Monólito

domingo, 21 março, 2010

Um conto antigo, o qual não revisarei mais. O que está feito, está feito. Daqui em diante, buscar a evolução. Aguardem contos novos para daqui a um tempo. Estou me readaptando à faculdade, logo, pouco tempo para escrever.

MONÓLITO

Ela partiu quando menos se esperava, levada pelo vento.

Assim dizia a última frase lida por Estela antes de fechar o livro. Não teria, no momento, condições para ir adiante, tão cansada estava. O dia fora muito difícil, assim como os outros igualmente vinham sendo. Não sabia como ainda arranjava ânimo para levantar-se cedo e ir trabalhar. Talvez a necessidade de se sustentar…

(que dúvida)

Surpreendia-se com o fato de conseguir suportar tamanho sofrimento. Eles

(fizeram uma viagem só de ida)

estavam longe dela,

(para dentro da terra)

num lugar que ela não alcançaria tão cedo.

(é o que você pensa)

Seu filho e seu marido. Os dois únicos amores de sua vida.

(cof, cof)

Mortos. Pútridos. Enterrados. Culpa dela?

(sim)

Não, não precisava encarar a situação daquela maneira.

(não?)

Não tivera a intenção de prejudicá-los.

(mentira deslavada)

Mas fora melhor que partissem antes.

(jura?)

Sim!

(desgraçada)

Assim, parariam de sofrer.

(mais do que vocês os fez sofrer?)

Sim.

(cadela sem coração)

Queria calar a voz em sua cabeça, mas não via jeito de fazer isso. Tomada de uma angústia terrível,

(assassina)

desceu as escadas correndo, almejando ar fresco para arrancar aquele vazio de dentro

dela.

(junto com a vida deles)

Abriu a porta, observando o jardim florido, que ela vinha cultivando há anos. Aos pés da bela macieira, a grama já voltava a florescer no lugar onde fora cavado.

Eu fiz um favor.

(a você mesma)

Carlos estava tão abalado com a perda do emprego

(você gostou disso, não?)

e com o fato de estar velho demais para arranjar outro de mesmo nível.

(mas para trair estava novo?)

E Guilherme… o pequeno Gui… adoentado por conta daquele terrível vírus… partira o seu coração ter de fazer aquilo, mas

(será mesmo?)

não havia opções.

(não?)

Começou a caminhar pela calçada, perdendo de vista a casa, cuja porta ficara aberta.

Ela partiu…

Estela sentiu um impulso de correr, correr como nunca correra antes, e assim o fez. Continuou apressada, o suor descendo por sua testa, ignorando os olhares curiosos ao redor. A chuva veio e banhou seu corpo por completo, até as nuvens se recolherem e as gotas deixarem de tocá-la. Quando isso aconteceu, seu corpo transformou-se em pó, que foi imediatamente levado pelo vento.

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Vem comigo?

segunda-feira, 21 setembro, 2009

Já está anoitecendo, e o frio, aos poucos, começa a me incomodar. Fecho a janela, acendo a lareira e me sento em minha velha poltrona, já gasta por agüentar meu peso excessivo por tantos anos. Puxo um cigarro do bolso e procuro meu isqueiro. Sei que um homem da minha idade deveria se preocupar com a saúde, mas a verdade é que eu estou pouco me lixando.

Estendo a mão e levo à boca a caneca com o café amargo e frio que eu preparara uma hora antes, alternando os goles com as tragadas do fumo. Nunca levei jeito para a cozinha, nem para a maioria das outras coisas. “Que cara chato e deprimente”, você deve estar pensando. Com toda a razão. Antes, a minha vida até poderia ter algum sentido, mas não consigo trazer luz aos meus pensamentos, distorcidos por estarem a tanto tempo vagando nas sombras. Nem sei por qual motivo estou dizendo isto, pois acho que ninguém pode me ouvir agora. Exceto ele.

É, aquele garoto. Uma presença inconveniente me observando o tempo todo, sempre a rabiscar num caderno de capa azul. Já nem lembro mais o dia em que apareceu pela primeira vez, mas jamais consegui me livrar dele. Sempre que tento falar, é como se ele entendesse cada palavra dita, mas me ignorasse. Devo estar ficando louco. Ou talvez eu sempre tenha sido, não sei dizer.

Faz anos que não saio dessa cidadezinha para nada. Evito pôr os pés para fora de casa, e quando o faço, é apenas para ir ao mercado ou pagar as contas. Consigo viver razoavelmente com a minha aposentadoria – graças a Deus não preciso mais trabalhar. Minto, não é graças a Deus, é graças a mim, ao meu esforço. Deixei de acreditar numa força superior há anos, desde que uma febre horrível a levou. Ah, que saudades da minha querida Elisa. Agora não me resta mais nada… exceto o pivete, que insiste em olhar para mim e continuar a escrever calado, como se eu fosse a razão pela qual ele despeja aquelas palavras nas folhas brancas.

– Você está absolutamente certo.

Eu ouvi bem? Ele falou comigo?

– Sim.

– Quem é você? Que está fazendo aqui?

Não obtenho resposta, o que me irrita.

– Por que nunca respondeu às minhas perguntas?

– Calma… eu não preciso responder, pois no fundo o que você procura está dentro de si.

Dentro de mim? Que raio de papo é este? Será que a minha loucura já chegou ao extremo?

– Não… Já começamos de maneira errada! Primeiro de tudo: pare de dizer que é louco, porque não é coisa nenhuma!

– Ah, claro… Então, agora você vai me dizer que você é real e isto não é um pesadelo no qual eu estou preso há 10 anos?

– É necessário mesmo que eu diga?

Chega disso! Levanto e sigo em direção a ele. Observo-o por uns segundos, e, resolvido a despejar toda a minha frustração, acerto-lhe um tapa no rosto repleto de espinhas.

Qual não é a minha surpresa ao sentir a dor em minha própria face. Olho do garoto para o espelho perto dali: a marca do tapa é visível na minha bochecha, vermelha e penetrante. Que diabos está acontecendo? Se isto é mesmo um pesadelo, por que não consigo acordar? Caio aos pés do garoto, as lágrimas escorrendo de meus olhos e o peso da dor desmoronando em mim. Ele larga o caderno e me estuda com os olhos.

– Você não se reconhece mais?

O que ele quer dizer com isto? Espere aí. Eu… Eu sei! Não… Mas isto…

– … não é impossível. Você esteve olhando para o seu passado durante um tempo incontável e só agora foi perceber isso.

– Por que eu continuo vivo?

– Vivo, você? Não creio nisso. Acho que está apenas… Existindo, nada mais.

– Não há um jeito de mudar isto?

– Certamente. Você sabe como.

Eu suspiro por um momento, hesitante.

– Será que eu terei força suficiente?

– O que você acha?

– Não sei… Mas, espere… Nós… Somos a mesma pessoa, não?

– Afirmativo.

– Como…

– Você sabe de tudo melhor do que qualquer um. Não vamos mais perder tempo… Vem comigo?

Seguro com firmeza a mão que me é estendida. Juntos, seguimos em direção ao hall, muito silenciosamente. Abro a porta com cuidado, deixando o frio bater em meu rosto. Sorrio pela primeira vez em anos.