Breve reflexão acerca do Dia Internacional da Mulher

quinta-feira, 7 março, 2013

Oito de março de 1857 marcou a revolta de operárias americanas contra a opressão, a jornada de trabalho excessiva e a desigualdade, tendo seus protestos reprimidos de forma brutal e violenta. Décadas mais tarde, por meio de decisão da ONU, a data ganhou contornos simbólicos e, hoje, nela se comemora o Dia Internacional da Mulher. Virou costume presentear mulheres com rosas vermelhas, e inúmeras campanhas publicitárias, nessa época, são produzidas com vistas a “homenagear” o público feminino. Aí vem a pergunta: que tipo de homenagem estamos fazendo, e com que propósito?

A prefeitura municipal de Porto Alegre, num ato mal pensado, tosco e preconceituoso, lançou uma campanha publicitária com o objetivo de “exaltar” as mulheres. De que forma? Utilizando clichês do tipo “Só uma mulher sabe o valor de um simples chocolate na TPM” ou “Só uma mulher sabe o drama que é estragar a unha logo após sair da manicure”. Isso tudo, é claro, com pilhas de dinheiro público, absurdamente mal empregado. O conteúdo do material publicitário é preconceituoso, vexatório, estigmatizador, sexista e machista, na medida em que perpetua rótulos estereotipados que reduzem a mulher ao papel de idiota e fútil, promovendo uma generalização estúpida que vai totalmente de encontro com os objetivos dos movimentos feministas, que pregam a igualdade entre gêneros e o fim da opressão às mulheres.

Pois esta deveria ser a mensagem do Dia Internacional da Mulher: um chamado à luta pela dignidade, igualdade e isonomia salarial; um apelo ao combate pelo fim da violência sexual, moral e psicológica às quais milhares de mulheres são submetidas todos os dias, inclusive com um número imenso de mortes; e o questionamento das estruturas de uma sociedade patriarcal, machista e sexista, que se arraiga, inclusive, ao poder estatal de modo a manter o status quo de opressão e iniquidade.

Urge que se promova uma reflexão acerca do papel de homens e mulheres na manutenção desse sistema que reifica, objetifica, reduz e reprime as mulheres, tentando enquadrá-las em rótulos, os quais, caso questionados, sofrem sanções as mais diversas. O Estado, ao promover esse tipo de campanha, só demonstra que é sustentáculo e participante de um paradigma conservador e patriarcal, outorgando-se o direito de determinar e regular o que é feminino e como esse feminino deve operacionalizar-se. As mulheres sofrem consequências drásticas, pois, estagnadas em padrões de feminilidade engessados, rígidos e imutáveis, são consequentemente tolhidas da liberdade de ser e vir a ser o que desejarem, devendo, quase que obrigatoriamente, seguir parâmetros pré-estabelecidos, sob a pena de receberem o escracho do Estado e da sociedade.

Isso se comprova na maneira como as pessoas – homens, mas também mulheres – estão, o tempo todo, regulando, policiando e tentando enquadrar o comportamento das mulheres, ditando o que é permitido, adequado, aceitável e “normal”. A mulher é necessariamente frágil, dócil e emocional, tendo, por conseguinte, lugares reservados à sua existência. Aquelas que ousam decidir seus destinos – inclusive o modo como querem exercer a sexualidade – recebem variados adjetivos, todos sexistas ao extremo, como “puta”, “vadia”, “vaca” e “vagabunda”. Evidentemente ninguém xinga homens invocando a sexualidade – a não ser com referências à homossexualidade (“veado”), infidelidade (“corno”) ou impotência (“broxa”). A mulher deve sempre “se dar valor” (os valores aqui são a castidade, a repressão e o número reduzido de parceiros sexuais), ou seja, até que alcance esse imperativo sexista, por consequência lógica, não tem valor algum.

E ainda há quem diga que não existe machismo e o feminismo não é necessário. Ou que são sinônimos, o que é um equívoco tremendo. O machismo é uma práxis que prega a opressão sexista, baseada na ideia de que o homem é superior à mulher e que isso é consequência natural e determinada, enquanto o feminismo defende a igualdade entre gêneros e o fim da violência e tirania contra as mulheres.

Mais do que políticas públicas que afirmem, promovam e divulguem a igualdade de gênero e o fim da opressão – sem incentivar ainda mais o preconceito e a violência -, precisamos promover revoluções micropolíticas, em nossas próprias microrrelações. O corpo é da mulher, e ela faz dele o que quiser. Nenhuma mulher é “vadia”, e é necessário abolir esse tipo de xingamento. “Não” significa “não”, então não insista quando uma mulher recusar uma investida. A culpa do estupro é do estuprador, e NUNCA da mulher; logo, paremos com esse absurdo de querer responsabilizar a saia curta ou a bebida – afinal, como já dito antes, o corpo é da mulher, e ela tem – ou deveria ter – o direito de usá-lo e regulá-lo como bem entende.

Dar-se conta dos próprios preconceitos e limitações é o primeiro passo para deflagrar a mudança de uma sociedade que violenta, mata e reprime suas mulheres, tolhindo-lhes direitos e impedindo que controlem suas vidas, seus corpos e decisões. No Dia Internacional da Mulher, não dê flores: ofereça respeito e atitudes igualitárias. É disso que nosso mundo precisa, e não de mais enfeites, fachadas e engodos que obstruam as verdadeiras questões pelas quais todxs temos a obrigação de lutar.


Sobre feminismo, fatalismo e inquietações

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Texto publicado, também, no blog Escreva, Lola, Escreva.

Confesso que não há bálsamo que alivie meu desconforto ao ter de lidar diariamente com as mazelas da ignorância – palavra que utilizo, aqui, em sua acepção mais ampla, e não no sentido preconceituoso no qual, em geral, é empregada. Falo da ignorância que advém do latim ignorantia: a falta de saber, o desconhecimento, o ignorar. Este que vos escreve não ousa fugir à crítica que faz – lidar com a própria ignorância não é lá algo fácil, ou é? Mas o pior é ignorar, dar-se conta de que está ignorando e, por escolha própria (ou não), permanecer ignorando, chafurdar na lama do desconhecimento autopercebido e consentido. Essa falta de conhecimento salta aos meus olhos quando leio gente falando sobre um assunto que, infelizmente, é tratado como piada por muitos: o feminismo.

Tudo bem que há uma cultura amplamente propagada do “palpiteiro”, da “opinião formada sobre tudo”, do “dominar todos os assuntos” (mesmo que esse “dominar” acabe sendo, por vezes, sinônimo de “verborragia”). Tudo bem que muitos insistem em teimar na afirmação absurda de que feminismo é igual a machismo (!). Tudo bem que um “vlogueiro” famoso, sob uma argumentação que falsamente enaltece a “superioridade das mulheres”, fale uma série de bobagens a respeito de algo que não conhece, ajudando a difundir e perpetuar preconceitos. Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Afinal, as coisas são assim mesmo. Tudo bem?

Não. Colocações como “as coisas são assim mesmo” e “é assim e não vai mudar” fazem parte e resultam em algo que Paulo Freire, em seu clássico “Pedagogia da Autonomia”, apontou como fatalismo, ou fatalidade, que seria essa noção de conformismo, de imutabilidade, de constância obrigatória e sempiterna. Afinal, durante séculos, a sociedade ocidental foi – e vem sendo – pautada pela dominação e opressão masculina sobre as mulheres, implicando, inclusive, a formulação de “fatos” científicos, então pra que mudar? Se as coisas são assim, estão “boas” assim, por que mudar? Basta uma consulta rápida às redes sociais e algo chamará de imediato a atenção de um leitor mais atento, pondo em xeque a ideia exposta pelo Fernando, o “vlogueiro”: a opressão às mulheres e a tentativa de submissão à lógica sexista-machista não são “coisa do passado”. Ao contrário, são bem atuais. Essa ideologia conservadora que propaga que homens são superiores e mulheres devem “se dar o respeito”, que deve haver posições desniveladas e uma estratificação estreita, machista e sexista de papeis de gênero, é muitas vezes mascarada com uma tinta fraca, cuja casca de modernidade pode ser facilmente removida com os pregos de uma leitura atenta, análise das entrelinhas dos discursos e uma visão mais crítica.

Mais preocupante é quando este discurso retrógrado travestido de “cool” impregna o imaginário das mulheres. Sim, tenho observado muitas mulheres (!), principalmente jovens (!!), disseminando acriticamente o vírus da ignorância. Isso é notável quando analisamos discursos afirmando que feminismo é equiparável ao machismo. Ora, sendo o feminismo, resumindo muitíssimo (entenda mais sobre a história do movimento aqui), a luta por igualdade sexual e de gênero e combate à opressão sexista que nos foi imposta pelos interesses de quem domina o capital (sim, me chamem de comunista – como se todas as opressões não servissem a propósitos majoritários), é absurdo compará-lo ao machismo, que pode ser definido como uma expressão do conservadorismo de uma sociedade em que homens, historicamente, dominam e oprimem as mulheres. Esse machismo estabelecido coloca-se como natural, “imutável”, e é aterrador constatar que várias mulheres atestam e coadunam com uma ideologia/ prática que as subjugou e continua a subjugar, relegando-as à condição de “frágeis”, inferiores. Quem faz colocações machistas, mesmo sem perceber, ajuda a retroalimentar um sistema que permite que atrocidades calamitosas ocorram.

Voltando à noção de fatalismo, Paulo Freire expõe que esse conformismo é um dos principais inibidores do ativismo político. Afinal, que condições uma pessoa terá de contestar e erguer-se politicamente se a noção de que as coisas são como são e não podem (nem devem) ser modificadas está enraizada na cultura e na prática do dia-a-dia? Tal noção passa, quase sem nenhuma contestação, de pai para filho, ou, pior ainda, de mãe para filha. Em pesquisa da qual fui integrante, como auxiliar de pesquisa, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da PUCRS, observei, analisando material bibliográfico sobre o tema, que as noções de fatalidade e inibição do ativismo político por meio da conformidade são praticamente ausentes nas publicações acadêmicas. Até que ponto ignorar essa questão não é uma forma de fatalismo? Pois, já que as coisas são assim mesmo, por que, então, estudá-las e – credo! – criticá-las? As críticas a essa construção social (que, como toda construção, pode – e deve – ser reconstruída) é coisa de gente idealista, “esquerdista”, que “não tem mais o que fazer da vida além de reclamar” – como já tive que ouvir certas vezes.

Outro dado observado diz respeito ao perfil dos autores do pouco material obtido sobre a noção de fatalismo. Ou melhor, autoras. Sim, o assunto é (pouco) discutido, majoritariamente por mulheres, geralmente acadêmicas exercendo a docência em grandes universidades, e quase sempre dentro das ciências humanas (apesar de eu ter encontrado este interessante texto criticando o sexismo dentro das ciências biológicas). Já fui interpelado por pessoas curiosas quanto ao fato de um homem ter se envolvido num estudo destes, inclusive ouvindo deboches e piadinhas. Porque feminismo é coisa de mulher que não tem o que fazer, então deixemos que essas “radicais” estudem suas próprias elucubrações distorcidas e nada condizentes com a realidade, não? Ignoremos o fato de que as maiores prejudicadas pelo fatalismo são as próprias mulheres, que acabam, por vezes, absorvendo esse discurso-prática conservador, retrato da sociedade ocidental, em que as mulheres são reificadas, “coisificadas”, são vistas como objetos sem grandes capacidades cognitivas, são necessária e obrigatoriamente “sentimentais” e incapacitadas de traçar seus destinos, ou mesmo de decidir o que fazer com o próprio corpo.

Não é meu objetivo aqui fazer crítica ao fato de que a maioria das pesquisas relativas ao feminismo é feitas por mulheres; justo o contrário: desejo apontar para a gravidade da omissão dos homens frente a um assunto que lhes diz respeito diretamente. Uma mudança na postura masculina em relação ao tema colaboraria para a desconstrução desse padrão opressor. Almejo expor, ainda, o perigo causado pelo conformismo em relação à desigualdade de salários entre homens e mulheres, a violência sexual e os abusos a que as mulheres são submetidas, fatos que não devem ser sequer criticados, quanto mais combatidos, já que “as coisas são como são” e não irão mudar. O processo de mudanças, de desconstrução e reconstrução de modelos e paradigmas socioculturais e engajamento em lutas políticas é dificultado, obnubilado e, por vezes, acaba por estagnar-se devido a esse conceito fatalista.

Trago estas colocações e questionamentos à baila para suscitar algumas reflexões – e, claro, ainda mais questionamentos, porque, a meu ver, é a inquietação a engrenagem de toda e qualquer mudança. Será que “inocentes piadas” sobre estupro não colaboram para a manutenção desta concepção machista, elitista e sexista de sociedade? Em qual grau? Até que ponto comentários cotidianos – que muitas vezes “passam batidos”, num processo de imersão e incorporação ideológica aperceptível – sobre a aparência de uma advogada não colaboram para a reificação do feminino e, consequentemente, para a reprodução do preconceito e da ideologia fatalista? E quando esses comentários são feitos por mulheres, não seria isso ainda mais grave? Quão preocupante é a constatação de que as mulheres se inibem/são levadas a se inibir politicamente, não se empoderando de seu próprio corpo, seu próprio mundo, seu próprio destino e não contestando uma noção que cria/ mantém/ fomenta um sistema que as oprime há séculos? E, fundamentalmente: quais causas levam ao/ inibem o ativismo político e sustentam a ideologia fatalista? Cabe acionar as engrenagens da mudança e pensar a respeito destas e outras questões envolvendo feminismo, fatalidade e ativismo. Não só pensar, mas agir. Pois o machismo não é “imaginação” nem “coisa do passado”, mas uma metralhadora que mantém nossa sociedade refém de seu próprio sistema ignorante, desigual, desagregador, fragmentário e omisso.