De nihilo nihilum

sexta-feira, 14 outubro, 2011

Não passou de um traço, um vestígio tênue, quase imperceptível; mas eu percebi. As coisas ocultas me atraem. Desde o momento em que fui lançado às cinzas, ao mundo plúmbeo, foi-me ocultado tudo; e o tudo foi moldado à imagem do inexplicável, uma estátua picaresca do inexistir – fiz do tudo um nada. Nada ofuscará o que já nasceu apagado.  E eu tentei apagar a reminiscência daquele sinal. Mas não houve jeito. Não era para ser. Fatalista? Catalítico, melhor dizendo. Fundi-me a essências escusas, aviltando o que sobrara de límpido nas águas da consciência. Entreguei-me às prazerosas sevícias do incompreender. Apostasia de mim.

Fragmentei o ser; trouxe à mente um desejo perverso, uma sanha insopitável por aniquilação; fragmentando o ser, concretizo o desejo perverso – aniquilação, amálgama da ira e do eu-afastado-de-mim. Compareço ao festival da abiose: um brinde à desconstituição da luz, aquela luz de fim em si própria: não tente ofuscá-la, ou será consumido por sua chama cintilante. Pode parecer inócua, a princípio, mas ela o devorará. Eis meus resquícios como prova. Resignação de mim.

Com os olhos abertos diante do desfiladeiro, me despojo de quaisquer armaduras e sigo adiante. Não passou de um brevíssimo instante, mas eu percebi. Em vez de cair, ascendi. Às maravilhas do olvidar. Esquecer para lembrar. Lembrar para então ocultar o brilho. Aquele que ofusca o tudo. E tudo parece tão distante. Memórias difusas vagando pelos trilhos do tempo. Aqui o tempo para. Aqui as ondas quebram. Profanação de mim.

Mas uma verdadeira ascensão tem sempre uma queda no seu encalço. Desfaleço no abismo do inexplicável. Ao voltar a mim – ou aquilo que eu deveria ser –, estou cercado por um exército daquelas estátuas picarescas do inexistir, os dedos em riste apontando para meu coração, ou para o buraco no lugar em que ele deveria bater. Contemplo-as com pasmo e admiração: alguém se dirige a mim, eu sou o alvo, o objeto. Nem que seja para prenunciar o fim. A morte é como um lar. Omissão de mim.

Antes do grande ocaso, mergulho nas profundezas de mim – ou aquilo que jamais serei. Uma luz brota lá dentro, pronta para jorrar e afogar o mundo nas mais desmedidas quimeras. Mas seria tolice lhe dar vazão: por trás da cortina ilusória, o semblante do vazio, arauto do brilho que há de me ofuscar. Redundância: não se ofusca o que já nasceu apagado. E eu cruzei oceanos de sangue para apagar a reminiscência daquele sinal. O sinal que por tanto tempo eu quis negar. As armas do espírito renegado. Quebradas, inúteis e ofuscadas. O tudo, em si, ofuscado. O tudo é perene, e assim é o nada. Nada para lembrar, sentir ou almejar. O brilho se extingue. Abnegação de mim.

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A fabulosa hecatombe existencial

quarta-feira, 31 agosto, 2011

“In that final look, does the deer forgive the wolf?”

Otep – Head of Medusa

A corda se rompeu. O laço que nos unia era frágil e previsivelmente esmoreceu; o tempo desgasta tudo, não? Tudo, exceto o ódio que nos avilta, essa centelha fraternal que ainda nos une. Nós, os pretensos intocáveis. Nós, os protótipos frustrados de um martírio sem fundamento; almejávamos ser a palmatória do mundo e colhemos um fruto amargo chamado decepção. Decepção mata, mas a morte nos é íntima; seu perfume podemos distinguir à distância e seu sabor mora em nossas línguas. Línguas bífidas, venenosas – a cobra em mim pronta para te abater e então ser devorada pelos resquícios do que sobrou de ti.

A bem da verdade, não sobrou muita coisa. Talvez um vazio inconstante, incôngruo e amotinador: preenche-me! dá-me um alento, nem que seja um fiapo de luz! Preciso de luz para mascarar a verdade, ocultar a sombra e a incerteza; ou seria para expor? Me expor. Nos expusemos demais. E a corda acabou se rompendo. Ou seria mais oportuno dizer “foi rompida”? Tua lâmina é cega, mas meu âmago é porcelana negra, fácil de romper. Rompemos a corda, o laço e as sensações que de tão ah, meu amor, te quero pra sempre, acabaram se encaixando na definição do nosso caminho: efêmero. Porque tudo é efêmero, só depende do ponto de vista. E meus olhos estão nublados de cegueira.

A dissonância nos afastou. E me afastou. De ti, de mim mesmo, do mundo. A total dissonância entre ser, sentir e (fingir) viver lançou manchas negras no lindo quadro da existência. Conta-me sobre tua existência, teus sonhos e delírios, que aqui, do alto do meu trono de éter, tenho condições de julgar, troçar e destroçar teus relatos de um nível muito superior ao qual estávamos atrelados anteriormente. Níveis desiguais, desejos desiguais, seres desiguais. Somos desiguais. Todos caminhando numa direção. O penhasco ao fim da fabulosa trilha existencial leva até aqui. Cá estou, com meu cetro e coroa invisíveis, pronto a bramir ordens que só serão ouvidas por mim e meu exército de fantasmas rancorosos. Te ordeno: ajoelha, sacia meu desejo. Qual o teu desejo, meu senhor? Tu. Mas senhor, estás falando contigo mesmo. Teu desejo é…

Redesenhar o quadro. Livrá-lo de toda e qualquer mácula. Mas caminhos imaculados são ilusões. As manchas insistem em nos perseguir, cada passo deixando um rastro maior que o outro. Um rastro denso, cheio de raiva, ira e ambição. Diz-me o que tu almejas e te darei. Mas, por favor, não pede que eu me entregue. Já fui consumido pelas agruras desse percalço agre. De mim, só posso doar uma flama tênue e singela. A ti. A mim mesmo. Que o fogo das portas que incendiarei ilumine meu caminho.