Sobre febres, teias e impetuosidades

Três febres nos compulsam à disparidade do incerto: a tua, a minha e a nossa. Tu, eu e nós, laços entrelaçados na teia dos sentidos. Tua sede mata meu desejo e incendeia nosso templo de cólera e paixão. Minha fome sacia teus desgostos e abala nossos alicerces. Nosso vórtice consome a mim e a ti, nossos passos trépidos na valsa do tempo a passar, arrastar e alastrar. Minha luz ofusca tua sombra, tua plenitude preenchendo e amplificando o vazio em mim.

Nesse caso íntimo de ódio e brandura comigo mesmo, voam farpas nos teus olhos belos e reluzentes. Teus olhos emanam um brilho que é veemente, sagrado, quase doloroso. Teus olhos incendiaram minha alma e deixaram meu corpo em febre: a minha. A luz que irradia de ti ofusca a razão e pacifica a guerra, febre de sangue e suor: a nossa. Minha ânsia assassinada no calor dos teus lábios vaza para um mar de infinitudes, desaguando no teu oceano terno e cálido, febre de dimensões-além: a tua.

Que o fogo do ardor queime nossas estruturas, desintegrando a matéria de nossa hesitação. A cinza dignifica a ruína da carne pulverizada e perpetua o idílio frágil que criamos para ser nosso lar: tua vaidade, meu maior alento. Dos nossos restos se faz uma fênix em revoada, ressurreição de dois espíritos volúveis – a transgressão de um paradoxo.

Busco um pesadelo para chamar de meu, uma raiva da qual eu me adone, um trono que eu possa usurpar e um amor para roubar. Pois coisas entregues logo enfraquecem, perdem o sabor do açúcar condensado em cascatas de prazer. É mais legítimo quando despojo teu coração sem perceberes, te submetendo aos meus caprichos, às multidões que me habitam, o amor que te dedico e a liberdade que escolho nos dar, me emprestar, te conceder. Pela minha chama, nos aqueço; pelo meu zelo, te liberto.

Três febres nos impulsionaram ao abismo de intensas e mortíferas quedas, os graus da dor variando no compasso da dança dos ventos, ventos que te carregam até meus braços. Pois nos meus braços te acolho, te afago, te violento e te curo. Tua adaga rasga meu âmago em mil pedaços febris, expondo as entranhas da minha angústia. Na tua saliva aplaco meus anseios, numa guerra de línguas e mãos e corpos em furor, teu perfume me inebriando e expandindo meus sentidos: só sei que te quero e só sei te querer, e enquanto te quero, mais vou te querendo, até só querer saber de me perder no teu querer. Dois corpos se fundindo num só, febre da utopia: a minha. Rompantes de amor e fúria conduzindo-nos a sendas desconhecidas, febre do transitar: a tua. Luz e sombras digladiando por espaço, integrando-se em ondas de intensidade, febre de querer mais e mais e mais: a nossa.

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