Política, psicologia e relações de poder

sexta-feira, 17 outubro, 2014

Às pessoas que insistem em despolitizar a psicologia e que não querem discutir o impacto das eleições na psicologia: psicologia e política são campos distintos, mas absolutamente interligados e interdependentes. A quem duvida da influência da política e da economia sobre a psicologia, sugiro esperar até que, em uma próxima crise econômica, seus consultórios estejam absolutamente esvaziados, e a procura pelos postos de trabalho na saúde pública, assistência social e sistema prisional, já em alta, se acirre ainda mais devido à suposta segurança do concurso público.

Aécio Neves é claramente a favor do Ato Médico, bom defensor dos corporativismos que é. Dilma Rousseff, com todas as críticas que tenho a ela, optou, pelas mais diversas razões, por se contrapor ao Ato Médico. Isso são fatos. O Ato Médico não é uma simples regulamentação do que seriam ou não exercícios exclusivos da medicina, mas um fundamento legal para soterrar o trabalho interdisciplinar e elevar a categoria médica àquilo que ela historicamente advoga ser: superior ao “resto”.

Não é algo pessoal ou privado contra um ou outro profissional “bom” ou “mau”, mas sim uma relacional institucional e um embate entre forças políticas distintas dentro da esfera da saúde. A classe médica é doutrinada a agir como a senhora absoluta da saúde. Urge fazer contraposição a esta lógica, sob pena de aniquilar o funcionamento dos equipamentos estatais de garantia do direito à saúde. E não se enganem: foi vetada uma tentativa, mas novos atos médicos começam a grassar no Congresso, muito mais violentos que o primeiro, e se não permanecermos atentos, sofreremos novos golpes que impedirão a autonomia da nossa profissão e desqualificarão ainda mais nossas condições de trabalho no SUS, só pra citar um exemplo.

Quanto ao que alguns dizem, sobre “se preocupar com a baixa remuneração das psicólogas e psicólogos em vez de criticar os médicos”, sinto dizer que esta realidade está intrinsecamente atrelada à hegemonia da classe médica sobre as demais. Enquanto, em algumas cidades, um médico ganha 4 mil para 10 horas, o psicólogo ganha 1200 para 40 horas, e isso não é à toa. Afinal, gestores e políticos que acham que não devemos nos preocupar com política, grupos hegemônicos, disputas de poder e relações institucionais são justo aqueles que penduram sobre nós a Espada de Dâmocles e têm nas mãos a discricionariedade de supervalorizar uns e soterrar outros. Pense nisso antes de se posicionar.

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