Breve reflexão acerca do Dia Internacional da Mulher

Oito de março de 1857 marcou a revolta de operárias americanas contra a opressão, a jornada de trabalho excessiva e a desigualdade, tendo seus protestos reprimidos de forma brutal e violenta. Décadas mais tarde, por meio de decisão da ONU, a data ganhou contornos simbólicos e, hoje, nela se comemora o Dia Internacional da Mulher. Virou costume presentear mulheres com rosas vermelhas, e inúmeras campanhas publicitárias, nessa época, são produzidas com vistas a “homenagear” o público feminino. Aí vem a pergunta: que tipo de homenagem estamos fazendo, e com que propósito?

A prefeitura municipal de Porto Alegre, num ato mal pensado, tosco e preconceituoso, lançou uma campanha publicitária com o objetivo de “exaltar” as mulheres. De que forma? Utilizando clichês do tipo “Só uma mulher sabe o valor de um simples chocolate na TPM” ou “Só uma mulher sabe o drama que é estragar a unha logo após sair da manicure”. Isso tudo, é claro, com pilhas de dinheiro público, absurdamente mal empregado. O conteúdo do material publicitário é preconceituoso, vexatório, estigmatizador, sexista e machista, na medida em que perpetua rótulos estereotipados que reduzem a mulher ao papel de idiota e fútil, promovendo uma generalização estúpida que vai totalmente de encontro com os objetivos dos movimentos feministas, que pregam a igualdade entre gêneros e o fim da opressão às mulheres.

Pois esta deveria ser a mensagem do Dia Internacional da Mulher: um chamado à luta pela dignidade, igualdade e isonomia salarial; um apelo ao combate pelo fim da violência sexual, moral e psicológica às quais milhares de mulheres são submetidas todos os dias, inclusive com um número imenso de mortes; e o questionamento das estruturas de uma sociedade patriarcal, machista e sexista, que se arraiga, inclusive, ao poder estatal de modo a manter o status quo de opressão e iniquidade.

Urge que se promova uma reflexão acerca do papel de homens e mulheres na manutenção desse sistema que reifica, objetifica, reduz e reprime as mulheres, tentando enquadrá-las em rótulos, os quais, caso questionados, sofrem sanções as mais diversas. O Estado, ao promover esse tipo de campanha, só demonstra que é sustentáculo e participante de um paradigma conservador e patriarcal, outorgando-se o direito de determinar e regular o que é feminino e como esse feminino deve operacionalizar-se. As mulheres sofrem consequências drásticas, pois, estagnadas em padrões de feminilidade engessados, rígidos e imutáveis, são consequentemente tolhidas da liberdade de ser e vir a ser o que desejarem, devendo, quase que obrigatoriamente, seguir parâmetros pré-estabelecidos, sob a pena de receberem o escracho do Estado e da sociedade.

Isso se comprova na maneira como as pessoas – homens, mas também mulheres – estão, o tempo todo, regulando, policiando e tentando enquadrar o comportamento das mulheres, ditando o que é permitido, adequado, aceitável e “normal”. A mulher é necessariamente frágil, dócil e emocional, tendo, por conseguinte, lugares reservados à sua existência. Aquelas que ousam decidir seus destinos – inclusive o modo como querem exercer a sexualidade – recebem variados adjetivos, todos sexistas ao extremo, como “puta”, “vadia”, “vaca” e “vagabunda”. Evidentemente ninguém xinga homens invocando a sexualidade – a não ser com referências à homossexualidade (“veado”), infidelidade (“corno”) ou impotência (“broxa”). A mulher deve sempre “se dar valor” (os valores aqui são a castidade, a repressão e o número reduzido de parceiros sexuais), ou seja, até que alcance esse imperativo sexista, por consequência lógica, não tem valor algum.

E ainda há quem diga que não existe machismo e o feminismo não é necessário. Ou que são sinônimos, o que é um equívoco tremendo. O machismo é uma práxis que prega a opressão sexista, baseada na ideia de que o homem é superior à mulher e que isso é consequência natural e determinada, enquanto o feminismo defende a igualdade entre gêneros e o fim da violência e tirania contra as mulheres.

Mais do que políticas públicas que afirmem, promovam e divulguem a igualdade de gênero e o fim da opressão – sem incentivar ainda mais o preconceito e a violência -, precisamos promover revoluções micropolíticas, em nossas próprias microrrelações. O corpo é da mulher, e ela faz dele o que quiser. Nenhuma mulher é “vadia”, e é necessário abolir esse tipo de xingamento. “Não” significa “não”, então não insista quando uma mulher recusar uma investida. A culpa do estupro é do estuprador, e NUNCA da mulher; logo, paremos com esse absurdo de querer responsabilizar a saia curta ou a bebida – afinal, como já dito antes, o corpo é da mulher, e ela tem – ou deveria ter – o direito de usá-lo e regulá-lo como bem entende.

Dar-se conta dos próprios preconceitos e limitações é o primeiro passo para deflagrar a mudança de uma sociedade que violenta, mata e reprime suas mulheres, tolhindo-lhes direitos e impedindo que controlem suas vidas, seus corpos e decisões. No Dia Internacional da Mulher, não dê flores: ofereça respeito e atitudes igualitárias. É disso que nosso mundo precisa, e não de mais enfeites, fachadas e engodos que obstruam as verdadeiras questões pelas quais todxs temos a obrigação de lutar.

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One Response to Breve reflexão acerca do Dia Internacional da Mulher

  1. HELIDA LIANE FIGUEIREDO CATELAN disse:

    Ramiro,

    Mais uma vez comprovas o teu brilhantismo! A mulher precisa de respeito, igualdade, liberdade. Luta secular e muito moderna porque os preconceitos se perpetuam atraves de roupas novas.
    Precisamos de respeito, tratamento justo e igualitario.
    Que usem as rosas para demonstrar afeto, carinho, amor, paixao ou qualquer outro sentimento do bem.
    Respeito e igualdade todos os dias!
    beijos da Mae.

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