Sobre homofobia, diferenças e utopias nem tão utópicas assim

quinta-feira, 17 maio, 2012

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17 de maio de 1990. Nessa data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retira de sua lista patologizadora de transtornos mentais a homossexualidade, tida, até aí, como uma doença digna de ser “tratada”. Nessa data, desde então, realizam-se protestos, discussões e eventos visando ao combate da homofobia, que, segundo o Aurélio, é configurada como a “aversão aos homossexuais ou ao homossexualismo”. Reparem como esse termo, “homossexualismo”, permanece presente no imaginário não só popular, mas acadêmico, “intelectual”, resquício de uma época em que a “prática homossexual” (outro termo cretino) e seus “praticantes” eram severamente recriminados e segregados, sem direito à dignidade e ao sentimento de pertença a uma sociedade acostumada a apontar, julgar e censurar, sem ao menos refletir sobre as consequências de tais comportamentos discriminatórios e conservadores. E essa é uma realidade que, infelizmente, continua atual.

As centenas de ASSASSINATOS, por ANO, de gays no Brasil, EXCLUSIVAMENTE por serem gays, são consequência dessa ideologia/prática. A recriminação aberta em países como China e Irã, cujos Estados se delegam a tarefa de perseguir e clausurar quem ousa ser diferente, também é. A auto-censura, o encobrimento, o disfarce, a culpa e a vergonha de ser e mostrar quem é também são frutos dessa violência, que nem precisa ser explícita para assim se configurar. Ou você acha, sinceramente, que piadas na hora do happy hour sobre “veadinhos” não são homofobia? Ou que o deboche àquele seu colega “meio mulherzinha” é inofensivo? Ou que olhares de desaprovação, no meio da rua, a uma moça “masculinizada”, não causam efeito algum? Ou, ainda, que achincalhar e satirizar travestis e transsexuais não gera absolutamente nenhum mal na vida delas?

Os atos mais “inofensivos” podem produzir resultados catastróficos. A rejeição, o julgamento, a discriminação – ora velada, ora explícita -, a exclusão social e familiar, as agressões gratuitas, o desrespeito berrante, a segregação elitizadora, a sensação de superioridade, a impossibilidade de conviver com o diferente. Isso tudo machuca. Isso tudo doi. Isso tudo acaba em sangue, ódio, desigualdade e tristeza. E isso tudo é parte do nosso cotidiano. Está lá fora. Está aí, dentro de casa. Está nas escolas, nos bares, nas ruas. Está no discurso ambíguo e hipócrita de quem defende e propaga a utilização de termos como “homoafetividade”, desvinculando o homossexual de sua sexualidade, sem perceber que causa um desserviço às lutas LGBT (afinal, pessoas que não transam, sendo somente “afetivas”, não precisam de políticas públicas para prevenção a DST’s, ou precisam?). Está na configuração do Estado brasileiro, que permite a permanência, manutenção e continuidade das desigualdades e não proporciona proteção e isonomia em direitos teoricamente “de todos”, como o de casar e adotar.

Precisamos exercer e vivenciar palavras que soam bonitas no papel, mas que na realidade se vêm pouco aplicadas. Respeito. Aceitação. Empatia. E não aquele “tolerar”, do tipo, “te odeio, mas te suportarei”. Falo do colocar-se no lugar do outro, do aceitar sem julgar, do conviver harmonicamente, harmonia essa que tanto nos falta nesses tempos em que pessoas de uma determinada crença se julgam no direito de impingir aos outros, goela abaixo, seus valores, buscando uma normatização, uma normalização e um padrão de unitarismo que jamais existirá: somos plurais! E é bonito ser plural; é normal ser plural e (se) permitir ser assim, (se) permitir pluralizar, ampliar fronteiras. É normal ser diferente. É SAUDÁVEL ser diferente. E não é motivo de vergonha sair do padrão, quebrar paradigmas. É inadmissível que vivamos numa sociedade em que as pessoas precisem usar máscaras, disfarces e armas por serem o que são. É incabível continuar se pensando numa vivência homossexual introjetada, que busque estar dentro dum padrão de aceitação para que se possa viver em sociedade: respeite a “afetação”; conviva com o “espalhafatoso”; aceite a “masculinizada”; crie empatia com o “afeminado”: todos têm direito à dignidade e o respeito, o direito de ser diferente, transgredir e ir além das convenções, dos padrões forçados, dos paradigmas conservadores, das noções de normalidade, de saudável e de ideal.

“Errado” é quem discrimina, quem não faz autocrítica, quem empurra todos os problemas para o outro. “Vergonhoso” é ter a desonestidade intelectual de produzir e praticar ódios e apontar e sentenciar diferenças, ignorando suas próprias diferenças, advindas da subjetividade de cada ser humano, que não anula seu DEVER de lutar contra injustiças e a iniquidade que assolam a nossa civilização, e evitar que esse ciclo de violência continue a se perpetuar. Isso não se faz só com discurso, mas com pensamento praticado, reflexão e ação. E começa dentro de casa, nas microrrelações que cada um de nós possuímos, e daí se estende ao Estado, que tem, ou DEVERIA TER, a obrigação de dar um fim nos circuitos de ódio e discriminação e garantir dignidade, proteção e respeito àqueles que sofrem diariamente na pele o ônus por ousarem ser diferentes, quebrarem paradigmas e desviarem de padrões tidos como “normais”, aceitáveis.

Esse texto é dedicado a todos os meus conhecidos, amigos e familiares que, na minha frente, dizem que são “de boa” com o assunto, que “não têm preconceito”, mas que circulam imagens e comentários de teor escancaradamente homofóbico, preconceituoso e, por vezes, de uma violência explícita, em redes sociais. A todos que insistem em se colocar no papel de palmatória do mundo, julgando o que é certo ou errado, sem sequer refletir sobre suas próprias questões e “imoralidades”. Ao meu namorado, que me arrancou do armário e me fez refletir sobre minhas vivências e pensamentos, suscitou diversas reflexões, possibilitou uma série de transformações e me fez ter orgulho de ser diferente e de lutar pelo direito à diferença. E, claro, a todos que se arraigam a bandeiras e causas que buscam a justiça e o combate à desigualdade e opressão, sem se envergonhar disso – pelo contrário, tendo orgulho! – e ainda acreditam numa utopia, nem tão utópica assim, de que as diferenças podem, sim, ser aceitas, compreendidas e respeitadas.

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Inexorável

domingo, 22 janeiro, 2012

Tal vez consumirá la luz de enero,

su rayo cruel, mi corazón entero,

robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero

y moriré de amor porque te quiero,

porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda, Cien Sonetos de Amor.

Para o meu amor, que me completa e me enche de felicidade.

Fagulha lançada ao acaso: assim se acendeu meu fogo por ti. A chama principiou tênue, discreta, suave, para logo se fazer intensa, lacerante, pulsátil. Tua chama incendiou meu ser numa hora funesta, preenchendo o vazio com plenitude, afastando as trevas com uma luz cálida e devolvendo esperança a um corpo que desconhecia o significado do viver. Viver de modo contumaz, arriscado e limítrofe, mas satisfeito, honesto, verdadeiro e livre.

Tua alma inspira liberdade. Sinto e absorvo teu amor livremente, teu perfume me inebriando com doçura e tranquilidade. Teu toque me libertou. Liberdade é poder se entregar sem receio, compartilhar com o coração aberto, amar e deixar-se amar com júbilo e agrado. Me entrego aos teus braços, sereno e confiante. Confio nos teus olhos belos, brilhantes, que me observam com ternura e suavidade; me deleito com tuas carícias, que me fazem ir às alturas para então pousar no teu colo, onde sei que estarei seguro. Porque és meu porto seguro; teu amor impregna minha vida com sentimentos inefáveis, que não ouso nomear, eu que sempre nomeio tudo para sentir que a tudo domino. E de dominador, passei a dominado: meu coração é teu, a ti pertence e a ti o entreguei para que nele deposites teus mais verdadeiros sentimentos.

As páginas da minha vida, antes vazias, tu preencheste com palavras ternas de confiança, formando frases que contam uma história incipiente, mas com um valor imensurável: tu vales o mundo, e por ti eu suportaria as mais terríveis aflições, carregaria os fardos mais pesados e travaria as guerras mais sangrentas. Prezo teu bem e tua paz: como deitar-me tranquilo sem ter certeza do teu conforto?

Tu mitigas meus tormentos, aplaca minhas fúrias e doma minhas tristezas com um jeito simples e natural, com uma graça própria de anjo, o arcanjo que zela pela minha felicidade. Tens o dom de dizer o certo no momento certo, sem me irritar ou ferir, e fazes isso como se tivesses recebido instruções sobre como ser a pessoa perfeita para completar minha vida. Porque me completas e fazes meu peito explodir de alegria, pois te ter ao meu lado é o maior de todos os presentes que me poderiam ser ofertados. A ti, oferto meu amor e meus mais sinceros e afáveis desejos.

Quero ser para ti tudo que representas para mim: o ombro amigo, o ouvido atento e a boca que profere palavras de sabedoria; a vela no escuro, a água no oásis e o sol após a tempestade. Tu és alento para os momentos mais intricados, bálsamo para as feridas mais dolorosas, o vento que alivia o calor das adversidades, o mapa para a cidade desconhecida que é a vida. Minha vida faz sentido contigo. És o sentido dela.

És o poema mais lindo de todos: está escrito nos teus olhos, cada linha repleta de afeição e brandura, formando lindos versos sobre a história mais extraordinária já contada. Não há versos para expressar o que sinto por ti. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar. E eu repito e me repito, mas não deixo de te amar. Te amar é um ciclo inacabável, cada dia uma reaproximação, uma nova descoberta, uma surpresa agradável, uma vertente de quentura que me conforta, me protege e me resguarda de qualquer mal. Não há mal na tua presença, pois tua luz repele o que de sombrio houver por perto. Mesmo a distância cruel não afasta teus raios de sol do meu rosto: basta respirar e te sinto, teu perfume alastrando alegria e alívio em meu coração. Aquilo que me toca em meu mais profundo recôndito é o que significas para mim, em mim, por mim: tudo.

E tento expressar tudo que sinto por ti, embora seja um trabalho ao mesmo tempo fácil e árduo, pois tuas qualidades esmeram teu ser e te enchem com um brilho especial; contudo, jamais chegaria aos pés de tanta beleza e encanto reunidas num só ser. Falar bem de ti é redundância, pois só o que passas é o bem, só o que fazes é o bem, e como é bom te ter na minha vida. És a pessoa mais linda que já conheci, teu corpo é minha fonte mais aprazível de êxtase e teu sorriso me desmonta e me encaixa novamente, me desarma e me contagia com uma energia indescritível. És bem mais do que acreditas ser. És um fluxo de harmonia se espalhando ao redor de mim, um âmago de infinitos prazeres, um altar perene de veneração ao mais puro e verdadeiro amor. Meu amor por ti é o mais puro e verdadeiro possível. És bem mais do que acreditas ser. És tudo e mais um pouco.

A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama; a chama se alastrou e causou um incêndio. Teu amor incendiou minha alma e colocou meu mundo em chamas. Mas, te garanto, são as chamas mais agradáveis em que já me lancei. Porque não me queimam, mas curam, abrandam e iluminam. Tu iluminas meu ser. A fagulha lançada ao acaso tornou-se uma chama. Que essa chama resplandeça até o infinito. Meu amor por ti é infinito. Infinito como o brilho que vaza dos meus olhos ao te ver. Infinito como o universo de possibilidades que se abriram ao entrares na minha vida. Essa palavra, vida, tem, para mim, um novo significado. Vida, agora, significa um anjo ao meu lado. Vida, agora, significa um rumo a percorrer, um caminho certo a seguir, uma pessoa especial para andar ao meu lado. Vida, agora, não existe sem ti, pois tu és parte intrínseca dela, já que não existo sem ti, e teu amor, para mim, é mais do que tudo. Teu amor, para mim, é simplesmente isso. Vida.


Balada do coração agonizante

quinta-feira, 8 dezembro, 2011

The apple never asks the beech how he shall grow,

nor the lion, the horse, how he shall take his prey.

The thankful receiver bears a plentiful harvest.

If others had not been foolish, we should be so.

The soul of sweet delight can never be defil’d.

William Blake, Proverbs of Hell.

Me rasgo em pedaços de pano puído, despejando uma angústia de mil faces que teimam em se desencontrar. Fechei o círculo, mas outro se abriu: para quê? As infindas voltas que damos nos levam sempre ao mesmo ponto. Por que partimos, então? A estrada que leva a lugar nenhum é cingida por fios de arrogância, aquela que vomitamos sem ao menos nos darmos conta. Mas estava falando de mim. Dos meus pedaços rasgados em pano puído; a angústia a que me referi é minha, mas os desencontros são nossos. Como falar de mim sem ti? Como me encontrar em meio ao turbilhão de intempestivos rompimentos? Vaticinado está nosso destino no momento em que costuramos nossas mãos em uma aliança débil, fragilizada por uma esperança que seria vã caso fosse verdadeira, e acaba apenas vazia. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.

O sopro da manhã tenta afastar a dor da inanidade. Porque tudo o que eu almejava era um toque do tudo – o teu toque. E por desejar isso, acabei tendo apenas nada. O nada é pleno em sua essência, porque nos move e tange e permeia o fracasso da nossa esperança: não esquece que nem vã ela chega a ser. Vão é o esforço para achar o norte nessa vereda lúgubre. A luz que uma vez cegou nossos olhos é água no oásis: ilusão. Nossa estrada é uma sacola de ilusões, brilhantes como a estrela que mora em teus olhos. Doce gigante vermelha fadada ao amargo do apagar.

Me rasgo em pedaços de pano puído, esfregando, com os retalhos da minha alma partida, o sangue que derramamos ao digladiar por um pouco de ar fresco nessa terra de desolação. Um cenário de desespero pontilhado de luzinhas quase desvanecidas – ocas; toque-toque, aqui dentro mora o vazio. Sobre isso entendemos: o vazio é o berço do inconsolável. Minha agonia é inconsolável, pois parti para não voltar: sem ti, a seara é íngreme, o vinho, azedo, e o mel, amargo. Amargo como uma alma solitária. Doce esperança afogada em desilusão.

Em delírios de prazer e dor, escrevi o livro da minha mágoa: mil páginas de um vácuo sempiterno, letra apagada, poesia esmorecida na fria vertente do nosso descompasso. Um passo pra cá, três pra lá. Assim é a nossa valsa: vou ficando cada vez mais próximo e tu, distante. Disseram que a distância nos salvaria, mas ela desatou o frágil laço que contornava nossos corações: respira! liberdade! A distância liberta. A distância nos libertou. A distância te libertou duma gaiola expiatória. A distância me aprisionou numa fortaleza de aflição.

Me rasgo em pedaços de pano puído, tentando, em seguida, remendar o que restou de mim, ou de nós, já que não existe “mim” sem “ti”. Meu tecido gasto ao travar contato com o teu, ainda que sejam o mesmo. Meu corpo seviciado ao entrar em choque com o teu, cada toque um suspiro, cada suspiro, uma sinfonia de insensatez: te quero! Embora me machuques, te quero. Embora tua voz me roube o equilíbrio, te quero. Embora teu beijo me consuma, te quero. E te querer é um passo em direção ao abismo, o prenúncio da perdição.

Me perco na calada da noite, ruminando tuas palavras insípidas, relembrando teu cheiro sufocante, sentindo tua presença em cada esquina: onde estás? Onde poderias estar senão aqui dentro? Aonde poderias ir senão em minha direção? Espera: já não estavas aqui, dentro desse coração que palpita na esperança de te ver mais uma vez? Ouro dos tolos: contempla o buraco em teu peito, sonhador. Nele, cabe uma plenitude de sonhos. Sonhos em que fulguras, livre, mas intangível, distante. Sonhos são tão distantes da realidade. Eis o real: eu, aqui, vacilante, e tu, por aí, a vagar. Por onde? Não sei. Só sei saber de ti, e tu ressonas no tudo que há dentro do vazio. O vazio que habita meu coração sem tua presença. Quão tolo é aquele que ousa sonhar com o inalcançável. O fio que liga tua boca à minha se rompeu; o abismo que paira entre minha mão e teu corpo se amplifica a cada devaneio abandonado. É devaneio querer te encontrar, pois perdido estou. Ao meu redor, o pleno: vazio. Um vazio do tamanho do meu coração. Ou infinito.


Sobre sonhos, promessas quebradas e cacos de vidro

quinta-feira, 20 outubro, 2011

Vivíamos um sonho irrealizável. Um delírio borbulhando em cascatas de uma afabilidade terna e quase estridente. Você partiu, eu me fui. Você se foi, eu me parti. Um jeito aprazível de sangrar. Vertentes escarlates de você. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma ferida pungente, mas suave. Sua lembrança é suave. Apesar da dor. Apesar do sonho fragmentado. Ilusões frágeis como vidro.

O vidro que reflete o interior. Vazio? Um imenso vazio preenchido por si mesmo. Memória inefável, sombra do que não foi, poderia ter sido, mas logo se esqueceu. Você se esqueceu. Esquecemos. Esqueçamos. Já não importa muito. Apesar do relativismo do importar. Apesar do sonho arrasado, mas almejado. Vidro partido, coração ferido. Cacos de uma alma dilacerada.

Coração em frangalhos por crer em promessas feitas com uma mão na água e um pé no fogo. A chama que não tardou a nos consumir. Incendiar às vezes é melhor do que confrontar. Ilusões não são assim tão fáceis de desfazer. Melhor esquecer? Eu me esqueci. Esquecemos. Esqueçamos. Me esqueça. Me faça esquecer e juntar os cacos para recompor o fantoche vítreo.

Vivíamos um sonho denso, cintilante, feérico. Efêmero, débil, demasiado. Ilusório. Esplêndido, mas cruel. Crueldade sem beleza. Aquela beleza das flores coloridas e perfumadas. Um sonho mais como um jardim cinzento e frio. Como a vida. Como o mundo. O nosso mundo criado pela minha esperança. Promessa feita com uma mão na mente e os dois pés no coração.

Falar de corações é como um dia de chuva. A indiferença caindo em gotas parcas para logo tornar-se uma tempestade de mágoas. Enxurrada de emoções distorcidas, um céu coberto por angústia; a angústia luta para dissipar as nuvens apáticas e trazer a luz. Mas a luz vem apenas para ofuscar o sonho. Sonho perdido na névoa que se afasta para trazer o conforto dos iludidos. Insolação de empáfia.

Falar de corações é como vagar. Cruzar os vales sombrios com a indissolúvel esperança do fulgurar de um horizonte. Um horizonte que agora parece tão distante. Distante como a sua memória. Aos poucos ela se esvai. Não quero perdê-la, mas o fluxo é irrefreável: cascatas de um amor desesperado que vaza dos meus pulsos para seu coração. Falar de corações é como planger pelo inevitável: o amor rejeitado espalhando-se pelo chão, sem vasilhas para recolhê-lo ou bálsamos para amenizar a ferida inestancável.

Vivíamos um sonho. Um sonho que, de reluzente e caloroso, transformou-se em obnubilado e gélido. Um sonho que, de equânime e fraterno, passou a unilateral e aversivo. Um sonho feito de cacos de uma confiança destroçada. Os destroços aqui, digladiando por ar. Ar cada vez mais escasso. Essa é a essência dos sonhos: a escassez do sentir. E agora só o que sinto é aquela cascata de uma deslealdade perversa e quase sufocante. Nós nos fomos, eu me parti. Em mil pedaços. Um jeito sublime de sangrar. Vertentes escarlates de mim. Um corte que não cicatriza e que vaza em torrentes. Cascatas de uma dor impassível, mas necessária. Sua lembrança é necessária para viver. Apesar do flagelo que é lembrar seu toque. Apesar do sonho cálido, que em breve será enterrado. Ilusões frágeis do desejo.


Afótico

sábado, 3 setembro, 2011

“He venido encendida al desierto pa’ quemar

Porque el alma prende fuego cuando deja de amar”

Lhasa de Sela – El Desierto

Era como pairar. Uma suavidade enganosa que, de tão intensa, se fez dolorosa. As delícias e perigos da abnegação. Abdico às correntes e cruzo o limiar, mas permaneço sobre ele. Isso é pairar: estagnação. É a falácia do movimento suave, que leva a uma viagem sem rumo, sem fim. Eu parto, mas permaneço aqui. Distante de tudo, inclusive de mim.

Alguém certa vez me disse que a distância mata. Pois eu digo que a distância nos salvará. Salve-se quem puder, mas, por favor, não nos esqueçamos de despojar e, então, aniquilar as sobras. Até não restarem vestígios do indizível.

Anseio por dizer o indizível. Expressar a vibração primitiva sem que as marionetes de cristal se estilhacem em mil pedaços. Mil pedaços para mil anjos caídos, sedentos por mais. Mais jeitos de aprimorar o engano, de tentar juntar os cacos para reparar o que foi danificado. Quero reparar o irreparável. Isso é dizer o indizível: tornar impossível o possível – e não é possível partir.

Vem estagnar comigo. Percorrer as distâncias inalcançáveis, sonhar com o que não se pode ter, ousar lutar pelo que jamais seremos. Algo inominável nos impele ao impossível: mesmo conhecendo o fim da estrada, não deixamos de insistir, persistir em querer. Querer poder mais. As delícias e perigos da frustração.

Vem quebrar comigo, feito aquelas mil marionetes, frágeis e surrados brinquedos espalhados pelo playground da vida. Como duas crianças, vamos brincar. O passatempo pueril logo se transformará num jogo feroz de morte ou uma morte pior ainda. A vida não deveria ser um jogo – há jeito de torná-la mais do que um mero teatro da morte?

Vem pairar comigo. Nós dois, mergulhados no mar da solidão. Nada é mais doce do que a distância intangível. Solidão a dois é mais poética. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar.

Vem não apenas mergulhar: afoga-te, entrega-te, abjura-te. Afunda em mim e descobre a pérola que se esconde por trás da tua pálida carne. Eu sou a ostra: atira-te, concede-te o luxo de ser engolida e sufocada, e eu te moldarei ao meu, ao nosso prazer. Porque perder-se é aprazível. Perde-te em mim, num lento e aconchegante golpe de misericórdia. Larga a coroa de espinhos e dá-me tua mão: eu sou a verdade, o caminho, a mentira e a contradição.

Mas não me contradigo ao afirmar que, sim, a suavidade causa dor. A dor mais intensa que se pode provar. Indelével, inexorável, irrepreensível. A cortina do suave logo se rasga e revela a aspereza, pronta para nos retalhar em mil pedaços. Aqueles mil pedaços para mil anjos caídos, lembra? Mil anjos escondidos no espelho. O espelho reflete teu rosto, gravura lapidada na pedra do paraíso: selvagem, ofuscante e irredutível. Ao teu redor, imagens de uma vida que não existiu. Era doce. Era suave. Era plena. Era como pairar.


Ilusões, ou sobre pairar entre nada e coisa alguma

segunda-feira, 7 março, 2011

No temáis, no, de que os falte
compañía en las desdichas;
pues en duda semejante
de vivir o de morir,
no sé cuáles son más grandes.

Calderón de La Barca – La vida es sueño

A última vez em que nos encontramos foi na borda. Você a cruzou, mas eu permaneci aqui. Aqui estou e aqui ficarei. Não por comodidade, mas porque é preciso. Devoir. Se avanço mais um centímetro, eu a cruzo também. E aí estaremos juntos novamente, eu e você, meu frio e seu cheiro. Já te falei que seu cheiro me deixa louco. É suave, delicado, mas ao mesmo tempo intenso, quase obsceno. Vulgarmente corrosivo, uma incógnita que não é incógnita, porque já a decifrei; seu cheiro me lembra da perda – você sabe, estou perdido. Sabe?

Sabe. Sabe como me enlouquecer. Mas quem cruzou a borda foi você, e não eu. Eu estou aqui e aqui ficarei. Você conhece cada particularidade minha. Você e eu somos uma única idiossincrasia; ilusão, delírio, foi-e-não-volta-mais. Éramos. Você cruzou a borda. Repetir isso me deixa menos inseguro; mas crer que encontrarei segurança nos sonhos é ingenuidade. Você faz parte do meu sonho. E sonhos são apenas sonhos.

Meu ser é eivado de toda a sorte de vícios. Sou praticamente uma teia retalhada de emoções efêmeras, vis e egoístas. Mas o egoísmo lhe é peculiar, também, nessa vereda não estou sozinho. Porque você cruzou a borda, quantas vezes precisarei repetir? E repetir pra quê? Pra quem? Você não pode me ouvir. Você cruzou a borda.

Você é uma ilusão.

A mais preciosa, cálida e incrível ilusão.

Mas ilusões são só ilusões. Não?

Talvez. Não creio que haja maior ilusão do que a vida. A doce vida. Sinta a vida, respire a vida, almeje a vida, mantenha a vida, a doce vida. E tudo que vem com ela. E não é muito. Mas aí talvez seja idiossincrasia minha. Você sabe que sou dado a elas. Meu mundo particular, minha visão fragmentada, distorcida, mas bela, absurdamente bela. No seu mundo, só existe você. No meu mundo, só existe você. E aqui estou, aqui ficarei.

Nesse mundo, sou soberano e esplêndido, e meus súditos são feitos de ossos e pó e algo mais que não consigo captar. Quero entrar no seu mundo. E quando nele eu for rei, vou ostentar aquelas cicatrizes belíssimas que a vida inteira você desprezou. Você sempre gostou do desprezo, e eu gosto de ser desprezado: bate mais, por favor.

Não.

Você não pode. Você cruzou a borda. Maldita borda. Eu a quero, mas não posso tê-la. Quero você, quero a borda; são a mesma coisa? Quero, mas não posso. Aquele caminho a mim é proibido. Você sabe. Digo, sabia, porque agora tudo é irrelevante e incógnito. Perdi a capacidade de te decifrar. Você me devorou antes. Não que eu não goste, mas podia ao menos me dar a chance de respirar. Respirar a vida, a doce vida.

Quero a minha armadura de volta. Sim, eu sei, o peso estava me sobrepujando; você bem disse uma vez que sou apenas uma criança posando de guerreira. Dona da verdade, você. É. Foi. Será. Quando eu for rei, no seu vasto e feérico mundo, ninguém cairá em desgraça. Só haverá você e eu. E eu serei soberano, e você será eu, e então não haverá mais a borda. Não mais importará.

Você me estende a mão. Quer me arrastar. A tentação é enorme, e isso me destrói por dentro. Mas aí eu lembro que você é uma ilusão. E que ilusões são só ilusões, e sonhos são apenas sonhos, e que não há nada pior do que pairar entre a vida e a morte. Mas eu serei seu companheiro até pra isso. Vamos pairar juntos, flutuar em meio ao nada e a toda a insignificância que nos permeia. Quero ser você, me fundir a tudo que você representa, abdicar da consciência. Porque certas coisas é melhor esquecer. Abstraia. Me deixe abstrair a mim mesmo. É difícil, mas o percalço até aqui também foi. Quero lograr êxito. O seu êxito. Por você; o “eu” não importa.

No seu mundo, só existe você. Ponho meus pés fora da linha. Estou chegando. Estou indo em direção a você. Me espera? Ah. Esqueci. Somos ilusões. E… você sabe. O caminho das ilusões é abstrato. Não temos concreção. Não é possível ter. Fecho os olhos e me resigno a esquecer. Me esqueço. No meu mundo, só existe você. E essa é a maior e mais perversa das ilusões.


Incongruências, ou sobre a promessa da solidão

domingo, 6 março, 2011

We are all alone, and I will tell you of loneliness.

Otep – House of Secrets

Estamos sozinhos, e eu vou te falar sobre a solidão. Comecemos devagar, de modo suave, que é pra melhor apreciar a dor. A dor a gente curte assim, nunca te falaram? Pois é. Curtir a dor. Tem que ser desse jeito, senão perde a graça. Primeiro você se liberta das amarras, depois se atrela novamente a elas e, pá, cá estamos. Eu, você. Estamos sozinhos. Totalmente sozinhos. E eu vou te falar sobre a solidão. E a solidão não é algo, assim, fácil de compreender. Mas é fácil senti-la; nada de esforços hercúleos: eu estou aqui, você está aí, ou aqui – não sei bem.

Muito do que falo pra você, na verdade, é pra mim. Mas isso não significa que não seja também para você. Se não fosse para você, eu não falaria, não é lógico? Ah, esqueci, você não é dada a tais sutilezas. Gosta mesmo é dos impulsos, do se-deixar-levar-pela-emoção. Quando a gente inventa de cair nesse fluxo visceral do sentir e sentir-muito e sentir-muito-o-que-não-deve, a coisa complica. E aí vem aquela aguilhoada, e a sensação de vazio – sabe quando a gente se sente um lixo? Somos, eu e você, lixo, um belo lixo; e lixo é pra ser jogado fora. Não?

Eu vou te sufocar com culpa, esse ardil poderoso, esse instrumento de controle, ah, como eu amo o controle – e como eu te amo. Quero te controlar, então passo o peso do mundo pra suas costas, que nas minhas não dá mais. Boa sorte. Aliás, você sabe o que é sorte? Sorte é estar vivo, depois de tanto, depois de tudo; esse tudo acaba virando nada, não é triste? É e não é. Sabe? Não? Nem eu. Não sei muitas coisas. E o pouco que sei acabo esquecendo, logo, não sei. Isso sim é triste, imensamente triste, essa tristeza imensurável, eu…

Não importa. Não importamos, na verdade. Eu e você. Nós. A sós. Estamos sozinhos, lembra? E eu prometi que ia te falar sobre a solidão. Aqui está ela. Não está vendo? Perdão. Você está cega, como pude esquecer? Sou um insensível, você já me disse muitas vezes. A minha insensibilidade me choca, às vezes. Quase não consigo mais te ver. Quem está cego, mesmo? Você? Eu? Nós.

Certa vez você disse que me amava. Mas eu achava, veja bem, que ações falam mais alto que palavras. Então não venha dizer que me ama. As palavras entram nos meus ouvidos como um ruído distante, numa língua incompreensível: a língua do vazio. É, aquele vazio que bem conhecemos. Nos tornamos alquebrados, mirrados, privados de tudo que um dia poderia ser, mas não foi, não será e, bem, eu não quero que seja, não queria que fosse e isso tudo não importa mais; importou algum dia? Nós não importamos, lembra?

Sinto um cheiro de morte por aí. É um perfume, na verdade; doux arôme de mort. Começa devagar, de modo suave, que é pra melhor apreciar a dor. Esse perfume é doloroso, mas eu gosto; a suavidade me encanta – a dele, a sua, a minha, a nossa; mas nós não somos, que falta de tato, a minha. Eu queria te deixar uma marca. Já te falei sobre isso, acho. Uma profunda, impactante e indelével, daquelas que a gente não esquece jamais, nem que queira. Tudo impiedosamente cruel; tudo marcado com dor.

Agora vamos falar da marca que você deixou. Já te falei sobre a solidão: a solidão é isso, esse amálgama de horror, prazer, esplendor e irreverência. Eu te reverenciei e assim me perdi. Se bem que eu já estava perdido; é só uma questão de ponto de vista. Voltemos à marca. Sim. Infelizmente, não saí incólume. Você sabe disso. A marca que você deixou é profunda e intensa e dói, e eu quero sumir. Você me faz querer isso. Posso te pedir algo? Me devolva. Sim, devolva o meu eu a mim mesmo. E eu prometo que devolvo toda a amargura e desgosto que incorporei de ti. A tua marca. Tuas marcas. Essas pequenas mortes, pecadilhos pueris, que vão ficar pra sempre gravadas na minha pele.

Me chama de volta, com aquela mesma voz que eu tanto apreciei. E ainda aprecio. Porque você é a minha maior tortura, minha dose de prazerosa agonia; te bebo toda e não fico saciado – posso ter mais? Ambos sabemos que não. Solidão, lembra? Eu aqui, você aí, ou aqui, ou assim eu queria. Mas querer não é poder. Estamos sozinhos. Totalmente sozinhos. E eu vou te falar sobre remorso, sofrimento e uma saudade que não cabe em mim. Mas disso você bem sabe. Você é a rainha da inocuidade. Me trucida por dentro, mas no fundo eu anseio por isso. No fundo ainda existe um nós. Eu aqui, você aí. Nós, separados. Nós, distantes. Nós, rios que se cruzam, mas que desembocam em mares diferentes. Cumpro minhas promessas. Eis-me; eis o vazio; eis a solidão.