[Resenha] Eclipse ao pôr do sol

segunda-feira, 4 outubro, 2010

Mais um ótimo lançamento da Draco

Em meio ao mar de obras rasas, mal escritas, sem revisão e de critérios editoriais duvidosos que inunda a praia do fandom brasileiro de literatura fantástica, é difícil encontrar uma digna de nota, que esteja realmente acima da média. Difícil, mas não impossível, como prova este Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos, do jornalista e editor da CartaCapital Antonio Luiz M. C. Costa, lançado em meados de agosto pela editora Draco.

O que se vê aqui são seis contos escritos com esmero; a linguagem utilizada é um tanto requintada, muitas vezes exigindo uma consulta ao dicionário, já que procura se encaixar ao contexto da época em que cada história se passa, seja o Brasil do final do século XIX, seja a Grécia Antiga. Apesar do rigor formal, os contos se mostram mais do que cativantes. Exemplos claros disso são o primeiro conto, A Nascente da Serra, e sua continuação, O Cio da Terra. Ambos se passam em Portugal – o primeiro, na época das navegações, e o segundo, no século XXI – e apresentam a carismática ninfa Pirene, cuja formosura radiante faz com que os homens que a vejam se apaixonem perdidamente.

É nítida a rica pesquisa feita para a composição dos enredos, o que os torna bastante verossímeis. Há também certa quantidade de referências, que vão de Machado de Assis a Luís de Camões, passando por Florbela Espanca e Homero. Outro ponto de destaque é o tom irônico, quiçá ácido de alguns dos textos, vide o que dá título à coletânea, onde é narrado o roubo da Efígie de Zeus e as consequências de tal ato. Talvez seja o conto com a linguagem mais empolada, mas isso não quebra o ritmo da leitura, que se torna extremamente envolvente após o início.

O conto mais fraco é Louco por um Feitiço, que não chega a cativar, apesar de bem escrito. Talvez tenha faltado espaço para desenvolver melhor os personagens, que soam insípidos. Para compensar, temos o curto, mas eficiente Papai Noel Volta para Casa, que tem um desfecho interessante, e O Anhanga, que, a meu ver, é o grande destaque do livro. Trata de um advogado que, ao fincar laços mais profundos com uma prostituta, vê-a ser perseguida por uma entidade misteriosa. Emulando a linguagem da época – que, aliás, lembra muito Machado de Assis -, é um conto tenso, que prende a atenção até o final.

Há alguns pequenos deslizes na revisão, mas nada que comprometa a qualidade geral da obra, que está anos-luz à frente da maioria das publicações do gênero no Brasil.

Ao término da leitura, tem-se a sensação de que o dinheiro gasto valeu a pena: Eclipse ao pôr do sol é uma ótima coletânea, coesa e muito bem escrita. Fica a dica para os fãs de literatura fantástica – não aquela repleta de lugares-comuns, mas sim uma que transcende, que procura apresentar uma perspectiva nova e mais ousada.

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Oferta de risco

sábado, 24 abril, 2010

(sequência de Brilhante, devo dizer)

1

Dormir era algo que ela não fazia direito há noites. As lembranças ainda estavam frescas e cinzentas; a chama da vingança ardia cada vez mais. Depois daquela tragédia, Lorena Seravre não era mais a mesma. Obviamente, o Coven fora informado dos fatos ocorridos na caverna e prontificou-se a tomar “atitudes imediatas”. A burocracia e as restrições do grupo, contudo, começava a dar-lhe nos nervos; então, nada mais natural do que agir por conta própria.

Acontece que seus planos não estavam dando certo. Procurara, sem descanso, por pistas que levassem à origem dos poderes de Charlotte Cashmore, mas nada encontrara. Nem mesmo o sinal dos seus passos conseguira rastrear. Mas não iria dar-se por vencida. Tinha um compromisso para com as memórias de Ceres e as demais, e não iria pretendia desonrá-las.

Ser incomodada por alguma bruxa do Coven era a última coisa que desejava agora. A atitude mais lógica para que não fosse contatada foi desativar seu celular temporariamente. Lançou, também, fortes feitiços bloqueadores em torno de si, para garantir ainda mais sua comodidade. Precisava de um tempo para organizar as idéias e, então, prosseguir com sua missão.

Numa noite particularmente quente, lá pelas 20h, estava tomando café num pub de Londres, quando um homem que nunca vira na vida sentou-se à sua mesa.

– Com licença – disse ele. – Se importa se eu lhe fizer companhia?

Era baixo, forte, calvo e tinha olhos escuros, de um tom exótico. Boa aparência, aparentemente educado… Mas o que pretenderia? Lorena não estava muito disposta a ter qualquer tipo de conversa no momento; entretanto, para não ser grosseira, disse:

– Claro que não. Sente-se.

Houve um silêncio interessante por uns segundos, até que ele tomou a palavra:

– Você andou se escondendo, Srta. Seravre? Foi muito difícil seguir o seu rastro, mas vejo que acabei sucedendo.

2

Lorena espirrou café na toalha da mesa. Ficou em alerta.

– Quem é você? E como sabe o meu nome?!

– Ah, perdão, não me apresentei… Meu nome é Vincent. Vincent Cashmore.

Demorou dois segundos para reconhecer o sobrenome, seus olhos se esbugalhando em seguida. Levantou-se de súbito, chamando a atenção das pessoas em volta.

– Por favor, você não vai querer causar um escândalo aqui, ou vai?

Ela voltou à cadeira, cautelosa, pronta para se defender caso ele atacasse. Os demais clientes logo voltaram ao que faziam.

– Você é…?

– Sou irmão de Charlotte. Lamentavelmente.

– E por que veio até mim? Deduzo que seja um bruxo. Homens não são aptos à magia, de modo geral.

– Acredito que eu tenha uma informação que seja do seu interesse.

– OK, OK. Primeiro, me deixe entender uma coisa… Como você me conhece?

Ele sorriu, logo respondendo:

– Seus feitos e proezas sopram pelos ventos, minha cara. Especialmente o último…

– Último?

– Lorena, por favor. Todos estão curiosos para saber como você sobreviveu ao encontro com Charlotte, mas eu tenho algumas suposições… e, antes que você pergunte, eu estou afastado do Coven há muito, muito tempo… desde que Charlotte começou a criar confusões pelo mundo.

– Por que fez isso?

– Para proteger minha família das conseqüências do que aquela idiota iria fazer, o que foi inútil. Meus pais, que não eram bruxos, acabaram por falecer algum tempo depois, devido a uma doença misteriosa. Pelo menos é o que os médicos disseram.

– Como assim?

– Vou lhe explicar e aproveitar para emendar esta história ao motivo que me trouxe até aqui. O nome Kazhim lhe é familiar?

Evidentemente. Para uma bruxa com mais de vinte anos de experiência como ela, seria impossível jamais ter ouvido falar no poderoso demônio que perambulava pela Terra há pelo menos trezentos anos.

– Sim. O que tem ele?

– Então? Você não queria saber a origem dos poderes de Charlotte?

Lorena gelou.

– Charlotte…

– … fez um pacto arcano com Kazhim. Em troca de algo, deu a ela poderes estupendos, que nem em cinqüenta anos ela teria condições de obter e, principalmente, administrar. Tanto poder acabou comprometendo parte da sua sanidade, como você deve saber.

– E o preço destes poderes foi…

– … a alma de meus pais, pelo que eu constatei depois.

– Sinto muito.

– Tudo bem. – Ele fez uma longa pausa, para, depois, continuar: – Lorena, eu estou ficando cada vez mais debilitado. O pacto com Kazhim incluiu um “preço adicional”: grande parte dos meus poderes, adquiridos com anos de esforço e estudo. Para conseguir chegar a você, demorei mais de uma semana e quase morri devido à quantidade de energia que o feitiço exigiu. Charlotte precisa ser detida, antes que mais tragédias aconteçam.

– Mas combater poderes vindos de demônios é quase impossível! Eu mesma não sei por que Charlotte não lutou comigo na caverna, optando por fugir diante do meu feitiço!

Quase impossível. Mas há um jeito.

– Qual?

Ele suspirou antes de falar. Demorou um tempo para lhe explicar todos os detalhes, mas, ao final, uma esperança crescia no peito de Lorena.

– Você precisa fazer isso por mim – disse Vincent. – E pelos meus pais, e pelas suas amigas, e por todos os que morreram devido à cobiça de Charlotte…

Lorena sentia-se estranha. Em menos de vinte minutos, sua perspectiva de vitória contra Charlotte parecia ter aumentando consideravelmente. E o mais curioso: por meio da ajuda do próprio irmão de sua adversária.

– Sim. Eu prometo a você que ela vai ser morta.

– Ótimo. Sinto-me mais tranqüilo ao ouvi-la dizer isto. Agora, deixe-me dizer algo. Você disse que não sabia o porquê de ela não ter lutado… Pois eu sei. Medo.

– Medo? Do quê?

– O correto seria de quem. Charlotte morre de medo de você.

– Mas…

– Ela provavelmente já tinha ouvido falar de você, mas, depois do incidente na caverna, ficou atestado que não estava lidando com uma amadora, mas sim com uma bruxa poderosa e experiente, que poderia muito bem atrapalhar seus planos. Se não tivesse medo, Charlotte não fugiria e ainda desfaria os bloqueios ao redor de si para que você pudesse encontrá-la.

– Vincent, isto não faz sentido nenhum. Noelle Moreau, a grã-mestra do Coven, confrontou Charlotte há sete anos e não conseguiu destruí-la, mesmo sendo a bruxa mais poderosa que eu conheço. Por que Charlotte teria medo justamente de mim?

O homem a encarou, misterioso, por alguns segundos. A seguir, disse:

– As coisas ainda não estão muito claras. Nem eu entendo direito, mas acredito que, refletindo um pouco mais, chegarei a uma resposta.

Lorena não estava entendendo mais nada.

– Sei que deve ser confuso e estranho para você – continuou Vincent –, mas eu peço que você confie em mim, mesmo não me conhecendo. Posso lhe assegurar que minhas intenções são as melhores possíveis, e, mesmo que quisesse prejudicá-la, acho que não teria como, dado a minha debilidade crescente.

– Sua ajuda veio em bom tempo. Eu já começava a me desesperar por estar tão desnorteada, sem qualquer tipo de apoio. Agradeço pela sua disposição.

– Não há necessidade de agradecer, Lorena. Você estará fazendo um favor para si e para o mundo, acredite. O tempo é escasso. É preciso agir o quanto antes, contando com o fato de que Charlotte provavelmente sequer imagina que você está tão próxima de chegar a ela. Meu número de telefone é este.

Entregou um pequeno cartão à bruxa, que o fitou por uns segundos e, então, o guardou no bolso da calça.

– Mantenha-me informado das suas ações. Se precisar de algo que estiver ao meu alcance, farei de tudo para cooperar.

– Você já está fazendo muito. Obrigada.

– Eu é que digo obrigado. Preciso partir agora, antes que o resto de minhas forças se esvaia. Que os deuses a acompanhem.

Vincent levantou-se da mesa e caminhou até a saída. Pela janela do pub, a bruxa entreviu a silhueta diminuta do homem desaparecer repentinamente em meio à rua.

3

Três dias depois, Lorena estava a duas quadras do Museu Nacional de Praga, na República Tcheca, arfando por causa do vento gelado. Contava cada segundo no relógio, impaciente. Ela está demorando demais. Desde a conversa com Vincent, sentia-se estranha. Havia algo diferente no ar, uma espécie de desestabilização na Teia Universal de Energia. O que será que estava acontecendo?

De repente, passos atrás de si. A silhueta esguia de uma mulher vinha em sua direção, com um saco preto numa das mãos.

– Vamos sair daqui – disse Lorena.

Correram juntas até saírem de perto da Praça de Venceslau e alcançarem um beco escuro, razoavelmente longe dali. Não precisariam se incomodar com a polícia, ao menos Lorena, já que perder tempo estava fora de seus planos.

– E aí? – indagou.

– Aqui está.

Passou o saco a Lorena, que o abriu apressada. Em sua mão estava agora uma gema pequena e pesada, de cor esverdeada e formato oval. A Pedra de Soyedre. Nunca pensara que aquele objeto – que pertencera ao czar Nicolau II e estava constantemente sendo levado de museu a museu pelo mundo – pudesse vir a estar em sua posse algum dia. Roubar não era exatamente um ato correto, mas as circunstâncias exigiam. O brilho de seus olhos era perceptível. Finalmente poderia…

– Lorena – a voz da mulher a chamou à realidade.

Karen Harris a encarava com impaciência.

– Você conseguiu passar pelos seguranças sem ser vista? – indagou Lorena.

– Obviamente – respondeu a outra. – Desativei todos os alarmes, câmeras e proteções; também desacordei guardas, rompi protocolos… E não foi nem um pouco fácil. Há magia protegendo o museu, Lorena.

– Eu imaginei.

– E foi por isso que requisitou os meus serviços, não? Para que não tivesse as mãos sujas e poupasse um bocado de energia.

– Exatamente.

Lorena sorriu, o que pareceu desagradar a Karen, que disse:

– Agora, como combinamos, o pagamento…

– Você não costuma cumprir o que combina, ou costuma?

A mercenária olhou no fundo dos olhos de Lorena, parecendo ler suas intenções.

– Está esquecida de Nottingham, Karen?

O rosto da outra ficou estranhamente inflexível.

– Você sabe que eu não tive nada a ver com…

– … o golpe milionário que o Coven recebeu, pelo qual Ceres e as bruxas da Segunda Camada foram culpadas? Claro que não… que tolice a minha, supor isso. Eu não sou idiota, Karen. Você deveria se sentir grata por poder prestar esse serviço a mim em troca do… hum, perdão pela sua má-fé e mau-caratismo.

– Você não tem provas contra mim.

– Ah, na verdade, tenho, sim. Demorei muito para obtê-las, mas agora, se eu quisesse, poderia meter você numa grande enrascada.

– É mesmo? E por que não o faz?

– Porque, você sabe, eu sou uma pessoa muito razoável, comedida e… vingativa. Sei que cada coisa tem o seu tempo. Você teria de pagar pelo que fez, e estou absolutamente satisfeita com a sua… ajuda. Por ora, é claro. Bem, obrigada pela cooperação, minha velha companheira. Nos vemos por aí.

Lorena fez menção de dirigir-se à claridade da rua, tendo seu caminho imediatamente bloqueado.

– Fizemos um trato – rosnou Karen. – Quero o meu pagamento. Agora.

– Você quer tanto um pagamento, querida? OK…

A mercenária escapou a tempo da rajada de energia lançada contra ela, que abriu um rombo numa das paredes do beco. Tentou atacar de volta, mas só teve chance de escapar – e por pouco – das investidas de sua agressora. Karen era uma bruxa relativamente forte, mas os anos que Lorena acumulou como agente do Coven contribuíram para que o embate terminasse em seguida, com o corpo de Karen desacordado no chão sujo.

Satisfeita, Lorena tirou a Pedra do saco preto, segurando-a com firmeza. Faltava pouco para que alcançasse seu objetivo.

4

Em dois segundos, chegou à sua casa em Roma. Continuava sem dormir direito, mas não se sentia mais cansada. Largou a Pedra em cima do balcão da cozinha e abriu a geladeira, pegando um pouco vinho e uma massa que preparara há uns dias, mas na qual sequer tocara. Era a primeira refeição completa que se permitia ter em um tempo considerável; logo, não se importou com o gosto requentado, comendo tudo em pouco tempo. Tomou um ou dois goles do vinho e largou o cálice.

Hora da ação.

Foi até a sala de rituais, um ambiente pequeno, mas aconchegante, com um altar de pedra e alguns instrumentos exóticos espalhados por cima de uma toalha branca. Acendeu sete velas e sentou-se no chão, em posição de lótus. Inspirou profundamente, uma, duas, três vezes… Concentrou-se.

Imagens passaram por sua mente ligeiramente. Charlotte ainda mantinha o bloqueio de detecção. Vamos quebrá-lo. Mas sem que ela pudesse perceber, é claro. Assim, não teria como fugir do lugar onde estava. Mais imagens, confusas, pouco nítidas… Precisava de mais foco.

Após focalizar as palavras certas, um turbilhão levou sua mente para longe, muito longe… Que lugar era aquele? Conseguiu distinguir o rosto de sua inimiga, mas onde ela estava?

Concentre-se, Lorena.

Agora podia ver com mais precisão… Pelos deuses! Charlotte estava em um shopping de Nova York, abarrotado de gente. A sensação que vinha notando há dias intensificou-se de súbito, como se a própria Teia Universal de Energia fosse se romper e destruir a existência.

Desfez o encantamento e levantou-se, apagando as velas. Teria de ir até lá e transportar a inimiga para outro lugar, onde pudesse dar cabo dela.

Na sala de estar, o relógio-cuco indicava que passavam das 21h30. Era melhor se apressar. A questão era: como chegar até lá usando magia sem ser notada?

Pense, pense…

Ah, claro! Devia ter lembrado daquilo antes… Focalizou seus pensamentos em direção a Nova York, mais exatamente no local que as imagens revelaram e, enquanto se concentrava, sussurrou três palavras certeiras.

5

Saiu da cabine do banheiro, onde se materializara, e começou a caminhar, desviando-se das pessoas com dificuldade. E não é o que o lugar estava cheio mesmo? Mais do que ela esperava, ao menos, e isto não lhe servia de consolo. Teria que dar um jeito de achar Charlotte sem magia, pois o feitiço que invocara servira apenas para sua chegada ali.

Deu sorte: a moça exótica e magérrima estava escorada no parapeito a uns vinte metros de distância, olhando para o andar inferior. Quando ela colocou-se de frente, Lorena pôde ver aqueles olhos que tanto odiava, um muito escuro, beirando o preto, e o outro claro, parecendo uma esmeralda. O cabelo loiro queimado continuava igual, e a expressão insana, também.

Lorena apertou o passo, procurando misturar-se em meio aos caminhantes para não ser notada por seu alvo. Seria arriscado usar a Pedra ali, já que precisaria recitar um feitiço longo e complexo. A uns cinco metros de distância, viu que Charlotte voltara a olhar para baixo. É agora ou nunca.

Avançou determinada, alcançando-a segundos depois. Agarrou-a rispidamente, bem no momento em que ela se virou para ver quem a tocara. A expressão zombeteira de Charlotte ficou gravada na mente de Lorena no momento que as duas desapareceram do nada.

6

O plano saiu como esperava, mas não por completo. Sim, tirara aquela cadela do shopping, mas acabaria descobrindo que não aportariam exatamente no lugar esperado.

Caíram como pedras num chão áspero e sujo. Levantaram-se num pulo, e Lorena vasculhou a escuridão ao redor com sua visão privilegiada. Onde estavam? Paredes rochosas com algumas crateras dispersas entre si as cercavam por todos os lados, prendendo-as num enorme círculo. Um fedor terrível impregnava o ar.

Ficaram se medindo com o olhar por instantes eternos, até Charlotte desatar a rir, com aquela voz histérica e ensandecida que só ela tinha.

– Boa jogada, Lô… mas receio que terá de se esforçar muito mais, se quiser me enfrentar.

– É o que veremos. Agora, me diga uma coisa… você vem usando todos os seus recursos para me evitar… Por acaso tem medo?!

Charlotte perdeu o semblante debochado.

– Eu não tenho medo de coisa alguma.

– É mesmo?

– Quem deveria temer aqui é você, anjinho.

– Não vejo razão para isto.

Encararam-se por mais um tempo, até Lorena dizer:

– Houve um motivo pra que você abandonasse a caverna quando teve a oportunidade de me matar… Qual foi?

Não teve resposta, a não ser a contração do rosto da adversária, que corou repentinamente, exprimindo raiva e confusão.

– Você vai se arrepender por ter se metido no meu caminho – disse ela, com a voz alterada. – Eu… Não, agora não!

Lorena ficou imóvel enquanto observava a outra se contorcer subitamente, desesperada. O que estava acontecendo?

– Mais um pouco… Mais um pouco!

Ela contraiu o corpo por alguns instantes, em seguida recuperando a postura inicial. Riu mais uma vez, voltando a olhar para Lorena e falando:

– Bem, o tempo é curto e tenho mais coisas a fazer. Vamos terminar com a nossa brincadeirinha…

– Já era hora!

Ambas colocaram-se em posição de combate, invocando as mais diversas energias para que lhes servissem.

Lorena bloqueou a tempo um redemoinho de areia que veio em sua direção, transformando-o em lava pura e arremessando-o contra Charlotte. Esta impediu que o ataque a queimasse, movimentando a mão para transformar a lava numa rajada de fogo. Lorena convocou água para apagar as chamas, em seguida congelando-a e lançando-a em forma de estacas contra a inimiga, que as desfez antes que se aproximassem dela.

– Você consegue fazer melhor do que isto, Charlotte!

Havia algo de estranho naquilo. Lorena sentia o cansaço emanar do corpo da outra bruxa, como se os golpes dela não fossem suficientemente fortes.

Ao mesmo tempo, as duas dispararam descargas elétricas uma contra a outra, manipulando-as para que se atingissem seus alvos.

Reforçando a teoria de que Charlotte estava cansada, Lorena conseguiu derrubá-la, prendendo-a com o mais forte encanto que conseguiu lembrar.

Tirou a Pedra de Soyedre do bolso e estendeu a mão que a segurava. Chegara a hora.

Dalabi radagarte venuea.

O objeto iluminou-se fracamente.

– Ujverne kolechya javarn.

O brilho verde aumentou ainda mais.

Kajarbi yinor mora.

Começou a ouvir os gritos de desespero de Charlotte, que provavelmente se dera conta do que ela estava fazendo. Dane-se, ela tinha de ir até o fim.

– Rogarn malam ubinovic ekre dalai sey aniri eb…

Então, a Pedra voou de sua mão, indo parar a metros dali. Algo golpeou Lorena pelas costas e fez com que tombasse de rosto no chão. Sentiu uma ardência terrível à medida que o sangue vazava, além de uma forte tontura. Tentava pensar em feitiços de cura quando algo desviou sua atenção: Charlotte havia se livrado do feitiço que a prendia.

7

Olhou para trás. Uma criatura parecida com um leão, só que totalmente branca, a observava, rosnando. Ela me trouxe para o covil de um Ferino! Os Ferinos eram uma espécie de animais perigosamente inteligentes que habitavam alguns lugares inóspitos do mundo, e suas intenções geralmente eram tão astuciosas quanto suas garras e dentes eram afiados.

Charlotte riu, aproximando-se e agarrando a Pedra delicadamente. Lançou-a, então, ao ar, ao que o objeto foi consumido pelo fogo despejado da garganta do Ferino.

– NÃO! – gritou Lorena, fazendo a outra rir ainda mais.

Havia pouquíssimas coisas mais corrosivas do que as chamas ferinas. Não restou o mínimo resquício da Pedra de Soyedre.

O desespero começou a impregnar Lorena. Tentou curar as feridas abertas em suas costas, mas foi impedida por Charlotte, que se aproximou e deu um chute em seu rosto, fazendo o sangue respingar no solo.

– Você achou que podia me derrotar dessa forma estúpida?!

– Bem, era o que eu iria fazer se não fosse a intervenção do seu amiguinho – falou Lorena, com dificuldade.

– Ah, esses Ferinos, tão amáveis, não é?

Fez carinho na fera, aproximando-se do ouvido de Lorena e sussurrando:

– Eles são difíceis de manipular, sabe? Mas, para uma bruxa poderosa, basta o feitiço certo… Mas precisa ser bem executado, para que eles não escapem ao seu controle. Acertei em te trazer pra cá quando você me agarrou daquela maneira tão… indelicada, justo no meu momento de lazer. Exatamente como eu havia previsto e planejado.

Não conseguia discernir muito bem o que ouvia. A dor ameaçava tirar sua consciência, cada arfada lhe custando muita energia. Como vou escapar desta?

– Você não vai, é esta a questão – disse Charlotte, lendo seus pensamentos. – Sua barreira mental já era, querida. Agora, você vai aprender por que não se deve brincar com fogo…

Porque pode se queimar?

Após o sussurro dolorido, Lorena reuniu suas últimas energias e lançou um fraquíssimo jato de chamas contra Charlotte, que, não esperando por aquilo, desequilibrou-se, sem, contanto, se ferir, porque conseguira conter o fogo a tempo.

Levantou-se, seu rosto sério e lívido de fúria.

– Acho que você já aprontou o suficiente. Hora de descansar ao lado de suas amiguinhas!

Lorena sentiu o fim se aproximando. Ela falhara em sua missão… E tinha dado sua palavra a Vincent! Ceres e as demais não seriam vingadas… Desejou que alguém tivesse a capacidade de terminar o que ela deixaria inacabado. Tombou de costas, gritando de dor, e estava prestes a fechar os olhos quando viu algo, no mínimo, inacreditável.

O Ferino avançou furiosamente contra Charlotte, não dando tempo para que ela proferisse quaisquer palavras: estraçalhou-a em segundos diante dos olhos de uma estupefata Lorena.

Quando terminou de dilacerar a bruxa, a criatura rosnou para Lorena, partindo, então, para dentro de uma das fendas nas paredes rochosas.

Sem entender nada, ela viu que seus ferimentos começaram a se fechar, enquanto sua energia voltava aos poucos e o fluxo de sangue em sua boca cessava.

O quê…

Antes que pudesse terminar de pensar, viu que um homem a observava, sorridente. Tinha uma beleza enigmática, diferente, e trajava um elegante terno preto. Aproximando-se dela, falou:

– O tempo de Charlotte Cashmore acabou. Ela teimou, mas já a havia alertado diversas vezes sobre os limites e prazos de meu… presente.

Kazhim!

8

Sacudiu a cabeça para ver se estava enxergando direito. Um dos mais poderosos demônios dos planos infernais, bem à sua frente?

– O próprio. Como eu dizia, o combinado foram dezesseis anos e seis meses. Se ela quisesse renovar, teria de me ofertar mais alguma coisa. O prazo foi-se acabando, até que ela começou a me enrolar, enrolar, enrolar… e mais! Eu já dissera a ela quais as conseqüências de utilizar Magia Ancestral, a qual ela empregou para descobrir suas intenções e apanhá-la nessa emboscada. O fato de você ter sentido a desestabilização na Teia não foi coincidência, e está parcialmente ligado a isso. Depois dessa ousadia, minha paciência começou a aproximar-se do limite. Humf! Francamente! Acho que agora foi o momento certo de tirá-la de cena, hein? Quando você lançou o jato de fogo, quebrou a concentração dela, fazendo o Ferino se rebelar… Claro que tudo isso teve uma mãozinha minha, incluindo o fato de ele não tê-la atacado também, e de você ter sido curada.

Não sabia o que dizer.

– Não precisa dizer nada – disse ele. – Muito menos me agradecer. Sei o que faço, entende? Mas uma coisa que ainda me intriga é o fato de ela te temer tanto…

– Como assim?

– Hum… – ele suspirou, parecendo refletir. – Qual a sua Casa Mística?

Aquela pergunta não tinha pé nem cabeça, ao ver dela, naquele momento.

– Apenas responda, por favor…

– Zarenis, por…?

– Quando você nasceu, exatamente?

– 13 de julho de 1970.

O demônio contraiu o rosto, como se não tivesse gostado do que acabara de ouvir.

– Faz sentido. Mas como ela descobriu isto, não imagino… mas poderia se esperar qualquer coisa de Charlotte Cashmore.

– Do que você está falando?!

– Ah, minha cara, não cabe a um demônio como eu revelar… só saiba que você é especial. Aliás, acabo de me dar conta de que deveria eliminá-la neste exato momento, mas algo… maior me impede de fazê-lo. Em vez disso, vou te fazer uma proposta: o dobro do poder que Charlotte tinha, por treze almas humanas e sua vassalagem. Ah, tudo isso por… vinte e um anos. Aceita?

Ele não estava falando sério, estava? Sempre lhe haviam dito que recusar ofertas de demônios era ruim, mas que aceitá-las era pior ainda. Jamais correria o risco de ficar sob a influência daquele ser.

– Precisa dizer que não?

– Precisa. Diga.

Não. Jamais compactuaria com entidades do seu feitio.

– Uma pena, Lorena. Uma pena.

Aquela conversa toda a deixava nauseada. Por que ela era especial? O que impedia Kazhim de dar cabo da vida dela, se assim era isso que dizia ter de fazer? E por que ele lhe propusera aquilo, mesmo querendo matá-la? Seria para que conseguisse dominá-la e, assim, atingir seu objetivo? E onde raio a Teia Universal de Energia entrava na história?

– Quantos questionamentos nesta cabecinha confusa… Não serei eu, entretanto, aquele que irá esclarecê-los. Tenho muito mais a fazer. Mas, já te alerto: não será a última vez que nos encontraremos, bruxa. Esteja preparada para tempos difíceis.

Num piscar de olhos, o demônio desapareceu.

Muitas dúvidas foram semeadas em sua mente. Não entendeu metade do que ele falara, pois, apesar de ter recuperado a energia, ainda sentia-se um tanto atordoada. Mas não se preocuparia com aquilo agora. De um jeito ou de outro, terminara sua missão com resultados positivos, livrando-se da dívida com Vincent e com suas amigas. Agora, deixaria aquele lugar repugnante, colocaria a cabeça no travesseiro macio e descansaria, até estar disposta para enfrentar, como de praxe, as adversidades de sua vida conturbada.


Brilhante, devo dizer

sábado, 24 abril, 2010

Lorena acendeu um cigarro e esperou pelo retorno de sua calma. Estava esgotada e irritada, e aquela era a única forma que encontrava para driblar sua aflição. Após quase um mês fora, respirava novamente o ar de Roma; contudo, nem mesmo o retorno ao lar e os recentes sucessos puderam deixá-la mais tranqüila. Estava, na verdade, muito insatisfeita, e a causa dessa insatisfação tinha nome: Charlotte Cashmore.

Mais uma vez, a maldita inglesa escapara à detecção do Coven! De onde vinha tanto poder? Será que ela não enxergava que era um perigo para o mundo com seu comportamento instável e agressivo? Ora, que pergunta… claro que não! E isso fazia Lorena ficar ainda mais nervosa. Derrotara sozinha um bando de harpias selvagens em Varsóvia na noite passada, mas não conseguia seguir o rastro de uma simples bruxa? A questão era: não estava falando de uma simples bruxa, mas sim de uma das mais poderosas que surgiram nas últimas décadas.

Seu celular tocou de súbito, dando-lhe um susto.

– O que foi, Ceres?

– Você não vai acreditar, Lô. Descobrimos o atual esconderijo da vaca!

A bruxa agitou-se ao ouvir aquilo.

– O quê?!

– Calma. Se eu tentar te explicar, vai ficar um pouco complicado. Você está onde?

– Mesmo que estivesse na China, eu me deslocaria agora mesmo. Anda, conta logo!

– Para facilitar as coisas, vou enviar as coordenadas; daí, você corre e vem nos encontrar aqui. Por favor, seja rápida; não sabemos quanto tempo vamos ter até que sejamos descobertas.

– Certo! Em quantas vocês estão?

– Oito.

Um número razoavelmente grande para lidar com uma pessoa apenas, mas, no caso, era bastante justificável. Lorena remexeu em seu bolso, tirando dali um aparelhinho retangular, feito de bronze. Em sua tela esférica, encontravam-se sinais numa linguagem que ela conhecia bem.

– Estou indo! – disse pelo comunicador, e desligou-o.

Guardou-o e, em seguida, respirou fundo.

Muito bem. Segurou o receptor de dados e concentrou-se. Deixou que um fluxo de energia percorresse seu corpo, enquanto pressionava com força o objeto em mãos. A seguir, sentiu um solavanco; cinco segundos depois, já não estava mais na Itália.

Sua cabeça foi envolvida num turbilhão durante segundos intermináveis. Quando a sensação desagradável terminou, ela se contraiu por conta do frio repentino. Olhou ao redor e assombrou-se.

Estava em uma caverna de proporções gigantescas. Muitas pedrinhas luminescentes perambulavam pelo ar, dando uma tênue claridade azul ao ambiente sombrio. Mais além, um filete de água cristalina ia até o local no qual estava parado um grupo de oito mulheres. Ceres acenou para ela.

Ao se aproximar, Lorena perguntou baixinho, a voz mais aguda do que o normal:

– Pelos deuses, que lugar é esse?!

– O subterrâneo de uma região desolada do norte da Rússia – respondeu Ceres. – Ainda estou desconfiada de que tenhamos conseguido chegar aqui. Até o momento, Charlotte vinha nos impedindo de encontrá-la. É como se tudo fosse… planejado.

– Provavelmente, ela deve estar tramando uma armadilha – disse alguém. – Precisamos ter cuidado.

Provavelmente? – repetiu Lorena. – É evidente que ela nos atraiu para uma armadilha!

– Não fale tão alto – repreendeu Ceres.

– Desculpe. Mas, e aí, em que parte da caverna ela está de tocaia, esperando para nos pegar?

– Não sabemos ainda. Teria sido precipitação dela se nos desse acesso a essa informação… estávamos esperando que você chegasse; não é bom ir para uma missão potencialmente perigosa sem você atuando ao nosso lado.

– Vamos permanecer juntas, não?

– Afastamento está fora de cogitação. – Então, Ceres se dirigiu às demais: – Fiquem preparadas para lançar feitiços a qualquer momento.

Houve anuência geral.

Nos últimos tempos, quando não estava ocupada, Lorena vinha revisando diversos tomos antigos, buscando rememorar feitiços e encantamentos que não usava regularmente. Algo lhe dizia que teria de usá-los naquela situação. Por que Charlotte se escondera justamente ali? E por que, se até agora vinha procurando evitar os membros do Coven, simplesmente não deixara a caverna protegida contra intrusos? Pressentia algo ruim; redobrou, portanto, a atenção enquanto atravessavam a passos cuidadosos uma abertura na parede mais próxima à corrente de água.

Tal abertura se abria num extenso, espaçoso e escuro túnel, pelo qual se embrenharam com alguma dificuldade. Para que pudessem enxergar algo, utilizaram globos de luzes flutuantes.

– Cuidado agora, garotas – alertou Ceres. – Não sabemos o que vamos encontrar adiante.

Um espaço que parecia não acabar mais se abriu diante delas. As sombras da caverna consumiam seus corpos, pois as luzes não estavam adiantando muito.

– Vamos aumentar a iluminação – sugeriu Josefine, que ia mais atrás.

Acataram a proposta, cada uma instigando seus globos a ampliarem a luz fornecida.

– Charlotte está se deixando ser detectada – disse Ceres. As outras concordaram. Uma energia estranha era perceptível no ar. – Isso é, ao mesmo tempo, bom e ruim para nós.

– Por que ruim? – indagou Muriel, a mais nova do grupo, antes de uma ventania gélida varrer o ambiente.

As luzes se apagaram. Lorena tentou conjurá-las novamente, em vão. Mentalizou qualquer feitiço energético, para que pudesse enxergar algo, mas foi inútil.

– Fiquem juntas – pediu Ceres.

As nove aproximaram-se desajeitadas, aos tropeços, pois não conseguiam ver umas as outras. Lorena sentiu um aperto no peito. Ficaram paradas, à espera de qualquer coisa, quando alguém gritou ensurdecedoramente.

– Muriel?! – perguntou Ceres, tentando localizar a novata.

Um cheiro estranho chegou às narinas de Lorena. Forte, ferroso… Sangue.

De repente, houve uma explosão: não luminosa, mas muito intensa. As bruxas foram bombardeadas por algo que, a princípio, não conseguiram definir. Lorena abaixou-se corajosamente, de modo a pegar um dos objetos no chão. Estava molhado, deixando sua mão empapada. Mesmo sabendo que podia ser perigoso, aproximou-o para sentir o cheiro. Novamente, forte, ferroso. Carne morta. Carne… de Muriel!

Abafou um grito, sentindo vontade de vomitar. As outras não demoraram a se dar conta do que estava acontecendo. Lorena sentiu que alguém começava a passar mal perto de si.

– Vamos dar o fora – disse Ceres, seca.

Assim dizendo, começou a correr no breu, seguida pelas outras. Lorena não se mexeu, sentindo que imprudente fazê-lo. Tentou avisar às companheiras, mas não teve tempo: logo ouviu o barulho de tropeços e, depois, vários gritos.

Controlou o medo crescente em seu peito. Suspirou, contou até dez e abriu os braços.

Redaille partacla vellsis.

Lembrou-se de súbito daquele feitiço, o último que tivera tempo de reler em seus livros. Não tinha muita esperança de que funcionasse, mas devia tentar. E não é que deu certo? Seu corpo foi automaticamente energizado, permitindo que ela iluminasse um pequeno trecho da caverna.

Viu os pedaços ensangüentados do corpo de Muriel e, mais adiante, as outras sete bruxas estiradas ao chão, mortas, sem um arranhão sequer. Tentou reprimir o choro, mas não conseguiu. Trabalhava com Ceres e Josefine há anos… e Muriel era apenas uma aprendiza! Aquilo era tão cruel e injusto!

Engoliu as lágrimas após alguns minutos, reunindo energia em suas mãos. Invocou palavras de vingança, que pareceram fortalecê-la.

– CHARLOTTE!

Ouviu uma risada histérica, insana.

– APAREÇA, DESGRAÇADA!

Lorena abriu novamente os braços, fazendo a luz se expandir ainda mais. Pôde ver, então, o rosto daquela que procurava há quase dez anos, mas nunca teve a oportunidade de apanhar.

Charlotte Cashmore era muito, muito magra, parecendo ser feita somente de ossos. Seus cabelos eram de um loiro sujo e caíam lisos pelos ombros. O olho esquerdo era quase negro, enquanto no direito refulgia o verde. Por fim, as vestes pretas esfarrapadas completavam seu ar de singularidade.

– Você que é a Lorena? – A voz dela era arrepiante. – Lorena Seravre? Ouvi falar muito em você, minha cara, e no seu interesse por mim…

Lorena calou-se, manipulando a raiva para usá-la em seu favor.

– Gostei do seu estilo – continuou ela. – Brilhante, devo dizer. Utilizou o Encanto Estabilizador de uma forma que poucas vezes vi na vida… Me diga: por que você está atrás de mim? O que eu fiz a você e ao resto do Coven?

Você ainda pergunta?! – irritou-se Lorena. – Você é instável, ensandecida, perversa e perigosa… Usa seus poderes para fazer o que bem entende, expondo gente indefesa a situações terríveis! E quer mais razões? Eu dou: você acabou de matar oito de minhas companheiras, e eu juro… Eu juro que isso não vai ficar assim!

Charlotte gargalhou, para logo depois se calar.

– Eu, instável? EU NÃO SOU INSTÁVEL!

O chão da caverna tremeu às palavras dela.

– Não – concordou Lorena. – Nem um pouco…

A calma com a qual estava falando a surpreendeu. De súbito, perguntou:

– Qual é a origem da sua força? Você é nova demais para conseguir aprender tanto em tão pouco tempo!

O sorriso de Charlotte era enigmático.

– Você é inteligente, Lorena. Conseguiria descobrir sozinha, se fosse sobreviver depois de me enfrentar… o que não irá acontecer, infelizmente.

– É o que vamos ver!

Então, Lorena canalizou toda a mágoa e a tristeza daquele dia para lançar um único encanto, que balançou não só o chão, mas também as paredes do lugar. Houve um clarão avermelhado e, então, silêncio.

Charlotte desaparecera. Lorena parou por um instante, estarrecida. Tinha certeza de que não a havia eliminado: não teria sido tão fácil. Por que ela fugira, se poderia muito bem lhe causar dificuldades num combate?

Não sabia. Mas algo estava claro para si: teria de descobrir a origem dos poderes daquela mulher. Como? Hum… difícil saber. Mas, quando o fizesse, nada a pararia até que o corpo de Charlotte Cashmore estivesse tombado no chão, sem vida.


Impressões dúbias

segunda-feira, 22 março, 2010

Em uma de suas inúmeras viagens pelo mundo, Eileen Lockwood conheceu um jovem encantador. Felipe era elegante, divertido, inteligente, culto e bonito. Esses adjetivos bastaram para que a quarentona se derretesse toda e adiasse sua volta à Irlanda. Buenos Aires ainda tinha muito a oferecer, e o clima frio só a fazia desejar estar mais perto do novo amante.

O rapaz fizera questão de mostrar-lhe os principais pontos turísticos da cidade, além de levá-la a restaurantes finos e casas de espetáculos caríssimas, tudo com seu próprio dinheiro. Obviamente, Eileen não precisava que pagassem a conta por ela, mas Felipe era insistente. Não se esperaria mais nada de um gentleman como ele.

Fazia quase três semanas que estava longe de seu lar, mas ela fazia de tudo para ficar mais tempo. Se existia um paraíso, era ali, com aquele homem sedutor e envolvente, por quem ia, aos poucos, se apaixonando.

Uma noite, após assistirem a uma brilhante representação de O fantasma da ópera, Felipe sugeriu que dessem um passeio pelas ruas da cidade em seu luxuoso e espaçoso carro.

– Não temos nada a perder, ou temos? – riu a mulher, concordando com a idéia. – Vamos lá!

Conversaram animadamente por mais meia hora. Eileen não sentiu o tempo passar, e muito menos prestou atenção à paisagem ao redor. Só reparou em algo diferente quando Felipe começou a frear lentamente o veículo. Pareciam estar fora dos limites de Buenos Aires, numa rodovia onde não havia sequer um sinal de veículos circulando.

– Que lugar é este, querido?

Ele apenas encarou-a com um sorriso lascivo. Em seguida, disse:

– Me acompanhe, que depois eu te explico.

A intuição de Eileen dizia que algo estava errado. Mesmo assim, não recuou diante do pedido, abrindo a porta do carro e acompanhando Felipe. Iam em direção a um galpão de madeira. Quando se aproximaram, ela perguntou:

– O que tem ali dentro?

– Ora, meu anjo, pense um pouco… você nunca quis fazer amor num lugar incomum?

Sua desconfiança aumentou. O que pretenderia ele? Aquela desculpa não colava, mas ela não tinha como saber o que o jovem desejava… a não ser perguntando.

– Felipe, o que está havendo, hein? O que você quer me trazendo aqui?

Ele sorriu novamente e puxou suavemente a mão da mulher para perto dele. Não a estava machucando, mas havia no toque dele algo estranho…

Entraram no galpão. O ambiente era tosco e abafado, e fedia a mofo. Felipe pressionou ainda mais sua mão, até chegarem a um monte de palha. Então, ele tirou com delicadeza o casaco de pele que dera a Eileen na noite anterior. Entre um beijo e outro, tentou despir-lhe do resto das roupas, mas ela resistiu.

– Olha… será que você não pode escolher outro lugar? Não me sinto nem um pouco à vontade aqui.

O rapaz riu.

– Que decepção, Eileen! Esta é uma das minhas maiores fantasias, e nunca tive a oportunidade de realizá-la…

– Querido, por favor…

– Tá, chega de lero-lero! Vamos foder AGORA!

Eileen se afastou antes que ele pudesse agarrá-la. Olhou com assombro para o jovem, até então gentil e sereno, que explodiu numa gargalhada. Agora ela tinha a confirmação de que algo estava errado.

– Confesso que foi difícil – disse ele. – Cansativo demais. Vim tentando, durante todos estes dias, que você abrisse seu coração e suas emoções a mim… mas só agora a coisa está dando resultado. Você não ama tanto quanto sente medo, sabia?

Aos poucos, ela foi tendo uma vaga idéia do que estava acontecendo.

– Você reage com muita temperança às situações da vida. Começou a sair comigo, interessou-se muito, mas, mesmo assim, até agora não estava nas condições propícias… até agora, não estava em condições de sentir tantas emoções. Tanta raiva, tanto medo. E eu adoro isso. Amo, aliás!

Ele parecia saber do que estava falando. Porque é verdade, pensou Eileen. Estava morrendo de medo do que poderia acontecer consigo, e não tentava pensar no melhor jeito de sair daquela enrascada. Como pôde ser tão estúpida ao ponto de se entregar daquele jeito a um completo desconhecido? Indignou-se: se tivesse sentido mais um pouco de emoção durante aqueles dias, ela poderia ter perdido a vida. Ou, melhor, a alma.

– O que está esperando para mostrar seus poderes, parasita nojento? – vociferou ela, em pânico.

Os músculos de Felipe enrijeceram de súbito, suas pupilas desaparecendo. A íris desapareceu, misturando-se ao branco da esclerótica. Eileen jogou-se para trás, bem no momento em que uma onda de energia veio em sua direção. Escapou por pouco, mas quase se machucou seriamente. Não podia pensar em sofrer ferimentos agora, nem em sentir mais medo do que já sentia.

Segundos depois, mais uma investida do agressor, e mais uma esquivada. Eileen não podia ficar naquele joguinho de fuga o tempo todo. Precisava pôr em prática o conhecimento que vinha sendo passado à sua família de geração em geração, e ao qual ela não tinha muita aptidão, por mais que se esforçasse.

Estendendo a mão, recitou um breve encanto na língua mágica, fazendo como lhe fora ensinado.

Entretanto, nada aconteceu. Felipe escarneceu-a. Eileen sentia o medo exalar de seu corpo.

– Então, você é uma feiticeira. Pena que não saiba executar feitiços direito, não é mesmo?

Não, pensou ela, ajoelhada no chão. Não deixe o medo te dominar. Você é a mestra dele, e não o contrário.

– Você foi uma boa foda, no final das contas – disse Felipe. – Mas, infelizmente, preciso me alimentar para sobreviver, e você está cheia de coisas que me apetecem demais…

O suor escorria pela cabeça de Eileen, ensopando sua blusa. Eu vou morrer. A cada segundo, mais se perdia na angústia. Tinha que dar um jeito de resistir. Domine o medo. Escravize-o, use-o ao seu favor!

No momento em que Felipe estendeu a mão para tirá-la do chão, uma aura branca começou a circundá-lo. Foi justo aí que Eileen reuniu forças para uma última tentativa. Ou destruiria aquele ser, ou morreria tentando.

As sete palavras saíram de sua boca num som estridente, forte.

Duvidava que alguém como ela pudesse valer-se de tal encantamento. Para falar a verdade, estava completamente desesperada, antevendo o fracasso, quando notou que a aura do rapaz, lentamente, começou a desaparecer.

Felipe começou a soluçar, seus olhos voltando ao normal. Grunhiu alguma coisa incompreensível e, com um grito tenebroso, desfez-se em chamas, que liberaram uma fumaça tóxica.

Tentando se desfazer do choque, Eileen se arrastou para longe, sentindo o cansaço devido ao esforço cair sobre ela. Conseguira escapar com vida de um ataque daquele ser poderosíssimo. Jamais imaginaria que o jovem com quem deitara por dias a fio seria, na verdade, um sugador-de-almas, um ser que se alimentava das emoções e, por fim, da alma humana. Era praticamente impossível que uma desastrada como ela tivesse conseguido ingressar no círculo da magia daquela maneira.

Juntando seu casaco, vestiu-o e saiu do galpão, não sem antes apanhar a chave do carro, que fora derrubada por Felipe durante o conflito. Quando contasse aquela história aos seus irmãos, provavelmente não acreditariam nela. Mas pouco importava. Duvidava que mesmo eles, magos fortes e experientes, fossem conseguir fazer o que ela fizera ali.

Deu partida no carro, conseguindo relaxar um pouco. Tinha de ir até a cidade, largar o veículo num canto qualquer e pegar um táxi até o hotel no qual estavam suas coisas. De lá, iria direto para o aeroporto. Precisava muito conhecer melhor os mistérios de magia, e sentia que não teria tantas dificuldades agora.


A sombra da incerteza

quinta-feira, 15 outubro, 2009

Os dias de invernos frios no extremo sul do Brasil foram esquecidos. Não se referia mais ao “estado X” ou “estado Y”; aliás, sequer a “Brasil”. Essas noções foram abandonadas há tanto tempo, que boa parte da população local sequer sabia que a Fortaleza do Lago das Víboras um dia chamou-se Porto Alegre. Aqueles falecidos antes da Grande Revolução, décadas antes, jamais imaginariam o que viria a se tornar o estado do Rio Grande do Sul, o Brasil e, de modo geral, o mundo.

Ao contrário da grande massa, André conhecia muito sobre o passado, mas não ousava fazer comentários abertamente. Sabia que era proibido. E alguém como ele, que fazia parte do alto escalão do Sistema, estaria em maus bocados caso descumprisse quaisquer regras impostas pelo governo. Crescera em meio a um ambiente de guerra e instabilidade e sabia que os desprecavidos jamais se saíam bem naquilo que deviam fazer. Desde cedo teve interesse pela arte das batalhas, mais tarde ampliando suas habilidades como guerreiro e destacando-se cada vez mais, até chegar a seu posto atual.

Um general do Supremo Exército Imperial.

Será que seus pais, caso estivessem vivos, aprovariam suas ações? Com certeza não. Eles haviam nascido antes de tudo acontecer. Viram a ascensão do povo-lobo com os próprios olhos e lutaram contra o recém-formado Império até a morte. Saber que seu primogênito e único sobrevivente da família entrara na guerra não como oposicionista ao governo, mas como simpatizante, certamente os enojaria. Mas, bem, o passado estava enterrado para sempre. Ou assim deveria.

Já se acostumara com seus dotes lupinos. A Bênção tinha sido concedida a ele há mais de uma década, devido à sua grande cooperação e aos serviços prestados ao governo. Fora um dos poucos humanos de sua comunidade que se rendera voluntariamente. Para muitos, uma vergonha, mas André tinha planos, e não deixaria que uma estupidez como aquela o impedisse de concretizá-los. Vergonha? Do quê? Só se fosse de estar abaixo na cadeia alimentar. Aqueles humanos deveriam reconhecer seu lugar na nova sociedade imperial e render-se.

Mas não era o que vinha acontecendo.

Ao invés de os movimentos de insurreição diminuírem de intensidade, eles vinham crescendo, de tal forma que começava a preocupar o Alto-Império Lupino. Por sua experiência com humanos, André fora destacado para liderar o ataque a uma das últimas fortalezas humanas de que se tinha notícia, na região da antiga Gravataí. Aquele era o principal foco de resistência do sul do Império. E era aonde o general e um grupo de cento e cinqüenta soldados-lobos estavam indo no momento.

A madrugada corria solta, e faltavam, mais ou menos, vinte minutos para que atingissem o território a ser conquistado. Os soldados estavam distribuídos em quinze caminhões de guerra, sendo que André, junto com o coronel destacado para a missão, sentava no banco da frente do veículo que conduzia os demais. Não temia ser reconhecido e alvejado pelos inimigos; para que impusesse respeito entre seus subordinados, tinha de mostrar que estava sempre à frente.

Assim era André: bravo, autoritário e implacável, um dos “queridinhos” do Supremo Imperador, que lhe conquistou a simpatia mesmo que grande parte da alta sociedade o desprezasse por não ser um lobisomem puro. Já se envolvera num duelo mortal com outro dos protegidos do Imperador – um puro-sangue – e saíra vitorioso. A partir daí, ninguém mais ousou questionar publicamente sua origem.

Valério, o coronel, estava ao seu lado, pensativo. Era conhecido por ser implacável em combate e ter uma posição liberal a respeito da aceitação de lobisomens não-puros, sendo um dos poucos – senão o único – amigos íntimos de André. Checava de tempo em tempo um notebook, fornecendo as instruções para que o motorista os guiasse até a fortaleza humana. O antigo Brasil podia ter ficado mais perigoso após a Grande Revolução, mas não deixou de ser, de certo modo, organizado; os lobisomens desenvolveram métodos que fizeram a ciência e a tecnologia desenvolverem-se ainda mais.

– Senhor, estamos chegando – anunciou o motorista.

André já sabia. O cheiro de carne humana começava a entrar pela frestinha aberta da janela, forte e atraente. Se você ainda tem dúvidas sobre a personalidade dele, devo reforçar: ele não sentia a menor culpa em se alimentar de seus antigos semelhantes. Ainda havia muitos humanos no Império, e a maioria ou era feita de escrava, ou de comida (ou primeiro um e depois o outro).

Aos poucos, a fortaleza ia se fazendo visível. Construída após a Grande Revolução, quando o Império ainda não estava consolidado, era feita de pedra maciça e, segundo o que era conhecido, reforçada com várias placas de metal. Havia uma única entrada: um gigantesco portão negro. A construção tinha mais de dez metros de comprimento, e seu raio era de aproximadamente um quilômetro. Muitos ainda achavam incrível como uma estrutura gigantesca como aquela pôde ser construída em tão pouco tempo; as estimativas eram de que havia quase trinta mil humanos livres – daí a dificuldade de tomá-la, o que foi tentado diversas vezes. Era conhecida como Cidadela do Alvorecer, e tinha auto-suficiência na alimentação e em outros substratos da vida humana, além de possuir um exército consideravelmente numeroso, muitas vezes reforçado por escravos fugitivos.

Acontece que os humanos não iriam enfrentar cento e cinqüenta simples soldados. O grupo do general era formado por guerreiros de elite, os chamados Ceifadores. Quase nunca se reunia um bom número deles, em razão de não haver tantos disponíveis. Mas o Supremo Imperador desejava uma vitória esmagadora, digna de penetrar na mente de possíveis futuros inimigos do Império. Para isso, além da força física, os soldados usariam armas de fogo de última geração. André confiava em seus atributos sobrenaturais, mas, para garantir, guardava sempre consigo uma moderna pistola.

– Pode parar aí – ordenou, ao que imediatamente o caminhão freou.

Desceu, seguido de Valério, observando enquanto os Ceifadores pulavam das portas dos contêineres. Todos eles eram altos e fortes, e ficariam ainda mais na forma bestial, quando seus trajes pretos da elite do Exército seriam deixados para trás. Reuniram-se em volta dos dois superiores, com metralhadoras em mão, aguardando pelas ordens de André, que, com sua voz rouca, disse:

– Todos já sabem o que fazer. Soldados da Vanguarda, quero todos vocês transformados e dirigidos para arrombar o portão. Os restantes, dividam-se conforme o planejado e prepararem-se para dar coberta e, ao meu comando, invadir a Cidadela. Fiquem atentos aos guardas humanos lá em cima, para que vocês não sejam alvejados com prata antes de entrarem.

Ele falou, e assim seria feito. Não havia espaço para questionamentos com André: mesmo os que não gostavam dele o obedeciam quando sob seu comando. Com sua visão privilegiada, o comandante lobisomem viu que havia uma ligeira movimentação de pessoas acima da fortaleza, completamente mal-disfarçada. Amadores.

Não tinha como uma transformação não ser barulhenta; logo, muitos uivos e urros foram ouvidos quando os trinta Ceifadores da Vanguarda transfiguraram-se em enormes lobos bípedes e ferozes, prontos para o combate. Dirigiram-se ao portão numa velocidade aterradora, enquanto os protetores da Cidadela começaram a disparar, tentando alvejá-los. Os soldados-lobos que permaneceram fora da linha de tiro empunharam suas armas, e a quantidade de humanos que foram abatidos facilitou que, um a um, os guerreiros que iam à frente se jogassem contra o portão negro, sem, contudo, provocar grandes amassaduras nele.

O general observava tudo de modo atento. Os sucessivos golpes contra o portão não estavam surtindo o efeito desejado, e uma nova divisão de soldados aparecera no topo da murada e recomeçara os disparos. Havia previsto que fossem ocorrer esse tipo de dificuldades; teria, então, de pôr em prática o plano secundário.

– Larguem as armas! – bradou ele, de súbito.

Os Ceifadores se entreolharam, mas logo obedeceram.

– Todos se transformem, já!

Não aguardaram por uma reprimenda. Seguiu-se um festival de sons selvagens e assustadores, que provavelmente deve ter assustado muitos dos soldados humanos dentro do refúgio. Ao final, havia cento e vinte gigantescos lobos em volta de André, enquanto os outros continuavam forçando a entrada. Na forma transfigurada, era muito mais difícil para a prata fazer seu efeito alérgico.

André inspirou e expirou. Os músculos de seu corpo começaram a se contrair, fazendo com que as roupas rapidamente rasgassem. Seu corpo foi ficando cada vez maior – até atingir os 2,5 metros –, ganhando pêlos acinzentados, que iam até a cabeça lupina e as orelhas pontudas. A bocarra enorme exibia dentes pontiagudos, prontos para estraçalharem seus inimigos, assim como as garras longas e afiadas.

– Escalem os muros! – rosnou num som rouco e gutural. – Deixem que eu derrube o portão!

Mais tarde, acabaria concluindo que, caso tivesse agido de modo diferente, não influiria no resultado final.

– Valério, fique ao meu lado.

Os soldados que estavam à dianteira saíram da linha dos disparos e, junto com os demais, começaram a escalar os muros de pedra, ação que não demorou nem trinta segundos. Urros, gritos, disparos: dali, André não pôde distinguir aquela confusão de barulhos, e nem se preocupou com isso. Avançou junto com o coronel direto para porta, sem que nenhum dos humanos disparasse contra eles; devia ser um sinal de que as coisas corriam bem lá dentro. As ordens previamente dadas aos Ceifadores eram claras: devastar a cidade e assassinar todos que resistissem; comboios imperiais chegariam dentro de poucas horas para recolher escravos e, se preciso, ajudar na conquista da Cidadela.

O pandemônio parecia prosseguir do lado de dentro, enquanto André e Valério golpeavam sem parar os portões; sendo ambos exemplares anormalmente fortes para a espécie, e aproveitando os estragos já causados pela Vanguarda, conseguiram causar ainda mais danos ao portão em pouco tempo. Acontece que, quanto mais se aproximavam de derrubá-lo, mais os sons iam diminuindo. Quando finalmente o portão foi abaixo, o ambiente estava silencioso.

Os dois adentraram um campo de terra batida; podiam ver os contornos das casas e prédios da cidade alguns quilômetros adiante. André voltou os olhos para procurar seus subordinados, mas o que viu foi um cenário vazio: nem sequer os soldados conseguiu localizar.

Arfando pelo esforço empregado, Valério falou, com a voz pesada de sua forma bestial:

– André, o que aconteceu…?

– Quieto!

O general ergueu a mão e começou a farejar. Como não percebera aquele cheiro antes? Não o cheiro de sangue, que notara assim que pisara dentro da Cidadela, mas…

– CUIDADO!

A voz veio de Valério; seu aviso, contudo, não foi necessário para que André se pusesse em posição de defesa, quando dezesseis figuras surgiram do ar, prontas para atacá-los. Havia quinze homens, todos muito pálidos, e uma mulher, que chegava a ter o rosto branco como papel. Seus olhos eram verdes e brilhantes, e lhe causaram uma momentânea sensação de dejà vu e estranheza.

Sete deles foram para cima do coronel, enquanto os outros, incluindo a mulher, atacaram André.

Ele soube, nos primeiros golpes, que não eram homens comuns. Suspeitas confirmadas: vampiros. E mais do que vampiros, tinham algum tipo de energia especial que os deixava ainda mais fortes. Principalmente a mulher.

Conseguiu nocautear dois deles sem muita dificuldade, mas os restantes, além de terem muita resistência aos ferimentos, conseguiram machucá-lo por diversas vezes, incluindo aí um corte profundo em seu peito. Não teve tempo de verificar como Valério estava se saindo, porque o desespero ia se misturando com a raiva dentro de si, o que lhe deu mais impulso e energia.

Arrancou a cabeça de um deles, lançando com uma força devastadora o corpo inerte contra um outro, que caiu estatelado. Engajou-se numa luta feroz contra os demais, os quais pareciam mais difíceis de derrotar. A cada segundo sua adrenalina aumentava, uma raiva difícil de controlar crescendo em seu peito. Os quatro o cercaram, mas ele conseguiu imobilizar um deles, desferindo um soco em seu estômago e jogando-o sobre a mulher. Por um descuido, ela não conseguiu se desviar, sendo afastada por um curtíssimo tempo da luta. Tempo suficiente para que André arrancasse o coração de um dos atacantes e decepasse a perna de outro, num ímpeto de fúria.

Ao final, restavam a mulher e ele; a diferença é que aquela aparentava muita disposição, enquanto este sentia as energias se esgotarem.

Teve tempo de olhar para o lado no exato momento em que a cabeça de Valério rolou pelo chão, seu corpo indo juntar-se aos dos cinco vampiros mortos por ele. Foi como se tivessem congelado o cenário ao redor por alguns segundos. Após, sequer raciocinou: deu um salto em direção ao vampiro grandalhão que assassinara seu melhor amigo, desferindo um soco após o outro e, por fim, degolando-o com uma mordida fatal no pescoço.

Enquanto os vampiros restantes se aproximavam junto com outros recém-surgidos, André pensou. Tinha apenas o mínimo de energia disponível ainda, e, caso insistisse numa luta contra aquela mulher e seus comparsas, acabaria morto. Teve de engolir seu orgulho ao decidir por poupar sua vida.

Quando a vampira chegou perto dele, o olhar dela encontrou o seu – a mesma sensação estranha se repetindo –, antes que ele se pusesse a correr para longe. Me aguarde, porque eu volto para te matar.

Ao chegar próximo ao portão derrubado, viu que os corpos mutilados dos Ceifadores apareceram do nada, jazendo na terra e manchando-a de sangue. Os humanos atiradores também surgiram sem avisos, fazendo mira nele e buscando pará-lo por meio das balas de prata, sem sucesso.

Bruxaria.

André sentiu o cheiro de sangue próximo aos caminhões e viu que um dos motoristas estava ao volante, com a garganta degolada. Ao dar uma olhada geral pelo círculo que os veículos haviam feito, notou que todos os outros tiveram o mesmo destino.

Aproximou-se do caminhão mais distante da fortaleza e tirou o cadáver que estava sentado à direção, tomando seu lugar. Viu que as chaves não estavam na ignição. Sequer pensou em ligação direta: os fios alimentadores haviam sido cortados.

Droga!

A única saída seria usar tudo que lhe restava de fôlego para correr, perseguido pelos vampiros e pelos soldados humanos, até onde agüentasse. E foi o que ele fez. O general André Augusto da Motta, austero e orgulhoso, um dos favoritos do Supremo Imperador, saía derrotado de uma campanha que a princípio julgara fácil de vencer, fugindo como um covarde para garantir sua sobrevivência.

Sua salvação foi a aproximação do nascer do sol. Os vampiros bateram em retirada antes que os primeiros raios aparecessem, e os humanos não tinham um físico que agüentasse competir com um lobisomem no quesito velocidade, mesmo que este estivesse debilitado.

Amanhecia, mas uma sombra agora acompanhava André.

Poderia ser o fim de sua carreira. Ou mesmo de sua vida: o que aconteceria dali para a frente era totalmente imprevisível e dependeria das circunstâncias, ou, melhor dizendo, da visão que o Supremo Imperador teria dos acontecimentos. Entretanto, algo era nítido em sua mente: queria vingança. Mesmo que seu destino fosse ser preso ou condenado à morte, teria de dar um jeito de escapar. Quando o fizesse, iria até o inferno, se necessário, até encontrar novamente aquela vampira e o resto de seu desprezível séquito. Teria de volta seu orgulho e vingaria a morte do companheiro, mesmo que para isso precisasse promover um banho de sangue.


O revés do desacerto

quarta-feira, 7 outubro, 2009

Desde que me conheço por gente, tomei a insipidez como inimiga mortal. A trivialidade me cansa, o marasmo nunca me atraiu… Eu gosto mesmo é do perigo, da instabilidade, das grandes emoções. Que sentido teria minha vida caso eu não me envolvesse em situações tensas e potencialmente arriscadas? Por isso, durante incontáveis anos rodei pelos quatro cantos do globo, à procura de toda a sorte de conflitos. Fui muito criticada quanto aos meus atos, mas não devo satisfações a ninguém. Exceto a você, leitor. Prazer, meu nome é Vandris.

Para situá-lo melhor, acho que devo começar pelo meu passado. Você acreditaria se eu dissesse ter mais de cinco mil anos? Por favor, não ria. É a pura verdade! Sou fruto da união entre um deus – há muito esquecido pelos homens – e uma mortal, num daqueles típicos casos de adultério celestial. Digo que meu pai foi esquecido porque eu, como boa filha rebelde, enfrentei-o em favor do meu livre arbítrio, acabando por tirá-lo do trono dos deuses e exilá-lo, fazendo sua memória entre os mortais extinguir-se. Aliás, muitos poucos dos humanos, hoje em dia, têm conhecimento da existência dos deuses como eles realmente são.

Minha herança genética me daria, geralmente, apenas uma parcela dos atributos divinos, mas, por alguma razão, nasci com uma aptidão anormal ao Poder, a qual me faz ser comparável a qualquer deus “puro”. Na minha juventude, vivi ao lado de minha mãe, uma simplória meretriz, com a qual eu mantinha uma relação estável.  Justamente quando ela morreu, violentada por um cliente, descobri a força guardada dentro de mim. Ao me vingar do assassino, libertei uma energia que chamou a atenção dos deuses – incluindo meu pai. Foi ali, aos 17 anos, que começaram minhas desavenças com os senhores do mundo.

Há princípio, não me dediquei a estudar para aprimorar meus talentos. Mas a necessidade mostrou a face logo; foi quando conheci Lorghan, o único deus com quem já mantive relações amigáveis. Meu mestre, companheiro e amigo; dêem a ele os créditos pelo fortalecimento do meu caráter e da minha força. Ele, inclusive, me ajudou na conspiração que derrubou meu pai, fato pelo qual pagou com o banimento da Terra dos Deuses e promessas de morte. Passados vários séculos do ocorrido, Lorghan ainda vivia isolado, apesar de as perseguições terem cessado há muito.

Foi depois dessa grande reviravolta que minha vida de errante e baderneira, de fato, começou. Me intrometi, durante um longo período, nos conflitos etéreos, que acabavam, direta ou indiretamente, influindo na vida na Terra. Mas, devo confessar, meu real interesse estava nos mortais e em suas guerras terrenas. Seus assuntos me fascinavam – e ainda fascinam – de tal forma, que eu, muitas vezes, deixava de lado as ladainhas dos deuses e me focava exclusivamente na vida dos humanos.

Mesmo podendo valer-me de feitiços inimagináveis – aos quais somente um deus poderia ter acesso –, devo admitir que os mortais produziram uma quantia considerável de magos brilhantes, capazes de feitos extraordinários. Uma das razões pelas quais fui duramente repreendida foi o fato de eu compartilhar alguns conhecimentos com eles, me envolvendo em suas maquinações e ajudando a promover os conflitos que fomentavam.

Acho que você deve se perguntar qual a razão de eu me referir aos humanos como “mortais”. Sim, eu sou uma semideusa, mas, acho que já deixei explícito, é como se fosse inteiramente divina. Não parece arrogância: é. Nunca fui do tipo humilde e sei muito bem de minhas capacidades.

Mesmo com toda essa minha indisposição para a burocracia dos deuses, tive a impressão de que o tempo estava prestes a virar. Podia sentir isso, de algum modo… O posicionamento das estrelas, também, indicava mudanças, como havia percebido naquela época. Fazia mais de dois séculos que não dava as caras no Grande Domínio, como é chamada a terra dos meus adoráveis amigos, e eles não vieram mais me procurar, desde então… Muito estranho.

Do alto do Arco do Triunfo, eu observava o movimento noturno, que tanto me agrada em Paris. Do nada, percebi uma presença, no mínimo, estranha, próxima a mim.

– Tirando uma folga para relaxar?

Me virei, surpresa. Quem mais estava à minha frente, senão o atual Regente dos patetas divinos?

– O que faz aqui, Pansir? – disse eu.

– Já estava com saudades, sabia? Acho que os seus feitos não são muito difíceis de notar, não, Vandris? Aliás, não entendo como você quer se comparar a nós, se insiste em usar esse nome mortal…

– Jamais me comparei a vocês; sou superior, como você bem sabe. Diga logo a que veio.

A expressão dele era ao mesmo tempo séria e zombeteira.

– Venho lhe dar um aviso… Infelizmente, coube a mim essa tarefa indigna; mas, sabe como é, o Regente deve sempre tomar uma atitude quando…

– Não enrole!

O som de minha voz era alto, mas eu sabia que ninguém mais podia nos ouvir. Ele não pareceu se intimidar com a minha agressividade.

– Se você estivesse no Grande Domínio, seria punida severamente por se dirigir a mim desta for…

– … Mas, já que não estou, dê logo o seu recadinho.

Ele me encarou, lívido.

– A Corte Suprema exige seu retorno imediato ao Grande Domínio.

Não pude deixar de rir.

Exige? Desde quando vocês têm o poder de me exigir algo?!

– Sua insolente! – vociferou ele, perdendo a paciência. – Você não faz idéia do que está para acontecer! Não estamos lhe dando escolha alguma: ou você comparece, ou arcará com as devidas punições!

– Fico me perguntando quem, dentre vocês, vai ter a coragem de tentar me forçar a comparecer…

– Por que você acha que eu estou aqui?

Olhei para ele, incrédula. Aquele patife farsista parecia estar querendo medir forças comigo. Ele falou:

– Não pense que, por ser filha de Molfren, pode desafiar um deus como eu, sua criaturinha impura e desaforada!

Se estivesse num dos meus maus dias, já teria pulado no pescoço dele.

– Você certamente irá pagar caro por todos estes séculos de insolência quando chegarmos. Está na hora de se sujeitar às Regras Primordiais, e ninguém melhor do que eu, um ser antigo e muito mais poderoso do que você, para fazê-la obedecer.

– Por que você não fala menos e faz mais?

O que aconteceu a seguir foi tão rápido, que fica complicado de descrever aqui. Ele tentou paralisar o tempo e me capturar com um encanto retentor, mas acabou liberando uma forma de energia incolor e muito intensa, a qual, caso eu não tivesse impedido, levaria a cidade aos ares. Que ser inconseqüente, aquele! Tinha de me livrar dele antes que algo pior ocorresse.

Pansir tentou investir contra mim de novo, mas eu era mais ágil e tinha algo que ele desconhecia: cautela. Foi graças a isso que consegui evitar mais um ataque, enquanto sentia sua raiva aumentar. Por que ele não trouxera reforços? Todos sabiam muito bem que eu era uma ameaça; decerto, o orgulho o impedira de fazê-lo.

Impedi mais um golpe, que por pouco não destruiu o país, tal a sua força. Eu estava gastando muita energia para poupar os humanos de uma calamidade, e já começava a me cansar daquela brincadeirinha estúpida!

– Pansir, desista! Eu não vou com você!

Os olhos dele estavam injetados de fúria. Era do conhecimento geral que o Regente dos Deuses, por vezes, perdia o controle. Se pudesse imaginar o que aconteceria a seguir, teria preferido mandar até ali outro, que não ele.

Numa última tentativa de me atingir, ele fez menção de atacar novamente, mas eu agi primeiro: manipulei parte da minha força e a lancei contra ele. Acontece que eu… Hum, errei na dose, por assim dizer; não medi com precisão a potência do golpe que eu aplicaria. Pansir estava demasiado absorto em tentar me destruir, e acabou não conseguindo se defender: a torrente de energia liberada por mim foi tão intensa, que o consumiu num instante.

Fiquei pasma ao ver uma luz emanar do que fora o corpo do deus, expandindo-se pelo ar até desaparecer na noite.

Demorei um tempo para me dar conta do que fizera. O Regente do Grande Domínio fora destruído – destruído por mim, e esse fato não passaria despercebido. Aliás, os demais deuses provavelmente já teriam se dado conta naquele momento, e eu teria de decidir, em poucos instantes, que atitude tomar. Sabia bem quais seriam as conseqüências dos meus atos; a questão era: estaria preparada para o que viria a seguir?

Eu poderia fugir, é claro; todavia, nunca fui do tipo covarde. Não iria me esconder. Acabaria, de um modo ou de outro, nos portões da terra dos deuses. O que encontraria lá? Não sabia, mas estava convencida de que muitos perigos me aguardavam. Antes, porém, tinha algo a fazer, que talvez me consumisse algum tempo. Mas logo, prometi a mim mesma, daria àquele bando de imbecis o desprazer da minha presença.


O ciclo da criação

sábado, 3 outubro, 2009

Quando o Fim dos Tempos chegou, eu estava ciente daquilo que tinha de ser feito. O caos não demorou a chegar, destruindo toda e qualquer esperança da humanidade. Gritos, dor, sangue, agonia e infinitos suplícios. A sinfonia da destruição.

No sétimo dia de Tormenta, enfastiado de tanto refestelar-me no sofrimento alheio, sentei-me ao lado do Glorioso Senhor, cujo destino ninguém sabia, exceto eu. Ele assistia à ruína de Sua Criação com lágrimas nos olhos, aflito por não ter o poder de impedi-la.

– Satisfeito? – perguntou-me Ele, amargurado. – Diga-me: você sente prazer em testemunhar esta calamidade, em ser a causa dela?

– Nada me alegra mais. Esperei muito tempo por este momento.

Eu sorria, deleitado com meu triunfo. Ele, sentindo o amargo gosto da impotência, falou:

– Por que você fez isto? Que razões tinha para Me trair? Eu lhe ensinei tudo o que você sabe! Eu…

– Você fracassou. A hora de pôr um fim em Seu incomensurável erro chegou.

– Se você Me destruir, sabe o que vai acontecer. Não pense que continuará a existir sem Mim!

– Quer pôr isto à prova?

Ele hesitou.

– Por favor… Reconsidere!

– Você me enoja, meu Senhor.

O lamento de Deus perfurou meus ouvidos, mas não senti pena Dele. Ao meu sinal, a realidade que todos conheciam caiu na inexistência, e o Todo-Poderoso dissipou-se qual areia ao vento.

Certa vez, rotularam-me audaz. Acho que devo concordar. Naquele momento, minha maior ambição se realizara, por fim. Orgulhoso de meu feito, pus-me a dormir, aguardando a hora de meu despertar. Acordando, criaria uma nova realidade, sustentaria a Criação sob um novo poder e, como era de se esperar, esqueceria de Meus atos passados. Moldaria, então, o Arauto, que, quando chegasse a ocasião, iria rebelar-se e trair-Me, pondo fim à Minha existência. A seguir, encher-se-ia de orgulho e, então, adormeceria…

Como sempre haveria de ser.