Impressões dúbias

segunda-feira, 22 março, 2010

Em uma de suas inúmeras viagens pelo mundo, Eileen Lockwood conheceu um jovem encantador. Felipe era elegante, divertido, inteligente, culto e bonito. Esses adjetivos bastaram para que a quarentona se derretesse toda e adiasse sua volta à Irlanda. Buenos Aires ainda tinha muito a oferecer, e o clima frio só a fazia desejar estar mais perto do novo amante.

O rapaz fizera questão de mostrar-lhe os principais pontos turísticos da cidade, além de levá-la a restaurantes finos e casas de espetáculos caríssimas, tudo com seu próprio dinheiro. Obviamente, Eileen não precisava que pagassem a conta por ela, mas Felipe era insistente. Não se esperaria mais nada de um gentleman como ele.

Fazia quase três semanas que estava longe de seu lar, mas ela fazia de tudo para ficar mais tempo. Se existia um paraíso, era ali, com aquele homem sedutor e envolvente, por quem ia, aos poucos, se apaixonando.

Uma noite, após assistirem a uma brilhante representação de O fantasma da ópera, Felipe sugeriu que dessem um passeio pelas ruas da cidade em seu luxuoso e espaçoso carro.

– Não temos nada a perder, ou temos? – riu a mulher, concordando com a idéia. – Vamos lá!

Conversaram animadamente por mais meia hora. Eileen não sentiu o tempo passar, e muito menos prestou atenção à paisagem ao redor. Só reparou em algo diferente quando Felipe começou a frear lentamente o veículo. Pareciam estar fora dos limites de Buenos Aires, numa rodovia onde não havia sequer um sinal de veículos circulando.

– Que lugar é este, querido?

Ele apenas encarou-a com um sorriso lascivo. Em seguida, disse:

– Me acompanhe, que depois eu te explico.

A intuição de Eileen dizia que algo estava errado. Mesmo assim, não recuou diante do pedido, abrindo a porta do carro e acompanhando Felipe. Iam em direção a um galpão de madeira. Quando se aproximaram, ela perguntou:

– O que tem ali dentro?

– Ora, meu anjo, pense um pouco… você nunca quis fazer amor num lugar incomum?

Sua desconfiança aumentou. O que pretenderia ele? Aquela desculpa não colava, mas ela não tinha como saber o que o jovem desejava… a não ser perguntando.

– Felipe, o que está havendo, hein? O que você quer me trazendo aqui?

Ele sorriu novamente e puxou suavemente a mão da mulher para perto dele. Não a estava machucando, mas havia no toque dele algo estranho…

Entraram no galpão. O ambiente era tosco e abafado, e fedia a mofo. Felipe pressionou ainda mais sua mão, até chegarem a um monte de palha. Então, ele tirou com delicadeza o casaco de pele que dera a Eileen na noite anterior. Entre um beijo e outro, tentou despir-lhe do resto das roupas, mas ela resistiu.

– Olha… será que você não pode escolher outro lugar? Não me sinto nem um pouco à vontade aqui.

O rapaz riu.

– Que decepção, Eileen! Esta é uma das minhas maiores fantasias, e nunca tive a oportunidade de realizá-la…

– Querido, por favor…

– Tá, chega de lero-lero! Vamos foder AGORA!

Eileen se afastou antes que ele pudesse agarrá-la. Olhou com assombro para o jovem, até então gentil e sereno, que explodiu numa gargalhada. Agora ela tinha a confirmação de que algo estava errado.

– Confesso que foi difícil – disse ele. – Cansativo demais. Vim tentando, durante todos estes dias, que você abrisse seu coração e suas emoções a mim… mas só agora a coisa está dando resultado. Você não ama tanto quanto sente medo, sabia?

Aos poucos, ela foi tendo uma vaga idéia do que estava acontecendo.

– Você reage com muita temperança às situações da vida. Começou a sair comigo, interessou-se muito, mas, mesmo assim, até agora não estava nas condições propícias… até agora, não estava em condições de sentir tantas emoções. Tanta raiva, tanto medo. E eu adoro isso. Amo, aliás!

Ele parecia saber do que estava falando. Porque é verdade, pensou Eileen. Estava morrendo de medo do que poderia acontecer consigo, e não tentava pensar no melhor jeito de sair daquela enrascada. Como pôde ser tão estúpida ao ponto de se entregar daquele jeito a um completo desconhecido? Indignou-se: se tivesse sentido mais um pouco de emoção durante aqueles dias, ela poderia ter perdido a vida. Ou, melhor, a alma.

– O que está esperando para mostrar seus poderes, parasita nojento? – vociferou ela, em pânico.

Os músculos de Felipe enrijeceram de súbito, suas pupilas desaparecendo. A íris desapareceu, misturando-se ao branco da esclerótica. Eileen jogou-se para trás, bem no momento em que uma onda de energia veio em sua direção. Escapou por pouco, mas quase se machucou seriamente. Não podia pensar em sofrer ferimentos agora, nem em sentir mais medo do que já sentia.

Segundos depois, mais uma investida do agressor, e mais uma esquivada. Eileen não podia ficar naquele joguinho de fuga o tempo todo. Precisava pôr em prática o conhecimento que vinha sendo passado à sua família de geração em geração, e ao qual ela não tinha muita aptidão, por mais que se esforçasse.

Estendendo a mão, recitou um breve encanto na língua mágica, fazendo como lhe fora ensinado.

Entretanto, nada aconteceu. Felipe escarneceu-a. Eileen sentia o medo exalar de seu corpo.

– Então, você é uma feiticeira. Pena que não saiba executar feitiços direito, não é mesmo?

Não, pensou ela, ajoelhada no chão. Não deixe o medo te dominar. Você é a mestra dele, e não o contrário.

– Você foi uma boa foda, no final das contas – disse Felipe. – Mas, infelizmente, preciso me alimentar para sobreviver, e você está cheia de coisas que me apetecem demais…

O suor escorria pela cabeça de Eileen, ensopando sua blusa. Eu vou morrer. A cada segundo, mais se perdia na angústia. Tinha que dar um jeito de resistir. Domine o medo. Escravize-o, use-o ao seu favor!

No momento em que Felipe estendeu a mão para tirá-la do chão, uma aura branca começou a circundá-lo. Foi justo aí que Eileen reuniu forças para uma última tentativa. Ou destruiria aquele ser, ou morreria tentando.

As sete palavras saíram de sua boca num som estridente, forte.

Duvidava que alguém como ela pudesse valer-se de tal encantamento. Para falar a verdade, estava completamente desesperada, antevendo o fracasso, quando notou que a aura do rapaz, lentamente, começou a desaparecer.

Felipe começou a soluçar, seus olhos voltando ao normal. Grunhiu alguma coisa incompreensível e, com um grito tenebroso, desfez-se em chamas, que liberaram uma fumaça tóxica.

Tentando se desfazer do choque, Eileen se arrastou para longe, sentindo o cansaço devido ao esforço cair sobre ela. Conseguira escapar com vida de um ataque daquele ser poderosíssimo. Jamais imaginaria que o jovem com quem deitara por dias a fio seria, na verdade, um sugador-de-almas, um ser que se alimentava das emoções e, por fim, da alma humana. Era praticamente impossível que uma desastrada como ela tivesse conseguido ingressar no círculo da magia daquela maneira.

Juntando seu casaco, vestiu-o e saiu do galpão, não sem antes apanhar a chave do carro, que fora derrubada por Felipe durante o conflito. Quando contasse aquela história aos seus irmãos, provavelmente não acreditariam nela. Mas pouco importava. Duvidava que mesmo eles, magos fortes e experientes, fossem conseguir fazer o que ela fizera ali.

Deu partida no carro, conseguindo relaxar um pouco. Tinha de ir até a cidade, largar o veículo num canto qualquer e pegar um táxi até o hotel no qual estavam suas coisas. De lá, iria direto para o aeroporto. Precisava muito conhecer melhor os mistérios de magia, e sentia que não teria tantas dificuldades agora.