Setembro Amarelo, suicídio e a saúde mental da população LGBT

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Na esteira do Setembro Amarelo, campanha que busca a prevenção do suicídio e valorização da vida, gostaria de fazer algumas considerações sobre a saúde mental da população LGBT. A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por terem a ousadia de serem quem são em um contexto social invalidante e hostil. Essas pessoas estão sujeitas a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos.

Há uma relação cruel entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas. Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos. São materiais. São concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares.

Existem achados que apontam que jovens LGBT que experienciam preconceito e rejeição no ambiente familiar estão oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio. Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares. Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero mostram-se simplesmente assustadores, e têm sido apontados por várias investigações.

As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho.

De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande. No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar. As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta.

Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

Cabe refletir: qual o papel de cada um de nós na perpetuação da violência e na possibilidade de mudar esse cenário? Qual o papel do Estado, das comunidades, das famílias e das instituições diante dessas demandas? Defender a construção de vidas mais dignas, vidas mais “vivíveis”, é um imperativo ético. Precisamos abandonar o paradigma da morte e da vulnerabilização, não em direção à tolerância, mas à aceitação, cuidado e respeito.

É um dever da sociedade lutar por outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão; é um dever cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar ou anular, mas engrandecer, qualificar.

É possível produzir potência na diferença. Não somos todos iguais e não precisamos ser, porque a vida é mais leve e permeável quando é diferente. Precisamos de políticas públicas que garantam os direitos básicos da população LGBT, que garantam o direito à diferença. A categoria de profissionais da psicologia precisa receber treinamento e formação em gênero e sexualidade; há evidências de que profissionais sem preparo podem não só não ajudar, como provocar danos a pessoas já bastante vulnerabilizadas.

Para além disso, precisamos ter mais curiosidade e sensibilidade, buscando aguçar o olhar para as singularidades das experiências de gênero e sexualidade. A psicologia vem construindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia.

É preciso promover processos de resiliência, de fortalecimento de vínculos, de construção de redes afetivas, de reforço do apoio familiar. A população LGBT precisa ter condições de se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente, a ter outras visões de si, do mundo e do futuro. E todos nós precisamos nos implicar nisso: na aceitação radical da diferença e na solidificação de um futuro com menos discriminação e mais possibilidades.

A vida pode ser mais valiosa. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você, que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de amigos; procure apoio profissional. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. A vida faz mais sentido quando pintada com diversas cores.

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* Para pessoas que moram em Porto Alegre e Região Metropolitana, eu sou psicólogo, psicoterapeuta e realizo em consultório particular atendimento psicoterápico afirmativo para a população LGBT, bem como acompanhamento psicológico para o processo transexualizador. Caso precise de ajuda, entre em contato comigo: Ramiro Figueiredo Catelan | CRP 07/26017 | ramirocatelan@gmail.com | (51) 9155-5327

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* Algumas referências usadas para compor este texto:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Dickey, L. M., Reisner, S. L., & Juntunen, C. L. (2015). Nonsuicidal self-injury in a large online sample of transgender adults. Professional Psychology: Research and Practice, 46, 3-11.

Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. “Perspectives on Psychological Science, 8”, 521-548.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.

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20 de setembro e a farsa do Movimento Tradicionalista Gaúcho 

sábado, 19 setembro, 2015

20 de setembro tá aí, e a gente, mais uma vez, precisa sentar e conversar. Costumo patinar no Gasômetro, em Porto Alegre, todo fim de semana. Tenho evitado ir durante este mês, pois quando o fiz, recebi olhares fulminantes e ameaçadores com os quais não estou acostumado naquele espaço, porque sou gay e não sou obrigado a andar dentro dos padrões que me impõe. Devo essa sensação de medo e insegurança em volta do acampamento farroupilha ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. 

Essa organização é um grande engodo sustentado num mito fundacionista frágil conceitual, histórica e epistemologicamente, calcado em figuras de autoridade mais frágeis ainda, o chamado Grupo dos 8. A maioria dos seguidores sequer tem noções básicas sobre a cultura fantasiosa, inventada e distorcida que defendem com unhas e dentes, e se recusam terminantemente a discutir sobre, como se fossem parte de uma seita religiosa, e isso é responsabilidade de uma política pública de educação que se recusa a pautar o estudo científico da história, baseado não no mito, mas nas evidências e na crítica. 

Cultuam uma revolta perdida, capitaneada por estancieiros senhores de escravos cujos únicos interesses eram a manutenção dos próprios privilégios. Essa “revolução”, cujo objetivo, curiosamente, era preservar o status quo, derramou sangue de gente pobre e negra, mas muitos seguem reproduzindo histórias fragmentadas e distorcidas como se fossem verdades incontestáveis. 

Perpetuam um discurso machista, sexista, homofóbico, intolerante, bairrista, belicista. Muitos – não todos os – apoiadores do movimento são embaixadores do moralismo, do conservadorismo, do racismo, do patriarcado, da submissão feminina, do desrespeito à diferença, do ódio a gays, lésbicas, a quem ousa divergir da heteronormatividade. Sequer conseguem lidar com divergências dentro do próprio movimento: expulsam, segregam, caluniam, perseguem e incendeiam. 

Fazem cosplay de Paixão Côrtes durante todo mês de setembro, sem pensar sobre a violência simbólica que carregam essas vestimentas. Vamos parar e repensar as coisas como elas estão – não como elas são – ou seguir festejando distorções históricas e mentiras nas quais nos fizeram acreditar?


Sobre homofobia, diferenças e utopias nem tão utópicas assim

quinta-feira, 17 maio, 2012

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17 de maio de 1990. Nessa data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retira de sua lista patologizadora de transtornos mentais a homossexualidade, tida, até aí, como uma doença digna de ser “tratada”. Nessa data, desde então, realizam-se protestos, discussões e eventos visando ao combate da homofobia, que, segundo o Aurélio, é configurada como a “aversão aos homossexuais ou ao homossexualismo”. Reparem como esse termo, “homossexualismo”, permanece presente no imaginário não só popular, mas acadêmico, “intelectual”, resquício de uma época em que a “prática homossexual” (outro termo cretino) e seus “praticantes” eram severamente recriminados e segregados, sem direito à dignidade e ao sentimento de pertença a uma sociedade acostumada a apontar, julgar e censurar, sem ao menos refletir sobre as consequências de tais comportamentos discriminatórios e conservadores. E essa é uma realidade que, infelizmente, continua atual.

As centenas de ASSASSINATOS, por ANO, de gays no Brasil, EXCLUSIVAMENTE por serem gays, são consequência dessa ideologia/prática. A recriminação aberta em países como China e Irã, cujos Estados se delegam a tarefa de perseguir e clausurar quem ousa ser diferente, também é. A auto-censura, o encobrimento, o disfarce, a culpa e a vergonha de ser e mostrar quem é também são frutos dessa violência, que nem precisa ser explícita para assim se configurar. Ou você acha, sinceramente, que piadas na hora do happy hour sobre “veadinhos” não são homofobia? Ou que o deboche àquele seu colega “meio mulherzinha” é inofensivo? Ou que olhares de desaprovação, no meio da rua, a uma moça “masculinizada”, não causam efeito algum? Ou, ainda, que achincalhar e satirizar travestis e transsexuais não gera absolutamente nenhum mal na vida delas?

Os atos mais “inofensivos” podem produzir resultados catastróficos. A rejeição, o julgamento, a discriminação – ora velada, ora explícita -, a exclusão social e familiar, as agressões gratuitas, o desrespeito berrante, a segregação elitizadora, a sensação de superioridade, a impossibilidade de conviver com o diferente. Isso tudo machuca. Isso tudo doi. Isso tudo acaba em sangue, ódio, desigualdade e tristeza. E isso tudo é parte do nosso cotidiano. Está lá fora. Está aí, dentro de casa. Está nas escolas, nos bares, nas ruas. Está no discurso ambíguo e hipócrita de quem defende e propaga a utilização de termos como “homoafetividade”, desvinculando o homossexual de sua sexualidade, sem perceber que causa um desserviço às lutas LGBT (afinal, pessoas que não transam, sendo somente “afetivas”, não precisam de políticas públicas para prevenção a DST’s, ou precisam?). Está na configuração do Estado brasileiro, que permite a permanência, manutenção e continuidade das desigualdades e não proporciona proteção e isonomia em direitos teoricamente “de todos”, como o de casar e adotar.

Precisamos exercer e vivenciar palavras que soam bonitas no papel, mas que na realidade se vêm pouco aplicadas. Respeito. Aceitação. Empatia. E não aquele “tolerar”, do tipo, “te odeio, mas te suportarei”. Falo do colocar-se no lugar do outro, do aceitar sem julgar, do conviver harmonicamente, harmonia essa que tanto nos falta nesses tempos em que pessoas de uma determinada crença se julgam no direito de impingir aos outros, goela abaixo, seus valores, buscando uma normatização, uma normalização e um padrão de unitarismo que jamais existirá: somos plurais! E é bonito ser plural; é normal ser plural e (se) permitir ser assim, (se) permitir pluralizar, ampliar fronteiras. É normal ser diferente. É SAUDÁVEL ser diferente. E não é motivo de vergonha sair do padrão, quebrar paradigmas. É inadmissível que vivamos numa sociedade em que as pessoas precisem usar máscaras, disfarces e armas por serem o que são. É incabível continuar se pensando numa vivência homossexual introjetada, que busque estar dentro dum padrão de aceitação para que se possa viver em sociedade: respeite a “afetação”; conviva com o “espalhafatoso”; aceite a “masculinizada”; crie empatia com o “afeminado”: todos têm direito à dignidade e o respeito, o direito de ser diferente, transgredir e ir além das convenções, dos padrões forçados, dos paradigmas conservadores, das noções de normalidade, de saudável e de ideal.

“Errado” é quem discrimina, quem não faz autocrítica, quem empurra todos os problemas para o outro. “Vergonhoso” é ter a desonestidade intelectual de produzir e praticar ódios e apontar e sentenciar diferenças, ignorando suas próprias diferenças, advindas da subjetividade de cada ser humano, que não anula seu DEVER de lutar contra injustiças e a iniquidade que assolam a nossa civilização, e evitar que esse ciclo de violência continue a se perpetuar. Isso não se faz só com discurso, mas com pensamento praticado, reflexão e ação. E começa dentro de casa, nas microrrelações que cada um de nós possuímos, e daí se estende ao Estado, que tem, ou DEVERIA TER, a obrigação de dar um fim nos circuitos de ódio e discriminação e garantir dignidade, proteção e respeito àqueles que sofrem diariamente na pele o ônus por ousarem ser diferentes, quebrarem paradigmas e desviarem de padrões tidos como “normais”, aceitáveis.

Esse texto é dedicado a todos os meus conhecidos, amigos e familiares que, na minha frente, dizem que são “de boa” com o assunto, que “não têm preconceito”, mas que circulam imagens e comentários de teor escancaradamente homofóbico, preconceituoso e, por vezes, de uma violência explícita, em redes sociais. A todos que insistem em se colocar no papel de palmatória do mundo, julgando o que é certo ou errado, sem sequer refletir sobre suas próprias questões e “imoralidades”. Ao meu namorado, que me arrancou do armário e me fez refletir sobre minhas vivências e pensamentos, suscitou diversas reflexões, possibilitou uma série de transformações e me fez ter orgulho de ser diferente e de lutar pelo direito à diferença. E, claro, a todos que se arraigam a bandeiras e causas que buscam a justiça e o combate à desigualdade e opressão, sem se envergonhar disso – pelo contrário, tendo orgulho! – e ainda acreditam numa utopia, nem tão utópica assim, de que as diferenças podem, sim, ser aceitas, compreendidas e respeitadas.


Sobre homofobia, discriminação e aquela velha e obscura ignorância

domingo, 23 janeiro, 2011

Um amigo me perguntou algo no FormSpring que me fez parar e refletir um pouco. Transcrevo a resposta aqui, com alguns acréscimos.

A questão dos direitos dos homossexuais é ainda polêmica, infelizmente. Não deveria ser. Porque não era nem para estar sendo discutida; direitos fundamentais não se plebiscitam, se GARANTEM. A homofobia é provavelmente a forma de discriminação mais difundida e aceita entre os brasileiros. Questão de cultura? Eu diria de FALTA de cultura. Porque os homofóbicos têm uma absoluta carência de, entre outras coisas, respeito; ao seu léxico faltou ser inclusa a palavra “dignidade” – atacam a dignidade alheia como cães ferozes, sem querer ofender os cães.

O que leva uma pessoa a discriminar alguém que gosta do mesmo sexo? O que faz com que alguns se excedam ainda mais e agridam fisicamente aqueles ditos “diferentes”? Qual é mesmo a grande diferença entre um heterossexual e um homossexual? Me intriga o fato de que, em geral, uma pessoa vazia e mau caráter e hétero tem mais aceitação do que um sujeito que é trabalhador e brilhante, mas gosta de beijar outros homens; do que uma mulher que é séria e responsável, mas sente atração por outras mulheres; do que uma pessoa que é boa e amigável, mas manda às favas os rótulos e ama… pessoas.

Seria medo, talvez? As pessoas às vezes receiam ver nos outros aquilo que elas mesmas são. As pessoas têm medo do desconhecido, mesmo que esse desconhecido lhes seja estranhamente familiar. Resta discriminar, não é mesmo? Agredir, verbal, fisicamente. Porque isso supre o vazio lá dentro. Porque isso atenua a dor; mas não a afasta, de modo algum. A dor está sempre presente. E o medo. Ah, palavrinha complicada, essa, hein? Porque é preciso muita coragem pra assumir verdades para nós mesmos. E coragem é justo o que falta aos homofóbicos. Quem ousa dizer que é corajoso um indivíduo que agride gratuitamente o outro com uma lâmpada, pelo simples fato desse outro ser homossexual? A verdade dói, não concordam?

Uma pergunta surge: qual o principal combustível desse sistema de ódio e intolerância, a chama que alimenta a discriminação? Nossa sociedade ainda é, de forma lamentável, pautada por dogmas religiosos e moralismos arcaicos. Há uma confusão inaceitável entre Estado e religião; no caso do Brasil, temos uma grande influência cristã – antes majoritariamente católica, mas, com a ascensão das igrejas protestantes, esse cenário agora mudou. Mas a discriminação e a ignorância continuam as mesmas, e, infelizmente, essas religiões ajudam a disseminá-las.

É difícil para boa parte das pessoas aceitar que gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são cidadãos como quaisquer outros; que têm – ou DEVERIAM ter – os mesmos direitos que os demais; que são gente com sentimentos, dúvidas, emoções; em suma, que são SERES HUMANOS, e como tais devem ser respeitados.

A bancada cristã no Congresso se empenha em tentar sabotar os projetos pró-LGBT. Me disseram que o tal do Cristo pregava algo como “amai a todos”; quer dizer então que esse “todos” é seletivo? Que direito tem essa gente de dizer o que é certo e errado? Que poder é esse que lhesatribuem de isolar e perseguir quem não os agrada? Acho que a maioria dos cristãos – digo “maioria” porque conheço vários ponderados -, em vez de combater homossexuais, deveria, sei lá, arrecadar donativos para as vítimas do RJ, envolver-se em projetos de apoio a crianças necessitadas, ou simplesmente cuidar da sua vida. Porque, para ser curto e grosso, ninguém vai obrigá-los a dar o rabo, então por que patrulhar o corpo alheio?

Se deus existisse, por certo não discriminaria nenhum de seus filhos. Então por que vários deles insistem em seguir na contramão daquilo que eles próprios pregam? Ah, sim, esqueci: o “amai uns aos outros”, o “amai a todos”, é seletivo. É amar e respeitar só quem interessa.

Quando as pessoas aprenderem a reter seus preconceitos para si e demonstrarem um mínimo de respeito para com os outros, teremos uma sociedade melhor. Até lá, receio que os homofóbicos terão que engolir a união estável homossexual que vem aí via STF, e também, se tudo der certo, a lei que criminaliza a homofobia.


Sobre religiões, sectarismo, fundamentalismo e conservadorismo

sexta-feira, 26 novembro, 2010

Confesso que, nos últimos tempos, poucas coisas têm me feito rir. Costumava ter crises de riso longas e incontroláveis na adolescência; mas esse tempo já se foi. O mundo real, via de regra, é bem sério. E quem gosta de levar a vida totalmente “na brincadeira” é ingênuo, para dizer o mínimo. Não me entendam mal; não sou uma pessoa “amarga”, como alguém que absolutamente não me conhece disse esses dias. Dar risada é fundamental. Faz bem. Mas tudo tem limite, não? Tem hora pra brincar, e hora de ser sério. E acho que os problemas do mundo não são motivo de piada, mas sim assuntos sérios e preocupantes.

Ontem, estava navegando por esse site curioso que é o Orkut. Tem muita coisa boa lá, acredite. Mas também coisas assustadoras. O advento do mundo virtual parece ter criado a ilusão de que a internet é uma terra sem leis, onde se diz o que melhor lhe aprouver, sem que se arque com as consequências disso. Uma inverdade que às vezes pode custar caro, mas nem sempre, infelizmente. Minhas buscas me levaram a uma comunidade intitulada “Católicos”. Como o leitor do blog já deve ter percebido, religião é um assunto que muito me interessa. Afinal, para se criticar algo, é preciso um mínimo de conhecimento de causa, não é? Pois bem. Me deparei ontem com a dita comunidade e comecei a percorrer os tópicos. Então, tive uma crise de riso, daquelas dignas da minha adolescência. Cheguei a me atacar da asma. Eu ri para não chorar, literalmente.

Acho que poucas vezes vi tanto ódio, ignorância, conservadorismo e fanatismo reunidos num mesmo lugar. Quem me pergunta o porquê do meu horror a religiões em geral pode encontrar uma resposta nessa comunidade. O que aquelas pessoas seguem não é religião, é SEITA. E estou cada vez mais convencido de que o cristianismo não é um conjunto de religiões, mas um amálgama de seitas que se julgam muito distintas umas das outras, mas que, no fundo, tem o mesmo cerne.

Eu pensava que o mundo – mais especificamente, o Brasil – estava caminhando para uma catarse ideológico-social; afinal, elegemos um operário de centro-esquerda após 500 anos de monarquia, falsa democracia e ditaduras. Mas aí vieram as últimas eleições, e, com elas, José Serra, TFP, neonazistas, viúvas da ditadura militar e… o fundamentalismo religioso. Sim, ele ficou lá, escondido em seu recôndito obscuro, esperando o momento oportuno para dar o bote sobre a sociedade. A campanha política de ódio promovida por um sujeito ardiloso e hipócrita – porque José Serra é ATEU, meus amigos, não se enganem – deu ensejo aos nossos velhos (ou nem tanto) fundamentalistas religiosos, que perderam o medo, saíram de seus escaninhos e começaram a espalhar um rastro repugnante de imundície e perfídia.

Aliás, falar em “fundamentalismo religioso” é um contrassenso paradoxal. Fundamentalismo é, por definição, religioso – sugiro a quem duvida disso uma consulta a um bom dicionário. Não existe “fundamentalismo ateu”. O que pode existir é intolerância ateia às religiões, e dependendo do caso, é justificável. Não me venham dizer que é a intolerância ateia é equiparável ao fundamentalismo. Não é, e eu poderia dar vários motivos, o que, inclusive, talvez seja assunto para outro post. Desafio você que está lendo esse texto a enumerar os grandes males que o ateísmo causou/causa ao mundo. Alguém talvez cite o stalinismo, mas isso seria reduzir a questão a uma ótica simplista, porque Stalin foi um lunático que perseguiu indiscriminadamente tudo que era contrário à sua loucura, e não apenas religiosos; em sua sanha por sangue, ele chegou, inclusive, a matar amigos pessoais. Outros podem cair naquele velho senso comum de que os ateus são “maus”; já ouvi dizerem que a grande maioria dos criminosos é descrente. Bem, quando me trouxerem algum estudo sério, com estatísticas e tudo mais, que fundamente essa afirmação, talvez possamos discutir.

Há quem defenda os benefícios das religiões, em especial as cristãs – e meu foco é sempre o cristianismo, por ser o tipo de sectarismo mais influente no mundo ocidental. Dizem que uma pessoa não é completa sem crer; que as igrejas promovem a “solidariedade”; que as religiões limitam o indivíduo, dão a ele um norte, o põe sob controle. Que controle é esse? Pois o que tenho visto por aí é tudo, menos controle. Não vamos generalizar, também. Há religiosos e religiosos; sectários e sectários. E sei que uma parte considerável dos que seguem uma fé doutrinária é gente muito boa, que procura, por vezes, um amparo que não consegue encontrar em qualquer outra coisa. Achar que estou criticando esse pessoal é demonstrar má-fé. Mas, vejam só: alguém pensa mesmo que os formadores de opinião, as pessoas influentes do meio religioso são as ponderadas, as razoáveis? Se fossem, religiosos como Leonardo Boff e Frei Betto não seriam execrados, perseguidos e oprimidos; teriam muito mais espaço. A realidade é bem mais crua.

Quem tem grande poder de influência são os fundamentalistas. Quem transforma religião em seita são indivíduos como Silas Malafaia, Edir Macedo e, claro, o papa hitlerista Bento 16. Não, o Sumo Sacerdote da Igreja Católica não escapa dessa. E aí, voltamos à comunidade “Católicos”. Convido o leitor a dar uma passada por lá. Procure pesquisar sobre assuntos como uso de preservativos, aborto, união homossexual, castidade, submissão feminina. Não vai encontrar nada muito sensato – porque as pessoas sensatas, quando OUSAM expor as falhas do sistema e fazer questionamentos, são sumariamente expulsas. Não é permitido discordar da “doutrina da única Igreja de Cristo”; experimente, por exemplo, fazer qualquer comentário sobre o papa que fuja da veneração cega e doentia e verá o que acontece.

Acho que, caso Cristo realmente existisse, não acharia nem um pouco bonita a “cafetinagem de Jesus” e ficaria triste em ver certos indivíduos dizendo e fazendo atrocidades tendo como fulcro seu santo nome. É fácil pregar a paz e o bem, mas ainda mais fácil fazer o contrário. A paz de deus aos sectários de deus; ao resto, o inferno, dor e toda sorte de horrores. Entendi errado? Acho que não. É o que vários dos membros dessa comunidade pensam. E esses membros não fazem apenas campanhas virtuais; eles existem de verdade – boa parte deles, aliás, atuou efusivamente nas eleições de 2010. Assustador? Sim. Muito. Eu, particularmente, me assusto ao ver um sujeito não muito mais velho que eu pedindo orações para que os jovens “renunciem ao prazer carnal e possam estar voltados a cuidarem da saúde espiritual” durante o carnaval. Me indigno com gente defendendo a demonização da homossexualidade, lutando contra os direitos LGBT, praguejando contra a legalização do aborto, defendendo o uso de véus pelas mulheres durante os cultos; tem uns que chegam a defender a Inquisição, coisa pela qual até a Igreja já se retratou. Esses são apenas alguns exemplos. Há muitos, muitos mais. Perca cinco minutos do seu tempo no fórum; garanto que será esclarecedor.

Sempre costumo dizer que o correto é atacar ideias, e não pessoas. Confesso, porém, que é um trabalho árduo distinguir uma coisa da outra. Porque quase sempre acabam se misturando. Alguns daqueles sectários simplesmente são o que pregam, vivem para aquilo, e todos os seus gestos e ações são voltados para a doutrina. Eu sou ateu, esquerdista e vegetariano, mas também muitas outras coisas; não me parece ser o caso de vários deles, mas tudo bem. Eles lutam pelo que acreditam; eu igualmente o faço. E no que acredito? Acredito num mundo mais justo. Num mundo melhor, sem tanta violência, sem preconceitos explícitos e exacerbados; em suma, um mundo em que impere a empatia e o respeito. Não é utopia. É possível. Mas não é nada fácil de ser implantado.

Enquanto houver seitas, não teremos paz: teremos conflitos religiosos, xenofobia, homofobia, racismo e outros males. Esperar pelo fim das religiões, é, bem, uma quimera. Agora, lutar para que o conservadorismo seja amainado, para que as pessoas desenvolvam maior (auto)crítica e passem a (se) questionar… bem, essa é uma causa que considero fundamental, e acho que vale cada gota de suor empregado. Minha luta não é contra os religiosos, mas contra o sectarismo que tomou conta das religiões. O evangelho apócrifo de Tomé diz que o reino de deus está dentro das pessoas, e não em construções. Me daria por satisfeito se esse pensamento tivesse maior aceitação. Não vou descansar enquanto não levar um pouco de questionamento ao maior número de pessoas possível. Não é apenas um desejo pessoal, mas um dever de alguém com consciência social e que se importa com a coletividade, sem olhar apenas para o próprio umbigo. Pense nisso.