Breve tratado sobre a raiva

segunda-feira, 21 maio, 2012

Eu sinto raiva dos mundos que não me pertencem
Das luas dilaceradas, há muito sem brilho
Dos passos abandonados, da ruína que trilho
Da hipocrisia silente, do canto profano
Do ódio velado, do grito maldito
Do verso não dito, do rumo perdido

Sinto raiva da raiva que me possui
Do impulso que move a chibata que me açoita
Da reza cretina rogada aos meus ouvidos
Do abuso consentido eu sinto raiva
E quanto mais raiva sinto, mais gosto de senti-la

E saborear o gosto amargo dessa ira contagiante
Rasgar sorrisos inocentes
Desfazer laços puídos
Varrer vidros estilhaçados
E com seus cacos, ferir minha pele esbranquiçada
Até que o sangue verta e eu grite e sinta mais raiva
E sinta mais vontade de sentir raiva

E então assassine o meu eu ideal
Afronte meus falsos paradigmas
Aquilo que não almejo ser
E me desfaça em alguns poucos pedaços
Para te ofertar uma carne adocicada
Nutrida pelo açúcar de ódios afetados e afetuosos
Construídos com tijolos de insânia, dor e tirania

Sinto raiva porque minhas entranhas se corroendo me dão prazer
Porque me regozija sentir minha alma se rompendo
Ao som de trinta e sete mil violinos desafinados, gritantes
De vinte não-afetos desestabelecidos e fora de controle
De cem línguas viperinas, falsas, ausentes
E milhares de dedos apontando meu desatino
E milhares de olhos sentenciando minhas escolhas
E milhares de bocas escarnecendo minha amargura

EU sinto raiva porque a egolatria é um prazer da pós-modernidade
E é aprazível sentir raiva disso

Sinto raiva porque não sei bem o que sentir, tenho medo de partir
E assim violentar os fantasmas que hei de deixar para trás, desolados
Quando o último trem se for
E me levar a trilhar caminhos feitos de éter, contrabandeado
Por canalhas fisiologistas, burocratas e narcisistas
Que impuseram ao mundo essa ideia torpe
De que toda raiva deve ser explicada, rotulada e sufocada
Evado-me!

Dedicado a todos os porcos que têm orgasmos múltiplos ao tachar e encaixar as subjetividades alheias em moldes patológicos de ignorância e conservadorismo.

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Sobre febres, teias e impetuosidades

sábado, 10 março, 2012

Três febres nos compulsam à disparidade do incerto: a tua, a minha e a nossa. Tu, eu e nós, laços entrelaçados na teia dos sentidos. Tua sede mata meu desejo e incendeia nosso templo de cólera e paixão. Minha fome sacia teus desgostos e abala nossos alicerces. Nosso vórtice consome a mim e a ti, nossos passos trépidos na valsa do tempo a passar, arrastar e alastrar. Minha luz ofusca tua sombra, tua plenitude preenchendo e amplificando o vazio em mim.

Nesse caso íntimo de ódio e brandura comigo mesmo, voam farpas nos teus olhos belos e reluzentes. Teus olhos emanam um brilho que é veemente, sagrado, quase doloroso. Teus olhos incendiaram minha alma e deixaram meu corpo em febre: a minha. A luz que irradia de ti ofusca a razão e pacifica a guerra, febre de sangue e suor: a nossa. Minha ânsia assassinada no calor dos teus lábios vaza para um mar de infinitudes, desaguando no teu oceano terno e cálido, febre de dimensões-além: a tua.

Que o fogo do ardor queime nossas estruturas, desintegrando a matéria de nossa hesitação. A cinza dignifica a ruína da carne pulverizada e perpetua o idílio frágil que criamos para ser nosso lar: tua vaidade, meu maior alento. Dos nossos restos se faz uma fênix em revoada, ressurreição de dois espíritos volúveis – a transgressão de um paradoxo.

Busco um pesadelo para chamar de meu, uma raiva da qual eu me adone, um trono que eu possa usurpar e um amor para roubar. Pois coisas entregues logo enfraquecem, perdem o sabor do açúcar condensado em cascatas de prazer. É mais legítimo quando despojo teu coração sem perceberes, te submetendo aos meus caprichos, às multidões que me habitam, o amor que te dedico e a liberdade que escolho nos dar, me emprestar, te conceder. Pela minha chama, nos aqueço; pelo meu zelo, te liberto.

Três febres nos impulsionaram ao abismo de intensas e mortíferas quedas, os graus da dor variando no compasso da dança dos ventos, ventos que te carregam até meus braços. Pois nos meus braços te acolho, te afago, te violento e te curo. Tua adaga rasga meu âmago em mil pedaços febris, expondo as entranhas da minha angústia. Na tua saliva aplaco meus anseios, numa guerra de línguas e mãos e corpos em furor, teu perfume me inebriando e expandindo meus sentidos: só sei que te quero e só sei te querer, e enquanto te quero, mais vou te querendo, até só querer saber de me perder no teu querer. Dois corpos se fundindo num só, febre da utopia: a minha. Rompantes de amor e fúria conduzindo-nos a sendas desconhecidas, febre do transitar: a tua. Luz e sombras digladiando por espaço, integrando-se em ondas de intensidade, febre de querer mais e mais e mais: a nossa.


Navalha

domingo, 12 fevereiro, 2012

Sento à margem do tempo que passa e observo as águas se insurgirem contra as praias da existência. Sob a superfície espelhada, vejo o reflexo de tudo que perdi ao longo da jornada, os triunfos que abandonei no caminho rumo ao incógnito, os rios que deixei vazar da minha firmeza dilacerada. Num amálgama de descrença, esperança e impulsividade, ateio fogo a mim mesmo e me refaço das cinzas para me colocar num invólucro de anestesias extenuantes. Letárgico, mas consciente, luto contra os fins de mim mesmo, os fins em mim mesmo, e me lanço à saraivada de flechas de desafetos (in)diretos e companheirismos dúbios, incoerentes como a própria existência, congruentes e conflituosos como as divisões que me corroem… escuros como uma alma partida. Preenchidos e esvaziados. Assim como (e)s(t)ou agora.


Inexorável

domingo, 22 janeiro, 2012

Tal vez consumirá la luz de enero,

su rayo cruel, mi corazón entero,

robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero

y moriré de amor porque te quiero,

porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda, Cien Sonetos de Amor.

Para o meu amor, que me completa e me enche de felicidade.

Fagulha lançada ao acaso: assim se acendeu meu fogo por ti. A chama principiou tênue, discreta, suave, para logo se fazer intensa, lacerante, pulsátil. Tua chama incendiou meu ser numa hora funesta, preenchendo o vazio com plenitude, afastando as trevas com uma luz cálida e devolvendo esperança a um corpo que desconhecia o significado do viver. Viver de modo contumaz, arriscado e limítrofe, mas satisfeito, honesto, verdadeiro e livre.

Tua alma inspira liberdade. Sinto e absorvo teu amor livremente, teu perfume me inebriando com doçura e tranquilidade. Teu toque me libertou. Liberdade é poder se entregar sem receio, compartilhar com o coração aberto, amar e deixar-se amar com júbilo e agrado. Me entrego aos teus braços, sereno e confiante. Confio nos teus olhos belos, brilhantes, que me observam com ternura e suavidade; me deleito com tuas carícias, que me fazem ir às alturas para então pousar no teu colo, onde sei que estarei seguro. Porque és meu porto seguro; teu amor impregna minha vida com sentimentos inefáveis, que não ouso nomear, eu que sempre nomeio tudo para sentir que a tudo domino. E de dominador, passei a dominado: meu coração é teu, a ti pertence e a ti o entreguei para que nele deposites teus mais verdadeiros sentimentos.

As páginas da minha vida, antes vazias, tu preencheste com palavras ternas de confiança, formando frases que contam uma história incipiente, mas com um valor imensurável: tu vales o mundo, e por ti eu suportaria as mais terríveis aflições, carregaria os fardos mais pesados e travaria as guerras mais sangrentas. Prezo teu bem e tua paz: como deitar-me tranquilo sem ter certeza do teu conforto?

Tu mitigas meus tormentos, aplaca minhas fúrias e doma minhas tristezas com um jeito simples e natural, com uma graça própria de anjo, o arcanjo que zela pela minha felicidade. Tens o dom de dizer o certo no momento certo, sem me irritar ou ferir, e fazes isso como se tivesses recebido instruções sobre como ser a pessoa perfeita para completar minha vida. Porque me completas e fazes meu peito explodir de alegria, pois te ter ao meu lado é o maior de todos os presentes que me poderiam ser ofertados. A ti, oferto meu amor e meus mais sinceros e afáveis desejos.

Quero ser para ti tudo que representas para mim: o ombro amigo, o ouvido atento e a boca que profere palavras de sabedoria; a vela no escuro, a água no oásis e o sol após a tempestade. Tu és alento para os momentos mais intricados, bálsamo para as feridas mais dolorosas, o vento que alivia o calor das adversidades, o mapa para a cidade desconhecida que é a vida. Minha vida faz sentido contigo. És o sentido dela.

És o poema mais lindo de todos: está escrito nos teus olhos, cada linha repleta de afeição e brandura, formando lindos versos sobre a história mais extraordinária já contada. Não há versos para expressar o que sinto por ti. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar. E eu repito e me repito, mas não deixo de te amar. Te amar é um ciclo inacabável, cada dia uma reaproximação, uma nova descoberta, uma surpresa agradável, uma vertente de quentura que me conforta, me protege e me resguarda de qualquer mal. Não há mal na tua presença, pois tua luz repele o que de sombrio houver por perto. Mesmo a distância cruel não afasta teus raios de sol do meu rosto: basta respirar e te sinto, teu perfume alastrando alegria e alívio em meu coração. Aquilo que me toca em meu mais profundo recôndito é o que significas para mim, em mim, por mim: tudo.

E tento expressar tudo que sinto por ti, embora seja um trabalho ao mesmo tempo fácil e árduo, pois tuas qualidades esmeram teu ser e te enchem com um brilho especial; contudo, jamais chegaria aos pés de tanta beleza e encanto reunidas num só ser. Falar bem de ti é redundância, pois só o que passas é o bem, só o que fazes é o bem, e como é bom te ter na minha vida. És a pessoa mais linda que já conheci, teu corpo é minha fonte mais aprazível de êxtase e teu sorriso me desmonta e me encaixa novamente, me desarma e me contagia com uma energia indescritível. És bem mais do que acreditas ser. És um fluxo de harmonia se espalhando ao redor de mim, um âmago de infinitos prazeres, um altar perene de veneração ao mais puro e verdadeiro amor. Meu amor por ti é o mais puro e verdadeiro possível. És bem mais do que acreditas ser. És tudo e mais um pouco.

A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama; a chama se alastrou e causou um incêndio. Teu amor incendiou minha alma e colocou meu mundo em chamas. Mas, te garanto, são as chamas mais agradáveis em que já me lancei. Porque não me queimam, mas curam, abrandam e iluminam. Tu iluminas meu ser. A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama. Que essa chama resplandeça até o infinito. Meu amor por ti é infinito. Infinito como o brilho que vaza dos meus olhos ao te ver. Infinito como o universo de possibilidades que se abriram ao entrares na minha vida. Essa palavra, vida, tem, para mim, um novo significado. Vida, agora, significa um anjo ao meu lado. Vida, agora, significa um rumo a percorrer, um caminho certo a seguir, uma pessoa especial para andar ao meu lado. Vida, agora, não existe sem ti, pois tu és parte intrínseca dela, já que não existo sem ti, e teu amor, para mim, é mais do que tudo. Teu amor, para mim, é simplesmente isso. Vida.


Balada do coração agonizante

quinta-feira, 8 dezembro, 2011

The apple never asks the beech how he shall grow,

nor the lion, the horse, how he shall take his prey.

The thankful receiver bears a plentiful harvest.

If others had not been foolish, we should be so.

The soul of sweet delight can never be defil’d.

William Blake, Proverbs of Hell.

Me rasgo em pedaços de pano puído, despejando uma angústia de mil faces que teimam em se desencontrar. Fechei o círculo, mas outro se abriu: para quê? As infindas voltas que damos nos levam sempre ao mesmo ponto. Por que partimos, então? A estrada que leva a lugar nenhum é cingida por fios de arrogância, aquela que vomitamos sem ao menos nos darmos conta. Mas estava falando de mim. Dos meus pedaços rasgados em pano puído; a angústia a que me referi é minha, mas os desencontros são nossos. Como falar de mim sem ti? Como me encontrar em meio ao turbilhão de intempestivos rompimentos? Vaticinado está nosso destino no momento em que costuramos nossas mãos em uma aliança débil, fragilizada por uma esperança que seria vã caso fosse verdadeira, e acaba apenas vazia. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.

O sopro da manhã tenta afastar a dor da inanidade. Porque tudo o que eu almejava era um toque do tudo – o teu toque. E por desejar isso, acabei tendo apenas nada. O nada é pleno em sua essência, porque nos move e tange e permeia o fracasso da nossa esperança: não esquece que nem vã ela chega a ser. Vão é o esforço para achar o norte nessa vereda lúgubre. A luz que uma vez cegou nossos olhos é água no oásis: ilusão. Nossa estrada é uma sacola de ilusões, brilhantes como a estrela que mora em teus olhos. Doce gigante vermelha fadada ao amargo do apagar.

Me rasgo em pedaços de pano puído, esfregando, com os retalhos da minha alma partida, o sangue que derramamos ao digladiar por um pouco de ar fresco nessa terra de desolação. Um cenário de desespero pontilhado de luzinhas quase desvanecidas – ocas; toque-toque, aqui dentro mora o vazio. Sobre isso entendemos: o vazio é o berço do inconsolável. Minha agonia é inconsolável, pois parti para não voltar: sem ti, a seara é íngreme, o vinho, azedo, e o mel, amargo. Amargo como uma alma solitária. Doce esperança afogada em desilusão.

Em delírios de prazer e dor, escrevi o livro da minha mágoa: mil páginas de um vácuo sempiterno, letra apagada, poesia esmorecida na fria vertente do nosso descompasso. Um passo pra cá, três pra lá. Assim é a nossa valsa: vou ficando cada vez mais próximo e tu, distante. Disseram que a distância nos salvaria, mas ela desatou o frágil laço que contornava nossos corações: respira! liberdade! A distância liberta. A distância nos libertou. A distância te libertou duma gaiola expiatória. A distância me aprisionou numa fortaleza de aflição.

Me rasgo em pedaços de pano puído, tentando, em seguida, remendar o que restou de mim, ou de nós, já que não existe “mim” sem “ti”. Meu tecido gasto ao travar contato com o teu, ainda que sejam o mesmo. Meu corpo seviciado ao entrar em choque com o teu, cada toque um suspiro, cada suspiro, uma sinfonia de insensatez: te quero! Embora me machuques, te quero. Embora tua voz me roube o equilíbrio, te quero. Embora teu beijo me consuma, te quero. E te querer é um passo em direção ao abismo, o prenúncio da perdição.

Me perco na calada da noite, ruminando tuas palavras insípidas, relembrando teu cheiro sufocante, sentindo tua presença em cada esquina: onde estás? Onde poderias estar senão aqui dentro? Aonde poderias ir senão em minha direção? Espera: já não estavas aqui, dentro desse coração que palpita na esperança de te ver mais uma vez? Ouro dos tolos: contempla o buraco em teu peito, sonhador. Nele, cabe uma plenitude de sonhos. Sonhos em que fulguras, livre, mas intangível, distante. Sonhos são tão distantes da realidade. Eis o real: eu, aqui, vacilante, e tu, por aí, a vagar. Por onde? Não sei. Só sei saber de ti, e tu ressonas no tudo que há dentro do vazio. O vazio que habita meu coração sem tua presença. Quão tolo é aquele que ousa sonhar com o inalcançável. O fio que liga tua boca à minha se rompeu; o abismo que paira entre minha mão e teu corpo se amplifica a cada devaneio abandonado. É devaneio querer te encontrar, pois perdido estou. Ao meu redor, o pleno: vazio. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.


Ad infernum ducit

domingo, 4 dezembro, 2011

Fecho o círculo e ponho cada incongruência no devido lugar. Desvelo a farsa do nosso amor, que, de concreto, só deixou três marcas: no corpo, na alma e no coração. Não no teu, evidentemente. Sobre o teu, não me atrevo a proferir uma palavra sequer. Por não me conhecer, te desconheço por completo, sendo tu parte intrínseca de mim; ao extirpar-te de mim, me extirpas de mim mesmo, sendo eu verso incompleto sem o poema que tu és, gravado em minha pele. Nela, à fogo reluz o emblema da tua vitória, como uma reminiscência que reluta em partir: pedaços dilacerados de um coração arruinado, nada mais que um brasão da alma incendiada pelo fogo pungente da dor.


Sobre sonhos, promessas quebradas e cacos de vidro

quinta-feira, 20 outubro, 2011

Vivíamos um sonho irrealizável. Um delírio borbulhando em cascatas de uma afabilidade terna e quase estridente. Você partiu, eu me fui. Você se foi, eu me parti. Um jeito aprazível de sangrar. Vertentes escarlates de você. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma ferida pungente, mas suave. Sua lembrança é suave. Apesar da dor. Apesar do sonho fragmentado. Ilusões frágeis como vidro.

O vidro que reflete o interior. Vazio? Um imenso vazio preenchido por si mesmo. Memória inefável, sombra do que não foi, poderia ter sido, mas logo se esqueceu. Você se esqueceu. Esquecemos. Esqueçamos. Já não importa muito. Apesar do relativismo do importar. Apesar do sonho arrasado, mas almejado. Vidro partido, coração ferido. Cacos de uma alma dilacerada.

Coração em frangalhos por crer em promessas feitas com uma mão na água e um pé no fogo. A chama que não tardou a nos consumir. Incendiar às vezes é melhor do que confrontar. Ilusões não são assim tão fáceis de desfazer. Melhor esquecer? Eu me esqueci. Esquecemos. Esqueçamos. Me esqueça. Me faça esquecer e juntar os cacos para recompor o fantoche vítreo.

Vivíamos um sonho denso, cintilante, feérico. Efêmero, débil, demasiado. Ilusório. Esplêndido, mas cruel. Crueldade sem beleza. Aquela beleza das flores coloridas e perfumadas. Um sonho mais como um jardim cinzento e frio. Como a vida. Como o mundo. O nosso mundo criado pela minha esperança. Promessa feita com uma mão na mente e os dois pés no coração.

Falar de corações é como um dia de chuva. A indiferença caindo em gotas parcas para logo tornar-se uma tempestade de mágoas. Enxurrada de emoções distorcidas, um céu coberto por angústia; a angústia luta para dissipar as nuvens apáticas e trazer a luz. Mas a luz vem apenas para ofuscar o sonho. Sonho perdido na névoa que se afasta para trazer o conforto dos iludidos. Insolação de empáfia.

Falar de corações é como vagar. Cruzar os vales sombrios com a indissolúvel esperança do fulgurar de um horizonte. Um horizonte que agora parece tão distante. Distante como a sua memória. Aos poucos ela se esvai. Não quero perdê-la, mas o fluxo é irrefreável: cascatas de um amor desesperado que vaza dos meus pulsos para seu coração. Falar de corações é como planger pelo inevitável: o amor rejeitado espalhando-se pelo chão, sem vasilhas para recolhê-lo ou bálsamos para amenizar a ferida inestancável.

Vivíamos um sonho. Um sonho que, de reluzente e caloroso, transformou-se em obnubilado e gélido. Um sonho que, de equânime e fraterno, passou a unilateral e aversivo. Um sonho feito de cacos de uma confiança destroçada. Os destroços aqui, digladiando por ar. Ar cada vez mais escasso. Essa é a essência dos sonhos: a escassez do sentir. E agora só o que sinto é aquela cascata de uma deslealdade perversa e quase sufocante. Nós nos fomos, eu me parti. Em mil pedaços. Um jeito sublime de sangrar. Vertentes escarlates de mim. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma dor impassível, mas necessária. Sua lembrança é necessária para viver. Apesar do flagelo que é lembrar seu toque. Apesar do sonho cálido, que em breve será enterrado. Ilusões frágeis do desejo.