Afótico

sábado, 3 setembro, 2011

“He venido encendida al desierto pa’ quemar

Porque el alma prende fuego cuando deja de amar”

Lhasa de Sela – El Desierto

Era como pairar. Uma suavidade enganosa que, de tão intensa, se fez dolorosa. As delícias e perigos da abnegação. Abdico às correntes e cruzo o limiar, mas permaneço sobre ele. Isso é pairar: estagnação. É a falácia do movimento suave, que leva a uma viagem sem rumo, sem fim. Eu parto, mas permaneço aqui. Distante de tudo, inclusive de mim.

Alguém certa vez me disse que a distância mata. Pois eu digo que a distância nos salvará. Salve-se quem puder, mas, por favor, não nos esqueçamos de despojar e, então, aniquilar as sobras. Até não restarem vestígios do indizível.

Anseio por dizer o indizível. Expressar a vibração primitiva sem que as marionetes de cristal se estilhacem em mil pedaços. Mil pedaços para mil anjos caídos, sedentos por mais. Mais jeitos de aprimorar o engano, de tentar juntar os cacos para reparar o que foi danificado. Quero reparar o irreparável. Isso é dizer o indizível: tornar impossível o possível – e não é possível partir.

Vem estagnar comigo. Percorrer as distâncias inalcançáveis, sonhar com o que não se pode ter, ousar lutar pelo que jamais seremos. Algo inominável nos impele ao impossível: mesmo conhecendo o fim da estrada, não deixamos de insistir, persistir em querer. Querer poder mais. As delícias e perigos da frustração.

Vem quebrar comigo, feito aquelas mil marionetes, frágeis e surrados brinquedos espalhados pelo playground da vida. Como duas crianças, vamos brincar. O passatempo pueril logo se transformará num jogo feroz de morte ou uma morte pior ainda. A vida não deveria ser um jogo – há jeito de torná-la mais do que um mero teatro da morte?

Vem pairar comigo. Nós dois, mergulhados no mar da solidão. Nada é mais doce do que a distância intangível. Solidão a dois é mais poética. Teu cheiro é pura poesia, e eu preciso de versos para respirar.

Vem não apenas mergulhar: afoga-te, entrega-te, abjura-te. Afunda em mim e descobre a pérola que se esconde por trás da tua pálida carne. Eu sou a ostra: atira-te, concede-te o luxo de ser engolida e sufocada, e eu te moldarei ao meu, ao nosso prazer. Porque perder-se é aprazível. Perde-te em mim, num lento e aconchegante golpe de misericórdia. Larga a coroa de espinhos e dá-me tua mão: eu sou a verdade, o caminho, a mentira e a contradição.

Mas não me contradigo ao afirmar que, sim, a suavidade causa dor. A dor mais intensa que se pode provar. Indelével, inexorável, irrepreensível. A cortina do suave logo se rasga e revela a aspereza, pronta para nos retalhar em mil pedaços. Aqueles mil pedaços para mil anjos caídos, lembra? Mil anjos escondidos no espelho. O espelho reflete teu rosto, gravura lapidada na pedra do paraíso: selvagem, ofuscante e irredutível. Ao teu redor, imagens de uma vida que não existiu. Era doce. Era suave. Era plena. Era como pairar.

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Ilusões, ou sobre pairar entre nada e coisa alguma

segunda-feira, 7 março, 2011

No temáis, no, de que os falte
compañía en las desdichas;
pues en duda semejante
de vivir o de morir,
no sé cuáles son más grandes.

Calderón de La Barca – La vida es sueño

A última vez em que nos encontramos foi na borda. Você a cruzou, mas eu permaneci aqui. Aqui estou e aqui ficarei. Não por comodidade, mas porque é preciso. Devoir. Se avanço mais um centímetro, eu a cruzo também. E aí estaremos juntos novamente, eu e você, meu frio e seu cheiro. Já te falei que seu cheiro me deixa louco. É suave, delicado, mas ao mesmo tempo intenso, quase obsceno. Vulgarmente corrosivo, uma incógnita que não é incógnita, porque já a decifrei; seu cheiro me lembra da perda – você sabe, estou perdido. Sabe?

Sabe. Sabe como me enlouquecer. Mas quem cruzou a borda foi você, e não eu. Eu estou aqui e aqui ficarei. Você conhece cada particularidade minha. Você e eu somos uma única idiossincrasia; ilusão, delírio, foi-e-não-volta-mais. Éramos. Você cruzou a borda. Repetir isso me deixa menos inseguro; mas crer que encontrarei segurança nos sonhos é ingenuidade. Você faz parte do meu sonho. E sonhos são apenas sonhos.

Meu ser é eivado de toda a sorte de vícios. Sou praticamente uma teia retalhada de emoções efêmeras, vis e egoístas. Mas o egoísmo lhe é peculiar, também, nessa vereda não estou sozinho. Porque você cruzou a borda, quantas vezes precisarei repetir? E repetir pra quê? Pra quem? Você não pode me ouvir. Você cruzou a borda.

Você é uma ilusão.

A mais preciosa, cálida e incrível ilusão.

Mas ilusões são só ilusões. Não?

Talvez. Não creio que haja maior ilusão do que a vida. A doce vida. Sinta a vida, respire a vida, almeje a vida, mantenha a vida, a doce vida. E tudo que vem com ela. E não é muito. Mas aí talvez seja idiossincrasia minha. Você sabe que sou dado a elas. Meu mundo particular, minha visão fragmentada, distorcida, mas bela, absurdamente bela. No seu mundo, só existe você. No meu mundo, só existe você. E aqui estou, aqui ficarei.

Nesse mundo, sou soberano e esplêndido, e meus súditos são feitos de ossos e pó e algo mais que não consigo captar. Quero entrar no seu mundo. E quando nele eu for rei, vou ostentar aquelas cicatrizes belíssimas que a vida inteira você desprezou. Você sempre gostou do desprezo, e eu gosto de ser desprezado: bate mais, por favor.

Não.

Você não pode. Você cruzou a borda. Maldita borda. Eu a quero, mas não posso tê-la. Quero você, quero a borda; são a mesma coisa? Quero, mas não posso. Aquele caminho a mim é proibido. Você sabe. Digo, sabia, porque agora tudo é irrelevante e incógnito. Perdi a capacidade de te decifrar. Você me devorou antes. Não que eu não goste, mas podia ao menos me dar a chance de respirar. Respirar a vida, a doce vida.

Quero a minha armadura de volta. Sim, eu sei, o peso estava me sobrepujando; você bem disse uma vez que sou apenas uma criança posando de guerreira. Dona da verdade, você. É. Foi. Será. Quando eu for rei, no seu vasto e feérico mundo, ninguém cairá em desgraça. Só haverá você e eu. E eu serei soberano, e você será eu, e então não haverá mais a borda. Não mais importará.

Você me estende a mão. Quer me arrastar. A tentação é enorme, e isso me destrói por dentro. Mas aí eu lembro que você é uma ilusão. E que ilusões são só ilusões, e sonhos são apenas sonhos, e que não há nada pior do que pairar entre a vida e a morte. Mas eu serei seu companheiro até pra isso. Vamos pairar juntos, flutuar em meio ao nada e a toda a insignificância que nos permeia. Quero ser você, me fundir a tudo que você representa, abdicar da consciência. Porque certas coisas é melhor esquecer. Abstraia. Me deixe abstrair a mim mesmo. É difícil, mas o percalço até aqui também foi. Quero lograr êxito. O seu êxito. Por você; o “eu” não importa.

No seu mundo, só existe você. Ponho meus pés fora da linha. Estou chegando. Estou indo em direção a você. Me espera? Ah. Esqueci. Somos ilusões. E… você sabe. O caminho das ilusões é abstrato. Não temos concreção. Não é possível ter. Fecho os olhos e me resigno a esquecer. Me esqueço. No meu mundo, só existe você. E essa é a maior e mais perversa das ilusões.