Por que tenho horror a religiões?

sexta-feira, 5 novembro, 2010

Posto aqui, com uma ou outra modifição, a resposta a uma pergunta que fizeram no meu profile do Formspring. Depois de uma pequena conversa com meu amigo Pedro, resolvi trocar o título do post, visto que discorro mais sobre religiões do que a descrença em si. A pergunta original no site era: por que sou ateu?

Vamos lá. Curiosa, essa pergunta, por que foi a mesma que uma testemunha de Jeová fez ao me parar na rua esses dias. Respondi a ele: porque parei pra pensar um pouco. Sou batizado no catolicismo e, durante boa parte da minha vida, acreditei num deus. Mas o que eu tinha não era fé: era medo. Medo, culpa. Dois dos pilares do cristianismo. Aos poucos fui me desligando; não sei bem como aconteceu, mas lá pelos meados de 2004 eu já não me considerava católico, e me assumi ateu em 2005.

Sou, antes de tudo, antirreligioso. Me posiciono contra qualquer tipo de religião, mas principalmente contra o cristianismo, islamismo e judaísmo, que são as mais influentes, e, claro, os maiores poços de fundamentalismo, hipocrisia e retrocesso que se poderia ter. Sou de natureza (auto)questionadora, e para algumas coisas simplesmente não tenho resposta – nesse caso, aliás, ninguém tem. Mas me recuso a acreditar que uma criatura divina esteja a olhar por nós, regendo nossas vidas, pronta a nos punir e mandar para o inferno ao menor pecadilho; refuto até mesmo aquelas teorias de que uma energia, algo superior, não necessariamente um deus, nos criou. De onde viemos? Boa pergunta. Provavelmente nunca será respondida. Só não acredito ter sido do barro ou pela simples vontade de um deus.

Acho que as religiões já tiveram seu papel no mundo, como sempre digo, pro bem ou pro mal. Não vejo mais sentido em buscar amparo numa fé mística quando se pode buscar forças dentro de si mesmo. Algumas pessoas têm fé, mas não ficam paradas, esperando a graça divina: vão lá e fazem, vivem, fracassam, vencem. Não creio que seja a grande maioria, infelizmente.

Outro ponto a se colocar é a indústria da fé. A quantidade de pastores evangélicos, só pra dar um exemplo, que se aproveitam da inocência de seus seguidores é abismal, grotesca e revoltante. Não consta num daqueles evangelhos apócrifos que o reino de deus está em nós, e não dentro de construções? Não consigo conjeturar um modo de acabar com essa exploração, visto que o fundamentalismo nesse pessoal é tão arraigado, que fica difícil, muitas vezes, manter uma simples conversa mais racional. Ouse tentar um diálogo com um cristão fanático, pra ver o que acontece.

Antes, eu procurava respeitar as religiões, dentro dos meus limites. Até que comecei a fazer algumas leituras – e sempre estou procurando saber mais, ter mais base – e percebi que religião não é algo biológico, que vem conosco desde o berço, mas sim uma ideia, e ideias foram feitas para se colocar em debate, criticar, discutir, e não para simplesmente “serem respeitadas”. Desculpe, mas não consigo respeitar instituições que pregam a proibição do aborto, a demonização da homossexualidade, a proibição das pesquisas com células-tronco, assuntos que, aliás, não são da esfera religiosa. Como disse um senador da Argentina, direitos fundamentais não se plebiscitam, como gostaria a execrável Marina Silva, mas se garantem. Não deveríamos deixar o Direito se pautar por dogmas, como lamentavelmente acontece no Brasil e na maior parte do mundo.

O lobby religioso – de cunho majoritariamente cristão – é forte por aqui , mas também se manifesta de forma brutal, por exemplo, nos EUA, com os judeus sionistas e cristãos protestantes interferindo a torto e a direito na política e moldando o país ao seu bel-prazer. Triste que se misture política com religião. São áreas que deveriam ser imiscíveis, mas que muitas pessoas já não conseguem mais ver isoladamente. Sou absolutamente contra partidos políticos ligados a alguma religião, e o que se viu nessas últimas eleições – um candidato disfarçadamente ateu sendo falso e utilizando a máquina religiosa para tentar, de modo golpista, ganhar o pleito, espalhando boatos, mentiras e calúnias – me faz defender ainda mais o reforço do Estado laico, cujo princípio não está presente na Constituição Federal como deveria, de modo explícito.

Enfim, escrevi uma bíblia, mas não disse tudo que gostaria. Nem sei se teria como me expressar melhor. Alguns podem me ter como tão fundamentalista quanto os religiosos que critico, mas acontece que não saio por aí fuzilando-os, e manifesto minhas opiniões quando solicitado ou quando é oportuno, procurando não atingir os indivíduos pessoalmente, mas sim atacando suas ideias. Os ateus passaram séculos oprimidos, sem o direito de declarar sua descrença, e acho que agora é a hora de se questionar o papel das religiões na sociedade e, se não for possível extingui-las (o que seria sonhar demais, creio), ao menos colocá-las em seus devidos lugares: no campo teórico, bem longe da prática.

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Sobre a influência religiosa na sociedade e suas consequências

quarta-feira, 6 outubro, 2010

Até então, evitei trazer à pauta do blog assuntos muito espinhosos, cujas exceções se podem ler aqui e aqui. Manifesto, aliás, minha vontade de aprofundar os dois textos linkados anteriormente, já que muito se passou desde que foram escritos e minha visão sobre certos pontos mudou bastante. Enfim. Quero agora aproveitar este espaço para fazer uma breve reflexão sobre um assunto que muito me tem incomodado: a interferência religiosa na sociedade e suas consequências.

Em primeiro lugar, queria lembrar a todos de que vivemos em um Estado laico, com fundamento no art. 19, inciso I da Constituição Federal, que veda o vínculo da União, Estados, Distrito Federal e Municípios com cultos religiosos – salvo quando há interesse público. Não cito o inciso III porque o considero vago, indistinto. Aliás, este artigo, por si só, é de uma fraqueza absoluta: deveria haver espaço claro na Carta Constitucional para tratar de solidificar a laicidade do nosso Estado, já que a desfaçatez de certos setores da sociedade é tal, que este princípio básico acaba por ser relegado a mera teoria.

É absurdo que as religiões possam ter tamanha influência não só no Brasil, mas no mundo como um todo. Vamos nos ater, contudo, à realidade mais próxima: a do nosso país. A força das religiões – e aqui faço um grifo no eixo judaico-cristão, que é o mais poderoso – se faz presente quando vemos entidades religiosas e igrejas dominarem grandes veículos de comunicação; quando percebemos o poder que líderes religiosos exercem sobre o comportamento e pensamento de seus rebanhos; e, principalmente, ao nos darmos conta de que um quinhão considerável do Congresso Nacional é ocupado por representantes de determinadas religiões.

Já começamos errado. Misturar religião com política é algo grotesco e deveria ser proibido. É claro que os religiosos têm direito a se posicionar politicamente, mas não enquanto religiosos, e sim como cidadãos. É de provocar engulhos a manifestação de entidades religiosas a favor ou contra certos candidatos, entrando no jogo das mentiras, calúnias e distorções que preenchem o cenário eleitoral. Onde está o art. 19, I? Ah, sim, esqueci que só funciona no campo teórico. Esqueci, também, de que carecemos de uma posição mais específica da legislação quanto a isso.

A influência religiosa na sociedade é evidente quando analisamos a questão do aborto. Segundo o art. 5º da CF, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. OK, vamos pensar um pouco: o que é “vida humana”? Quando começa? Quando termina? A definição mais aceita é, infelizmente, a religiosa, que diz que a vida começa na concepção, e isso encontra um respaldo absurdo no art. 2º do Código Civil de 2002. Friso, mais uma vez, que essa definição é de influência exclusivamente religiosa. Há morte quando não se tem mais atividade cerebral, sim? Então, por que a vida humana começaria no momento da concepção? A visão mais ponderada, afastando-se do dogma, é de que a vida humana se inicia com a atividade cerebral, a qual surge apenas depois da décima semana de gestação.

Quem levanta bandeira contra o aborto está ignorando – propositalmente ou não – que esta não é uma questão moral, não é uma questão de princípio, muito menos religiosa: aborto é questão de saúde pública. Porque, enquanto não for tomada uma atitude, milhares de mulheres continuarão morrendo ao se submeterem a cirurgias arriscadas, em ambientes insalubres e sem condições de recuperação adequada. E quando digo “mulheres”, estou me referindo, obviamente, àquelas que não têm condição alguma de pagar por tratamento adequado com médicos caros em clínicas de luxo ilegais. Quem levanta a bandeira contra o aborto está sendo cúmplice dessas mortes, ignorando uma questão gravíssima que só será resolvida com conscientização e, principalmente, com a regularização do aborto. As exceções – em caso de estupro, gravidez de risco, etc. – não são suficientes. Não é justo tolhermos das mulheres o direito ao controle de seu corpo; é preciso regularizar amplamente.

Outra coisa necessária é deixar a hipocrisia e o egoísmo de lado. Vamos parar com essa história de que os meus interesses privados, os interesses da minha classe devem se sobrepor ao interesse sociocoletivo. Não. Questões de interesse da sociedade como um todo não devem ser deixadas de lado só porque os dogmas religiosos ensinam que o aborto é uma afronta a deus, que a união homossexual é um pecado, uma aberração. Muitos religiosos vêm com um papo de “liberdade religiosa”. Ok, e a minha liberdade de querer respeito e maior igualdade? Religiões, de um modo geral, pregam o preconceito exposto, a discriminação racial, religiosa e sexual, a submissão feminina, a matança de animais e um leque vasto de outros disparates. Quer dizer que, neste Estado laico, os direitos de aborto e união homossexual vão ser estorvados por causa de dogmas religiosos? Por questões morais? As pessoas precisam aprender que suas crenças religiosas não podem interferir naquilo que diz respeito à coletividade. Ou, então, rasguemos a CF, com toda a conversa de igualdade e liberdade.

Não há igualdade. Não há liberdade. Digo, não há igualdade e liberdade no sentindo amplo, ou seja, para todos. Tais direitos são luxos dos quais apenas um segmento da sociedade pode desfrutar. Pergunto: até quando? Até quando vamos deixar que as crenças religiosas de alguns interfiram na vida da sociedade em geral? É pedir demais que se amplie esse conceito de igualdade e liberdade para todos, de fato? Que se deixe de lado o “consenso geral”, o “senso comum” e os moralismos arcaicos para, enfim, termos uma sociedade mais justa e igualitária?

Só me resta fazer um apelo a todos: votem com consciência. Escolham bem os candidatos que vão nos representar no Legislativo e, agora, com o segundo turno, no Executivo. Não se deixem levar por manipulações, politicagens e boatos. Colocando crápulas no poder, só iremos perpetuar a estagnação das lutas por justiça e igualdade, afastando ainda mais a possibilidade de se construir um país e um mundo melhor.