[Resenha] O bom Jesus e o infame Cristo

segunda-feira, 15 novembro, 2010

Um livro que vai incomodar muita gente.

O escritor britânico Philip Pullman, ateu militante e alvo constante de ataques por parte de fundamentalistas religiosos, fomenta ainda mais a repercussão em torno de suas polêmicas ideias com O bom Jesus e o infame Cristo, lançado este ano no Brasil pela Companhia das Letras. Autor da trilogia Fronteiras do universo, na qual tece críticas ao cristianismo e levanta dúvidas sobre a força da fé e a existência de deus, agora resolve deturpar o alicerce maior da mitologia cristã e recontar, em suas 184 páginas, a história do nascimento de Cristo.

Aqui, Maria dá à luz dois gêmeos – Jesus e Cristo. Um, como descrito, “forte e saudável”, e o outro, “pequeno, fraco e de aspecto doentio”.  E as distinções e dessemelhanças entre os dois irmãos se mostram evidentes ao longo da história. Jesus, extrovertido, travesso e querido pelas outras crianças, entra em contraste com Cristo, um menino reservado, avesso, que captura para si a preferência e proteção da mãe.

Observamos a ascensão de Jesus, que, após uma peregrinação solitária no deserto, se propõe a pregar a palavra de deus, enquanto Cristo, sempre à sombra do irmão, dispõe-se a observar os discursos do irmão e fazer anotações de seus feitos.  E é a partir desse fato que Pullman engendra a tese principal do livro. Com o passar do tempo, orientado por um misterioso desconhecido, Cristo passa a aumentar, manipular e às vezes inventar os fatos referentes a Jesus, que a cada dia expande sua popularidade. Fica evidente, então, a visão do autor sobre a inconsistência dos relatos da Bíblia e a distorção explícita desta.

No primeiro parágrafo do livro já podemos tirar conclusões sobre o desfecho: “Esta é a história Jesus e de seu irmão Cristo, de como nasceram, viveram e de como um deles morreu. A morte do outro não entra na história”. E, de fato, não entra. Previsível? Sim. E, obviamente, intencional. Mais além, explicita-se a linha extrema, que, estou certo, ainda incomodará muita gente: há uma inversão de valores, dos conceitos de bem e mal; a passagem do jardim de Getsêmani é brilhante e expõe, como em Fronteiras do Universo, a fragilidade da fé, só que de um modo muito mais incisivo, ácido, sem atavios.

Pullman vai além. Após a leitura, fica clara sua visão quanto aos religiosos, e aqui cabe uma crítica. Me parece que, por um momento, ele se foca na figura dos religiosos, e não nas ideias desses religiosos, promovendo uma generalização, para dizer o mínimo, infantil. Há que se distinguir as pessoas, enquanto indivíduos, de seus pensamentos, ideologias e fé. Como aponta o professor e crítico literário Idelber Avelar, ideias foram feitas para serem confrontadas, debatidas e, caso necessário, refutadas, e não respeitadas. O respeito relaciona-se exclusivamente às pessoas, e Pullman parece, a meu ver, ignorar esse fato.

O bom jesus e o infame Cristo é muitíssimo bem escrito, simples e de fácil leitura, mas nem um pouco raso. Críticas à parte, sucita reflexões sobre diversos mitos que se criaram em torno do cristianismo e apresenta uma versão diferente, mas plausível de uma das histórias mais difundidas mundo afora, impregnada no imaginário ocidental. Procura combater o misticismo e humaniza as figuras de ambos os irmãos – Jesus e Cristo -, que acabam, por fim – e isso não é segredo -, sendo fundidas na mesma imagem, Jesus Cristo, o filho de deus.

Numa época em que se acentua o conflito entre antirreligiosidade e religão, fé e descrença, temos mais uma oportunidade de parar para refletir. Acredito que este livro pode intensificar o debate e, quem sabe, jogar uma luz em meio às trevas do misticismo e da irracionalização da fé.

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[Resenha] Eclipse ao pôr do sol

segunda-feira, 4 outubro, 2010

Mais um ótimo lançamento da Draco

Em meio ao mar de obras rasas, mal escritas, sem revisão e de critérios editoriais duvidosos que inunda a praia do fandom brasileiro de literatura fantástica, é difícil encontrar uma digna de nota, que esteja realmente acima da média. Difícil, mas não impossível, como prova este Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos, do jornalista e editor da CartaCapital Antonio Luiz M. C. Costa, lançado em meados de agosto pela editora Draco.

O que se vê aqui são seis contos escritos com esmero; a linguagem utilizada é um tanto requintada, muitas vezes exigindo uma consulta ao dicionário, já que procura se encaixar ao contexto da época em que cada história se passa, seja o Brasil do final do século XIX, seja a Grécia Antiga. Apesar do rigor formal, os contos se mostram mais do que cativantes. Exemplos claros disso são o primeiro conto, A Nascente da Serra, e sua continuação, O Cio da Terra. Ambos se passam em Portugal – o primeiro, na época das navegações, e o segundo, no século XXI – e apresentam a carismática ninfa Pirene, cuja formosura radiante faz com que os homens que a vejam se apaixonem perdidamente.

É nítida a rica pesquisa feita para a composição dos enredos, o que os torna bastante verossímeis. Há também certa quantidade de referências, que vão de Machado de Assis a Luís de Camões, passando por Florbela Espanca e Homero. Outro ponto de destaque é o tom irônico, quiçá ácido de alguns dos textos, vide o que dá título à coletânea, onde é narrado o roubo da Efígie de Zeus e as consequências de tal ato. Talvez seja o conto com a linguagem mais empolada, mas isso não quebra o ritmo da leitura, que se torna extremamente envolvente após o início.

O conto mais fraco é Louco por um Feitiço, que não chega a cativar, apesar de bem escrito. Talvez tenha faltado espaço para desenvolver melhor os personagens, que soam insípidos. Para compensar, temos o curto, mas eficiente Papai Noel Volta para Casa, que tem um desfecho interessante, e O Anhanga, que, a meu ver, é o grande destaque do livro. Trata de um advogado que, ao fincar laços mais profundos com uma prostituta, vê-a ser perseguida por uma entidade misteriosa. Emulando a linguagem da época – que, aliás, lembra muito Machado de Assis -, é um conto tenso, que prende a atenção até o final.

Há alguns pequenos deslizes na revisão, mas nada que comprometa a qualidade geral da obra, que está anos-luz à frente da maioria das publicações do gênero no Brasil.

Ao término da leitura, tem-se a sensação de que o dinheiro gasto valeu a pena: Eclipse ao pôr do sol é uma ótima coletânea, coesa e muito bem escrita. Fica a dica para os fãs de literatura fantástica – não aquela repleta de lugares-comuns, mas sim uma que transcende, que procura apresentar uma perspectiva nova e mais ousada.


[Resenha] A Humilhação

sexta-feira, 27 agosto, 2010

Um bom livro de Philip Roth.

Imagine um famoso ator de teatro, reconhecido por todos pelas suas formidáveis interpretações. Agora imagine esse mesmo ator descobrindo-se, de repente, incapaz de continuar atuando sem explicações aparentes. Temos aí o personagem principal deste “A Humilhação”, do norte-americano Philip Roth, lançado recentemente pela Companhia das Letras.

Ao longo de suas 104 páginas, acompanhamos a trajetória de Simon Axler, que, caído em desgraça, foi abandonado pela mulher e ridicularizado por conta de suas últimas atuações, que não tiveram sequer um resquício do brilhantismo de outrora. Após uma breve estada numa clínica psiquiátrica, sem conseguir achar uma explicação pertinente para sua impotência, acaba por se envolver num relacionamento com Pegeen Mike Stapleford, filha de um casal de antigos amigos seus. O detalhe: Pegeen é lésbica.

E a partir daí acompanhamos a relação intensa e tumultuada dos dois, a obsessão de Simon pela jovem – muitos anos mais nova que ele – crescendo a cada dia. Soma-se a esse problema o fato de que os pais, ao descobrirem o romance, além de o receberem com surpresa, tentam fazer pressão para que chegue ao fim o mais rápido possível.

Mas não se engane: este não é um livrinho açucarado e bobo de romance como tantos que pululam no mercado e entopem as listas dos mais vendidos. A escrita de Roth é densa, jogando na cara do leitor os pensamentos do ator decadente e causando uma sensação de angústia à medida que percebemos que a paixão desenfreada por Pegeen não consegue afastá-lo de seu maior problema: ele próprio.

“A humilhação” percorre e explora o psicológico e o emocional de Simon Axler, gerando afinidade entre este e o leitor. O texto todo é permeado por uma alta carga de erotismo, que parece ser uma característica dos trabalhos de Philip Roth. Sendo um livro curto e de leitura razoavelmente simples, prende a atenção até o final, que, apesar de abrupto e previsível, consegue ser satisfatório.

Um livro para se ler atentamente, pois, apesar de curto e de fácil compreensão, pode muito bem servir como pretexto para uma reflexão não só sobre as atitudes dos personagens, mas também sobre as nossas relações afetivas e a incapacidade que por vezes temos de lidar com os próprios problemas. Recomendado!


[Resenha] Noite Eterna

segunda-feira, 26 julho, 2010

Primeiro livro da série Evernight

Bebendo das fontes de Crepúsculo e pegando carona no sucesso desta e outras chick-lits vampirescas, temos Claudia Gray e sua Noite Eterna.

A princípio, uma incômoda sensação passa pela mente do leitor, como eu, não habituado a esse gênero: mais uma historinha de romance envolvendo vampiros? E é aí que comete-se um engano – o buraco é bem mais embaixo. Por quê?

Simples: porque, primeiro, Noite Eterna é bem escrito. Ao longo de todo o livro, fica difícil encontrar estruturas falhadas e deslizes a que muitos autores – incluindo Stephenie Meyer – estão acostumados. Por mais que um enredo seja ruim, é sempre um prazer ler um texto conciso, bem lapidado.

Segundo: até aproximadamente a página 100, fica-se com a sensação de que a autora está zombando da inteligência do leitor, com clichês forçados e pontas soltas inexplicadas. Claro, quem está acostumado a essas histórias provavelmente não dará bola, mas foi algo que me chamou a atenção. Então, as coisas começam a ser explicadas. E vão melhorando conforme a história avança.

Por incrível que pareça, não é um livro tão meloso quanto se esperaria. Ou seja, não é irritante, conseguindo prender até o final. Não é uma leitura, digamos assim, profunda, mas é eficiente no sentido para o qual foi provavelmente desenvolvido: entreter.

Acompanhamos a vida de Bianca Olivier na escola Noite Eterna, um lugar antigo e recheado de mistérios. Ela sente repulsa pelo lugar, mas logo conhece Lucas Ross, por quem rapidamente se apaixona.

Soa clichê? Talvez, mas a história é envolvente, tornando-se um page-turner em pouco tempo. Tem boas doses de ação, algo que falta a Crepúsculo, e é perfilado por um clima de suspense. E tem romance, também, para satisfazer os/as mais sentimentais. Mas não senti o exagero típico desse gênero. Tudo parece encaixar-se bem, sem excessos.

Recomendo para quem busca uma história sentimental, sem ser piegas, divertida e, claro, bem escrita. Meus cumprimentos à Martha Argel e Humberto Moura pela excelente tradução.


[Resenha] O Símbolo Perdido

domingo, 25 julho, 2010

Mais um desastre de Dan Brown

Tinha prometido a mim mesmo que não iria ler esse livro. Por quê? Porque eu já sabia qual seria o resultado. Mas, teimoso como sou, desperdicei meu dinheiro e adquiri um exemplar. Errei, contudo. Imaginava que o livro ia ser ruim. Só que ele não é ruim – é PÉSSIMO.

Depois de Fortaleza Digital, o primeiro livro do autor, o que se deu foi uma sequência de roteiros idênticos e pré-programados: leu um, leu todos, como dizem por aí. E isso é uma das piores coisas que um escritor pode fazer. A repetição. A extrapolação da paciência do leitor. Uma sensação horrenda de deja vu, que eu, agora definitivamente, não pretendo experimentar de novo.

Acontece que, com “O Símbolo Perdido”, Dan Brown quebrou as barreiras do ridículo. Além da sensação de que já se leu a mesma coisa outras quatro vezes, ele consegue irritar o leitor BEM MAIS do que nos livros anteriores. É uma ladainha sem tamanho, com direito a monólogos patéticos e pseudo-filosóficos, distorções científicas e um puxa-saquismo explícito da Maçonaria. Vamos combinar: quem aqui confia nos “fatos” que Dan Brown expõe em seus livros? Querem saber o que são esses “fatos”? Oportunismo barato, mentiras sensacionalistas, invenções sem pé nem cabeça!

As últimas 50 páginas do livro são o ápice… o ápice da irritação, do asco. Foi uma tortura chegar até o fim! Além de os personagens serem inverossímeis e caricaturais, desta vez a trama consegue triplicar o nível de babaquice “religiosa-filosófica-científica”, ao ponto de fazer querer largar o livro na metade. E só não o fiz porque paguei caro no livro e não iria jogar meu dinheiro fora. E porque queria ver se, afinal, eu estava errado ao supor que não gostaria. Não estava!

Isto pode parecer mais um desabafo do que uma resenha, mas que seja! Cansei dessa literatura de baixa qualidade que recebe grande destaque na mídia, enquanto tantos bons autores – incluindo brasileiros – continuam no anonimato. Se fosse para recomendar algum livro dele, ISOLADAMENTE, eu diria para ir direto ao “Ponto de Impacto”. Mas sem ler absolutamente nenhum outro, porque não vale a pena: Dan Brown é um autor “cíclico” (no sentido da repetição) e, pelo visto, não vai deixar de ser.


[Resenha] O Poderoso Chefão

domingo, 25 julho, 2010

Obra-prima de Mario Puzo

Tarefa hercúlea achar palavras para começar a resenha de um dos melhores – se não O melhor – livros que já me caíram em mãos até o momento.

A saga da Familia Corleone não é nada menos do que épica. Mario Puzo conseguiu a façanha de construir um universo complexo e muitíssimo verossímil. E envolvente como poucos. Há uma vasta gama de personagens, mas não pense que por sequer um momento o autor se perde: cada um deles é deveras esmiuçado, cheio de vida, tornando impossível não sentir algo em relação a eles, seja apreço, seja desprezo, seja compaixão. Uma teia habilmente construída os envolve de modo a dar a cada um sua devida importância, seu papel a desempenhar.

Don Vito Corleone é, sem dúvida, um dos personagens mais marcantes da literatura moderna, e com toda a razão. O fato de estar por trás de tanta sujeira, como assassinatos e outras atividades duvidosas, não o faz menos atraente. Pelo contrário: o leitor, pelo menos no meu caso, sente uma enorme afinidade com ele. É um personagem intricado, que possibilita a reflexão sobre os conceitos incertos do bem e do mal, do justo e do injusto.

Poderia elencar diversos outros personagens que fazem deste livro uma joia rara, trabalho este certamente longo e dispendioso. Mas é interessante observar a evolução pela qual Michael, o filho mais novo do Don, passa durante a história. Sem dúvida, para mim, o segundo destaque do livro. Também não posso deixar de citar Johnny Fontane, um dos afilhados do chefe da Família Corleone, um personagem divertido e irreverente. Cito os que mais me chamaram a atenção, mas todos são bastante críveis e bem trabalhados.

O romance é bem escrito. Muito. Uma aula de narração, utilizando uma técnica que prende até nos momentos mais calmos. As subtramas, como a de Fontane, por exemplo, acabam por somar-se com maestria à principal: a guerra da Família Corleone contra as demais Famílias mafiosas. Há vários momentos de tensão, o que me impossibilitou de largar o livro até que todas as 655 páginas tivessem sido lidas. Valeu a pena. E como.

O cenário dos Estados Unidos pós-guerra é convincente, os personagens agindo de acordo com os costumes e a moralidade da época, o que é pretexto para uma boa reflexão. Percebe-se como certas coisas mudaram em relação ao século XXI, e como outras continuam a mesma. O livro preza pelos valores da honra, da amizade, da lealdade, e, também, da autoridade e obediência. Mas não ao Estado constituído de Direito: Don Corleone e os chefes rivais não acreditam na e não respeitam a força das leis, procurando dobrá-las às suas vontades e manipular o sistema de modo que melhor os favoreça. São mostradas, aqui, toda a susceptibilidade e maleabilidade dos homens poderosos, fazendo um retrato fiel da extensão dos poderes das máfias.

Poderia entrar em outros pormenores, mas por certo me alongaria indefinidamente. Fica a minha grande recomendação. “O Poderoso Chefão” é um romance magistral, que certamente tem seu lugar reservado no hall dos livros eternos. O que está esperando para ler?