Setembro Amarelo, suicídio e a saúde mental da população LGBT

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Na esteira do Setembro Amarelo, campanha que busca a prevenção do suicídio e valorização da vida, gostaria de fazer algumas considerações sobre a saúde mental da população LGBT. A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por terem a ousadia de serem quem são em um contexto social invalidante e hostil. Essas pessoas estão sujeitas a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos.

Há uma relação cruel entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas. Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos. São materiais. São concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares.

Existem achados que apontam que jovens LGBT que experienciam preconceito e rejeição no ambiente familiar estão oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio. Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares. Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero mostram-se simplesmente assustadores, e têm sido apontados por várias investigações.

As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho.

De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande. No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar. As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta.

Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

Cabe refletir: qual o papel de cada um de nós na perpetuação da violência e na possibilidade de mudar esse cenário? Qual o papel do Estado, das comunidades, das famílias e das instituições diante dessas demandas? Defender a construção de vidas mais dignas, vidas mais “vivíveis”, é um imperativo ético. Precisamos abandonar o paradigma da morte e da vulnerabilização, não em direção à tolerância, mas à aceitação, cuidado e respeito.

É um dever da sociedade lutar por outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão; é um dever cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar ou anular, mas engrandecer, qualificar.

É possível produzir potência na diferença. Não somos todos iguais e não precisamos ser, porque a vida é mais leve e permeável quando é diferente. Precisamos de políticas públicas que garantam os direitos básicos da população LGBT, que garantam o direito à diferença. A categoria de profissionais da psicologia precisa receber treinamento e formação em gênero e sexualidade; há evidências de que profissionais sem preparo podem não só não ajudar, como provocar danos a pessoas já bastante vulnerabilizadas.

Para além disso, precisamos ter mais curiosidade e sensibilidade, buscando aguçar o olhar para as singularidades das experiências de gênero e sexualidade. A psicologia vem construindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia.

É preciso promover processos de resiliência, de fortalecimento de vínculos, de construção de redes afetivas, de reforço do apoio familiar. A população LGBT precisa ter condições de se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente, a ter outras visões de si, do mundo e do futuro. E todos nós precisamos nos implicar nisso: na aceitação radical da diferença e na solidificação de um futuro com menos discriminação e mais possibilidades.

A vida pode ser mais valiosa. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você, que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de amigos; procure apoio profissional. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. A vida faz mais sentido quando pintada com diversas cores.

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* Para pessoas que moram em Porto Alegre e Região Metropolitana, eu sou psicólogo, psicoterapeuta e realizo em consultório particular atendimento psicoterápico afirmativo para a população LGBT, bem como acompanhamento psicológico para o processo transexualizador. Caso precise de ajuda, entre em contato comigo: Ramiro Figueiredo Catelan | CRP 07/26017 | ramirocatelan@gmail.com | (51) 9155-5327

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* Algumas referências usadas para compor este texto:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Dickey, L. M., Reisner, S. L., & Juntunen, C. L. (2015). Nonsuicidal self-injury in a large online sample of transgender adults. Professional Psychology: Research and Practice, 46, 3-11.

Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. “Perspectives on Psychological Science, 8”, 521-548.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.


Direitos humanos, violência e política da morte

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Como algumas pessoas sabem, em setembro de 2013 eu levei uma facada na costela durante um assalto. A faca passou a milímetros da pleura. Não atravessou meu pulmão por detalhe. Me provocou uma dor horrível e me deixou uma cicatriz. Eu poderia ser o primeiro a puxar o coro das vozes que invocam a vingança e a política da morte para solucionar a violência urbana. Mas eu JAMAIS farei isso. Sabem por quê?

Porque o Estado penal, o encarceramento em massa, a guerra às drogas, o massacre da população negra jovem – tudo isso é contra o projeto de mundo que eu busco construir. Ter vivido uma experiência traumática, ter sido violentado e gravemente ferido não me faz um defensor de chavões inócuos e extremamente equivocados como “direitos humanos para humanos direitos” ou “bandido bom é bandido morto”.

Os direitos humanos precisam ser o nosso norte, o pilar dessa sociedade; precisamos rumar em direção a mais, não a menos direitos. Direitos humanos são um conjunto abstrato de valores que buscam materializar elementos básicos para a vida humana, e não um escritório de advocacia em livre defesa da “bandidagem”. Quão arrogante é criar distinções dicotômicas, moralistas e simplórias como “cidadãos de bem” versus “vagabundos”? Nossa realidade é tão mais dura e complexa do que as soluções simplistas apresentadas para corrigir as lacunas, lapsos e fraturas que produzimos enquanto sociedade.

Precisamos nos implicar nas coisas que acontecem no cotidiano; ninguém é alheio à realidade. Não quero viver num mundo banhado em sangue. Pena de morte não se encaixa no meu horizonte ético, político e ontológico. Olho por olho e dente por dente é uma estratégia primitiva de resolução de conflitos. Precisamos analisar de forma mais profunda e cuidadosa as problemáticas que nos assolam.

Praticar matanças com chancela do Estado é um perigo; a história tem vários registros disso. Sabem o que aconteceu quando o Estado se apropriou da necropolítica como operador na Argentina? A ditadura matou de forma covarde mais de trinta mil pessoas. Trinta mil pessoas! Esse é apenas um exemplo entre tantos. A polícia brasileira assassina em proporções abissais mesmo à margem da lei; imaginem com endosso oficial. É isso que almejamos?

Além desse dispositivo, alguns apontam como estratégia de política pública de segurança a simples construção de presídios. Mais locais para encarcerar e depositar pessoas não farão nem cócegas no cerne da questão; é uma concepção que já nasce falida, pois parte dos pressupostos errados – como se isolar a “essência” do perigo fosse de fato resolver algo.

Aderir ao apelo punitivista e ao discurso da vendeta pode ter consequências fatais. Vamos permitir que a sanha por sangue atravesse nossos corpos e mentes? O buraco é muito mais embaixo; no caso, muito mais em cima. A guerra às drogas e as táticas bélicas fortalecem o tráfico, eliminam laranjas e não chegam nem perto de atingir os grandes responsáveis por lucrar com o comércio de substâncias ilícitas; sem admitir isso fica difícil estabelecer alguma mudança realmente efetiva.

A violência é um fenômeno que está colocado nas relações humanas; desumanizá-la é uma atitude, no mínimo, ingênua, arrisco a dizer perniciosa, pois fazendo isso corremos o risco de nos autorizar a repetir com as outras pessoas a barbárie que condenamos. Precisamos endereçar a violência, construir diques e estratégias para que ela não se torne um imperativo, para que ela não se torne nosso rumo, objetivo e pretensão.

Como superar a constante erupção de brutalidade dentro de um sistema profundamente desigual que provoca uma série de iniquidades e fraturas? Eu não tenho resposta, mas consigo sinalizar caminhos que levam a direções perigosas. O caminho da morte não me parece uma opção de segurança.

Eu sou a favor da vida. Enquanto psicólogo eu busco valorizar e afirmar o direito à vida – a uma vida melhor, mais digna, mais justa. E eu não acho justo que se use uma tragédia como a da última quinta-feira, ou alguma das centenas que diariamente vitimam pessoas nas periferias e nos grandes centros urbanos, para reforçar a política da truculência e do assassinato. Deve haver outros cenários, outras possibilidades. Se não houver, precisamos INVENTÁ-LOS. Caso contrário, estaremos falidos enquanto conjunto societário; estaremos perdidos. E eu tenho esperança de que a vida, essa grande tragédia nietzschiana, possa pavimentar caminhos mais potentes e significativos.


20 de setembro e a farsa do Movimento Tradicionalista Gaúcho 

sábado, 19 setembro, 2015

20 de setembro tá aí, e a gente, mais uma vez, precisa sentar e conversar. Costumo patinar no Gasômetro, em Porto Alegre, todo fim de semana. Tenho evitado ir durante este mês, pois quando o fiz, recebi olhares fulminantes e ameaçadores com os quais não estou acostumado naquele espaço, porque sou gay e não sou obrigado a andar dentro dos padrões que me impõe. Devo essa sensação de medo e insegurança em volta do acampamento farroupilha ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. 

Essa organização é um grande engodo sustentado num mito fundacionista frágil conceitual, histórica e epistemologicamente, calcado em figuras de autoridade mais frágeis ainda, o chamado Grupo dos 8. A maioria dos seguidores sequer tem noções básicas sobre a cultura fantasiosa, inventada e distorcida que defendem com unhas e dentes, e se recusam terminantemente a discutir sobre, como se fossem parte de uma seita religiosa, e isso é responsabilidade de uma política pública de educação que se recusa a pautar o estudo científico da história, baseado não no mito, mas nas evidências e na crítica. 

Cultuam uma revolta perdida, capitaneada por estancieiros senhores de escravos cujos únicos interesses eram a manutenção dos próprios privilégios. Essa “revolução”, cujo objetivo, curiosamente, era preservar o status quo, derramou sangue de gente pobre e negra, mas muitos seguem reproduzindo histórias fragmentadas e distorcidas como se fossem verdades incontestáveis. 

Perpetuam um discurso machista, sexista, homofóbico, intolerante, bairrista, belicista. Muitos – não todos os – apoiadores do movimento são embaixadores do moralismo, do conservadorismo, do racismo, do patriarcado, da submissão feminina, do desrespeito à diferença, do ódio a gays, lésbicas, a quem ousa divergir da heteronormatividade. Sequer conseguem lidar com divergências dentro do próprio movimento: expulsam, segregam, caluniam, perseguem e incendeiam. 

Fazem cosplay de Paixão Côrtes durante todo mês de setembro, sem pensar sobre a violência simbólica que carregam essas vestimentas. Vamos parar e repensar as coisas como elas estão – não como elas são – ou seguir festejando distorções históricas e mentiras nas quais nos fizeram acreditar?


Formação em Psicologia e estruturas curriculares: problematizando lacunas e visibilidades

sábado, 20 abril, 2013

Como a formação dos cursos de Psicologia prioriza certas áreas e negligencia outras e quais as consequências disso.

 

A representação social da figura do psicólogo como profissional autônomo e liberal, exercendo a atividade clínica privada em consultório particular, foi o que me fez – e, acredito, à maioria dos meus colegas – optar pela Psicologia logo após abandonar o Direito. Chegando à sala de aula, pude ver que a Psicologia, até então restrita conceitualmente para mim, é uma ciência tão abrangente e complexa, com teorias, modelos, conceitos, práticas e ideologias diversas e divergentes, que seria mais apropriado falar em Psicologias, no plural. Com o espectro do que é ser psicólogo já ampliado em mim, pude perscrutar – e continuo perscrutando – novos horizontes na minha trajetória de estudante. E isso me levou, depois de algumas leituras sobre a história da profissão, especificamente no contexto brasileiro, a querer problematizar uma questão que, ao meu ver, é fundamental: a da formação dos psicólogos nas universidades brasileiras.

Procurando não me restringir ao ambiente e à realidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da qual sou aluno, tenho feito, a título de curiosidade, buscas pelas diretrizes, ementas disciplinares e estruturas curriculares dos cursos de Psicologia em âmbito nacional. Cada faculdade tem suas peculiaridades e especificidades, dando ênfase a uma ou outra área dentro das inúmeras existentes, a partir de óticas e paradigmas distintos. Uma coisa, porém, me chamou mais a atenção: uma certa tendência, principalmente de faculdades “menores” – ou seja, com uma estrutura menos complexa, como faculdades “unidisciplinares” e alguns centros universitários – de dar menos importância, em seus currículos, à Psicologia Social, Psicologia Comunitária, Saúde Coletiva e Políticas Públicas, caracterizando uma lacuna marcante.

No meio da busca, me deparei com faculdades em cujos currículos havia, no máximo, uma cadeira de Psicologia Social – pelo visto colocada ali apenas a título de disciplina básica inicial. Cheguei a ver algumas que não tinham absolutamente nada de Psicologia Social ou Comunitária em seus programas; outras abrangiam, nas ementas, vários conteúdos numa disciplina só; houve também as que sequer mencionassem questões de Saúde Coletiva e especificidades do contexto latino-americano e brasileiro, dedicando o texto da ementa a conteúdos ligados à Psicologia Social Européia.

É preciso citar também a lacuna muito expressiva, durante essa investigação amadora, de questões ligadas a gênero e direitos humanos. Em algumas faculdades menores, conteúdos ligados à Psicologia Organizacional tomavam conta dos currículos, não só nas chamadas ênfases curriculares, mas reservando disciplinas inteiras a conteúdos que, mais adiante fui pesquisar, são oferecidos em nível de pós-graduação. Já outras eram direcionadas à Psicologia Clínica, priorizando as abordagens de orientação psicanalítica; em alguns cursos, abordagens psicoterapêuticas como as cognitivo-comportamentais e humanistas-existenciais-fenomenológicas sequer são mencionadas. Aí me veio o questionamento: que tipo de profissionais estamos formando, em qual contexto e com qual direcionamento de atuação?

Saliento a questão do contexto porque, ao acessar algumas diretrizes curriculares mais antigas, pude notar que, hoje em dia, a formação continua, com pequenas alterações, voltadas para dar visibilidade às mesmas vertentes: Psicologia Clínica, Avaliação Psicológica e Psicologia Organizacional, todas áreas muito importantes e pelas quais tenho interesse. Mas a pergunta que ficou é: porque estas Psicologias são mais valorizadas em detrimento de questões mais relacionadas ao contexto social e à coletividade? O que faz com que disciplinas como Psicologia Social sejam jogadas para o início do curso e muitas vezes não estudadas ao longo do resto da formação? Porque, quando não ocorre isso, os conteúdos são condensados em duas ou três disciplinas “basiconas”, em geral vistas, também, no começo do curso? Porque muitos cursos, cuja proposta é ser “generalista”, enviesam tanto seus currículos ao ponto de omitir vários outros conteúdos?

Creio que é impossível tratar desses temas sem refletir sobre o histórico da Psicologia no Brasil. A lei 4119 de 1962, que regulamenta a profissão de psicólogo no País, foi promulgada num período conturbado, às vésperas de uma ditadura civil-militar-empresarial que nos flagelou durante quase três décadas e que deixou diversas marcas em variados âmbitos da sociedade. Inclusive na formação dos psicólogos, que é a proposta de discussão que venho tentando fazer. O “boom” desenvolvimentista ocorrido na década de 60 propiciou, segundo as professoras Neuza Guareschi e Helena Scarparo*, que a classe média usufruísse dos serviços psicológicos colocados à sua disposição, eminentemente de natureza clínica e privada, ou, ainda, voltada para a seleção de pessoal em empresas. Isso se deu numa época em que o acesso à saúde, pela maioria da população, era precário – as lutas que dariam origem ao Sistema Único de Saúde estavam engatinhando. Especificamente tratando-se de práticas de saúde mental, pode-se deduzir que tinha acesso a estas quem podia pagar, ou seja, poucos. As práticas psicológicas pareciam convergir com as necessidades de uma certa elite, privilegiada economicamente, excluindo os demais de ter suas demandas atendidas.

Nos encontramos, hoje, em outro contexto, outra época. Por que, então, as práticas mudaram, mas nem tanto? O serviço público, voltado às áreas da saúde e assistência social, é um dos maiores empregadores de psicólogos**. Deduzir-se-ia que a formação profissional teria que, no mínimo, dar mais atenção a isso, preparando os estudantes para trabalhar nestas áreas e permitindo a sensibilização quanto à importância das questões relacionadas à Psicologia Social Comunitária e Saúde Coletiva. Mas não é isso que parece acontecer, como já exposto no começo do texto. Pergunto de novo: por quê? Qual a relação de nossas práticas atuais com as práticas do passado? Por que temos tantos jovens recém formados frustrados por não conseguirem colocação direta no âmbito clínico, sendo que passaram a faculdade inteira estudando a respeito do setting terapêutico e das teorias psicanalíticas voltadas exclusivamente para o indivíduo, muitas vezes descontextualizado da sociedade, da economia e da realidade nas quais está inserido? Por que pouco se debatem questões de gênero e quase nada se fala sobre direitos humanos? Nossa história enquanto categoria, de fato, atravessa nossas posições atuais? Creio que sim, pois acredito na história como produção do presente. Aliás, a própria disciplina de história parece, infelizmente, ser ignorada e desprezada por muitos alunos. Nunca vou me esquecer de uma colega que um dia me disse que “não queria saber de história” (sic), já que estava ali para “aprender como que as pessoas ficam loucas e como se trata os loucos” (sic). Será que a fala dessa colega é isolada, descontextualizada, ou reflete uma ideologia construída não só por meio do imaginário popular – na qual o psicólogo é um clínico particular, de orientação psicanalítica, sentado à beira de um divã, dotado do poder de cura e detentor, junto à Psiquiatria, do monopólio sobre a loucura – mas também pelas práticas consolidadas na academia?

Atentemos ao fato de que não almejo menosprezar quaisquer áreas. Eu próprio tenho muito interesse em Psicologia Clínica e estou, inclusive, fazendo um aperfeiçoamento na área. Aqui falo do lugar de curiosidade e questionamento, pois me incomoda que questões relacionadas à história, formação e currículos sejam, ao menos pela minha experiência em âmbito acadêmico, pouco debatidas, conversadas, problematizadas. Deixo este texto com a intenção de suscitar, em meus colegas estudantes e nos próprios profissionais já formados, pensamentos e reflexões em relação aos temas expostos, pois acredito que, quando certos aspectos da realidade são naturalizados, sem a possibilidade de diálogo, problematização e questionamento, corremos o risco de continuar perpetuando práticas muitas vezes equivocadas, acríticas, retrógradas e até perigosas.

* http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe2/a2519ns2.pdf

** http://www.crprs.org.br/noticias_internas.php?idNoticia=1706


Sobre homofobia, diferenças e utopias nem tão utópicas assim

quinta-feira, 17 maio, 2012

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17 de maio de 1990. Nessa data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retira de sua lista patologizadora de transtornos mentais a homossexualidade, tida, até aí, como uma doença digna de ser “tratada”. Nessa data, desde então, realizam-se protestos, discussões e eventos visando ao combate da homofobia, que, segundo o Aurélio, é configurada como a “aversão aos homossexuais ou ao homossexualismo”. Reparem como esse termo, “homossexualismo”, permanece presente no imaginário não só popular, mas acadêmico, “intelectual”, resquício de uma época em que a “prática homossexual” (outro termo cretino) e seus “praticantes” eram severamente recriminados e segregados, sem direito à dignidade e ao sentimento de pertença a uma sociedade acostumada a apontar, julgar e censurar, sem ao menos refletir sobre as consequências de tais comportamentos discriminatórios e conservadores. E essa é uma realidade que, infelizmente, continua atual.

As centenas de ASSASSINATOS, por ANO, de gays no Brasil, EXCLUSIVAMENTE por serem gays, são consequência dessa ideologia/prática. A recriminação aberta em países como China e Irã, cujos Estados se delegam a tarefa de perseguir e clausurar quem ousa ser diferente, também é. A auto-censura, o encobrimento, o disfarce, a culpa e a vergonha de ser e mostrar quem é também são frutos dessa violência, que nem precisa ser explícita para assim se configurar. Ou você acha, sinceramente, que piadas na hora do happy hour sobre “veadinhos” não são homofobia? Ou que o deboche àquele seu colega “meio mulherzinha” é inofensivo? Ou que olhares de desaprovação, no meio da rua, a uma moça “masculinizada”, não causam efeito algum? Ou, ainda, que achincalhar e satirizar travestis e transsexuais não gera absolutamente nenhum mal na vida delas?

Os atos mais “inofensivos” podem produzir resultados catastróficos. A rejeição, o julgamento, a discriminação – ora velada, ora explícita -, a exclusão social e familiar, as agressões gratuitas, o desrespeito berrante, a segregação elitizadora, a sensação de superioridade, a impossibilidade de conviver com o diferente. Isso tudo machuca. Isso tudo doi. Isso tudo acaba em sangue, ódio, desigualdade e tristeza. E isso tudo é parte do nosso cotidiano. Está lá fora. Está aí, dentro de casa. Está nas escolas, nos bares, nas ruas. Está no discurso ambíguo e hipócrita de quem defende e propaga a utilização de termos como “homoafetividade”, desvinculando o homossexual de sua sexualidade, sem perceber que causa um desserviço às lutas LGBT (afinal, pessoas que não transam, sendo somente “afetivas”, não precisam de políticas públicas para prevenção a DST’s, ou precisam?). Está na configuração do Estado brasileiro, que permite a permanência, manutenção e continuidade das desigualdades e não proporciona proteção e isonomia em direitos teoricamente “de todos”, como o de casar e adotar.

Precisamos exercer e vivenciar palavras que soam bonitas no papel, mas que na realidade se vêm pouco aplicadas. Respeito. Aceitação. Empatia. E não aquele “tolerar”, do tipo, “te odeio, mas te suportarei”. Falo do colocar-se no lugar do outro, do aceitar sem julgar, do conviver harmonicamente, harmonia essa que tanto nos falta nesses tempos em que pessoas de uma determinada crença se julgam no direito de impingir aos outros, goela abaixo, seus valores, buscando uma normatização, uma normalização e um padrão de unitarismo que jamais existirá: somos plurais! E é bonito ser plural; é normal ser plural e (se) permitir ser assim, (se) permitir pluralizar, ampliar fronteiras. É normal ser diferente. É SAUDÁVEL ser diferente. E não é motivo de vergonha sair do padrão, quebrar paradigmas. É inadmissível que vivamos numa sociedade em que as pessoas precisem usar máscaras, disfarces e armas por serem o que são. É incabível continuar se pensando numa vivência homossexual introjetada, que busque estar dentro dum padrão de aceitação para que se possa viver em sociedade: respeite a “afetação”; conviva com o “espalhafatoso”; aceite a “masculinizada”; crie empatia com o “afeminado”: todos têm direito à dignidade e o respeito, o direito de ser diferente, transgredir e ir além das convenções, dos padrões forçados, dos paradigmas conservadores, das noções de normalidade, de saudável e de ideal.

“Errado” é quem discrimina, quem não faz autocrítica, quem empurra todos os problemas para o outro. “Vergonhoso” é ter a desonestidade intelectual de produzir e praticar ódios e apontar e sentenciar diferenças, ignorando suas próprias diferenças, advindas da subjetividade de cada ser humano, que não anula seu DEVER de lutar contra injustiças e a iniquidade que assolam a nossa civilização, e evitar que esse ciclo de violência continue a se perpetuar. Isso não se faz só com discurso, mas com pensamento praticado, reflexão e ação. E começa dentro de casa, nas microrrelações que cada um de nós possuímos, e daí se estende ao Estado, que tem, ou DEVERIA TER, a obrigação de dar um fim nos circuitos de ódio e discriminação e garantir dignidade, proteção e respeito àqueles que sofrem diariamente na pele o ônus por ousarem ser diferentes, quebrarem paradigmas e desviarem de padrões tidos como “normais”, aceitáveis.

Esse texto é dedicado a todos os meus conhecidos, amigos e familiares que, na minha frente, dizem que são “de boa” com o assunto, que “não têm preconceito”, mas que circulam imagens e comentários de teor escancaradamente homofóbico, preconceituoso e, por vezes, de uma violência explícita, em redes sociais. A todos que insistem em se colocar no papel de palmatória do mundo, julgando o que é certo ou errado, sem sequer refletir sobre suas próprias questões e “imoralidades”. Ao meu namorado, que me arrancou do armário e me fez refletir sobre minhas vivências e pensamentos, suscitou diversas reflexões, possibilitou uma série de transformações e me fez ter orgulho de ser diferente e de lutar pelo direito à diferença. E, claro, a todos que se arraigam a bandeiras e causas que buscam a justiça e o combate à desigualdade e opressão, sem se envergonhar disso – pelo contrário, tendo orgulho! – e ainda acreditam numa utopia, nem tão utópica assim, de que as diferenças podem, sim, ser aceitas, compreendidas e respeitadas.


Algumas constatações inconvenientes sobre mídia e manipulação

segunda-feira, 24 janeiro, 2011

O cenário político brasileiro é pleno em incongruências. Vivemos num país de muitos contrastes, cuja desigualdade social – fruto direto de um sistema opressor, voltado para o privilégio de uns poucos – permanece como uma mácula em meio a tantas coisas boas. Clichê, mas verdadeiro. Essa desigualdade, bem como os demais problemas que enfrentamos, tem relação com a preeminência das elites na política. Até há pouco, parecia que tal situação se perpetuaria. Afinal, política é coisa de gente poderosa – o povo só serve como massa de manobra, certo? Errado. Em outubro de 2002, um homem do povo ascendeu ao posto máximo do País. Um fato histórico e impactante. E foi justo quando esse ex-operário alcançou o poder que a grande mídia – já muito eivada de toda sorte de imundícies – tirou de vez sua máscara. Infelizmente, essa mídia ainda exerce influência sobre uma parte considerável da população. E um exemplo cristalino disso é a demonização do PT.

Eu seria ingênuo, quiçá hipócrita se dissesse que o PT de 1980 continua o mesmo nos dias de hoje. Sim, houve mudanças – drásticas, inclusive –, mas alguns pontos me parecem indeléveis à bandeira petista. O PT foi o único partido de esquerda a galgar a presidência da República. Teve, é claro, de lançar mão de uma série de alianças – algumas duvidosas, frise-se –, mas, de modo geral, não comprometeu seus objetivos. Tivemos uma redução na miséria; um número expressivo de pessoas ascendeu à classe média; a economia foi fortalecida e alavancada; avançou-se no quesito da igualdade de oportunidades acadêmicas; saímos do buraco no qual o Príncipe dos Sociólogos nos havia atolado; só para começar a conversa.

Ainda resta muito que fazer, mas não é este o foco aqui. O PT, desde sua fundação, esteve ligado às causas sociais. Como já disse, sofreu modificações – atingiu o poder em âmbito nacional e tornou-se um partido de massas –, mas a disposição pela luta, o zelo para com os menos favorecidos, isso não mudou. Os dois mandatos de Lula oscilaram entre altos e baixos; o detalhe é que a imprensa tradicional – que, diga-se de passagem, vem perdendo o fôlego devido à popularização e fortalecimento das mídias digitais alternativas – promove um jogo de manipulações, distorções e, muitas vezes, invenções sem pé nem cabeça. O resultado disso? O partido que promoveu tantas transformações importantes é reduzido ao “Partido dos petralhas”, termo propagado pelo infame Reinaldo Azevedo.

Globo, Veja, Folha de São Paulo e afins encontram grande parte de seu público numa classe média suscetível a qualquer oratória minimamente elaborada ou textos com meia dúzia de “fatos” e constatações por vezes falaciosas. Aliás, “por vezes” é condescendência: as mentiras já viraram praxe nos grandes jornais e redes de televisão. Ei, você, cidadão iludido, deixe-me jogar um balde de água fria na sua visão pueril da realidade: a mídia não gosta do governo, sim? A mídia não gosta de gente de esquerda, nem de progressistas; a mídia não vê com bons olhos os trabalhadores e suas reivindicações; a mídia não gosta de críticas – é contra a censura, mas a primeira a censurar. A mídia acha que não existe racismo no Brasil. E boa parte dela apoiou a ditadura militar (só falta utilizarem o termo “Revolução de 64”, termo que é o chamego dos que sentem saudade da repressão).

A mídia age como se fosse um verdadeiro partido ultraconservador; perdão, ela não “age”, ela É, pelos motivos citados anteriormente e por muitos outros. Quantas vezes nos últimos oito anos escândalos foram fabricados, casos de mínima importância, amplificados, e fatos concretos, distorcidos e modificados de acordo com a vontade dos barões midiáticos? Quer um exemplo melhor da falta de caráter, desfaçatez e baixo nível da imprensa do que o “mensalão”?

Quem não lembra do escândalo protagonizado por, entre outros, Roberto Jefferson? Ah, o Roberto Jeffeson. Foi ele a gota d’água de tudo, não? Deixe-me ver, teve também o tal do Genoíno. E o Delúbio. Ah! Como poderia me esquecer do Zé Dirceu? E do caseiro? Ops, escândalo errado! Que importa, não é mesmo? Nem sei quem são os caras, mas o importante é falar mal. Petralhas! Ladrões! Corruptos! Político é tudo safado, vamos protestar! Votem nas putas, porque os filhos dela não resolvem nada!

Discursos vazios, previsíveis, lugares-comuns. Tudo estimulado pela grande imprensa. Preciso repetir que ela não gosta do governo? Acho que sim; contudo, creio que nem assim isso entraria na cabeça de algumas pessoas. Tristes casos perdidos: a cegueira já está tão infiltrada na corrente sanguínea de alguns, que nem transfusão salva.

Alguém poderia dizer que o “comunista” (incrível como muitos sequer sabem diferenciar comunismo de socialismo e ainda abrem a boca para falar) aqui resolveu bancar o extremista e tachar as vozes discordantes. Oposição e discordância, para mim, não são cegueira. Cegueira é acreditar religiosamente em algo e se afincar àquela visão, sem se dar o trabalho de procurar mais de um lado da questão e sem se permitir ter uma opinião diferente. É fundamental conhecer outros pontos de vista; se eu não pensasse assim, provavelmente não teria “moral” para criticar quem acredita em tudo que o Diogo Mainardi fala (aliás, acreditar em qualquer coisa que esse sujeito diga já é meio, sei lá, suspeito, mas deixa pra lá). Por mais que eu precise do amparo de um saquinho de vômito ao ler certas coisas, acho importante fazer uma comparação entre as versões veiculadas pela grande mídia e as mídias independentes.

Voltemos ao mensalão, “o maior escândalo de corrupção da história da República”. Como se Operação Satiagraha, Lalau e seu desvio monumental de verbas, compra de votos para permitir reeleição de FHC e a privatização da Vale do Rio Doce, só para dar alguns exemplos, fossem ficções fantasiosas e irrisórias. Ei, você, cidadão iludido. Sim, você de novo. O mensalão teve basicamente duas funções: a primeira, tentar derrubar Lula – e isso quase foi alcançado –, e a segunda, aniquilar a carreira do até então único provável sucessor de Lula, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Nesse último ponto, a imprensa e a oposição lograram êxito. Com um detalhe: José Dirceu foi forçado a renunciar, teve seu mandato como deputado federal cassado e é réu no processo do mensalão, tudo partindo de uma acusação sem prova, dentro de um esquema muito bem engendrado para tentar sabotar o governo. Se puder, veja o baile que o “chefe de quadrilha” deu nos “jornalistas” a entrevista que Dirceu concedeu ao programa Roda MortaViva, da TV Cultura.

O mensalão como é divulgado, sinto muito, não existiu. É admirável como a imprensa “descobriu” que partidos levantam caixa dois, mas, obviamente, quem inventou a prática foi o PT, assim como o PT inventou a corrupção; ué, você não sabia que a corrupção começou em 2003? Sem julgamentos morais. Não estou dizendo que o que aconteceu foi certo; agora, o que definitivamente não é certo é, vendo as possibilidades de vitória nas urnas minadas, tentar aplicar golpes, distorcer, mentir, caluniar, inventar. O presidente dos EUA, Barack Obama, uma vez disse que não daria entrevistas à FOX de Rupert Murdoch porque o canal era uma extensão do Partido Republicano. No Brasil, a situação não é muito diferente: os grandes veículos de comunição estão à serviço da oposição.

Mas essa oposição não é construtiva. A oposição não está interessada em apresentar projetos que contribuam com o crescimento do País. O que eles querem é estorvar e solapar o atual governo. Observe a atuação de partidos como PSDB e DEM no Congresso Nacional. A maior “contribuição” tucana que me vem à mente foi o adorável projeto de lei apelidado carinhosamente de “AI-5 Digital”. Porque, de resto, a atuação oposicionista tem seu faro voltado para tentar quase que exclusivamente boicotar o governo. Agora, pelo visto, isso ficará ainda mais difícil.

O maior medo da grande imprensa é a regulamentação da comunicação. A Constituição possui artigos referentes a isso, que, no entanto, não são cumpridos. Não interessa aos barões midiáticos cumpri-los. Falta impor limites aos veículos de imprensa. Ou alguém acha certo que uma mesma pessoa/grupo monopolize a informação tendo sob seu domínio rádios, redes de TV e jornais? Alguém além dos referidos barões, claro. Quanto mais atravancamentos à regulamentação surgem, mais eles comemoram. O poder corrompe, e não é aprazível perdê-lo. O poder da grande mídia tem uma extensão grande, ainda. Mas não impediu que elegêssemos a primeira mulher presidenta do Brasil. Que isso seja um augúrio de mudança.


Sobre culpa, medo, religiões e demônios

domingo, 23 janeiro, 2011

O começo da minha relação com religiões – mais especificamente com a católica – provavelmente se deu no momento do meu batismo. Sendo filho de ateus, creio que o fato de minha avó materna ter sido católica devota se relaciona com a história; ou talvez meus pais tenham cedido àquele famigerado jogo social. Não importa. Os anos foram passando. Minha infância foi razoavelmente tranquila, e dela guardo algumas de minhas melhores memórias. Então, chegou aquela idade em que em geral se jogam as crianças numa igreja, a fim de, se não iniciar a doutrinação, reforçá-la. Quem tomou a iniciativa desta vez não foram meus pais. Foi minha irmã. Religiosa, à época, um belo dia me informou: “Tu vai pra catequese”. Indaguei o porquê. “Porque todo mundo faz”. E eu, subserviente, fui e fiz.

Na catequese, aprendi sobre um certo deus; sobre como ele era bom e justo e como eu deveria amá-lo e cultuá-lo. Mas o que ficou incrustado em mim foi algo cuja autoria é disputada entre judeus e cristãos. Estou falando de culpa. Porque, obviamente, a culpa é um dos pilares básicos do cristianismo. Como disse na época do colégio um grande professor de literatura, tirem a culpa e acaba o cristianismo. Antes que me apedrejem, friso que a culpa, sozinha, não baliza o sistema cristão; não esqueçamos o medo, a dor e a vergonha. Mas a culpa sobressai a todas as outras. Porque a culpa prende, tortura e se arraiga de tal forma, que é uma tarefa penosa extirpá-la.

Penosa, mas não impossível. Passei um tempo considerável carregando esse estigma, e não era muito difícil notá-lo. Ao que me parece, a catequese não cumpriu seu objetivo: me fazer amar aquela entidade enigmática e singular. Porque nunca, por um momento sequer, eu cheguei perto de amar deus, Jesus ou o nome que quiserem dar ao seu amigo imaginário pós-infância. Ou talvez, quem sabe, todo o parlatório cristão tenha atingido sua finalidade. Afinal, por uns três anos levei comigo o medo. Medo dos castigos que certamente me seriam infligidos pela mão de ferro de deus. Um deus que eu não amava, mas no qual cria cegamente. E cuja igreja impôs sobre uma criança de onze anos algo tão pesado como culpa, pois quem não ama a deus deve senti-la e, ora, o ser humano é pecador por essência, então nada mais natural do que se culpar. Pelo quê? Sinceramente, não importa. Mas não esqueça que você é um pecador e deve sofrer, já que a vida terrena é feita de labuta e dor e vergonha; a recompensa virá no reino dos céus.

Como me livrei da culpa? Não sei bem. Mas algo é certo: até lá, os suplícios foram inúmeros, as dores, praticamente insuportáveis; e a vida de repente se tornou mais áspera, empanzinada com sofrimento e sangue. Sim, não pensem que a tortura se restringiu ao plano psicológico. Eu descontava em meu próprio corpo tudo aquilo que a mente não conseguia administrar. E isso foi o início de alguns grandes transtornos que a Igreja Católica ajudou a desencadear.

Não, nem tudo é culpa do catolicismo e da doutrina cristã. Mas, bem, o conceito de “culpa”, como disse anteriormente, é obra judaico-cristã. E foi justo o catolicismo que ajudou a levantar coisas que até então permaneciam lá no fundo, num recôndito obscuro e que, não fosse essa “ajuda”, talvez nunca tivesse se manifestado. Mas se manifestou. E aí?

Chegou uma hora em que as coisas foram mudando. Não me sentia mais tão ligado à ideia de deus. Foi então que eu experimentei estudar outras religiões. Por curiosidade. Queria me ver afastado daquela visão cristã. Conheci a wicca, os cultos neopagãos e o satanismo moderno, que nada têm a ver com os clichês que a mídia ajuda a disseminar. Aí eu comecei a perceber um detalhe interessante, curioso. Veja só: aos poucos, mais lentamente do que eu gostaria, fui me dando conta de que eu não acreditava naquilo tudo. Era diferente, instigante, mas… não era real. Deus, diabo ou qualquer entidade mística. O que seria deus se não uma válvula de escape, algo no qual se apoiar? Eu não precisava daquilo. Que deus deixaria desamparada a sua criação?

Pois é, o cristianismo se foi de dentro de mim. Porém, deixou marcas. Não foi exatamente fácil combater a culpa: por mais que agora não houvesse um deus para fomentá-la, ela continuava ali. E expurgá-la me exigiu demais. Todos temos nossos demônios, não? “Meus demônios permanecem diante de mim e debocham de cada pensamento meu; o único jeito de limpar minha alma é afogar minha sujeira com chuva.” O trecho anterior é de uma música da banda americana Novembers Doom, e me faz pensar o seguinte: há demônios dentro e fora de nós.

Às vezes, os de fora podem ser tão perigosos quanto os de dentro, ou ainda mais. Da mesma forma que eu fui afetado pela doutrinação religiosa, muitas outras pessoas foram, são e serão. Não acho cabível impor determinada religião a crianças; como Richard Dawkins bem disse, não existem crianças católicas, judias ou muçulmanas – os pais destas é que pertencem às ditas religiões e acabam não dando escolha aos filhos. O pior disso tudo é que nem sempre a imposição é feita de modo sensato (como se pudéssemos usar a palavra “sensatez” conjunta com “imposição”, ainda mais religiosa). Muitas crianças são criadas desde cedo num ambiente de fanatismo completo. E o resultado disso nós podemos atestar diariamente. Acho que não preciso dar exemplos.

Me parece que as religiões são a mácula do mundo, e o cristianismo, por ter papel tão influente no mundo ocidental, acaba sendo mais prejudicial na nossa realidade. No Brasil, por muito tempo tivemos uma predominância da Igreja Católica, que ainda retém considerável poder entre os fiéis. Acontece que, de uns anos para cá, observa-se o crescimento das diversas formas de protestantismo. Evangélicos e católicos se digladiam em diversos aspectos, mas em outros, se unem sem pensar duas vezes.

E voltamos ao fanatismo. Porque muitas vezes fica difícil separar o fanatismo da religião; em boa parte dos casos, andam de mãos dadas, e não se sabe onde termina um e começa o outro. Não condeno os religiosos em suas pessoas, mas suas atitudes. Sei que existe uma pá de gente sensata, respeitosa e com mente aberta, sem deixar de ter sua fé e praticar a religião. Meu desejo sincero é de que fossem maioria. Mas não são. E a parte fundamentalista faz barulho. Ataca os direitos de outros para garantir os seus. Difundem toda sorte de preconceitos. Quando isso vai acabar?

Infelizmente, não enxergo um horizonte favorável. Ninguém deixa de ser fundamentalista da noite para o dia. Ninguém passa a ter empatia e respeito assim, do nada. Um diálogo como esse é sempre árduo de construir. Eu poderia ficar quieto, acomodado e prostrado em meu canto. Mas estou aqui, compartilhando minha experiência de vida. Me empenho em estabelecer discussões, debates e questionamentos. Autoquestionamento. Vivo numa sociedade pautada pela moral judaico-cristã, e acho que o parâmetro de ética e moral deve ser alterado o quanto antes. Porque enquanto houver extremismo religioso, não teremos muitos dos avanços do qual o mundo necessita. Enquanto a ignorância e a cegueira imperarem, a luz da razão ficará ofuscada. E enquanto a situação não for modificada, haverá outras crianças de onze, treze anos se martirizando por uma culpa risível, por um deus tão certo quanto a existência de fadas.