Instruções para caçar fantasmas e a si mesmo

sexta-feira, 2 setembro, 2011

Começo perscrutando o ambiente em volta. A casa é velha e decrépita, o que é bom, pois geralmente as desse tipo estão repletas dos meus alvos. Devo ter em mente que fantasmas são inimigos perspicazes e difíceis de detectar. Preciso ampliar meus sentidos, aguçar minha percepção. É necessário querer eliminá-los, e não apenas varrê-los para longe com um exorcismo frugal.

Verifico meu armamento, algo essencial. Tudo à mão? Ótimo. Vigilância constante, não posso esquecer. Alguém pode me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Eu posso me apunhalar pelas costas a qualquer momento. Tomo cuidado para não me tornar mais precioso que os fantasmas. Eles estão acima. Circulo pela casa; observo cada detalhe. Sinto o cheiro forte do mofo, o cheiro tão familiar de baús lacrados a sete chaves. Tomo cuidado com os fantasmas, pois eles me espreitam. Analiso os móveis, procuro pelos sinais certos nos lugares não tão certos. Por deus, não posso me tornar como os fantasmas. Eles são execráveis. A sala está vazia; não sinto nada. Bom, muito bom. Mas eles estão aqui. Continuo andando. E tomo cuidado para não me deixar consumir pelos fantasmas. Eles são maus. São perigosos. Eles me causam vergonha. Asco. Medo. Devo tomar cuidado com os fantasmas. Cuidado. Cuidado. Ah, deus, cuidado. Eles vão me machucar. Eu vou me machucar. Preciso me armar. Eu… não! Aí vem um!

[…]

Eu sinto o escuro. Aqui, agora. Lá dentro, lá fora. Não importa: tudo é vazio. Quero deixar a corrente vazar de fora para dentro, fora de mim, não importa: eu transgrido, mas a mim não foi conferido o direito de discernir. Contudo, compreendo esses golpes que dilaceram minha carne, essa torrente escarlate que flui para fora de mim. Fora, dentro, não importa: o mal que vem de fora macula o que há por dentro, e a recíproca é verdadeira. E eu não consegui afastar essas sombras de mim. Acho que elas acabarão me devorando. Se eu não me devorar primeiro.

A mim foi conferido o direito de me resignar e me curvar, ser levado pela matilha de falsas ovelhas em direção ao sacrifício final. Tudo nos eixos, tudo como deve ser. A coluna de Atlas alimentada pelo fluxo irrefreável do passado. As memórias desprezíveis e sufocantes. A horda dos fantasmas e a falange maldita. A conspiração armada por e contra mim chega ao ápice. Um último momento de glória antes da fogueira. Os prazeres da dor. Pronto. Deixe-me ser sua voz. Faça-me gritar até romper as cordas vocais. Até que não reste nenhuma gota de sangue nesse corpo fatigado pelo horror e pela miséria. Que só um resquício da essência se mantenha incólume. Para ser usado. Sim, a bengala, um descartável, mas útil objeto. Use-me como melhor desejar. A caçada acabou. Eu, de caçador, passo a ser caça. Há diferença entre eles?


A fabulosa hecatombe existencial

quarta-feira, 31 agosto, 2011

“In that final look, does the deer forgive the wolf?”

Otep – Head of Medusa

A corda se rompeu. O laço que nos unia era frágil e previsivelmente esmoreceu; o tempo desgasta tudo, não? Tudo, exceto o ódio que nos avilta, essa centelha fraternal que ainda nos une. Nós, os pretensos intocáveis. Nós, os protótipos frustrados de um martírio sem fundamento; almejávamos ser a palmatória do mundo e colhemos um fruto amargo chamado decepção. Decepção mata, mas a morte nos é íntima; seu perfume podemos distinguir à distância e seu sabor mora em nossas línguas. Línguas bífidas, venenosas – a cobra em mim pronta para te abater e então ser devorada pelos resquícios do que sobrou de ti.

A bem da verdade, não sobrou muita coisa. Talvez um vazio inconstante, incôngruo e amotinador: preenche-me! dá-me um alento, nem que seja um fiapo de luz! Preciso de luz para mascarar a verdade, ocultar a sombra e a incerteza; ou seria para expor? Me expor. Nos expusemos demais. E a corda acabou se rompendo. Ou seria mais oportuno dizer “foi rompida”? Tua lâmina é cega, mas meu âmago é porcelana negra, fácil de romper. Rompemos a corda, o laço e as sensações que de tão ah, meu amor, te quero pra sempre, acabaram se encaixando na definição do nosso caminho: efêmero. Porque tudo é efêmero, só depende do ponto de vista. E meus olhos estão nublados de cegueira.

A dissonância nos afastou. E me afastou. De ti, de mim mesmo, do mundo. A total dissonância entre ser, sentir e (fingir) viver lançou manchas negras no lindo quadro da existência. Conta-me sobre tua existência, teus sonhos e delírios, que aqui, do alto do meu trono de éter, tenho condições de julgar, troçar e destroçar teus relatos de um nível muito superior ao qual estávamos atrelados anteriormente. Níveis desiguais, desejos desiguais, seres desiguais. Somos desiguais. Todos caminhando numa direção. O penhasco ao fim da fabulosa trilha existencial leva até aqui. Cá estou, com meu cetro e coroa invisíveis, pronto a bramir ordens que só serão ouvidas por mim e meu exército de fantasmas rancorosos. Te ordeno: ajoelha, sacia meu desejo. Qual o teu desejo, meu senhor? Tu. Mas senhor, estás falando contigo mesmo. Teu desejo é…

Redesenhar o quadro. Livrá-lo de toda e qualquer mácula. Mas caminhos imaculados são ilusões. As manchas insistem em nos perseguir, cada passo deixando um rastro maior que o outro. Um rastro denso, cheio de raiva, ira e ambição. Diz-me o que tu almejas e te darei. Mas, por favor, não pede que eu me entregue. Já fui consumido pelas agruras desse percalço agre. De mim, só posso doar uma flama tênue e singela. A ti. A mim mesmo. Que o fogo das portas que incendiarei ilumine meu caminho.