Sobre homofobia, discriminação e aquela velha e obscura ignorância

domingo, 23 janeiro, 2011

Um amigo me perguntou algo no FormSpring que me fez parar e refletir um pouco. Transcrevo a resposta aqui, com alguns acréscimos.

A questão dos direitos dos homossexuais é ainda polêmica, infelizmente. Não deveria ser. Porque não era nem para estar sendo discutida; direitos fundamentais não se plebiscitam, se GARANTEM. A homofobia é provavelmente a forma de discriminação mais difundida e aceita entre os brasileiros. Questão de cultura? Eu diria de FALTA de cultura. Porque os homofóbicos têm uma absoluta carência de, entre outras coisas, respeito; ao seu léxico faltou ser inclusa a palavra “dignidade” – atacam a dignidade alheia como cães ferozes, sem querer ofender os cães.

O que leva uma pessoa a discriminar alguém que gosta do mesmo sexo? O que faz com que alguns se excedam ainda mais e agridam fisicamente aqueles ditos “diferentes”? Qual é mesmo a grande diferença entre um heterossexual e um homossexual? Me intriga o fato de que, em geral, uma pessoa vazia e mau caráter e hétero tem mais aceitação do que um sujeito que é trabalhador e brilhante, mas gosta de beijar outros homens; do que uma mulher que é séria e responsável, mas sente atração por outras mulheres; do que uma pessoa que é boa e amigável, mas manda às favas os rótulos e ama… pessoas.

Seria medo, talvez? As pessoas às vezes receiam ver nos outros aquilo que elas mesmas são. As pessoas têm medo do desconhecido, mesmo que esse desconhecido lhes seja estranhamente familiar. Resta discriminar, não é mesmo? Agredir, verbal, fisicamente. Porque isso supre o vazio lá dentro. Porque isso atenua a dor; mas não a afasta, de modo algum. A dor está sempre presente. E o medo. Ah, palavrinha complicada, essa, hein? Porque é preciso muita coragem pra assumir verdades para nós mesmos. E coragem é justo o que falta aos homofóbicos. Quem ousa dizer que é corajoso um indivíduo que agride gratuitamente o outro com uma lâmpada, pelo simples fato desse outro ser homossexual? A verdade dói, não concordam?

Uma pergunta surge: qual o principal combustível desse sistema de ódio e intolerância, a chama que alimenta a discriminação? Nossa sociedade ainda é, de forma lamentável, pautada por dogmas religiosos e moralismos arcaicos. Há uma confusão inaceitável entre Estado e religião; no caso do Brasil, temos uma grande influência cristã – antes majoritariamente católica, mas, com a ascensão das igrejas protestantes, esse cenário agora mudou. Mas a discriminação e a ignorância continuam as mesmas, e, infelizmente, essas religiões ajudam a disseminá-las.

É difícil para boa parte das pessoas aceitar que gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são cidadãos como quaisquer outros; que têm – ou DEVERIAM ter – os mesmos direitos que os demais; que são gente com sentimentos, dúvidas, emoções; em suma, que são SERES HUMANOS, e como tais devem ser respeitados.

A bancada cristã no Congresso se empenha em tentar sabotar os projetos pró-LGBT. Me disseram que o tal do Cristo pregava algo como “amai a todos”; quer dizer então que esse “todos” é seletivo? Que direito tem essa gente de dizer o que é certo e errado? Que poder é esse que lhesatribuem de isolar e perseguir quem não os agrada? Acho que a maioria dos cristãos – digo “maioria” porque conheço vários ponderados -, em vez de combater homossexuais, deveria, sei lá, arrecadar donativos para as vítimas do RJ, envolver-se em projetos de apoio a crianças necessitadas, ou simplesmente cuidar da sua vida. Porque, para ser curto e grosso, ninguém vai obrigá-los a dar o rabo, então por que patrulhar o corpo alheio?

Se deus existisse, por certo não discriminaria nenhum de seus filhos. Então por que vários deles insistem em seguir na contramão daquilo que eles próprios pregam? Ah, sim, esqueci: o “amai uns aos outros”, o “amai a todos”, é seletivo. É amar e respeitar só quem interessa.

Quando as pessoas aprenderem a reter seus preconceitos para si e demonstrarem um mínimo de respeito para com os outros, teremos uma sociedade melhor. Até lá, receio que os homofóbicos terão que engolir a união estável homossexual que vem aí via STF, e também, se tudo der certo, a lei que criminaliza a homofobia.


Uma breve reflexão sobre o bairrismo

quarta-feira, 2 dezembro, 2009

É. Mais um longo tempo sem posts… estou em época de provas, em que o ritmo de leitura e escrita se torna, é claro, bem menor. Aliás, falando em escrita, há uns dias consegui romper um bloqueio de meses, ao escrever os primeiros parágrafos de um conto. O tema? Uma crítica sutil àquilo que chamam de “o sul é o meu país”; tudo regado com muita fantasia – o resultado está ficando interessante.

Aproveitando a deixa, apresento agora uma reflexão que foi publicada em meu antigo blog há uns meses, agora numa versão um pouco diferente.

Lá por junho deste ano, um comentário feito por mim em classe após uma das apresentações de um trabalho de Sociologia incendiou a minha turma da faculdade, que me pareceu massivamente contra a manifestação da minha opinião e o conteúdo da mesma. O resultado foi mais ou menos previsível: a tal “discussão” não levou a nada.

Eu não sou qualquer tapado, qualquer idiota alienado (como uma considerável porcentagem dentro da minha sala e da PUCRS como um todo), e afirmo que, pra discutir comigo, tem que ter argumento, sustentação e embasamento. E, sim, pode chamar de arrogância. Se arrogância é não gostar de discutir com gente que não tem as características citadas, então eu sou arrogante. Mas, parando para pensar agora, aquele definitivamente NÃO É um ambiente para esse tipo de discussão. Talvez, também, eu tenha me exaltado um pouco, ou me expressado de maneira errada. Mas a perspectiva da discriminação aberta e do bairrismo me deixam claramente nervoso.

O tema do trabalho era para ser os localismos – a preservação das culturas regionais, o amor à sua querência, o orgulho de seu estado. Só que o enfoque – aliás, enfoque coisa alguma: a totalidade – do trabalho versou sobre o nosso estado, o Rio Grande do Sul. Até aí, nenhum problema. O trabalho, em si, foi bem feito e bem apresentado – não é esta a queixa. Esta incide sobre o fato de uma boa parte dos gaúchos confundir o amor pela terra onde nasceu com uma idéia infundada, infantil e grotesca, que é a do bairrismo.

Pensamentos como “o sul é o meu país”, “os gaúchos são os melhores” e “movimento separatista já” soam inocentes apenas para aqueles que têm vendas sobre os olhos. Para mim, isso é um instrumento de segregação. Instrumento de ódio. De discriminação sem alicerce nenhum, que não seja o da pura e simples defesa de um conceito ultrapassado de que o povo daqui é superior, “somente por ser superior”. Sim, isso mesmo. Listinhas de justificativa de como nossas mulheres são belas, os times são bons, o clima é superior e outras bobagens não são argumentos válidos; ao menos, não para mim. Um orgulho sadio da sua terra não propicia nenhum problema; agora, a bandeira de intolerância levantada por boa parte do povo gaúcho é perniciosa a todos. A quem pratica a agressão – que não percebe a mediocridade daquilo que defende – e, principalmente, aos afetados de forma direta pelo preconceito exposto. A seguir, quero fazer duas observações importantes.

Primeira: preconceito é algo inerente ao ser humano – todos têm preconceito contra alguma coisa. Pode ser contra negros, contra judeus, contra árabes ou mesmo contra gordos, contra “nerds”. Sim, esses dois últimos são preconceitos também, sabia? A diferença se encontra na forma como ele é manipulado: se tu não gostas de algo ou alguém e procura te afastar destes, mantendo o preconceito para ti mesmo, é algo absolutamente normal. Agora, urrar como um animal irracional para todo o mundo ouvir e se inteirar do seu preconceito é, no mínimo, questionável. Muitos não chegam a ser tão radicais – com idéias de separatismo, por exemplo -, mas, aos olhos dos demais, o efeito é quase sempre o mesmo do que o daqueles que acham belo espalhar a segregação.

Última: não estou negando que o pessoal dos outros estados não tenha sentimentos semelhantes aos dos gaúchos – tanto os positivos quanto os negativos -, porque seria muita insensatez minha. A questão é: quem alimenta os comentários e o preconceito que os gaúchos muitas vezes sofrem fora do RS? Me parece meio óbvio. São esses fanáticos… e os não-fanáticos também, pois, ao serem coniventes com as idéias – como eu já disse, aparentemente inocentes – da superioridade gaúcha, estão mostrando aos demais brasileiros que estes são inferiores, que estes não tem uma cultura “tão vasta e rica”, que não tem belezas naturais, mulheres belas, times campeões do mundo… e a coisa acaba generalizada: mesmo um gaúcho que discorda totalmente desses “ideais” – como eu, por exemplo – poderia sofrer preconceito fora do estado. Já estão alastrados no sangue essa desconfiança, essa intolerância, esse ódio, que decorre de ambas as partes – gaúchos e demais brasileiros.

Bem, acho que acabei me estendendo demais. Eu poderia falar sobre mais aspectos – o fato de eu achar que o “mito do gaúcho” é forjado, por exemplo – e prolongar o assunto por incontáveis posts, mas não vou fazer isso. Pelo menos, não agora. Meu desabafo, por assim dizer, está feito, e acho que dá suporte a algumas reflexões.

Até a próxima!