Breve tratado sobre a raiva

Eu sinto raiva dos mundos que não me pertencem
Das luas dilaceradas, há muito sem brilho
Dos passos abandonados, da ruína que trilho
Da hipocrisia silente, do canto profano
Do ódio velado, do grito maldito
Do verso não dito, do rumo perdido

Sinto raiva da raiva que me possui
Do impulso que move a chibata que me açoita
Da reza cretina rogada aos meus ouvidos
Do abuso consentido eu sinto raiva
E quanto mais raiva sinto, mais gosto de senti-la

E saborear o gosto amargo dessa ira contagiante
Rasgar sorrisos inocentes
Desfazer laços puídos
Varrer vidros estilhaçados
E com seus cacos, ferir minha pele esbranquiçada
Até que o sangue verta e eu grite e sinta mais raiva
E sinta mais vontade de sentir raiva

E então assassine o meu eu ideal
Afronte meus falsos paradigmas
Aquilo que não almejo ser
E me desfaça em alguns poucos pedaços
Para te ofertar uma carne adocicada
Nutrida pelo açúcar de ódios afetados e afetuosos
Construídos com tijolos de insânia, dor e tirania

Sinto raiva porque minhas entranhas se corroendo me dão prazer
Porque me regozija sentir minha alma se rompendo
Ao som de trinta e sete mil violinos desafinados, gritantes
De vinte não-afetos desestabelecidos e fora de controle
De cem línguas viperinas, falsas, ausentes
E milhares de dedos apontando meu desatino
E milhares de olhos sentenciando minhas escolhas
E milhares de bocas escarnecendo minha amargura

EU sinto raiva porque a egolatria é um prazer da pós-modernidade
E é aprazível sentir raiva disso

Sinto raiva porque não sei bem o que sentir, tenho medo de partir
E assim violentar os fantasmas que hei de deixar para trás, desolados
Quando o último trem se for
E me levar a trilhar caminhos feitos de éter, contrabandeado
Por canalhas fisiologistas, burocratas e narcisistas
Que impuseram ao mundo essa ideia torpe
De que toda raiva deve ser explicada, rotulada e sufocada
Evado-me!

Dedicado a todos os porcos que têm orgasmos múltiplos ao tachar e encaixar as subjetividades alheias em moldes patológicos de ignorância e conservadorismo.

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3 respostas para Breve tratado sobre a raiva

  1. Lina Carolina disse:

    :O
    “Sinto raiva porque minhas entranhas se corroendo me dão prazer
    Porque me regozija sentir minha alma se rompendo
    Ao som de trinta e sete mil violinos desafinados, gritantes”

    Isso sou eu, sem mais. Me identifiquei muito, pois quando eu fico com raiva parece que tudo se distorce na minha cabeça e essa descrição é ótima!

  2. Melny disse:

    Eu sinto raiva, muita raiva e existo com ela… tirar o direitos de existir em minha raiva é amputar grande parte de minha vida! Adorei Ramiro, me identifiquei também! Bom saber que alguém não moraliza os afetos!

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