Sobre religiões, sectarismo, fundamentalismo e conservadorismo

sexta-feira, 26 novembro, 2010

Confesso que, nos últimos tempos, poucas coisas têm me feito rir. Costumava ter crises de riso longas e incontroláveis na adolescência; mas esse tempo já se foi. O mundo real, via de regra, é bem sério. E quem gosta de levar a vida totalmente “na brincadeira” é ingênuo, para dizer o mínimo. Não me entendam mal; não sou uma pessoa “amarga”, como alguém que absolutamente não me conhece disse esses dias. Dar risada é fundamental. Faz bem. Mas tudo tem limite, não? Tem hora pra brincar, e hora de ser sério. E acho que os problemas do mundo não são motivo de piada, mas sim assuntos sérios e preocupantes.

Ontem, estava navegando por esse site curioso que é o Orkut. Tem muita coisa boa lá, acredite. Mas também coisas assustadoras. O advento do mundo virtual parece ter criado a ilusão de que a internet é uma terra sem leis, onde se diz o que melhor lhe aprouver, sem que se arque com as consequências disso. Uma inverdade que às vezes pode custar caro, mas nem sempre, infelizmente. Minhas buscas me levaram a uma comunidade intitulada “Católicos”. Como o leitor do blog já deve ter percebido, religião é um assunto que muito me interessa. Afinal, para se criticar algo, é preciso um mínimo de conhecimento de causa, não é? Pois bem. Me deparei ontem com a dita comunidade e comecei a percorrer os tópicos. Então, tive uma crise de riso, daquelas dignas da minha adolescência. Cheguei a me atacar da asma. Eu ri para não chorar, literalmente.

Acho que poucas vezes vi tanto ódio, ignorância, conservadorismo e fanatismo reunidos num mesmo lugar. Quem me pergunta o porquê do meu horror a religiões em geral pode encontrar uma resposta nessa comunidade. O que aquelas pessoas seguem não é religião, é SEITA. E estou cada vez mais convencido de que o cristianismo não é um conjunto de religiões, mas um amálgama de seitas que se julgam muito distintas umas das outras, mas que, no fundo, tem o mesmo cerne.

Eu pensava que o mundo – mais especificamente, o Brasil – estava caminhando para uma catarse ideológico-social; afinal, elegemos um operário de centro-esquerda após 500 anos de monarquia, falsa democracia e ditaduras. Mas aí vieram as últimas eleições, e, com elas, José Serra, TFP, neonazistas, viúvas da ditadura militar e… o fundamentalismo religioso. Sim, ele ficou lá, escondido em seu recôndito obscuro, esperando o momento oportuno para dar o bote sobre a sociedade. A campanha política de ódio promovida por um sujeito ardiloso e hipócrita – porque José Serra é ATEU, meus amigos, não se enganem – deu ensejo aos nossos velhos (ou nem tanto) fundamentalistas religiosos, que perderam o medo, saíram de seus escaninhos e começaram a espalhar um rastro repugnante de imundície e perfídia.

Aliás, falar em “fundamentalismo religioso” é um contrassenso paradoxal. Fundamentalismo é, por definição, religioso – sugiro a quem duvida disso uma consulta a um bom dicionário. Não existe “fundamentalismo ateu”. O que pode existir é intolerância ateia às religiões, e dependendo do caso, é justificável. Não me venham dizer que é a intolerância ateia é equiparável ao fundamentalismo. Não é, e eu poderia dar vários motivos, o que, inclusive, talvez seja assunto para outro post. Desafio você que está lendo esse texto a enumerar os grandes males que o ateísmo causou/causa ao mundo. Alguém talvez cite o stalinismo, mas isso seria reduzir a questão a uma ótica simplista, porque Stalin foi um lunático que perseguiu indiscriminadamente tudo que era contrário à sua loucura, e não apenas religiosos; em sua sanha por sangue, ele chegou, inclusive, a matar amigos pessoais. Outros podem cair naquele velho senso comum de que os ateus são “maus”; já ouvi dizerem que a grande maioria dos criminosos é descrente. Bem, quando me trouxerem algum estudo sério, com estatísticas e tudo mais, que fundamente essa afirmação, talvez possamos discutir.

Há quem defenda os benefícios das religiões, em especial as cristãs – e meu foco é sempre o cristianismo, por ser o tipo de sectarismo mais influente no mundo ocidental. Dizem que uma pessoa não é completa sem crer; que as igrejas promovem a “solidariedade”; que as religiões limitam o indivíduo, dão a ele um norte, o põe sob controle. Que controle é esse? Pois o que tenho visto por aí é tudo, menos controle. Não vamos generalizar, também. Há religiosos e religiosos; sectários e sectários. E sei que uma parte considerável dos que seguem uma fé doutrinária é gente muito boa, que procura, por vezes, um amparo que não consegue encontrar em qualquer outra coisa. Achar que estou criticando esse pessoal é demonstrar má-fé. Mas, vejam só: alguém pensa mesmo que os formadores de opinião, as pessoas influentes do meio religioso são as ponderadas, as razoáveis? Se fossem, religiosos como Leonardo Boff e Frei Betto não seriam execrados, perseguidos e oprimidos; teriam muito mais espaço. A realidade é bem mais crua.

Quem tem grande poder de influência são os fundamentalistas. Quem transforma religião em seita são indivíduos como Silas Malafaia, Edir Macedo e, claro, o papa hitlerista Bento 16. Não, o Sumo Sacerdote da Igreja Católica não escapa dessa. E aí, voltamos à comunidade “Católicos”. Convido o leitor a dar uma passada por lá. Procure pesquisar sobre assuntos como uso de preservativos, aborto, união homossexual, castidade, submissão feminina. Não vai encontrar nada muito sensato – porque as pessoas sensatas, quando OUSAM expor as falhas do sistema e fazer questionamentos, são sumariamente expulsas. Não é permitido discordar da “doutrina da única Igreja de Cristo”; experimente, por exemplo, fazer qualquer comentário sobre o papa que fuja da veneração cega e doentia e verá o que acontece.

Acho que, caso Cristo realmente existisse, não acharia nem um pouco bonita a “cafetinagem de Jesus” e ficaria triste em ver certos indivíduos dizendo e fazendo atrocidades tendo como fulcro seu santo nome. É fácil pregar a paz e o bem, mas ainda mais fácil fazer o contrário. A paz de deus aos sectários de deus; ao resto, o inferno, dor e toda sorte de horrores. Entendi errado? Acho que não. É o que vários dos membros dessa comunidade pensam. E esses membros não fazem apenas campanhas virtuais; eles existem de verdade – boa parte deles, aliás, atuou efusivamente nas eleições de 2010. Assustador? Sim. Muito. Eu, particularmente, me assusto ao ver um sujeito não muito mais velho que eu pedindo orações para que os jovens “renunciem ao prazer carnal e possam estar voltados a cuidarem da saúde espiritual” durante o carnaval. Me indigno com gente defendendo a demonização da homossexualidade, lutando contra os direitos LGBT, praguejando contra a legalização do aborto, defendendo o uso de véus pelas mulheres durante os cultos; tem uns que chegam a defender a Inquisição, coisa pela qual até a Igreja já se retratou. Esses são apenas alguns exemplos. Há muitos, muitos mais. Perca cinco minutos do seu tempo no fórum; garanto que será esclarecedor.

Sempre costumo dizer que o correto é atacar ideias, e não pessoas. Confesso, porém, que é um trabalho árduo distinguir uma coisa da outra. Porque quase sempre acabam se misturando. Alguns daqueles sectários simplesmente são o que pregam, vivem para aquilo, e todos os seus gestos e ações são voltados para a doutrina. Eu sou ateu, esquerdista e vegetariano, mas também muitas outras coisas; não me parece ser o caso de vários deles, mas tudo bem. Eles lutam pelo que acreditam; eu igualmente o faço. E no que acredito? Acredito num mundo mais justo. Num mundo melhor, sem tanta violência, sem preconceitos explícitos e exacerbados; em suma, um mundo em que impere a empatia e o respeito. Não é utopia. É possível. Mas não é nada fácil de ser implantado.

Enquanto houver seitas, não teremos paz: teremos conflitos religiosos, xenofobia, homofobia, racismo e outros males. Esperar pelo fim das religiões, é, bem, uma quimera. Agora, lutar para que o conservadorismo seja amainado, para que as pessoas desenvolvam maior (auto)crítica e passem a (se) questionar… bem, essa é uma causa que considero fundamental, e acho que vale cada gota de suor empregado. Minha luta não é contra os religiosos, mas contra o sectarismo que tomou conta das religiões. O evangelho apócrifo de Tomé diz que o reino de deus está dentro das pessoas, e não em construções. Me daria por satisfeito se esse pensamento tivesse maior aceitação. Não vou descansar enquanto não levar um pouco de questionamento ao maior número de pessoas possível. Não é apenas um desejo pessoal, mas um dever de alguém com consciência social e que se importa com a coletividade, sem olhar apenas para o próprio umbigo. Pense nisso.

Anúncios

Por que tenho horror a religiões?

sexta-feira, 5 novembro, 2010

Posto aqui, com uma ou outra modifição, a resposta a uma pergunta que fizeram no meu profile do Formspring. Depois de uma pequena conversa com meu amigo Pedro, resolvi trocar o título do post, visto que discorro mais sobre religiões do que a descrença em si. A pergunta original no site era: por que sou ateu?

Vamos lá. Curiosa, essa pergunta, por que foi a mesma que uma testemunha de Jeová fez ao me parar na rua esses dias. Respondi a ele: porque parei pra pensar um pouco. Sou batizado no catolicismo e, durante boa parte da minha vida, acreditei num deus. Mas o que eu tinha não era fé: era medo. Medo, culpa. Dois dos pilares do cristianismo. Aos poucos fui me desligando; não sei bem como aconteceu, mas lá pelos meados de 2004 eu já não me considerava católico, e me assumi ateu em 2005.

Sou, antes de tudo, antirreligioso. Me posiciono contra qualquer tipo de religião, mas principalmente contra o cristianismo, islamismo e judaísmo, que são as mais influentes, e, claro, os maiores poços de fundamentalismo, hipocrisia e retrocesso que se poderia ter. Sou de natureza (auto)questionadora, e para algumas coisas simplesmente não tenho resposta – nesse caso, aliás, ninguém tem. Mas me recuso a acreditar que uma criatura divina esteja a olhar por nós, regendo nossas vidas, pronta a nos punir e mandar para o inferno ao menor pecadilho; refuto até mesmo aquelas teorias de que uma energia, algo superior, não necessariamente um deus, nos criou. De onde viemos? Boa pergunta. Provavelmente nunca será respondida. Só não acredito ter sido do barro ou pela simples vontade de um deus.

Acho que as religiões já tiveram seu papel no mundo, como sempre digo, pro bem ou pro mal. Não vejo mais sentido em buscar amparo numa fé mística quando se pode buscar forças dentro de si mesmo. Algumas pessoas têm fé, mas não ficam paradas, esperando a graça divina: vão lá e fazem, vivem, fracassam, vencem. Não creio que seja a grande maioria, infelizmente.

Outro ponto a se colocar é a indústria da fé. A quantidade de pastores evangélicos, só pra dar um exemplo, que se aproveitam da inocência de seus seguidores é abismal, grotesca e revoltante. Não consta num daqueles evangelhos apócrifos que o reino de deus está em nós, e não dentro de construções? Não consigo conjeturar um modo de acabar com essa exploração, visto que o fundamentalismo nesse pessoal é tão arraigado, que fica difícil, muitas vezes, manter uma simples conversa mais racional. Ouse tentar um diálogo com um cristão fanático, pra ver o que acontece.

Antes, eu procurava respeitar as religiões, dentro dos meus limites. Até que comecei a fazer algumas leituras – e sempre estou procurando saber mais, ter mais base – e percebi que religião não é algo biológico, que vem conosco desde o berço, mas sim uma ideia, e ideias foram feitas para se colocar em debate, criticar, discutir, e não para simplesmente “serem respeitadas”. Desculpe, mas não consigo respeitar instituições que pregam a proibição do aborto, a demonização da homossexualidade, a proibição das pesquisas com células-tronco, assuntos que, aliás, não são da esfera religiosa. Como disse um senador da Argentina, direitos fundamentais não se plebiscitam, como gostaria a execrável Marina Silva, mas se garantem. Não deveríamos deixar o Direito se pautar por dogmas, como lamentavelmente acontece no Brasil e na maior parte do mundo.

O lobby religioso – de cunho majoritariamente cristão – é forte por aqui , mas também se manifesta de forma brutal, por exemplo, nos EUA, com os judeus sionistas e cristãos protestantes interferindo a torto e a direito na política e moldando o país ao seu bel-prazer. Triste que se misture política com religião. São áreas que deveriam ser imiscíveis, mas que muitas pessoas já não conseguem mais ver isoladamente. Sou absolutamente contra partidos políticos ligados a alguma religião, e o que se viu nessas últimas eleições – um candidato disfarçadamente ateu sendo falso e utilizando a máquina religiosa para tentar, de modo golpista, ganhar o pleito, espalhando boatos, mentiras e calúnias – me faz defender ainda mais o reforço do Estado laico, cujo princípio não está presente na Constituição Federal como deveria, de modo explícito.

Enfim, escrevi uma bíblia, mas não disse tudo que gostaria. Nem sei se teria como me expressar melhor. Alguns podem me ter como tão fundamentalista quanto os religiosos que critico, mas acontece que não saio por aí fuzilando-os, e manifesto minhas opiniões quando solicitado ou quando é oportuno, procurando não atingir os indivíduos pessoalmente, mas sim atacando suas ideias. Os ateus passaram séculos oprimidos, sem o direito de declarar sua descrença, e acho que agora é a hora de se questionar o papel das religiões na sociedade e, se não for possível extingui-las (o que seria sonhar demais, creio), ao menos colocá-las em seus devidos lugares: no campo teórico, bem longe da prática.