Formação em Psicologia e estruturas curriculares: problematizando lacunas e visibilidades

Como a formação dos cursos de Psicologia prioriza certas áreas e negligencia outras e quais as consequências disso.

 

A representação social da figura do psicólogo como profissional autônomo e liberal, exercendo a atividade clínica privada em consultório particular, foi o que me fez – e, acredito, à maioria dos meus colegas – optar pela Psicologia logo após abandonar o Direito. Chegando à sala de aula, pude ver que a Psicologia, até então restrita conceitualmente para mim, é uma ciência tão abrangente e complexa, com teorias, modelos, conceitos, práticas e ideologias diversas e divergentes, que seria mais apropriado falar em Psicologias, no plural. Com o espectro do que é ser psicólogo já ampliado em mim, pude perscrutar – e continuo perscrutando – novos horizontes na minha trajetória de estudante. E isso me levou, depois de algumas leituras sobre a história da profissão, especificamente no contexto brasileiro, a querer problematizar uma questão que, ao meu ver, é fundamental: a da formação dos psicólogos nas universidades brasileiras.

Procurando não me restringir ao ambiente e à realidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da qual sou aluno, tenho feito, a título de curiosidade, buscas pelas diretrizes, ementas disciplinares e estruturas curriculares dos cursos de Psicologia em âmbito nacional. Cada faculdade tem suas peculiaridades e especificidades, dando ênfase a uma ou outra área dentro das inúmeras existentes, a partir de óticas e paradigmas distintos. Uma coisa, porém, me chamou mais a atenção: uma certa tendência, principalmente de faculdades “menores” – ou seja, com uma estrutura menos complexa, como faculdades “unidisciplinares” e alguns centros universitários – de dar menos importância, em seus currículos, à Psicologia Social, Psicologia Comunitária, Saúde Coletiva e Políticas Públicas, caracterizando uma lacuna marcante.

No meio da busca, me deparei com faculdades em cujos currículos havia, no máximo, uma cadeira de Psicologia Social – pelo visto colocada ali apenas a título de disciplina básica inicial. Cheguei a ver algumas que não tinham absolutamente nada de Psicologia Social ou Comunitária em seus programas; outras abrangiam, nas ementas, vários conteúdos numa disciplina só; houve também as que sequer mencionassem questões de Saúde Coletiva e especificidades do contexto latino-americano e brasileiro, dedicando o texto da ementa a conteúdos ligados à Psicologia Social Européia.

É preciso citar também a lacuna muito expressiva, durante essa investigação amadora, de questões ligadas a gênero e direitos humanos. Em algumas faculdades menores, conteúdos ligados à Psicologia Organizacional tomavam conta dos currículos, não só nas chamadas ênfases curriculares, mas reservando disciplinas inteiras a conteúdos que, mais adiante fui pesquisar, são oferecidos em nível de pós-graduação. Já outras eram direcionadas à Psicologia Clínica, priorizando as abordagens de orientação psicanalítica; em alguns cursos, abordagens psicoterapêuticas como as cognitivo-comportamentais e humanistas-existenciais-fenomenológicas sequer são mencionadas. Aí me veio o questionamento: que tipo de profissionais estamos formando, em qual contexto e com qual direcionamento de atuação?

Saliento a questão do contexto porque, ao acessar algumas diretrizes curriculares mais antigas, pude notar que, hoje em dia, a formação continua, com pequenas alterações, voltadas para dar visibilidade às mesmas vertentes: Psicologia Clínica, Avaliação Psicológica e Psicologia Organizacional, todas áreas muito importantes e pelas quais tenho interesse. Mas a pergunta que ficou é: porque estas Psicologias são mais valorizadas em detrimento de questões mais relacionadas ao contexto social e à coletividade? O que faz com que disciplinas como Psicologia Social sejam jogadas para o início do curso e muitas vezes não estudadas ao longo do resto da formação? Porque, quando não ocorre isso, os conteúdos são condensados em duas ou três disciplinas “basiconas”, em geral vistas, também, no começo do curso? Porque muitos cursos, cuja proposta é ser “generalista”, enviesam tanto seus currículos ao ponto de omitir vários outros conteúdos?

Creio que é impossível tratar desses temas sem refletir sobre o histórico da Psicologia no Brasil. A lei 4119 de 1962, que regulamenta a profissão de psicólogo no País, foi promulgada num período conturbado, às vésperas de uma ditadura civil-militar-empresarial que nos flagelou durante quase três décadas e que deixou diversas marcas em variados âmbitos da sociedade. Inclusive na formação dos psicólogos, que é a proposta de discussão que venho tentando fazer. O “boom” desenvolvimentista ocorrido na década de 60 propiciou, segundo as professoras Neuza Guareschi e Helena Scarparo*, que a classe média usufruísse dos serviços psicológicos colocados à sua disposição, eminentemente de natureza clínica e privada, ou, ainda, voltada para a seleção de pessoal em empresas. Isso se deu numa época em que o acesso à saúde, pela maioria da população, era precário – as lutas que dariam origem ao Sistema Único de Saúde estavam engatinhando. Especificamente tratando-se de práticas de saúde mental, pode-se deduzir que tinha acesso a estas quem podia pagar, ou seja, poucos. As práticas psicológicas pareciam convergir com as necessidades de uma certa elite, privilegiada economicamente, excluindo os demais de ter suas demandas atendidas.

Nos encontramos, hoje, em outro contexto, outra época. Por que, então, as práticas mudaram, mas nem tanto? O serviço público, voltado às áreas da saúde e assistência social, é um dos maiores empregadores de psicólogos**. Deduzir-se-ia que a formação profissional teria que, no mínimo, dar mais atenção a isso, preparando os estudantes para trabalhar nestas áreas e permitindo a sensibilização quanto à importância das questões relacionadas à Psicologia Social Comunitária e Saúde Coletiva. Mas não é isso que parece acontecer, como já exposto no começo do texto. Pergunto de novo: por quê? Qual a relação de nossas práticas atuais com as práticas do passado? Por que temos tantos jovens recém formados frustrados por não conseguirem colocação direta no âmbito clínico, sendo que passaram a faculdade inteira estudando a respeito do setting terapêutico e das teorias psicanalíticas voltadas exclusivamente para o indivíduo, muitas vezes descontextualizado da sociedade, da economia e da realidade nas quais está inserido? Por que pouco se debatem questões de gênero e quase nada se fala sobre direitos humanos? Nossa história enquanto categoria, de fato, atravessa nossas posições atuais? Creio que sim, pois acredito na história como produção do presente. Aliás, a própria disciplina de história parece, infelizmente, ser ignorada e desprezada por muitos alunos. Nunca vou me esquecer de uma colega que um dia me disse que “não queria saber de história” (sic), já que estava ali para “aprender como que as pessoas ficam loucas e como se trata os loucos” (sic). Será que a fala dessa colega é isolada, descontextualizada, ou reflete uma ideologia construída não só por meio do imaginário popular – na qual o psicólogo é um clínico particular, de orientação psicanalítica, sentado à beira de um divã, dotado do poder de cura e detentor, junto à Psiquiatria, do monopólio sobre a loucura – mas também pelas práticas consolidadas na academia?

Atentemos ao fato de que não almejo menosprezar quaisquer áreas. Eu próprio tenho muito interesse em Psicologia Clínica e estou, inclusive, fazendo um aperfeiçoamento na área. Aqui falo do lugar de curiosidade e questionamento, pois me incomoda que questões relacionadas à história, formação e currículos sejam, ao menos pela minha experiência em âmbito acadêmico, pouco debatidas, conversadas, problematizadas. Deixo este texto com a intenção de suscitar, em meus colegas estudantes e nos próprios profissionais já formados, pensamentos e reflexões em relação aos temas expostos, pois acredito que, quando certos aspectos da realidade são naturalizados, sem a possibilidade de diálogo, problematização e questionamento, corremos o risco de continuar perpetuando práticas muitas vezes equivocadas, acríticas, retrógradas e até perigosas.

* http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe2/a2519ns2.pdf

** http://www.crprs.org.br/noticias_internas.php?idNoticia=1706

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One Response to Formação em Psicologia e estruturas curriculares: problematizando lacunas e visibilidades

  1. Daniel disse:

    Hello, Ramiro. Texto certeiro. Gostaria de dar algumas colocações minhas quanto à essa situação:

    Quanto à psicologia social, a qual parece ser negligenciada em algumas formações, um problema que eu aponto é que ela é uma matéria muito pouco coesa entre si. Se há muitas psicologias, há quinhentas psicologias sociais. Comparando com outras teorias como o behaviorismo e a psicanálise, perde-se um certo vigor em decorrência da quantidade enorme de teorias diferentes que se abrigam sob o lar da Psicologia Social.

    E eu acho que isso influencia bastante no prejuízo da compreensão, e posteriormente no ensino desta matéria. A primeira cadeira de social que tive na PUCRS já foi dispersa, e por fim saí dela com uma pergunta na cabeça – “o que é a Psicologia Social? o que a une?” -, algo que não consigo responder muito bem até hoje em dia, até mesmo enquanto tenho Subjetividade em Psicologia Social/Psicologia Social II hoje em dia, que posso resumir como “uns pingos de psicologia, sociologia, e políticas públicas”. Coisas que não são ruins em si, mas que faltam uma coesão unificadora que justificaria o propósito da cadeira.

    Quanto ao ensino das políticas públicas (para nos capacitar ao trabalho para a rede pública), sinto que isso é um resultado da “tradição” e do olhar popular do psicólogo que tu mencionaste, como criatura clínica, privada, enfurnada num consultório. E também de uma tendência de ver o trabalho das linhas mais tradicionalmente clínicas, como o cognitivismo e a psicanálise, restringidas por uma arbitrariedade ilusória que diz que são linhas exclusivas da clínica e não podem ser aplicadas em meios mais sociais, mais comunitários. (Falta desenvolvimento na interdisciplinariedade dentro da psicologia, entre a psicologia – fosse eu me formar e seguir a profissão adiante, eu certamente não seria um psicólogo monolítico, pertencente a apenas uma “religião” porque se misturar muito é feio.)

    (Já me levantaram uma crítica a este meu ideal, de que o psicólogo seria um “jack of all trades, master of none”/um pouco bom em tudo, excelente em nada, o que eu vejo como uma possibilidade só para aquele que realmente quer utilizar tudo que vê na frente, que realmente não funcionaria. Mas, ao meu ver, o psicólogo eficiente é aquele aberto às subjetividades, aos múltiplos pontos de vista, não só com as pessoas, mas com as teorias. Misturar duas, três linhas teóricas pressuponho que seria bem sensato, sem perder o foco da prática – é só escolher o que é válido para a prática que é almejada pelo psicólogo em toda a gama de práticas e abordagens diferentes que esse pode ter. E essa escolha incluiria seleção e exclusão, e de maneira nenhuma obediência dogmática.)

    Mas divago, nunca trabalhei como psicólogo, também não irei trabalhar. Acho que o que eu quis implicar com toda a história acima é que, acima de tudo, falta diálogo. E é isso por enquanto.

    Meus bons votos pra ti, que sinto que vai ser um psicólogo excelente. Abração.

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