo pueril logo se transformará num jogo feroz de morte ou uma morte pior ainda. A vida não deveria ser um jogo – há jeito de torná-la mais do que um mero teatro da morte?

Vem pairar comigo. Nós dois, mergulhados no mar da solidão. Nada é mais doce do que a distância intangível. Solidão a dois é mais poética. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar.

Vem não apenas mergulhar: afoga-te, entrega-te, abjura-te. Afunda em mim e descobre a pérola que se esconde por trás da tua pálida carne. Eu sou a ostra: atira-te, concede-te o luxo de ser engolida e sufocada, e eu te moldarei ao meu, ao nosso prazer. Porque perder-se é aprazível. Perde-te em mim, num lento e aconchegante golpe de misericórdia. Larga a coroa de espinhos e dá-me tua mão: eu sou a verdade, o caminho, a mentira e a contradição.

Mas não me contradigo ao afirmar que, sim, a suavidade causa dor. A dor mais intensa que se pode provar. Indelével, inexorável, irrepreensível. A cortina do suave logo se rasga e revela a aspereza, pronta para nos retalhar em mil pedaços. Aqueles mil pedaços para mil anjos caídos, lembra? Mil anjos escondidos no espelho. O espelho reflete teu rosto, gravura lapidada na pedra do paraíso: selvagem, ofuscante e irredutível. Ao teu redor, imagens de uma vida que não existiu. Era doce. Era suave. Era plena. Era como pairar.

Uma resposta para Afótico

  1. Lina Carolina disse:

    Rami nos jogos de palavras “ping pong” agora. Muito bom, mesmo. Parabéns pelo ótimo texto. Boa essa fase de inspiração, hein?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: