Setembro Amarelo, suicídio e a saúde mental da população LGBT

quarta-feira, 28 setembro, 2016

Na esteira do Setembro Amarelo, campanha que busca a prevenção do suicídio e valorização da vida, gostaria de fazer algumas considerações sobre a saúde mental da população LGBT. A ciência psicológica vem produzindo uma vasta literatura sobre os efeitos do estresse crônico a que pessoas LGBT são submetidas diariamente por terem a ousadia de serem quem são em um contexto social invalidante e hostil. Essas pessoas estão sujeitas a escores alarmantes de preconceito, com consequências fisiológicas diretas e desfechos psicológicos negativos.

Há uma relação cruel entre experiências de discriminação, expectativas de rejeição e homofobia/transfobia internalizadas. Os impactos não são apenas simbólicos, subjetivos. São materiais. São concretos. As pessoas sentem na pele a ferida do estigma, do ódio, da incompreensão, da apatia. Há pesquisas que apontam que a expectativa de vida de pessoas LGBT é reduzida em ambientes explicitamente contrários à diversidade sexual e de gênero, colocando essa população em risco para mortes por suicídio, homicídio e doenças cardiovasculares.

Existem achados que apontam que jovens LGBT que experienciam preconceito e rejeição no ambiente familiar estão oito vezes mais propensos a tentativas de suicídio. Mulheres lésbicas estão sujeitas à objetificação e auto-monitoramento persistentes, podendo ocasionar risco para transtornos alimentares. Ainda, os níveis de depressão, ansiedade, abuso de substâncias, tentativas de suicídio e suicídios consumados entre pessoas não-heterossexuais e não-cisgênero mostram-se simplesmente assustadores, e têm sido apontados por várias investigações.

As barreiras de acesso da população trans à saúde são diversas e carecem de um olhar mais cuidadoso pelos formuladores de políticas públicas e pelos próprios pesquisadores no contexto brasileiro. Ao antecipar o preconceito, travestis e pessoas trans deixam de frequentar os serviços de saúde; quando frequentam, são maltratadas e rechaçadas. Boa parte das pessoas trans recorre à prostituição como única forma de sobrevivência, pois não têm acesso à educação formal, redundando em portas fechadas no mercado de trabalho.

De 2008 a 2013, foram reportados 539 assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil; esses números provavelmente são maiores, pois a subnotificação parece ser grande. No ambiente escolar, o bullying com viés de orientação sexual é uma experiência comum entre jovens gays, lésbicas e bissexuais; relatos de assédio, agressões físicas, perseguições, entre outras situações abusivas, são mais comuns do que gostaríamos de imaginar. As situações anteriores são apenas ilustrações dos agravos a que a população LGBT, em todos os seus segmentos, está exposta.

Uma vida de medo, abandono, vulnerabilidade e agressão pode gerar cicatrizes psicológicas profundas. As repercussões deletérias do preconceito e da discriminação não são conversa de defensores da “ideologia de gênero”, mas evidências baseadas numa série de estudos robustos e na vivência cotidiana e sistemática das pessoas vítimas desse processo de produção de morte. É isso que, no fim, o estigma, o preconceito e a discriminação produzem: morte subjetiva, social e física.

Cabe refletir: qual o papel de cada um de nós na perpetuação da violência e na possibilidade de mudar esse cenário? Qual o papel do Estado, das comunidades, das famílias e das instituições diante dessas demandas? Defender a construção de vidas mais dignas, vidas mais “vivíveis”, é um imperativo ético. Precisamos abandonar o paradigma da morte e da vulnerabilização, não em direção à tolerância, mas à aceitação, cuidado e respeito.

É um dever da sociedade lutar por outras trajetórias possíveis para quem não se encaixa no padrão; é um dever cruzar o limiar da indiferença em direção a posturas mais empáticas. A diferença está colocada na humanidade enquanto um fenômeno complexo. A vida é plural, diversa, múltipla, abundante, multifacetada. A diferença precisa ser reconhecida, afirmada, validada e reforçada. Aquilo que diverge do que somos não deve nos ameaçar ou anular, mas engrandecer, qualificar.

É possível produzir potência na diferença. Não somos todos iguais e não precisamos ser, porque a vida é mais leve e permeável quando é diferente. Precisamos de políticas públicas que garantam os direitos básicos da população LGBT, que garantam o direito à diferença. A categoria de profissionais da psicologia precisa receber treinamento e formação em gênero e sexualidade; há evidências de que profissionais sem preparo podem não só não ajudar, como provocar danos a pessoas já bastante vulnerabilizadas.

Para além disso, precisamos ter mais curiosidade e sensibilidade, buscando aguçar o olhar para as singularidades das experiências de gênero e sexualidade. A psicologia vem construindo teorias e ferramentas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da população LGBT e construir uma sociedade com mais respeito e empatia.

É preciso promover processos de resiliência, de fortalecimento de vínculos, de construção de redes afetivas, de reforço do apoio familiar. A população LGBT precisa ter condições de se reestruturar cognitiva, comportamental e emocionalmente, a ter outras visões de si, do mundo e do futuro. E todos nós precisamos nos implicar nisso: na aceitação radical da diferença e na solidificação de um futuro com menos discriminação e mais possibilidades.

A vida pode ser mais valiosa. Cada pessoa é preciosa e especial à sua maneira. Você, que se sente discriminado, vulnerável, sem perspectiva: você não está sozinho. Procure ajuda na sua rede de amigos; procure apoio profissional. É possível superar a desesperança; é possível reinventar sua história e construir uma existência cheia de valor. A vida faz mais sentido quando pintada com diversas cores.

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* Para pessoas que moram em Porto Alegre e Região Metropolitana, eu sou psicólogo, psicoterapeuta e realizo em consultório particular atendimento psicoterápico afirmativo para a população LGBT, bem como acompanhamento psicológico para o processo transexualizador. Caso precise de ajuda, entre em contato comigo: Ramiro Figueiredo Catelan | CRP 07/26017 | ramirocatelan@gmail.com | (51) 9155-5327

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* Algumas referências usadas para compor este texto:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Bockting, W. O., Miner, M. H., Swinburne Romine, R. E., Hamilton, A., & Coleman, E. (2013). Stigma, mental health, and resilience in an online sample of the US transgender population. American Journal of Public Health, 103(5), 943-951.

Costa, A. B. (2015). Vulnerabilidade para HIV em mulheres trans brasileiras. (Tese de Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Dickey, L. M., Reisner, S. L., & Juntunen, C. L. (2015). Nonsuicidal self-injury in a large online sample of transgender adults. Professional Psychology: Research and Practice, 46, 3-11.

Herek, G.M., & Garnets, L.D. (2007). Sexual orientation and mental health. Annual Review of Clinical Psychology, 3, 353-375.

Lick, D. J., Durso, L. E., & Johnson, K. L. (2013). Minority stress and physical health among sexual minorities. “Perspectives on Psychological Science, 8”, 521-548.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129, 674-697.

Meyer, I.H. (1995). Minority stress and mental health in gay men. Journal of Health and Social Behavior, 36, 38-56.

Ryan, C., Huebner, D., Diaz, R. M., & Sanchez, J. (2009). Family Rejection as a Predictor of Negative Health Outcomes in White and Latino Lesbian, Gay, and Bisexual Young Adults. Pediatrics, 123(1), 346-352.

Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.Transgender Europe. (2013). TDOR Press Release. 13 nov. 2013.


Política, psicologia e relações de poder

sexta-feira, 17 outubro, 2014

Às pessoas que insistem em despolitizar a psicologia e que não querem discutir o impacto das eleições na psicologia: psicologia e política são campos distintos, mas absolutamente interligados e interdependentes. A quem duvida da influência da política e da economia sobre a psicologia, sugiro esperar até que, em uma próxima crise econômica, seus consultórios estejam absolutamente esvaziados, e a procura pelos postos de trabalho na saúde pública, assistência social e sistema prisional, já em alta, se acirre ainda mais devido à suposta segurança do concurso público.

Aécio Neves é claramente a favor do Ato Médico, bom defensor dos corporativismos que é. Dilma Rousseff, com todas as críticas que tenho a ela, optou, pelas mais diversas razões, por se contrapor ao Ato Médico. Isso são fatos. O Ato Médico não é uma simples regulamentação do que seriam ou não exercícios exclusivos da medicina, mas um fundamento legal para soterrar o trabalho interdisciplinar e elevar a categoria médica àquilo que ela historicamente advoga ser: superior ao “resto”.

Não é algo pessoal ou privado contra um ou outro profissional “bom” ou “mau”, mas sim uma relacional institucional e um embate entre forças políticas distintas dentro da esfera da saúde. A classe médica é doutrinada a agir como a senhora absoluta da saúde. Urge fazer contraposição a esta lógica, sob pena de aniquilar o funcionamento dos equipamentos estatais de garantia do direito à saúde. E não se enganem: foi vetada uma tentativa, mas novos atos médicos começam a grassar no Congresso, muito mais violentos que o primeiro, e se não permanecermos atentos, sofreremos novos golpes que impedirão a autonomia da nossa profissão e desqualificarão ainda mais nossas condições de trabalho no SUS, só pra citar um exemplo.

Quanto ao que alguns dizem, sobre “se preocupar com a baixa remuneração das psicólogas e psicólogos em vez de criticar os médicos”, sinto dizer que esta realidade está intrinsecamente atrelada à hegemonia da classe médica sobre as demais. Enquanto, em algumas cidades, um médico ganha 4 mil para 10 horas, o psicólogo ganha 1200 para 40 horas, e isso não é à toa. Afinal, gestores e políticos que acham que não devemos nos preocupar com política, grupos hegemônicos, disputas de poder e relações institucionais são justo aqueles que penduram sobre nós a Espada de Dâmocles e têm nas mãos a discricionariedade de supervalorizar uns e soterrar outros. Pense nisso antes de se posicionar.


Formação em Psicologia e estruturas curriculares: problematizando lacunas e visibilidades

sábado, 20 abril, 2013

Como a formação dos cursos de Psicologia prioriza certas áreas e negligencia outras e quais as consequências disso.

 

A representação social da figura do psicólogo como profissional autônomo e liberal, exercendo a atividade clínica privada em consultório particular, foi o que me fez – e, acredito, à maioria dos meus colegas – optar pela Psicologia logo após abandonar o Direito. Chegando à sala de aula, pude ver que a Psicologia, até então restrita conceitualmente para mim, é uma ciência tão abrangente e complexa, com teorias, modelos, conceitos, práticas e ideologias diversas e divergentes, que seria mais apropriado falar em Psicologias, no plural. Com o espectro do que é ser psicólogo já ampliado em mim, pude perscrutar – e continuo perscrutando – novos horizontes na minha trajetória de estudante. E isso me levou, depois de algumas leituras sobre a história da profissão, especificamente no contexto brasileiro, a querer problematizar uma questão que, ao meu ver, é fundamental: a da formação dos psicólogos nas universidades brasileiras.

Procurando não me restringir ao ambiente e à realidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, da qual sou aluno, tenho feito, a título de curiosidade, buscas pelas diretrizes, ementas disciplinares e estruturas curriculares dos cursos de Psicologia em âmbito nacional. Cada faculdade tem suas peculiaridades e especificidades, dando ênfase a uma ou outra área dentro das inúmeras existentes, a partir de óticas e paradigmas distintos. Uma coisa, porém, me chamou mais a atenção: uma certa tendência, principalmente de faculdades “menores” – ou seja, com uma estrutura menos complexa, como faculdades “unidisciplinares” e alguns centros universitários – de dar menos importância, em seus currículos, à Psicologia Social, Psicologia Comunitária, Saúde Coletiva e Políticas Públicas, caracterizando uma lacuna marcante.

No meio da busca, me deparei com faculdades em cujos currículos havia, no máximo, uma cadeira de Psicologia Social – pelo visto colocada ali apenas a título de disciplina básica inicial. Cheguei a ver algumas que não tinham absolutamente nada de Psicologia Social ou Comunitária em seus programas; outras abrangiam, nas ementas, vários conteúdos numa disciplina só; houve também as que sequer mencionassem questões de Saúde Coletiva e especificidades do contexto latino-americano e brasileiro, dedicando o texto da ementa a conteúdos ligados à Psicologia Social Européia.

É preciso citar também a lacuna muito expressiva, durante essa investigação amadora, de questões ligadas a gênero e direitos humanos. Em algumas faculdades menores, conteúdos ligados à Psicologia Organizacional tomavam conta dos currículos, não só nas chamadas ênfases curriculares, mas reservando disciplinas inteiras a conteúdos que, mais adiante fui pesquisar, são oferecidos em nível de pós-graduação. Já outras eram direcionadas à Psicologia Clínica, priorizando as abordagens de orientação psicanalítica; em alguns cursos, abordagens psicoterapêuticas como as cognitivo-comportamentais e humanistas-existenciais-fenomenológicas sequer são mencionadas. Aí me veio o questionamento: que tipo de profissionais estamos formando, em qual contexto e com qual direcionamento de atuação?

Saliento a questão do contexto porque, ao acessar algumas diretrizes curriculares mais antigas, pude notar que, hoje em dia, a formação continua, com pequenas alterações, voltadas para dar visibilidade às mesmas vertentes: Psicologia Clínica, Avaliação Psicológica e Psicologia Organizacional, todas áreas muito importantes e pelas quais tenho interesse. Mas a pergunta que ficou é: porque estas Psicologias são mais valorizadas em detrimento de questões mais relacionadas ao contexto social e à coletividade? O que faz com que disciplinas como Psicologia Social sejam jogadas para o início do curso e muitas vezes não estudadas ao longo do resto da formação? Porque, quando não ocorre isso, os conteúdos são condensados em duas ou três disciplinas “basiconas”, em geral vistas, também, no começo do curso? Porque muitos cursos, cuja proposta é ser “generalista”, enviesam tanto seus currículos ao ponto de omitir vários outros conteúdos?

Creio que é impossível tratar desses temas sem refletir sobre o histórico da Psicologia no Brasil. A lei 4119 de 1962, que regulamenta a profissão de psicólogo no País, foi promulgada num período conturbado, às vésperas de uma ditadura civil-militar-empresarial que nos flagelou durante quase três décadas e que deixou diversas marcas em variados âmbitos da sociedade. Inclusive na formação dos psicólogos, que é a proposta de discussão que venho tentando fazer. O “boom” desenvolvimentista ocorrido na década de 60 propiciou, segundo as professoras Neuza Guareschi e Helena Scarparo*, que a classe média usufruísse dos serviços psicológicos colocados à sua disposição, eminentemente de natureza clínica e privada, ou, ainda, voltada para a seleção de pessoal em empresas. Isso se deu numa época em que o acesso à saúde, pela maioria da população, era precário – as lutas que dariam origem ao Sistema Único de Saúde estavam engatinhando. Especificamente tratando-se de práticas de saúde mental, pode-se deduzir que tinha acesso a estas quem podia pagar, ou seja, poucos. As práticas psicológicas pareciam convergir com as necessidades de uma certa elite, privilegiada economicamente, excluindo os demais de ter suas demandas atendidas.

Nos encontramos, hoje, em outro contexto, outra época. Por que, então, as práticas mudaram, mas nem tanto? O serviço público, voltado às áreas da saúde e assistência social, é um dos maiores empregadores de psicólogos**. Deduzir-se-ia que a formação profissional teria que, no mínimo, dar mais atenção a isso, preparando os estudantes para trabalhar nestas áreas e permitindo a sensibilização quanto à importância das questões relacionadas à Psicologia Social Comunitária e Saúde Coletiva. Mas não é isso que parece acontecer, como já exposto no começo do texto. Pergunto de novo: por quê? Qual a relação de nossas práticas atuais com as práticas do passado? Por que temos tantos jovens recém formados frustrados por não conseguirem colocação direta no âmbito clínico, sendo que passaram a faculdade inteira estudando a respeito do setting terapêutico e das teorias psicanalíticas voltadas exclusivamente para o indivíduo, muitas vezes descontextualizado da sociedade, da economia e da realidade nas quais está inserido? Por que pouco se debatem questões de gênero e quase nada se fala sobre direitos humanos? Nossa história enquanto categoria, de fato, atravessa nossas posições atuais? Creio que sim, pois acredito na história como produção do presente. Aliás, a própria disciplina de história parece, infelizmente, ser ignorada e desprezada por muitos alunos. Nunca vou me esquecer de uma colega que um dia me disse que “não queria saber de história” (sic), já que estava ali para “aprender como que as pessoas ficam loucas e como se trata os loucos” (sic). Será que a fala dessa colega é isolada, descontextualizada, ou reflete uma ideologia construída não só por meio do imaginário popular – na qual o psicólogo é um clínico particular, de orientação psicanalítica, sentado à beira de um divã, dotado do poder de cura e detentor, junto à Psiquiatria, do monopólio sobre a loucura – mas também pelas práticas consolidadas na academia?

Atentemos ao fato de que não almejo menosprezar quaisquer áreas. Eu próprio tenho muito interesse em Psicologia Clínica e estou, inclusive, fazendo um aperfeiçoamento na área. Aqui falo do lugar de curiosidade e questionamento, pois me incomoda que questões relacionadas à história, formação e currículos sejam, ao menos pela minha experiência em âmbito acadêmico, pouco debatidas, conversadas, problematizadas. Deixo este texto com a intenção de suscitar, em meus colegas estudantes e nos próprios profissionais já formados, pensamentos e reflexões em relação aos temas expostos, pois acredito que, quando certos aspectos da realidade são naturalizados, sem a possibilidade de diálogo, problematização e questionamento, corremos o risco de continuar perpetuando práticas muitas vezes equivocadas, acríticas, retrógradas e até perigosas.

* http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe2/a2519ns2.pdf

** http://www.crprs.org.br/noticias_internas.php?idNoticia=1706