De nihilo nihilum

sexta-feira, 14 outubro, 2011

Não passou de um traço, um vestígio tênue, quase imperceptível; mas eu percebi. As coisas ocultas me atraem. Desde o momento em que fui lançado às cinzas, ao mundo plúmbeo, foi-me ocultado tudo; e o tudo foi moldado à imagem do inexplicável, uma estátua picaresca do inexistir – fiz do tudo um nada. Nada ofuscará o que já nasceu apagado.  E eu tentei apagar a reminiscência daquele sinal. Mas não houve jeito. Não era para ser. Fatalista? Catalítico, melhor dizendo. Fundi-me a essências escusas, aviltando o que sobrara de límpido nas águas da consciência. Entreguei-me às prazerosas sevícias do incompreender. Apostasia de mim.

Fragmentei o ser; trouxe à mente um desejo perverso, uma sanha insopitável por aniquilação; fragmentando o ser, concretizo o desejo perverso – aniquilação, amálgama da ira e do eu-afastado-de-mim. Compareço ao festival da abiose: um brinde à desconstituição da luz, aquela luz de fim em si própria: não tente ofuscá-la, ou será consumido por sua chama cintilante. Pode parecer inócua, a princípio, mas ela o devorará. Eis meus resquícios como prova. Resignação de mim.

Com os olhos abertos diante do desfiladeiro, me despojo de quaisquer armaduras e sigo adiante. Não passou de um brevíssimo instante, mas eu percebi. Em vez de cair, ascendi. Às maravilhas do olvidar. Esquecer para lembrar. Lembrar para então ocultar o brilho. Aquele que ofusca o tudo. E tudo parece tão distante. Memórias difusas vagando pelos trilhos do tempo. Aqui o tempo para. Aqui as ondas quebram. Profanação de mim.

Mas uma verdadeira ascensão tem sempre uma queda no seu encalço. Desfaleço no abismo do inexplicável. Ao voltar a mim – ou aquilo que eu deveria ser –, estou cercado por um exército daquelas estátuas picarescas do inexistir, os dedos em riste apontando para meu coração, ou para o buraco no lugar em que ele deveria bater. Contemplo-as com pasmo e admiração: alguém se dirige a mim, eu sou o alvo, o objeto. Nem que seja para prenunciar o fim. A morte é como um lar. Omissão de mim.

Antes do grande ocaso, mergulho nas profundezas de mim – ou aquilo que jamais serei. Uma luz brota lá dentro, pronta para jorrar e afogar o mundo nas mais desmedidas quimeras. Mas seria tolice lhe dar vazão: por trás da cortina ilusória, o semblante do vazio, arauto do brilho que há de me ofuscar. Redundância: não se ofusca o que já nasceu apagado. E eu cruzei oceanos de sangue para apagar a reminiscência daquele sinal. O sinal que por tanto tempo eu quis negar. As armas do espírito renegado. Quebradas, inúteis e ofuscadas. O tudo, em si, ofuscado. O tudo é perene, e assim é o nada. Nada para lembrar, sentir ou almejar. O brilho se extingue. Abnegação de mim.

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Afótico

sábado, 3 setembro, 2011

“He venido encendida al desierto pa’ quemar

Porque el alma prende fuego cuando deja de amar”

Lhasa de Sela – El Desierto

Era como pairar. Uma suavidade enganosa que, de tão intensa, se fez dolorosa. As delícias e perigos da abnegação. Abdico às correntes e cruzo o limiar, mas permaneço sobre ele. Isso é pairar: estagnação. É a falácia do movimento suave, que leva a uma viagem sem rumo, sem fim. Eu parto, mas permaneço aqui. Distante de tudo, inclusive de mim.

Alguém certa vez me disse que a distância mata. Pois eu digo que a distância nos salvará. Salve-se quem puder, mas, por favor, não nos esqueçamos de despojar e, então, aniquilar as sobras. Até não restarem vestígios do indizível.

Anseio por dizer o indizível. Expressar a vibração primitiva sem que as marionetes de cristal se estilhacem em mil pedaços. Mil pedaços para mil anjos caídos, sedentos por mais. Mais jeitos de aprimorar o engano, de tentar juntar os cacos para reparar o que foi danificado. Quero reparar o irreparável. Isso é dizer o indizível: tornar impossível o possível – e não é possível partir.

Vem estagnar comigo. Percorrer as distâncias inalcançáveis, sonhar com o que não se pode ter, ousar lutar pelo que jamais seremos. Algo inominável nos impele ao impossível: mesmo conhecendo o fim da estrada, não deixamos de insistir, persistir em querer. Querer poder mais. As delícias e perigos da frustração.

Vem quebrar comigo, feito aquelas mil marionetes, frágeis e surrados brinquedos espalhados pelo playground da vida. Como duas crianças, vamos brincar. O passatempo pueril logo se transformará num jogo feroz de morte ou uma morte pior ainda. A vida não deveria ser um jogo – há jeito de torná-la mais do que um mero teatro da morte?

Vem pairar comigo. Nós dois, mergulhados no mar da solidão. Nada é mais doce do que a distância intangível. Solidão a dois é mais poética. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar.

Vem não apenas mergulhar: afoga-te, entrega-te, abjura-te. Afunda em mim e descobre a pérola que se esconde por trás da tua pálida carne. Eu sou a ostra: atira-te, concede-te o luxo de ser engolida e sufocada, e eu te moldarei ao meu, ao nosso prazer. Porque perder-se é aprazível. Perde-te em mim, num lento e aconchegante golpe de misericórdia. Larga a coroa de espinhos e dá-me tua mão: eu sou a verdade, o caminho, a mentira e a contradição.

Mas não me contradigo ao afirmar que, sim, a suavidade causa dor. A dor mais intensa que se pode provar. Indelével, inexorável, irrepreensível. A cortina do suave logo se rasga e revela a aspereza, pronta para nos retalhar em mil pedaços. Aqueles mil pedaços para mil anjos caídos, lembra? Mil anjos escondidos no espelho. O espelho reflete teu rosto, gravura lapidada na pedra do paraíso: selvagem, ofuscante e irredutível. Ao teu redor, imagens de uma vida que não existiu. Era doce. Era suave. Era plena. Era como pairar.


Instruções para caçar fantasmas e a si mesmo

sexta-feira, 2 setembro, 2011

Começo perscrutando o ambiente em volta. A casa é velha e decrépita, o que é bom, pois geralmente as desse tipo estão repletas dos meus alvos. Devo ter em mente que fantasmas são inimigos perspicazes e difíceis de detectar. Preciso ampliar meus sentidos, aguçar minha percepção. É necessário querer eliminá-los, e não apenas varrê-los para longe com um exorcismo frugal.

Verifico meu armamento, algo essencial. Tudo à mão? Ótimo. Vigilância constante, não posso esquecer. Alguém pode me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Eu posso me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Tomo cuidado para não me tornar mais precioso que os fantasmas. Eles estão acima. Circulo pela casa; observo cada detalhe. Sinto o cheiro forte do mofo, o cheiro tão familiar de baús lacrados a sete chaves. Tomo cuidado com os fantasmas, pois eles me espreitam. Analiso os móveis, procuro pelos sinais certos nos lugares não tão certos. Por deus, não posso me tornar como os fantasmas. Eles são execráveis. A sala está vazia; não sinto nada. Bom, muito bom. Mas eles estão aqui. Continuo andando. E tomo cuidado para não me deixar consumir pelos fantasmas. Eles são maus. São perigosos. Eles me causam vergonha. Asco. Medo. Devo tomar cuidado com os fantasmas. Cuidado. Cuidado. Ah, deus, cuidado. Eles vão me machucar. Eu vou me machucar. Preciso me armar. Eu… não! Aí vem um!

[…]

Eu sinto o escuro. Aqui, agora. Lá dentro, lá fora. Não importa: tudo é vazio. Quero deixar a corrente vazar de fora para dentro, fora de mim, não importa: eu transgrido, mas a mim não foi conferido o direito de discernir. Contudo, compreendo esses golpes que dilaceram minha carne, essa torrente escarlate que flui para fora de mim. Fora, dentro, não importa: o mal que vem de fora macula o que há por dentro, e a recíproca é verdadeira. E eu não consegui afastar essas sombras de mim. Acho que elas acabarão me devorando. Se eu não me devorar primeiro.

A mim foi conferido o direito de me resignar e me curvar, ser levado pela matilha de falsas ovelhas em direção ao sacrifício final. Tudo nos eixos, tudo como deve ser. A coluna de Atlas alimentada pelo fluxo irrefreável do passado. As memórias desprezíveis e sufocantes. A horda dos fantasmas e a falange maldita. A conspiração armada por e contra mim chega ao ápice. Um último momento de glória antes da fogueira. Os prazeres da dor. Pronto. Deixe-me ser sua voz. Faça-me gritar até romper as cordas vocais. Até que não reste nenhuma gota de sangue nesse corpo fatigado pelo horror e pela miséria. Que só um resquício da essência se mantenha incólume. Para ser usado. Sim, a bengala, um descartável, mas útil objeto. Use-me como melhor desejar. A caçada acabou. Eu, de caçador, passo a ser caça. Há diferença entre eles?


Instruções para embalar fardos

quinta-feira, 1 setembro, 2011

Primeiro, deixe a semente germinar; ela foi plantada com um propósito, e é crucial que seu ciclo não seja interrompido. Lembre que aqui não entram suas vontades e idiossincrasias: o espaço está ocupado com a plenitude, e a plenitude é maior do que você. Zele pelo todo. Proteja-o com a vida, se preciso. A semente precisa germinar.

Então, as raízes tomarão forma. Observe a beleza sobrenatural, quase feérica que grassa ao seu redor. Uma caixa de Pandora para remediar o mundo, e não para danificá-lo. Seja um reparador, a panaceia que dá o toque terreno ao fantástico, àquela quase-ilusão-real-demais-pro-meu-gosto-mas-ah-meu-gosto-não-importa.

A semente tornou-se uma floresta em expansão. Veja como você não consegue acompanhar o ritmo voraz do crescimento, as árvores cobrindo as terras áridas com uma ânsia irrefutável de dominação, sem temor ou piedade, senhoras de si e de outrem. Não esqueça que paradigmas em ruptura machucam, mas impassividade, resiliência e submissão lhe são peculiares e indispensáveis. Você não pode controlar o incontrolável; ele é que controla você.

Você jamais mensuraria o quão ampla a floresta haveria de se tornar. Chore de emoção ao vislumbrar o horizonte perdido que se aproxima. Mas prepare-se, uma enchente vem aí. As águas torrenciais ajudarão a propagar a grande causa; a floresta atingirá seu zênite! Vibre! Rejubile-se! Deixe-se arrastar pela corrente irrefreável e deliciosa das lágrimas fluviais. Qual a sensação de se perder no turbilhão de sensações vorticosas, promessas quebradas e dúvidas?

Ah! não há tempo para isso! Não perca de vista o horizonte perdido. É o seu ponto de referência. Vejo que a água varreu você, ou o que sobrou de você, trazendo-o ao cerne da grande floresta, bunker e fortaleza do mundo, essência de poder e sanha pelo infinito. Mas este não cabe a você. Apenas contemple: sinta o horizonte tornando-se carmim, jatos preciosos do sangue derramado na construção desse magnífico ideal. Contemple, mas não ouse tocá-lo, pois ele não lhe pertence.

Suba a escada. Sim, seus degraus parecem infindáveis, mas você terá sua recompensa. Servir é sua recompensa. Exausto? Nem pense em fraquejar. Não lhe é permitido hesitar. Resista. Respire. Servir, servir. Isso. Abra a porta. Olhe ao redor. Absorva tudo, cada detalhe. O mundo é seu. Seu fardo. Pronto! A embalagem ficou perfeita, meus parabéns! Agora, dobre os joelhos, abra os braços. Receba o peso – sua recompensa. Atrele o fardo às suas costas. Vire-se; não olhe para trás. E tome seu rumo.


A fabulosa hecatombe existencial

quarta-feira, 31 agosto, 2011

“In that final look, does the deer forgive the wolf?”

Otep – Head of Medusa

A corda se rompeu. O laço que nos unia era frágil e previsivelmente esmoreceu; o tempo desgasta tudo, não? Tudo, exceto o ódio que nos avilta, essa centelha fraternal que ainda nos une. Nós, os pretensos intocáveis. Nós, os protótipos frustrados de um martírio sem fundamento; almejávamos ser a palmatória do mundo e colhemos um fruto amargo chamado decepção. Decepção mata, mas a morte nos é íntima; seu perfume podemos distinguir à distância e seu sabor mora em nossas línguas. Línguas bífidas, venenosas – a cobra em mim pronta para te abater e então ser devorada pelos resquícios do que sobrou de ti.

A bem da verdade, não sobrou muita coisa. Talvez um vazio inconstante, incôngruo e amotinador: preenche-me! dá-me um alento, nem que seja um fiapo de luz! Preciso de luz para mascarar a verdade, ocultar a sombra e a incerteza; ou seria para expor? Me expor. Nos expusemos demais. E a corda acabou se rompendo. Ou seria mais oportuno dizer “foi rompida”? Tua lâmina é cega, mas meu âmago é porcelana negra, fácil de romper. Rompemos a corda, o laço e as sensações que de tão ah, meu amor, te quero pra sempre, acabaram se encaixando na definição do nosso caminho: efêmero. Porque tudo é efêmero, só depende do ponto de vista. E meus olhos estão nublados de cegueira.

A dissonância nos afastou. E me afastou. De ti, de mim mesmo, do mundo. A total dissonância entre ser, sentir e (fingir) viver lançou manchas negras no lindo quadro da existência. Conta-me sobre tua existência, teus sonhos e delírios, que aqui, do alto do meu trono de éter, tenho condições de julgar, troçar e destroçar teus relatos de um nível muito superior ao qual estávamos atrelados anteriormente. Níveis desiguais, desejos desiguais, seres desiguais. Somos desiguais. Todos caminhando numa direção. O penhasco ao fim da fabulosa trilha existencial leva até aqui. Cá estou, com meu cetro e coroa invisíveis, pronto a bramir ordens que só serão ouvidas por mim e meu exército de fantasmas rancorosos. Te ordeno: ajoelha, sacia meu desejo. Qual o teu desejo, meu senhor? Tu. Mas senhor, estás falando contigo mesmo. Teu desejo é…

Redesenhar o quadro. Livrá-lo de toda e qualquer mácula. Mas caminhos imaculados são ilusões. As manchas insistem em nos perseguir, cada passo deixando um rastro maior que o outro. Um rastro denso, cheio de raiva, ira e ambição. Diz-me o que tu almejas e te darei. Mas, por favor, não pede que eu me entregue. Já fui consumido pelas agruras desse percalço agre. De mim, só posso doar uma flama tênue e singela. A ti. A mim mesmo. Que o fogo das portas que incendiarei ilumine meu caminho.


Imensidão, ou sobre discrepâncias aleatórias e insignificantes

terça-feira, 4 janeiro, 2011

É com uma intensidade tão absurda, tão primária e obscura e perversa. Sem sentido. Sem nenhum sentido, aliás. Sem o menor traço de sentido. Sentido? Tal palavra, veja só, não consta em meu dicionário. Não consta “em”, que “de” é um tanto duvidoso. Ou não. Não sei o que é sentido. Importa? Talvez. Melhor deixar essa divagação lá no fundo, no recôndito de algo-que-não-consigo-nomear. Que jamais se erga, que não tenha a oportunidade de queimar ao Sol novamente.

Sol. Alguém, por favor, guarde um pouco de luz para mim – talvez haja um retorno. Porque aqui é escuro. E faz frio. E dói. Muito. Muito mesmo. É compreensível? Depende. Do quê? Importa? Não. Talvez. Ah, por favor. Vamos acabar voltando à questão do sentido, mas eu não quero voltar à questão do sentido, porque a questão do sentido machuca, e quando machuca, a dor é intensa, e fria, e escura e imprescindível ao (auto)conhecimento. Não quero conhecer. Ignorância é felicidade, não?

Quero ignorar o ignorável. Quanta pretensão. Mas há tantas coisas em vista; estou pretendendo demais? Não sei. Esse mar de (des)conhecimento, de vazio e ignorância me cerca, às vezes fica difícil… ignorar. Voltamos à ignorância? E o sentido, onde fica? Posso persistir, ou melhor, teimar em ignorar o ignorável, mas, veja, aquilo que não se pode evitar sempre acaba voltando, em doses esparsas, agônicas e belas. “Belas” não é bem a palavra, perdão. Cruéis. Sim, cruéis. As pessoas são cruéis. É natural machucar, trair e dilacerar o sentido. E desfazer esse sentido. Ah, esse sentido, maldito, que insiste em voltar. Suma.

Sumir é aceitar o vazio. Mas quem disse que é fácil? Poucos podem se apropriar dessa palavra. Fácil. Facilitar. Facilitar a facilidade. Facilidade em dificultar. Está soando muito artificial? Pomposo? Ou talvez fútil. Vazio, quem sabe. Sim, o vazio insiste em nos cercar. “Nos”? Não existe “nos”, existe o “eu”, o “aqui”, “agora” e o nada. Sem aspas. Porque o nada é essencial. E a essência…

Deus, que essência? Aliás, que “deus”? Uma dose extra de autopunição e as coisas começam a ficar mais claras. Porque no escuro é difícil distinguir a claridade. Não. No escuro, não existe claridade. É só uma ilusão. Ou desejo. Ou ambos. Importa? Sim. A importância é uma mera medida, uma idiossincrasia patética, ou não, ou sim, ou o que importa? Voltamos à importância. E ao vazio. E no vazio, é claro, tudo é escuro, e frio, e intenso, e valioso.

Valioso. Adjetivo que denota importância. Quase nada importa. De novo, dando voltas e voltas e voltas e chegando a lugar algum. Esse lugar não me pertence, e é recíproco. Também quase nada é recíproco. Deveria ser, mas já é outra questão; não queira atribuir a mim aquilo que não me cabe.

Quanto cabe dentro do vazio? Pouco. Ou muito. Tudo – ou nada. Importa? O que importa é que machuca. O quê? Tudo. Ou nada. Ou ambos. E ambos acabam desaguando naquele velho mar de escuridão, e dor, e pouco, e… insignificância. Pouco significa, pouco vem, muito vai. Estou indo, e não pretendo voltar.


Oferta de risco

sábado, 24 abril, 2010

(sequência de Brilhante, devo dizer)

1

Dormir era algo que ela não fazia direito há noites. As lembranças ainda estavam frescas e cinzentas; a chama da vingança ardia cada vez mais. Depois daquela tragédia, Lorena Seravre não era mais a mesma. Obviamente, o Coven fora informado dos fatos ocorridos na caverna e prontificou-se a tomar “atitudes imediatas”. A burocracia e as restrições do grupo, contudo, começava a dar-lhe nos nervos; então, nada mais natural do que agir por conta própria.

Acontece que seus planos não estavam dando certo. Procurara, sem descanso, por pistas que levassem à origem dos poderes de Charlotte Cashmore, mas nada encontrara. Nem mesmo o sinal dos seus passos conseguira rastrear. Mas não iria dar-se por vencida. Tinha um compromisso para com as memórias de Ceres e as demais, e não iria pretendia desonrá-las.

Ser incomodada por alguma bruxa do Coven era a última coisa que desejava agora. A atitude mais lógica para que não fosse contatada foi desativar seu celular temporariamente. Lançou, também, fortes feitiços bloqueadores em torno de si, para garantir ainda mais sua comodidade. Precisava de um tempo para organizar as idéias e, então, prosseguir com sua missão.

Numa noite particularmente quente, lá pelas 20h, estava tomando café num pub de Londres, quando um homem que nunca vira na vida sentou-se à sua mesa.

– Com licença – disse ele. – Se importa se eu lhe fizer companhia?

Era baixo, forte, calvo e tinha olhos escuros, de um tom exótico. Boa aparência, aparentemente educado… Mas o que pretenderia? Lorena não estava muito disposta a ter qualquer tipo de conversa no momento; entretanto, para não ser grosseira, disse:

– Claro que não. Sente-se.

Houve um silêncio interessante por uns segundos, até que ele tomou a palavra:

– Você andou se escondendo, Srta. Seravre? Foi muito difícil seguir o seu rastro, mas vejo que acabei sucedendo.

2

Lorena espirrou café na toalha da mesa. Ficou em alerta.

– Quem é você? E como sabe o meu nome?!

– Ah, perdão, não me apresentei… Meu nome é Vincent. Vincent Cashmore.

Demorou dois segundos para reconhecer o sobrenome, seus olhos se esbugalhando em seguida. Levantou-se de súbito, chamando a atenção das pessoas em volta.

– Por favor, você não vai querer causar um escândalo aqui, ou vai?

Ela voltou à cadeira, cautelosa, pronta para se defender caso ele atacasse. Os demais clientes logo voltaram ao que faziam.

– Você é…?

– Sou irmão de Charlotte. Lamentavelmente.

– E por que veio até mim? Deduzo que seja um bruxo. Homens não são aptos à magia, de modo geral.

– Acredito que eu tenha uma informação que seja do seu interesse.

– OK, OK. Primeiro, me deixe entender uma coisa… Como você me conhece?

Ele sorriu, logo respondendo:

– Seus feitos e proezas sopram pelos ventos, minha cara. Especialmente o último…

– Último?

– Lorena, por favor. Todos estão curiosos para saber como você sobreviveu ao encontro com Charlotte, mas eu tenho algumas suposições… e, antes que você pergunte, eu estou afastado do Coven há muito, muito tempo… desde que Charlotte começou a criar confusões pelo mundo.

– Por que fez isso?

– Para proteger minha família das conseqüências do que aquela idiota iria fazer, o que foi inútil. Meus pais, que não eram bruxos, acabaram por falecer algum tempo depois, devido a uma doença misteriosa. Pelo menos é o que os médicos disseram.

– Como assim?

– Vou lhe explicar e aproveitar para emendar esta história ao motivo que me trouxe até aqui. O nome Kazhim lhe é familiar?

Evidentemente. Para uma bruxa com mais de vinte anos de experiência como ela, seria impossível jamais ter ouvido falar no poderoso demônio que perambulava pela Terra há pelo menos trezentos anos.

– Sim. O que tem ele?

– Então? Você não queria saber a origem dos poderes de Charlotte?

Lorena gelou.

– Charlotte…

– … fez um pacto arcano com Kazhim. Em troca de algo, deu a ela poderes estupendos, que nem em cinqüenta anos ela teria condições de obter e, principalmente, administrar. Tanto poder acabou comprometendo parte da sua sanidade, como você deve saber.

– E o preço destes poderes foi…

– … a alma de meus pais, pelo que eu constatei depois.

– Sinto muito.

– Tudo bem. – Ele fez uma longa pausa, para, depois, continuar: – Lorena, eu estou ficando cada vez mais debilitado. O pacto com Kazhim incluiu um “preço adicional”: grande parte dos meus poderes, adquiridos com anos de esforço e estudo. Para conseguir chegar a você, demorei mais de uma semana e quase morri devido à quantidade de energia que o feitiço exigiu. Charlotte precisa ser detida, antes que mais tragédias aconteçam.

– Mas combater poderes vindos de demônios é quase impossível! Eu mesma não sei por que Charlotte não lutou comigo na caverna, optando por fugir diante do meu feitiço!

Quase impossível. Mas há um jeito.

– Qual?

Ele suspirou antes de falar. Demorou um tempo para lhe explicar todos os detalhes, mas, ao final, uma esperança crescia no peito de Lorena.

– Você precisa fazer isso por mim – disse Vincent. – E pelos meus pais, e pelas suas amigas, e por todos os que morreram devido à cobiça de Charlotte…

Lorena sentia-se estranha. Em menos de vinte minutos, sua perspectiva de vitória contra Charlotte parecia ter aumentando consideravelmente. E o mais curioso: por meio da ajuda do próprio irmão de sua adversária.

– Sim. Eu prometo a você que ela vai ser morta.

– Ótimo. Sinto-me mais tranqüilo ao ouvi-la dizer isto. Agora, deixe-me dizer algo. Você disse que não sabia o porquê de ela não ter lutado… Pois eu sei. Medo.

– Medo? Do quê?

– O correto seria de quem. Charlotte morre de medo de você.

– Mas…

– Ela provavelmente já tinha ouvido falar de você, mas, depois do incidente na caverna, ficou atestado que não estava lidando com uma amadora, mas sim com uma bruxa poderosa e experiente, que poderia muito bem atrapalhar seus planos. Se não tivesse medo, Charlotte não fugiria e ainda desfaria os bloqueios ao redor de si para que você pudesse encontrá-la.

– Vincent, isto não faz sentido nenhum. Noelle Moreau, a grã-mestra do Coven, confrontou Charlotte há sete anos e não conseguiu destruí-la, mesmo sendo a bruxa mais poderosa que eu conheço. Por que Charlotte teria medo justamente de mim?

O homem a encarou, misterioso, por alguns segundos. A seguir, disse:

– As coisas ainda não estão muito claras. Nem eu entendo direito, mas acredito que, refletindo um pouco mais, chegarei a uma resposta.

Lorena não estava entendendo mais nada.

– Sei que deve ser confuso e estranho para você – continuou Vincent –, mas eu peço que você confie em mim, mesmo não me conhecendo. Posso lhe assegurar que minhas intenções são as melhores possíveis, e, mesmo que quisesse prejudicá-la, acho que não teria como, dado a minha debilidade crescente.

– Sua ajuda veio em bom tempo. Eu já começava a me desesperar por estar tão desnorteada, sem qualquer tipo de apoio. Agradeço pela sua disposição.

– Não há necessidade de agradecer, Lorena. Você estará fazendo um favor para si e para o mundo, acredite. O tempo é escasso. É preciso agir o quanto antes, contando com o fato de que Charlotte provavelmente sequer imagina que você está tão próxima de chegar a ela. Meu número de telefone é este.

Entregou um pequeno cartão à bruxa, que o fitou por uns segundos e, então, o guardou no bolso da calça.

– Mantenha-me informado das suas ações. Se precisar de algo que estiver ao meu alcance, farei de tudo para cooperar.

– Você já está fazendo muito. Obrigada.

– Eu é que digo obrigado. Preciso partir agora, antes que o resto de minhas forças se esvaia. Que os deuses a acompanhem.

Vincent levantou-se da mesa e caminhou até a saída. Pela janela do pub, a bruxa entreviu a silhueta diminuta do homem desaparecer repentinamente em meio à rua.

3

Três dias depois, Lorena estava a duas quadras do Museu Nacional de Praga, na República Tcheca, arfando por causa do vento gelado. Contava cada segundo no relógio, impaciente. Ela está demorando demais. Desde a conversa com Vincent, sentia-se estranha. Havia algo diferente no ar, uma espécie de desestabilização na Teia Universal de Energia. O que será que estava acontecendo?

De repente, passos atrás de si. A silhueta esguia de uma mulher vinha em sua direção, com um saco preto numa das mãos.

– Vamos sair daqui – disse Lorena.

Correram juntas até saírem de perto da Praça de Venceslau e alcançarem um beco escuro, razoavelmente longe dali. Não precisariam se incomodar com a polícia, ao menos Lorena, já que perder tempo estava fora de seus planos.

– E aí? – indagou.

– Aqui está.

Passou o saco a Lorena, que o abriu apressada. Em sua mão estava agora uma gema pequena e pesada, de cor esverdeada e formato oval. A Pedra de Soyedre. Nunca pensara que aquele objeto – que pertencera ao czar Nicolau II e estava constantemente sendo levado de museu a museu pelo mundo – pudesse vir a estar em sua posse algum dia. Roubar não era exatamente um ato correto, mas as circunstâncias exigiam. O brilho de seus olhos era perceptível. Finalmente poderia…

– Lorena – a voz da mulher a chamou à realidade.

Karen Harris a encarava com impaciência.

– Você conseguiu passar pelos seguranças sem ser vista? – indagou Lorena.

– Obviamente – respondeu a outra. – Desativei todos os alarmes, câmeras e proteções; também desacordei guardas, rompi protocolos… E não foi nem um pouco fácil. Há magia protegendo o museu, Lorena.

– Eu imaginei.

– E foi por isso que requisitou os meus serviços, não? Para que não tivesse as mãos sujas e poupasse um bocado de energia.

– Exatamente.

Lorena sorriu, o que pareceu desagradar a Karen, que disse:

– Agora, como combinamos, o pagamento…

– Você não costuma cumprir o que combina, ou costuma?

A mercenária olhou no fundo dos olhos de Lorena, parecendo ler suas intenções.

– Está esquecida de Nottingham, Karen?

O rosto da outra ficou estranhamente inflexível.

– Você sabe que eu não tive nada a ver com…

– … o golpe milionário que o Coven recebeu, pelo qual Ceres e as bruxas da Segunda Camada foram culpadas? Claro que não… que tolice a minha, supor isso. Eu não sou idiota, Karen. Você deveria se sentir grata por poder prestar esse serviço a mim em troca do… hum, perdão pela sua má-fé e mau-caratismo.

– Você não tem provas contra mim.

– Ah, na verdade, tenho, sim. Demorei muito para obtê-las, mas agora, se eu quisesse, poderia meter você numa grande enrascada.

– É mesmo? E por que não o faz?

– Porque, você sabe, eu sou uma pessoa muito razoável, comedida e… vingativa. Sei que cada coisa tem o seu tempo. Você teria de pagar pelo que fez, e estou absolutamente satisfeita com a sua… ajuda. Por ora, é claro. Bem, obrigada pela cooperação, minha velha companheira. Nos vemos por aí.

Lorena fez menção de dirigir-se à claridade da rua, tendo seu caminho imediatamente bloqueado.

– Fizemos um trato – rosnou Karen. – Quero o meu pagamento. Agora.

– Você quer tanto um pagamento, querida? OK…

A mercenária escapou a tempo da rajada de energia lançada contra ela, que abriu um rombo numa das paredes do beco. Tentou atacar de volta, mas só teve chance de escapar – e por pouco – das investidas de sua agressora. Karen era uma bruxa relativamente forte, mas os anos que Lorena acumulou como agente do Coven contribuíram para que o embate terminasse em seguida, com o corpo de Karen desacordado no chão sujo.

Satisfeita, Lorena tirou a Pedra do saco preto, segurando-a com firmeza. Faltava pouco para que alcançasse seu objetivo.

4

Em dois segundos, chegou à sua casa em Roma. Continuava sem dormir direito, mas não se sentia mais cansada. Largou a Pedra em cima do balcão da cozinha e abriu a geladeira, pegando um pouco vinho e uma massa que preparara há uns dias, mas na qual sequer tocara. Era a primeira refeição completa que se permitia ter em um tempo considerável; logo, não se importou com o gosto requentado, comendo tudo em pouco tempo. Tomou um ou dois goles do vinho e largou o cálice.

Hora da ação.

Foi até a sala de rituais, um ambiente pequeno, mas aconchegante, com um altar de pedra e alguns instrumentos exóticos espalhados por cima de uma toalha branca. Acendeu sete velas e sentou-se no chão, em posição de lótus. Inspirou profundamente, uma, duas, três vezes… Concentrou-se.

Imagens passaram por sua mente ligeiramente. Charlotte ainda mantinha o bloqueio de detecção. Vamos quebrá-lo. Mas sem que ela pudesse perceber, é claro. Assim, não teria como fugir do lugar onde estava. Mais imagens, confusas, pouco nítidas… Precisava de mais foco.

Após focalizar as palavras certas, um turbilhão levou sua mente para longe, muito longe… Que lugar era aquele? Conseguiu distinguir o rosto de sua inimiga, mas onde ela estava?

Concentre-se, Lorena.

Agora podia ver com mais precisão… Pelos deuses! Charlotte estava em um shopping de Nova York, abarrotado de gente. A sensação que vinha notando há dias intensificou-se de súbito, como se a própria Teia Universal de Energia fosse se romper e destruir a existência.

Desfez o encantamento e levantou-se, apagando as velas. Teria de ir até lá e transportar a inimiga para outro lugar, onde pudesse dar cabo dela.

Na sala de estar, o relógio-cuco indicava que passavam das 21h30. Era melhor se apressar. A questão era: como chegar até lá usando magia sem ser notada?

Pense, pense…

Ah, claro! Devia ter lembrado daquilo antes… Focalizou seus pensamentos em direção a Nova York, mais exatamente no local que as imagens revelaram e, enquanto se concentrava, sussurrou três palavras certeiras.

5

Saiu da cabine do banheiro, onde se materializara, e começou a caminhar, desviando-se das pessoas com dificuldade. E não é o que o lugar estava cheio mesmo? Mais do que ela esperava, ao menos, e isto não lhe servia de consolo. Teria que dar um jeito de achar Charlotte sem magia, pois o feitiço que invocara servira apenas para sua chegada ali.

Deu sorte: a moça exótica e magérrima estava escorada no parapeito a uns vinte metros de distância, olhando para o andar inferior. Quando ela colocou-se de frente, Lorena pôde ver aqueles olhos que tanto odiava, um muito escuro, beirando o preto, e o outro claro, parecendo uma esmeralda. O cabelo loiro queimado continuava igual, e a expressão insana, também.

Lorena apertou o passo, procurando misturar-se em meio aos caminhantes para não ser notada por seu alvo. Seria arriscado usar a Pedra ali, já que precisaria recitar um feitiço longo e complexo. A uns cinco metros de distância, viu que Charlotte voltara a olhar para baixo. É agora ou nunca.

Avançou determinada, alcançando-a segundos depois. Agarrou-a rispidamente, bem no momento em que ela se virou para ver quem a tocara. A expressão zombeteira de Charlotte ficou gravada na mente de Lorena no momento que as duas desapareceram do nada.

6

O plano saiu como esperava, mas não por completo. Sim, tirara aquela cadela do shopping, mas acabaria descobrindo que não aportariam exatamente no lugar esperado.

Caíram como pedras num chão áspero e sujo. Levantaram-se num pulo, e Lorena vasculhou a escuridão ao redor com sua visão privilegiada. Onde estavam? Paredes rochosas com algumas crateras dispersas entre si as cercavam por todos os lados, prendendo-as num enorme círculo. Um fedor terrível impregnava o ar.

Ficaram se medindo com o olhar por instantes eternos, até Charlotte desatar a rir, com aquela voz histérica e ensandecida que só ela tinha.

– Boa jogada, Lô… mas receio que terá de se esforçar muito mais, se quiser me enfrentar.

– É o que veremos. Agora, me diga uma coisa… você vem usando todos os seus recursos para me evitar… Por acaso tem medo?!

Charlotte perdeu o semblante debochado.

– Eu não tenho medo de coisa alguma.

– É mesmo?

– Quem deveria temer aqui é você, anjinho.

– Não vejo razão para isto.

Encararam-se por mais um tempo, até Lorena dizer:

– Houve um motivo pra que você abandonasse a caverna quando teve a oportunidade de me matar… Qual foi?

Não teve resposta, a não ser a contração do rosto da adversária, que corou repentinamente, exprimindo raiva e confusão.

– Você vai se arrepender por ter se metido no meu caminho – disse ela, com a voz alterada. – Eu… Não, agora não!

Lorena ficou imóvel enquanto observava a outra se contorcer subitamente, desesperada. O que estava acontecendo?

– Mais um pouco… Mais um pouco!

Ela contraiu o corpo por alguns instantes, em seguida recuperando a postura inicial. Riu mais uma vez, voltando a olhar para Lorena e falando:

– Bem, o tempo é curto e tenho mais coisas a fazer. Vamos terminar com a nossa brincadeirinha…

– Já era hora!

Ambas colocaram-se em posição de combate, invocando as mais diversas energias para que lhes servissem.

Lorena bloqueou a tempo um redemoinho de areia que veio em sua direção, transformando-o em lava pura e arremessando-o contra Charlotte. Esta impediu que o ataque a queimasse, movimentando a mão para transformar a lava numa rajada de fogo. Lorena convocou água para apagar as chamas, em seguida congelando-a e lançando-a em forma de estacas contra a inimiga, que as desfez antes que se aproximassem dela.

– Você consegue fazer melhor do que isto, Charlotte!

Havia algo de estranho naquilo. Lorena sentia o cansaço emanar do corpo da outra bruxa, como se os golpes dela não fossem suficientemente fortes.

Ao mesmo tempo, as duas dispararam descargas elétricas uma contra a outra, manipulando-as para que se atingissem seus alvos.

Reforçando a teoria de que Charlotte estava cansada, Lorena conseguiu derrubá-la, prendendo-a com o mais forte encanto que conseguiu lembrar.

Tirou a Pedra de Soyedre do bolso e estendeu a mão que a segurava. Chegara a hora.

Dalabi radagarte venuea.

O objeto iluminou-se fracamente.

– Ujverne kolechya javarn.

O brilho verde aumentou ainda mais.

Kajarbi yinor mora.

Começou a ouvir os gritos de desespero de Charlotte, que provavelmente se dera conta do que ela estava fazendo. Dane-se, ela tinha de ir até o fim.

– Rogarn malam ubinovic ekre dalai sey aniri eb…

Então, a Pedra voou de sua mão, indo parar a metros dali. Algo golpeou Lorena pelas costas e fez com que tombasse de rosto no chão. Sentiu uma ardência terrível à medida que o sangue vazava, além de uma forte tontura. Tentava pensar em feitiços de cura quando algo desviou sua atenção: Charlotte havia se livrado do feitiço que a prendia.

7

Olhou para trás. Uma criatura parecida com um leão, só que totalmente branca, a observava, rosnando. Ela me trouxe para o covil de um Ferino! Os Ferinos eram uma espécie de animais perigosamente inteligentes que habitavam alguns lugares inóspitos do mundo, e suas intenções geralmente eram tão astuciosas quanto suas garras e dentes eram afiados.

Charlotte riu, aproximando-se e agarrando a Pedra delicadamente. Lançou-a, então, ao ar, ao que o objeto foi consumido pelo fogo despejado da garganta do Ferino.

– NÃO! – gritou Lorena, fazendo a outra rir ainda mais.

Havia pouquíssimas coisas mais corrosivas do que as chamas ferinas. Não restou o mínimo resquício da Pedra de Soyedre.

O desespero começou a impregnar Lorena. Tentou curar as feridas abertas em suas costas, mas foi impedida por Charlotte, que se aproximou e deu um chute em seu rosto, fazendo o sangue respingar no solo.

– Você achou que podia me derrotar dessa forma estúpida?!

– Bem, era o que eu iria fazer se não fosse a intervenção do seu amiguinho – falou Lorena, com dificuldade.

– Ah, esses Ferinos, tão amáveis, não é?

Fez carinho na fera, aproximando-se do ouvido de Lorena e sussurrando:

– Eles são difíceis de manipular, sabe? Mas, para uma bruxa poderosa, basta o feitiço certo… Mas precisa ser bem executado, para que eles não escapem ao seu controle. Acertei em te trazer pra cá quando você me agarrou daquela maneira tão… indelicada, justo no meu momento de lazer. Exatamente como eu havia previsto e planejado.

Não conseguia discernir muito bem o que ouvia. A dor ameaçava tirar sua consciência, cada arfada lhe custando muita energia. Como vou escapar desta?

– Você não vai, é esta a questão – disse Charlotte, lendo seus pensamentos. – Sua barreira mental já era, querida. Agora, você vai aprender por que não se deve brincar com fogo…

Porque pode se queimar?

Após o sussurro dolorido, Lorena reuniu suas últimas energias e lançou um fraquíssimo jato de chamas contra Charlotte, que, não esperando por aquilo, desequilibrou-se, sem, contanto, se ferir, porque conseguira conter o fogo a tempo.

Levantou-se, seu rosto sério e lívido de fúria.

– Acho que você já aprontou o suficiente. Hora de descansar ao lado de suas amiguinhas!

Lorena sentiu o fim se aproximando. Ela falhara em sua missão… E tinha dado sua palavra a Vincent! Ceres e as demais não seriam vingadas… Desejou que alguém tivesse a capacidade de terminar o que ela deixaria inacabado. Tombou de costas, gritando de dor, e estava prestes a fechar os olhos quando viu algo, no mínimo, inacreditável.

O Ferino avançou furiosamente contra Charlotte, não dando tempo para que ela proferisse quaisquer palavras: estraçalhou-a em segundos diante dos olhos de uma estupefata Lorena.

Quando terminou de dilacerar a bruxa, a criatura rosnou para Lorena, partindo, então, para dentro de uma das fendas nas paredes rochosas.

Sem entender nada, ela viu que seus ferimentos começaram a se fechar, enquanto sua energia voltava aos poucos e o fluxo de sangue em sua boca cessava.

O quê…

Antes que pudesse terminar de pensar, viu que um homem a observava, sorridente. Tinha uma beleza enigmática, diferente, e trajava um elegante terno preto. Aproximando-se dela, falou:

– O tempo de Charlotte Cashmore acabou. Ela teimou, mas já a havia alertado diversas vezes sobre os limites e prazos de meu… presente.

Kazhim!

8

Sacudiu a cabeça para ver se estava enxergando direito. Um dos mais poderosos demônios dos planos infernais, bem à sua frente?

– O próprio. Como eu dizia, o combinado foram dezesseis anos e seis meses. Se ela quisesse renovar, teria de me ofertar mais alguma coisa. O prazo foi-se acabando, até que ela começou a me enrolar, enrolar, enrolar… e mais! Eu já dissera a ela quais as conseqüências de utilizar Magia Ancestral, a qual ela empregou para descobrir suas intenções e apanhá-la nessa emboscada. O fato de você ter sentido a desestabilização na Teia não foi coincidência, e está parcialmente ligado a isso. Depois dessa ousadia, minha paciência começou a aproximar-se do limite. Humf! Francamente! Acho que agora foi o momento certo de tirá-la de cena, hein? Quando você lançou o jato de fogo, quebrou a concentração dela, fazendo o Ferino se rebelar… Claro que tudo isso teve uma mãozinha minha, incluindo o fato de ele não tê-la atacado também, e de você ter sido curada.

Não sabia o que dizer.

– Não precisa dizer nada – disse ele. – Muito menos me agradecer. Sei o que faço, entende? Mas uma coisa que ainda me intriga é o fato de ela te temer tanto…

– Como assim?

– Hum… – ele suspirou, parecendo refletir. – Qual a sua Casa Mística?

Aquela pergunta não tinha pé nem cabeça, ao ver dela, naquele momento.

– Apenas responda, por favor…

– Zarenis, por…?

– Quando você nasceu, exatamente?

– 13 de julho de 1970.

O demônio contraiu o rosto, como se não tivesse gostado do que acabara de ouvir.

– Faz sentido. Mas como ela descobriu isto, não imagino… mas poderia se esperar qualquer coisa de Charlotte Cashmore.

– Do que você está falando?!

– Ah, minha cara, não cabe a um demônio como eu revelar… só saiba que você é especial. Aliás, acabo de me dar conta de que deveria eliminá-la neste exato momento, mas algo… maior me impede de fazê-lo. Em vez disso, vou te fazer uma proposta: o dobro do poder que Charlotte tinha, por treze almas humanas e sua vassalagem. Ah, tudo isso por… vinte e um anos. Aceita?

Ele não estava falando sério, estava? Sempre lhe haviam dito que recusar ofertas de demônios era ruim, mas que aceitá-las era pior ainda. Jamais correria o risco de ficar sob a influência daquele ser.

– Precisa dizer que não?

– Precisa. Diga.

Não. Jamais compactuaria com entidades do seu feitio.

– Uma pena, Lorena. Uma pena.

Aquela conversa toda a deixava nauseada. Por que ela era especial? O que impedia Kazhim de dar cabo da vida dela, se assim era isso que dizia ter de fazer? E por que ele lhe propusera aquilo, mesmo querendo matá-la? Seria para que conseguisse dominá-la e, assim, atingir seu objetivo? E onde raio a Teia Universal de Energia entrava na história?

– Quantos questionamentos nesta cabecinha confusa… Não serei eu, entretanto, aquele que irá esclarecê-los. Tenho muito mais a fazer. Mas, já te alerto: não será a última vez que nos encontraremos, bruxa. Esteja preparada para tempos difíceis.

Num piscar de olhos, o demônio desapareceu.

Muitas dúvidas foram semeadas em sua mente. Não entendeu metade do que ele falara, pois, apesar de ter recuperado a energia, ainda sentia-se um tanto atordoada. Mas não se preocuparia com aquilo agora. De um jeito ou de outro, terminara sua missão com resultados positivos, livrando-se da dívida com Vincent e com suas amigas. Agora, deixaria aquele lugar repugnante, colocaria a cabeça no travesseiro macio e descansaria, até estar disposta para enfrentar, como de praxe, as adversidades de sua vida conturbada.