Gestos de calamidade

sábado, 7 abril, 2012

Meu triunfo é a miríade de cadáveres estendidos no campo das eternas lamentações,

vitimados pela chacina da guerra entre minhas centenas de eus,

partícipes da poesia sangrenta que escorre da minha ruína evidente,

o berro da agonia indizível, o brado do silêncio reprimido que retumba.

A dor tritura o peito

e serve um banquete de infortúnios,

de sonhos digeridos pela bílis corrosiva

do meu âmago ferido,

da minha pele inflamada, meus sonhos em cacos,

minha infâmia exposta aos quatro ventos,

espalhando o fogo, que é a arma que utilizarei

para ceifar toda a vida do mundo

e semear meu presente, minha dádiva profana:

quero afogar o mundo em sangue!

Pois só assim terei meu desejo de morte e caos

satisfeito,

só assim alcançarei o gozo

de mil corpos mutilados,

os cadáveres daquilo que não consigo desdenhar,

por mais tentadora que a ideia da consagração me pareça,

por mais desejoso que o martírio filantrópico se apresente;

eu perecerei.

E perecido, minha carne deteriorada feita em pó,

queimada pelo fogo do meu próprio ódio,

hei de ser respeitado,

e ai daquele que zombar da minha aflição inesgostável,

que desaparece enquanto a morte me leva daqui!

Pois quem da minha amargura escarnecer,

que reze para quantos deuses e demônios quiser:

ninguém te protegerá das pragas e do ódio que lançarei sobre ti,

maldito zombeteiro.

Quero te ver berrar num desejo ardente

pelo sofrimento que buscas no meu peito,

pela chama perversa que aniquila a vida

e reduz a cinzas o que um dia foi tenro e belo.

Quero te ver implorar pela calamidade

vinda da Caixa de Pandora

que faço de pinhata,

assim como fizeste de pinhata meu coração,

meus anseios e conspirações.

E quando finalmente toda essa morte

e podridão atingir um ápice de satisfação duvidosa,

te reservarei um pouco desse amor gelado que conservo em mim,

se é que cadáveres amam;

mas sei que poderás arrancar do meu semblante morto

algum suspiro de inocência,

se é que as divindades repugnantes e inexistentes permitem a demônios sentir alguma coisa.

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Cartas ao inominável

sábado, 7 abril, 2012

Rasgo minha carne gelada e te escrevo palavras vacilantes

com o sangue peçonhento que vaza dessas veias dilatadas,

pela fúria do que nem sei, não devo e não irei nomear.

Sou um exemplo do que não se segue

e não me seguirei em direção ao abismo dentro de mim,

mesmo que acabe te engolindo na tentativa vã de calar o vazio que me habita.

Espero, no fogo, pelo conforto das águas inexistentes e tormentosas,

o frio que paralisa a pele, a pele que rasgarei em sacrifício

àquilo que não ouso nomear,

a criação deturpada.

Te destruo com ondas de um pretenso amor, me (des)faço em pedaços

e te ofereço os restos de mim, uma carta, um aperto, alento

jogado ao vento.

Perto do escuro eu me encontrarei

e me (des)farei em outros pedaços

e entregarei a fúria aos que merecem

e me negarei o conforto de uma nova aurora.

Para tudo aquilo que não previ

e que viste se despir nos meus traços bruscos, infames e mortificados,

voltarei com vinte mil pedras e esfolarei tua alma

até que implores pelo que jamais deveria ter desejado,

o néctar da vida desesperada, o sangue que jorra do pulso cortado,

prazer agônico de morrer inerte, mas pleno.

A parede dignifica e amplifica o som da minha voz,

a parede recebe e absorve o canto da lamúria,

perdida no espaço dos abraços que neguei,

das vozes que calei,

dos santos que invoquei,

das verdades que ignorei,

além.

Abraço a morte da ilusão como facas afiadas,

velhas amigas, a cadência da chama vacilante,

que não vacila mais que o coração que insiste em palpitar

apesar do vazio que nem mais lhe cabe.

Escrevo cartas àqueles que não preciso nomear,

ao vazio e desespero que nos purificam

com a raiva e o medo de sentir

cada vez menos, cada vez pior.

Ao vazio intenso que me obriga a me rasgar,

àquela sanha por sangue, o desejo de trucidar

cada alma que se finge viva,

cada falsa alegria, eu desejo assassinar,

e no fim, só me resta golpear teu orgulho ferido,

tuas chagas que não se atrevem a cicatrizar,

e calar tua risada doce e falsa,

pois ofertaste tua dor e tuas vitórias ao desconhecido

e te fizeste presa do diabo,

eu, teu amante, pesadelo libidinoso,

que abre e devora teus sentidos em rompante furor,

a violenta conexão de corpos que se mutilam e se amam

de forma sádica, repulsiva, adorável;

tua coberta de cólera aplaca as agonias de pairar

entre o vazio e algo assim, algo além, que não sabes, não sei.