Teocracia, violência institucional e o fracasso da política tradicional

quarta-feira, 10 abril, 2013

E eu que, ingênuo, achava que esse papo de teocracia no Brasil era um exagero. A cada dia que passa, uma bomba nova revelando o semblante do fundamentalismo e da influência invasiva das religiões no Estado, violando a suposta laicidade deste: mais isenções pra instituições religiosas – como sancionou agora o ilustríssimo governador do RS, Tarso Genro -; deputados forçando a barra pra dar a fundamentalistas o poder de impetrar ADINs; governo federal dando ministério a fundamentalista; bancada governista entregando CDHM da Câmara a pastor – aliado do PT, só pra que não se esqueça; e o silêncio e omissão da presidenta da República acerca da série de atrocidades praticadas contra inúmeros segmentos minoritários no País.

Aliás, omissão é uma ova: a violência é política institucional do Estado, com mandantes explícitos, que gostam de pedir voto pra todo o mundo, mas na hora de honrar compromissos, priorizam “a direita” (muito de esquerda que o PT é, rs), teocratas, bancários, empreiteiros e ruralistas. Esses são os aliados deles, é pra eles que se governa. Todo o resto – por melhores que sejam algumas ações – é engodo. Políticas públicas inclusivas, programas sociais e ações afirmativas ficam minimizadas diante de tanta sujeira levada adiante por gente que se diz “representante do povo” – piada, né? Com tanta remoção forçada e ilegal pra alocar acomodações pra Copa das Empreiteiras; com índios sendo exterminados e varridos de suas terras; com LGBTs sendo tratados como subcidadãos; com mulheres sendo vítimas de leis machistas, sexistas e patriarcais; com negros permanecendo oprimidos nas periferias; com a força repressiva estatal sendo utilizada pra reprimir “drogados” e gente que tenta subsistir diante de tanta desgraça; com tudo isso, dá pra levar o Estado a sério? É a pergunta que fica.

Quanto menos tenho algum respeito pela instituição “Estado” e por isso a que chamam “democracia”, mais acredito nas mudanças micropolíticas, cotidianas, afetivas, populares e não-partidarizadas. Porque se for esperar que “nossos representantes” façam algo… Farão o que vemos aí: escantear uns e por outros em pedestais… pedestais, aliás, bastante frágeis, pois, no jogo de duplipensar promovido pelos fanáticos governistas, ora a corja que anda sempre a seu lado é glorificada, ora demonizada, de acordo com a conveniência.

E dá-lhe luta pra consertar os estragos da política tradicional, cujos militantes – abdicando de qualquer senso de autocrítica e juízo crítico acerca da realidade – foram capturados pelo poder, gostando do sabor e se inebriando com ele, ébrios, corrompidos, domesticados, dóceis. Esse poder captura e libera; captura e libera; captura e libera. É um ciclo vicioso, sedutor, quase irresistível. Ciclos são difíceis de destruir. Mas não impossíveis!

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Breve reflexão acerca do Dia Internacional da Mulher

quinta-feira, 7 março, 2013

Oito de março de 1857 marcou a revolta de operárias americanas contra a opressão, a jornada de trabalho excessiva e a desigualdade, tendo seus protestos reprimidos de forma brutal e violenta. Décadas mais tarde, por meio de decisão da ONU, a data ganhou contornos simbólicos e, hoje, nela se comemora o Dia Internacional da Mulher. Virou costume presentear mulheres com rosas vermelhas, e inúmeras campanhas publicitárias, nessa época, são produzidas com vistas a “homenagear” o público feminino. Aí vem a pergunta: que tipo de homenagem estamos fazendo, e com que propósito?

A prefeitura municipal de Porto Alegre, num ato mal pensado, tosco e preconceituoso, lançou uma campanha publicitária com o objetivo de “exaltar” as mulheres. De que forma? Utilizando clichês do tipo “Só uma mulher sabe o valor de um simples chocolate na TPM” ou “Só uma mulher sabe o drama que é estragar a unha logo após sair da manicure”. Isso tudo, é claro, com pilhas de dinheiro público, absurdamente mal empregado. O conteúdo do material publicitário é preconceituoso, vexatório, estigmatizador, sexista e machista, na medida em que perpetua rótulos estereotipados que reduzem a mulher ao papel de idiota e fútil, promovendo uma generalização estúpida que vai totalmente de encontro com os objetivos dos movimentos feministas, que pregam a igualdade entre gêneros e o fim da opressão às mulheres.

Pois esta deveria ser a mensagem do Dia Internacional da Mulher: um chamado à luta pela dignidade, igualdade e isonomia salarial; um apelo ao combate pelo fim da violência sexual, moral e psicológica às quais milhares de mulheres são submetidas todos os dias, inclusive com um número imenso de mortes; e o questionamento das estruturas de uma sociedade patriarcal, machista e sexista, que se arraiga, inclusive, ao poder estatal de modo a manter o status quo de opressão e iniquidade.

Urge que se promova uma reflexão acerca do papel de homens e mulheres na manutenção desse sistema que reifica, objetifica, reduz e reprime as mulheres, tentando enquadrá-las em rótulos, os quais, caso questionados, sofrem sanções as mais diversas. O Estado, ao promover esse tipo de campanha, só demonstra que é sustentáculo e participante de um paradigma conservador e patriarcal, outorgando-se o direito de determinar e regular o que é feminino e como esse feminino deve operacionalizar-se. As mulheres sofrem consequências drásticas, pois, estagnadas em padrões de feminilidade engessados, rígidos e imutáveis, são consequentemente tolhidas da liberdade de ser e vir a ser o que desejarem, devendo, quase que obrigatoriamente, seguir parâmetros pré-estabelecidos, sob a pena de receberem o escracho do Estado e da sociedade.

Isso se comprova na maneira como as pessoas – homens, mas também mulheres – estão, o tempo todo, regulando, policiando e tentando enquadrar o comportamento das mulheres, ditando o que é permitido, adequado, aceitável e “normal”. A mulher é necessariamente frágil, dócil e emocional, tendo, por conseguinte, lugares reservados à sua existência. Aquelas que ousam decidir seus destinos – inclusive o modo como querem exercer a sexualidade – recebem variados adjetivos, todos sexistas ao extremo, como “puta”, “vadia”, “vaca” e “vagabunda”. Evidentemente ninguém xinga homens invocando a sexualidade – a não ser com referências à homossexualidade (“veado”), infidelidade (“corno”) ou impotência (“broxa”). A mulher deve sempre “se dar valor” (os valores aqui são a castidade, a repressão e o número reduzido de parceiros sexuais), ou seja, até que alcance esse imperativo sexista, por consequência lógica, não tem valor algum.

E ainda há quem diga que não existe machismo e o feminismo não é necessário. Ou que são sinônimos, o que é um equívoco tremendo. O machismo é uma práxis que prega a opressão sexista, baseada na ideia de que o homem é superior à mulher e que isso é consequência natural e determinada, enquanto o feminismo defende a igualdade entre gêneros e o fim da violência e tirania contra as mulheres.

Mais do que políticas públicas que afirmem, promovam e divulguem a igualdade de gênero e o fim da opressão – sem incentivar ainda mais o preconceito e a violência -, precisamos promover revoluções micropolíticas, em nossas próprias microrrelações. O corpo é da mulher, e ela faz dele o que quiser. Nenhuma mulher é “vadia”, e é necessário abolir esse tipo de xingamento. “Não” significa “não”, então não insista quando uma mulher recusar uma investida. A culpa do estupro é do estuprador, e NUNCA da mulher; logo, paremos com esse absurdo de querer responsabilizar a saia curta ou a bebida – afinal, como já dito antes, o corpo é da mulher, e ela tem – ou deveria ter – o direito de usá-lo e regulá-lo como bem entende.

Dar-se conta dos próprios preconceitos e limitações é o primeiro passo para deflagrar a mudança de uma sociedade que violenta, mata e reprime suas mulheres, tolhindo-lhes direitos e impedindo que controlem suas vidas, seus corpos e decisões. No Dia Internacional da Mulher, não dê flores: ofereça respeito e atitudes igualitárias. É disso que nosso mundo precisa, e não de mais enfeites, fachadas e engodos que obstruam as verdadeiras questões pelas quais todxs temos a obrigação de lutar.


Sobre feminismo, fatalismo e inquietações

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Texto publicado, também, no blog Escreva, Lola, Escreva.

Confesso que não há bálsamo que alivie meu desconforto ao ter de lidar diariamente com as mazelas da ignorância – palavra que utilizo, aqui, em sua acepção mais ampla, e não no sentido preconceituoso no qual, em geral, é empregada. Falo da ignorância que advém do latim ignorantia: a falta de saber, o desconhecimento, o ignorar. Este que vos escreve não ousa fugir à crítica que faz – lidar com a própria ignorância não é lá algo fácil, ou é? Mas o pior é ignorar, dar-se conta de que está ignorando e, por escolha própria (ou não), permanecer ignorando, chafurdar na lama do desconhecimento autopercebido e consentido. Essa falta de conhecimento salta aos meus olhos quando leio gente falando sobre um assunto que, infelizmente, é tratado como piada por muitos: o feminismo.

Tudo bem que há uma cultura amplamente propagada do “palpiteiro”, da “opinião formada sobre tudo”, do “dominar todos os assuntos” (mesmo que esse “dominar” acabe sendo, por vezes, sinônimo de “verborragia”). Tudo bem que muitos insistem em teimar na afirmação absurda de que feminismo é igual a machismo (!). Tudo bem que um “vlogueiro” famoso, sob uma argumentação que falsamente enaltece a “superioridade das mulheres”, fale uma série de bobagens a respeito de algo que não conhece, ajudando a difundir e perpetuar preconceitos. Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Afinal, as coisas são assim mesmo. Tudo bem?

Não. Colocações como “as coisas são assim mesmo” e “é assim e não vai mudar” fazem parte e resultam em algo que Paulo Freire, em seu clássico “Pedagogia da Autonomia”, apontou como fatalismo, ou fatalidade, que seria essa noção de conformismo, de imutabilidade, de constância obrigatória e sempiterna. Afinal, durante séculos, a sociedade ocidental foi – e vem sendo – pautada pela dominação e opressão masculina sobre as mulheres, implicando, inclusive, a formulação de “fatos” científicos, então pra que mudar? Se as coisas são assim, estão “boas” assim, por que mudar? Basta uma consulta rápida às redes sociais e algo chamará de imediato a atenção de um leitor mais atento, pondo em xeque a ideia exposta pelo Fernando, o “vlogueiro”: a opressão às mulheres e a tentativa de submissão à lógica sexista-machista não são “coisa do passado”. Ao contrário, são bem atuais. Essa ideologia conservadora que propaga que homens são superiores e mulheres devem “se dar o respeito”, que deve haver posições desniveladas e uma estratificação estreita, machista e sexista de papeis de gênero, é muitas vezes mascarada com uma tinta fraca, cuja casca de modernidade pode ser facilmente removida com os pregos de uma leitura atenta, análise das entrelinhas dos discursos e uma visão mais crítica.

Mais preocupante é quando este discurso retrógrado travestido de “cool” impregna o imaginário das mulheres. Sim, tenho observado muitas mulheres (!), principalmente jovens (!!), disseminando acriticamente o vírus da ignorância. Isso é notável quando analisamos discursos afirmando que feminismo é equiparável ao machismo. Ora, sendo o feminismo, resumindo muitíssimo (entenda mais sobre a história do movimento aqui), a luta por igualdade sexual e de gênero e combate à opressão sexista que nos foi imposta pelos interesses de quem domina o capital (sim, me chamem de comunista – como se todas as opressões não servissem a propósitos majoritários), é absurdo compará-lo ao machismo, que pode ser definido como uma expressão do conservadorismo de uma sociedade em que homens, historicamente, dominam e oprimem as mulheres. Esse machismo estabelecido coloca-se como natural, “imutável”, e é aterrador constatar que várias mulheres atestam e coadunam com uma ideologia/ prática que as subjugou e continua a subjugar, relegando-as à condição de “frágeis”, inferiores. Quem faz colocações machistas, mesmo sem perceber, ajuda a retroalimentar um sistema que permite que atrocidades calamitosas ocorram.

Voltando à noção de fatalismo, Paulo Freire expõe que esse conformismo é um dos principais inibidores do ativismo político. Afinal, que condições uma pessoa terá de contestar e erguer-se politicamente se a noção de que as coisas são como são e não podem (nem devem) ser modificadas está enraizada na cultura e na prática do dia-a-dia? Tal noção passa, quase sem nenhuma contestação, de pai para filho, ou, pior ainda, de mãe para filha. Em pesquisa da qual fui integrante, como auxiliar de pesquisa, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da PUCRS, observei, analisando material bibliográfico sobre o tema, que as noções de fatalidade e inibição do ativismo político por meio da conformidade são praticamente ausentes nas publicações acadêmicas. Até que ponto ignorar essa questão não é uma forma de fatalismo? Pois, já que as coisas são assim mesmo, por que, então, estudá-las e – credo! – criticá-las? As críticas a essa construção social (que, como toda construção, pode – e deve – ser reconstruída) é coisa de gente idealista, “esquerdista”, que “não tem mais o que fazer da vida além de reclamar” – como já tive que ouvir certas vezes.

Outro dado observado diz respeito ao perfil dos autores do pouco material obtido sobre a noção de fatalismo. Ou melhor, autoras. Sim, o assunto é (pouco) discutido, majoritariamente por mulheres, geralmente acadêmicas exercendo a docência em grandes universidades, e quase sempre dentro das ciências humanas (apesar de eu ter encontrado este interessante texto criticando o sexismo dentro das ciências biológicas). Já fui interpelado por pessoas curiosas quanto ao fato de um homem ter se envolvido num estudo destes, inclusive ouvindo deboches e piadinhas. Porque feminismo é coisa de mulher que não tem o que fazer, então deixemos que essas “radicais” estudem suas próprias elucubrações distorcidas e nada condizentes com a realidade, não? Ignoremos o fato de que as maiores prejudicadas pelo fatalismo são as próprias mulheres, que acabam, por vezes, absorvendo esse discurso-prática conservador, retrato da sociedade ocidental, em que as mulheres são reificadas, “coisificadas”, são vistas como objetos sem grandes capacidades cognitivas, são necessária e obrigatoriamente “sentimentais” e incapacitadas de traçar seus destinos, ou mesmo de decidir o que fazer com o próprio corpo.

Não é meu objetivo aqui fazer crítica ao fato de que a maioria das pesquisas relativas ao feminismo é feitas por mulheres; justo o contrário: desejo apontar para a gravidade da omissão dos homens frente a um assunto que lhes diz respeito diretamente. Uma mudança na postura masculina em relação ao tema colaboraria para a desconstrução desse padrão opressor. Almejo expor, ainda, o perigo causado pelo conformismo em relação à desigualdade de salários entre homens e mulheres, a violência sexual e os abusos a que as mulheres são submetidas, fatos que não devem ser sequer criticados, quanto mais combatidos, já que “as coisas são como são” e não irão mudar. O processo de mudanças, de desconstrução e reconstrução de modelos e paradigmas socioculturais e engajamento em lutas políticas é dificultado, obnubilado e, por vezes, acaba por estagnar-se devido a esse conceito fatalista.

Trago estas colocações e questionamentos à baila para suscitar algumas reflexões – e, claro, ainda mais questionamentos, porque, a meu ver, é a inquietação a engrenagem de toda e qualquer mudança. Será que “inocentes piadas” sobre estupro não colaboram para a manutenção desta concepção machista, elitista e sexista de sociedade? Em qual grau? Até que ponto comentários cotidianos – que muitas vezes “passam batidos”, num processo de imersão e incorporação ideológica aperceptível – sobre a aparência de uma advogada não colaboram para a reificação do feminino e, consequentemente, para a reprodução do preconceito e da ideologia fatalista? E quando esses comentários são feitos por mulheres, não seria isso ainda mais grave? Quão preocupante é a constatação de que as mulheres se inibem/são levadas a se inibir politicamente, não se empoderando de seu próprio corpo, seu próprio mundo, seu próprio destino e não contestando uma noção que cria/ mantém/ fomenta um sistema que as oprime há séculos? E, fundamentalmente: quais causas levam ao/ inibem o ativismo político e sustentam a ideologia fatalista? Cabe acionar as engrenagens da mudança e pensar a respeito destas e outras questões envolvendo feminismo, fatalidade e ativismo. Não só pensar, mas agir. Pois o machismo não é “imaginação” nem “coisa do passado”, mas uma metralhadora que mantém nossa sociedade refém de seu próprio sistema ignorante, desigual, desagregador, fragmentário e omisso.


Os números de 2012

domingo, 30 dezembro, 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 10.000 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 17 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo


Breve tratado sobre a raiva

segunda-feira, 21 maio, 2012

Eu sinto raiva dos mundos que não me pertencem
Das luas dilaceradas, há muito sem brilho
Dos passos abandonados, da ruína que trilho
Da hipocrisia silente, do canto profano
Do ódio velado, do grito maldito
Do verso não dito, do rumo perdido

Sinto raiva da raiva que me possui
Do impulso que move a chibata que me açoita
Da reza cretina rogada aos meus ouvidos
Do abuso consentido eu sinto raiva
E quanto mais raiva sinto, mais gosto de senti-la

E saborear o gosto amargo dessa ira contagiante
Rasgar sorrisos inocentes
Desfazer laços puídos
Varrer vidros estilhaçados
E com seus cacos, ferir minha pele esbranquiçada
Até que o sangue verta e eu grite e sinta mais raiva
E sinta mais vontade de sentir raiva

E então assassine o meu eu ideal
Afronte meus falsos paradigmas
Aquilo que não almejo ser
E me desfaça em alguns poucos pedaços
Para te ofertar uma carne adocicada
Nutrida pelo açúcar de ódios afetados e afetuosos
Construídos com tijolos de insânia, dor e tirania

Sinto raiva porque minhas entranhas se corroendo me dão prazer
Porque me regozija sentir minha alma se rompendo
Ao som de trinta e sete mil violinos desafinados, gritantes
De vinte não-afetos desestabelecidos e fora de controle
De cem línguas viperinas, falsas, ausentes
E milhares de dedos apontando meu desatino
E milhares de olhos sentenciando minhas escolhas
E milhares de bocas escarnecendo minha amargura

EU sinto raiva porque a egolatria é um prazer da pós-modernidade
E é aprazível sentir raiva disso

Sinto raiva porque não sei bem o que sentir, tenho medo de partir
E assim violentar os fantasmas que hei de deixar para trás, desolados
Quando o último trem se for
E me levar a trilhar caminhos feitos de éter, contrabandeado
Por canalhas fisiologistas, burocratas e narcisistas
Que impuseram ao mundo essa ideia torpe
De que toda raiva deve ser explicada, rotulada e sufocada
Evado-me!

Dedicado a todos os porcos que têm orgasmos múltiplos ao tachar e encaixar as subjetividades alheias em moldes patológicos de ignorância e conservadorismo.


Sobre homofobia, diferenças e utopias nem tão utópicas assim

quinta-feira, 17 maio, 2012

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17 de maio de 1990. Nessa data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retira de sua lista patologizadora de transtornos mentais a homossexualidade, tida, até aí, como uma doença digna de ser “tratada”. Nessa data, desde então, realizam-se protestos, discussões e eventos visando ao combate da homofobia, que, segundo o Aurélio, é configurada como a “aversão aos homossexuais ou ao homossexualismo”. Reparem como esse termo, “homossexualismo”, permanece presente no imaginário não só popular, mas acadêmico, “intelectual”, resquício de uma época em que a “prática homossexual” (outro termo cretino) e seus “praticantes” eram severamente recriminados e segregados, sem direito à dignidade e ao sentimento de pertença a uma sociedade acostumada a apontar, julgar e censurar, sem ao menos refletir sobre as consequências de tais comportamentos discriminatórios e conservadores. E essa é uma realidade que, infelizmente, continua atual.

As centenas de ASSASSINATOS, por ANO, de gays no Brasil, EXCLUSIVAMENTE por serem gays, são consequência dessa ideologia/prática. A recriminação aberta em países como China e Irã, cujos Estados se delegam a tarefa de perseguir e clausurar quem ousa ser diferente, também é. A auto-censura, o encobrimento, o disfarce, a culpa e a vergonha de ser e mostrar quem é também são frutos dessa violência, que nem precisa ser explícita para assim se configurar. Ou você acha, sinceramente, que piadas na hora do happy hour sobre “veadinhos” não são homofobia? Ou que o deboche àquele seu colega “meio mulherzinha” é inofensivo? Ou que olhares de desaprovação, no meio da rua, a uma moça “masculinizada”, não causam efeito algum? Ou, ainda, que achincalhar e satirizar travestis e transsexuais não gera absolutamente nenhum mal na vida delas?

Os atos mais “inofensivos” podem produzir resultados catastróficos. A rejeição, o julgamento, a discriminação – ora velada, ora explícita -, a exclusão social e familiar, as agressões gratuitas, o desrespeito berrante, a segregação elitizadora, a sensação de superioridade, a impossibilidade de conviver com o diferente. Isso tudo machuca. Isso tudo doi. Isso tudo acaba em sangue, ódio, desigualdade e tristeza. E isso tudo é parte do nosso cotidiano. Está lá fora. Está aí, dentro de casa. Está nas escolas, nos bares, nas ruas. Está no discurso ambíguo e hipócrita de quem defende e propaga a utilização de termos como “homoafetividade”, desvinculando o homossexual de sua sexualidade, sem perceber que causa um desserviço às lutas LGBT (afinal, pessoas que não transam, sendo somente “afetivas”, não precisam de políticas públicas para prevenção a DST’s, ou precisam?). Está na configuração do Estado brasileiro, que permite a permanência, manutenção e continuidade das desigualdades e não proporciona proteção e isonomia em direitos teoricamente “de todos”, como o de casar e adotar.

Precisamos exercer e vivenciar palavras que soam bonitas no papel, mas que na realidade se vêm pouco aplicadas. Respeito. Aceitação. Empatia. E não aquele “tolerar”, do tipo, “te odeio, mas te suportarei”. Falo do colocar-se no lugar do outro, do aceitar sem julgar, do conviver harmonicamente, harmonia essa que tanto nos falta nesses tempos em que pessoas de uma determinada crença se julgam no direito de impingir aos outros, goela abaixo, seus valores, buscando uma normatização, uma normalização e um padrão de unitarismo que jamais existirá: somos plurais! E é bonito ser plural; é normal ser plural e (se) permitir ser assim, (se) permitir pluralizar, ampliar fronteiras. É normal ser diferente. É SAUDÁVEL ser diferente. E não é motivo de vergonha sair do padrão, quebrar paradigmas. É inadmissível que vivamos numa sociedade em que as pessoas precisem usar máscaras, disfarces e armas por serem o que são. É incabível continuar se pensando numa vivência homossexual introjetada, que busque estar dentro dum padrão de aceitação para que se possa viver em sociedade: respeite a “afetação”; conviva com o “espalhafatoso”; aceite a “masculinizada”; crie empatia com o “afeminado”: todos têm direito à dignidade e o respeito, o direito de ser diferente, transgredir e ir além das convenções, dos padrões forçados, dos paradigmas conservadores, das noções de normalidade, de saudável e de ideal.

“Errado” é quem discrimina, quem não faz autocrítica, quem empurra todos os problemas para o outro. “Vergonhoso” é ter a desonestidade intelectual de produzir e praticar ódios e apontar e sentenciar diferenças, ignorando suas próprias diferenças, advindas da subjetividade de cada ser humano, que não anula seu DEVER de lutar contra injustiças e a iniquidade que assolam a nossa civilização, e evitar que esse ciclo de violência continue a se perpetuar. Isso não se faz só com discurso, mas com pensamento praticado, reflexão e ação. E começa dentro de casa, nas microrrelações que cada um de nós possuímos, e daí se estende ao Estado, que tem, ou DEVERIA TER, a obrigação de dar um fim nos circuitos de ódio e discriminação e garantir dignidade, proteção e respeito àqueles que sofrem diariamente na pele o ônus por ousarem ser diferentes, quebrarem paradigmas e desviarem de padrões tidos como “normais”, aceitáveis.

Esse texto é dedicado a todos os meus conhecidos, amigos e familiares que, na minha frente, dizem que são “de boa” com o assunto, que “não têm preconceito”, mas que circulam imagens e comentários de teor escancaradamente homofóbico, preconceituoso e, por vezes, de uma violência explícita, em redes sociais. A todos que insistem em se colocar no papel de palmatória do mundo, julgando o que é certo ou errado, sem sequer refletir sobre suas próprias questões e “imoralidades”. Ao meu namorado, que me arrancou do armário e me fez refletir sobre minhas vivências e pensamentos, suscitou diversas reflexões, possibilitou uma série de transformações e me fez ter orgulho de ser diferente e de lutar pelo direito à diferença. E, claro, a todos que se arraigam a bandeiras e causas que buscam a justiça e o combate à desigualdade e opressão, sem se envergonhar disso – pelo contrário, tendo orgulho! – e ainda acreditam numa utopia, nem tão utópica assim, de que as diferenças podem, sim, ser aceitas, compreendidas e respeitadas.


Gestos de calamidade

sábado, 7 abril, 2012

Meu triunfo é a miríade de cadáveres estendidos no campo das eternas lamentações,

vitimados pela chacina da guerra entre minhas centenas de eus,

partícipes da poesia sangrenta que escorre da minha ruína evidente,

o berro da agonia indizível, o brado do silêncio reprimido que retumba.

A dor tritura o peito

e serve um banquete de infortúnios,

de sonhos digeridos pela bílis corrosiva

do meu âmago ferido,

da minha pele inflamada, meus sonhos em cacos,

minha infâmia exposta aos quatro ventos,

espalhando o fogo, que é a arma que utilizarei

para ceifar toda a vida do mundo

e semear meu presente, minha dádiva profana:

quero afogar o mundo em sangue!

Pois só assim terei meu desejo de morte e caos

satisfeito,

só assim alcançarei o gozo

de mil corpos mutilados,

os cadáveres daquilo que não consigo desdenhar,

por mais tentadora que a ideia da consagração me pareça,

por mais desejoso que o martírio filantrópico se apresente;

eu perecerei.

E perecido, minha carne deteriorada feita em pó,

queimada pelo fogo do meu próprio ódio,

hei de ser respeitado,

e ai daquele que zombar da minha aflição inesgostável,

que desaparece enquanto a morte me leva daqui!

Pois quem da minha amargura escarnecer,

que reze para quantos deuses e demônios quiser:

ninguém te protegerá das pragas e do ódio que lançarei sobre ti,

maldito zombeteiro.

Quero te ver berrar num desejo ardente

pelo sofrimento que buscas no meu peito,

pela chama perversa que aniquila a vida

e reduz a cinzas o que um dia foi tenro e belo.

Quero te ver implorar pela calamidade

vinda da Caixa de Pandora

que faço de pinhata,

assim como fizeste de pinhata meu coração,

meus anseios e conspirações.

E quando finalmente toda essa morte

e podridão atingir um ápice de satisfação duvidosa,

te reservarei um pouco desse amor gelado que conservo em mim,

se é que cadáveres amam;

mas sei que poderás arrancar do meu semblante morto

algum suspiro de inocência,

se é que as divindades repugnantes e inexistentes permitem a demônios sentir alguma coisa.