Gestos de calamidade

Meu triunfo é a miríade de cadáveres estendidos no campo das eternas lamentações,

vitimados pela chacina da guerra entre minhas centenas de eus,

partícipes da poesia sangrenta que escorre da minha ruína evidente,

o berro da agonia indizível, o brado do silêncio reprimido que retumba.

A dor tritura o peito

e serve um banquete de infortúnios,

de sonhos digeridos pela bílis corrosiva

do meu âmago ferido,

da minha pele inflamada, meus sonhos em cacos,

minha infâmia exposta aos quatro ventos,

espalhando o fogo, que é a arma que utilizarei

para ceifar toda a vida do mundo

e semear meu presente, minha dádiva profana:

quero afogar o mundo em sangue!

Pois só assim terei meu desejo de morte e caos

satisfeito,

só assim alcançarei o gozo

de mil corpos mutilados,

os cadáveres daquilo que não consigo desdenhar,

por mais tentadora que a ideia da consagração me pareça,

por mais desejoso que o martírio filantrópico se apresente;

eu perecerei.

E perecido, minha carne deteriorada feita em pó,

queimada pelo fogo do meu próprio ódio,

hei de ser respeitado,

e ai daquele que zombar da minha aflição inesgostável,

que desaparece enquanto a morte me leva daqui!

Pois quem da minha amargura escarnecer,

que reze para quantos deuses e demônios quiser:

ninguém te protegerá das pragas e do ódio que lançarei sobre ti,

maldito zombeteiro.

Quero te ver berrar num desejo ardente

pelo sofrimento que buscas no meu peito,

pela chama perversa que aniquila a vida

e reduz a cinzas o que um dia foi tenro e belo.

Quero te ver implorar pela calamidade

vinda da Caixa de Pandora

que faço de pinhata,

assim como fizeste de pinhata meu coração,

meus anseios e conspirações.

E quando finalmente toda essa morte

e podridão atingir um ápice de satisfação duvidosa,

te reservarei um pouco desse amor gelado que conservo em mim,

se é que cadáveres amam;

mas sei que poderás arrancar do meu semblante morto

algum suspiro de inocência,

se é que as divindades repugnantes e inexistentes permitem a demônios sentir alguma coisa.

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