20 de setembro e a farsa do Movimento Tradicionalista Gaúcho 

sábado, 19 setembro, 2015

20 de setembro tá aí, e a gente, mais uma vez, precisa sentar e conversar. Costumo patinar no Gasômetro, em Porto Alegre, todo fim de semana. Tenho evitado ir durante este mês, pois quando o fiz, recebi olhares fulminantes e ameaçadores com os quais não estou acostumado naquele espaço, porque sou gay e não sou obrigado a andar dentro dos padrões que me impõe. Devo essa sensação de medo e insegurança em volta do acampamento farroupilha ao Movimento Tradicionalista Gaúcho. 

Essa organização é um grande engodo sustentado num mito fundacionista frágil conceitual, histórica e epistemologicamente, calcado em figuras de autoridade mais frágeis ainda, o chamado Grupo dos 8. A maioria dos seguidores sequer tem noções básicas sobre a cultura fantasiosa, inventada e distorcida que defendem com unhas e dentes, e se recusam terminantemente a discutir sobre, como se fossem parte de uma seita religiosa, e isso é responsabilidade de uma política pública de educação que se recusa a pautar o estudo científico da história, baseado não no mito, mas nas evidências e na crítica. 

Cultuam uma revolta perdida, capitaneada por estancieiros senhores de escravos cujos únicos interesses eram a manutenção dos próprios privilégios. Essa “revolução”, cujo objetivo, curiosamente, era preservar o status quo, derramou sangue de gente pobre e negra, mas muitos seguem reproduzindo histórias fragmentadas e distorcidas como se fossem verdades incontestáveis. 

Perpetuam um discurso machista, sexista, homofóbico, intolerante, bairrista, belicista. Muitos – não todos os – apoiadores do movimento são embaixadores do moralismo, do conservadorismo, do racismo, do patriarcado, da submissão feminina, do desrespeito à diferença, do ódio a gays, lésbicas, a quem ousa divergir da heteronormatividade. Sequer conseguem lidar com divergências dentro do próprio movimento: expulsam, segregam, caluniam, perseguem e incendeiam. 

Fazem cosplay de Paixão Côrtes durante todo mês de setembro, sem pensar sobre a violência simbólica que carregam essas vestimentas. Vamos parar e repensar as coisas como elas estão – não como elas são – ou seguir festejando distorções históricas e mentiras nas quais nos fizeram acreditar?

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Uma breve reflexão sobre o bairrismo

quarta-feira, 2 dezembro, 2009

É. Mais um longo tempo sem posts… estou em época de provas, em que o ritmo de leitura e escrita se torna, é claro, bem menor. Aliás, falando em escrita, há uns dias consegui romper um bloqueio de meses, ao escrever os primeiros parágrafos de um conto. O tema? Uma crítica sutil àquilo que chamam de “o sul é o meu país”; tudo regado com muita fantasia – o resultado está ficando interessante.

Aproveitando a deixa, apresento agora uma reflexão que foi publicada em meu antigo blog há uns meses, agora numa versão um pouco diferente.

Lá por junho deste ano, um comentário feito por mim em classe após uma das apresentações de um trabalho de Sociologia incendiou a minha turma da faculdade, que me pareceu massivamente contra a manifestação da minha opinião e o conteúdo da mesma. O resultado foi mais ou menos previsível: a tal “discussão” não levou a nada.

Eu não sou qualquer tapado, qualquer idiota alienado (como uma considerável porcentagem dentro da minha sala e da PUCRS como um todo), e afirmo que, pra discutir comigo, tem que ter argumento, sustentação e embasamento. E, sim, pode chamar de arrogância. Se arrogância é não gostar de discutir com gente que não tem as características citadas, então eu sou arrogante. Mas, parando para pensar agora, aquele definitivamente NÃO É um ambiente para esse tipo de discussão. Talvez, também, eu tenha me exaltado um pouco, ou me expressado de maneira errada. Mas a perspectiva da discriminação aberta e do bairrismo me deixam claramente nervoso.

O tema do trabalho era para ser os localismos – a preservação das culturas regionais, o amor à sua querência, o orgulho de seu estado. Só que o enfoque – aliás, enfoque coisa alguma: a totalidade – do trabalho versou sobre o nosso estado, o Rio Grande do Sul. Até aí, nenhum problema. O trabalho, em si, foi bem feito e bem apresentado – não é esta a queixa. Esta incide sobre o fato de uma boa parte dos gaúchos confundir o amor pela terra onde nasceu com uma idéia infundada, infantil e grotesca, que é a do bairrismo.

Pensamentos como “o sul é o meu país”, “os gaúchos são os melhores” e “movimento separatista já” soam inocentes apenas para aqueles que têm vendas sobre os olhos. Para mim, isso é um instrumento de segregação. Instrumento de ódio. De discriminação sem alicerce nenhum, que não seja o da pura e simples defesa de um conceito ultrapassado de que o povo daqui é superior, “somente por ser superior”. Sim, isso mesmo. Listinhas de justificativa de como nossas mulheres são belas, os times são bons, o clima é superior e outras bobagens não são argumentos válidos; ao menos, não para mim. Um orgulho sadio da sua terra não propicia nenhum problema; agora, a bandeira de intolerância levantada por boa parte do povo gaúcho é perniciosa a todos. A quem pratica a agressão – que não percebe a mediocridade daquilo que defende – e, principalmente, aos afetados de forma direta pelo preconceito exposto. A seguir, quero fazer duas observações importantes.

Primeira: preconceito é algo inerente ao ser humano – todos têm preconceito contra alguma coisa. Pode ser contra negros, contra judeus, contra árabes ou mesmo contra gordos, contra “nerds”. Sim, esses dois últimos são preconceitos também, sabia? A diferença se encontra na forma como ele é manipulado: se tu não gostas de algo ou alguém e procura te afastar destes, mantendo o preconceito para ti mesmo, é algo absolutamente normal. Agora, urrar como um animal irracional para todo o mundo ouvir e se inteirar do seu preconceito é, no mínimo, questionável. Muitos não chegam a ser tão radicais – com idéias de separatismo, por exemplo -, mas, aos olhos dos demais, o efeito é quase sempre o mesmo do que o daqueles que acham belo espalhar a segregação.

Última: não estou negando que o pessoal dos outros estados não tenha sentimentos semelhantes aos dos gaúchos – tanto os positivos quanto os negativos -, porque seria muita insensatez minha. A questão é: quem alimenta os comentários e o preconceito que os gaúchos muitas vezes sofrem fora do RS? Me parece meio óbvio. São esses fanáticos… e os não-fanáticos também, pois, ao serem coniventes com as idéias – como eu já disse, aparentemente inocentes – da superioridade gaúcha, estão mostrando aos demais brasileiros que estes são inferiores, que estes não tem uma cultura “tão vasta e rica”, que não tem belezas naturais, mulheres belas, times campeões do mundo… e a coisa acaba generalizada: mesmo um gaúcho que discorda totalmente desses “ideais” – como eu, por exemplo – poderia sofrer preconceito fora do estado. Já estão alastrados no sangue essa desconfiança, essa intolerância, esse ódio, que decorre de ambas as partes – gaúchos e demais brasileiros.

Bem, acho que acabei me estendendo demais. Eu poderia falar sobre mais aspectos – o fato de eu achar que o “mito do gaúcho” é forjado, por exemplo – e prolongar o assunto por incontáveis posts, mas não vou fazer isso. Pelo menos, não agora. Meu desabafo, por assim dizer, está feito, e acho que dá suporte a algumas reflexões.

Até a próxima!